Pessoal,
Abaixo, alguns bastidores da cobertura da deposição de Fernando Lugo no Paraguai e percepções pessoais sobre a crise:
* A resignação dos paraguaios com o que aconteceu aqui é uma coisa que salta aos olhos. Um dia depois o impeachment de Lugo, a Praça das Armas estava vazia. Apenas funcionários da prefeitura limpavam o local. Pouquíssimos policiais. Nenhum manifestantes.
À exceção da manifestação de sexta-feira, durante a votação do impeachment, os focos de resistência limitam-se a uma rua, em frente à sede da TV Pública, criada por Lugo. Os ativistas são estudantes, que protestam de forma pacífica no local. Um número muito reduzido. Abaixo, as imagens, entre elas a sede da emissora de TV ocupada por policiais, no hall de entrada.
* A derrubada de um presidente com o uso da Constitituição tem um precedente recente: a destituição de Manuel Zelaya em Honduras, em 2009. Há várias diferenças com o caso paraguaio, mas, nos dois episódios, foram usadas brechas da lei para dar uma roupagem legal à saída do chefe de Estado. As deposições de Zelaya e de Lugo representam um ataque de setores mais conservadores nos tentáculos do presidente venezuelano, Hugo Chávez, na América Latina. A sensação aqui no Paraguai é de que há mudanças de presidentes, mas os políticos que estão no poder são os mesmos – haja vista Lino César Oviedo, acusado de golpe de Estado em 1996, contra Juan Carlos Wasmosy, preso, foragido, asilado no Brasil, regresso ao seu país e, agora, de volta ao centro da política paraguaia, apoiando a posse de Federico Franco, com olhos na eleição de 2013.
* Lugo nega, mas assessores confirmam que o presidente deposto não foi à cúpula do Mercosul, em Mendoza, porque temia não poder regressar ao Paraguai. Já Federico Franco admitiu que, por sua parte, também não era uma boa hora para se ausentar do país.
* É muito interessante circular pelo Departamento de Alto Paraná, onde fica Santa Rita e Ciudad del Este. É uma viagem cansativa de carro desde Assunção. Levei quase seis horas. Santa Rita tem 35 mil habitantes. É uma cidadezinha desenvolvida graças aos brasiguaios – gaúchos, catarinenses, paranaenses etc que migraram para o Paraguai em busca de oportunidades nos anos 1970 e 1980. Transformaram a região em um pólo, um dos principais produtores de soja, milho e trigo do país. No total, são 400 mil brasiguaios. Nas terras são produzidos 8 milhões de toneladas de soja por ano. Circular de carro pelas rodovias de Santa Rita é como andar pela Metade Norte do Rio Grande do Sul – campos verdejantes de soja ganham a paisagem (lamentei não ter chegado de dia lá, para fotografar os campos com uma luz suficiente para boas fotos).
Valeu o papo com os produtores, retratados em reportagem de ZH papel de terça-feira. Os brasiguaios estão felizes da vida com o impeachment de Lugo – que, em busca de fazer a reforma agrária, acirrou a tensão no campo. Os brasiguaios foram um dos grupos de pressão para a deposição de Lugo. Um dos produtores explicou as razões: Lugo insuflava os sem-terra (chamados aqui de carperos, por conta do uso de barracas, carpas, em espanhol) a invadir as terras de brasiguaios.
Lugo criou uma norma que determinava que, antes de lançar agrotóxicos sobre a lavoura, o produtor precisava noticiar, em uma rádio local, que iniciaria o processo. Se um vizinho se opusesse, o produtor teria de pedir uma autorização especial à Justiça. Isso demorava. Quando a autorização chegava, a plantação estava cheia de pragas.
Os produtores, em geral, têm entre três e cinco armas em casa. E nenhum deles nega que, se sua propriedade for invadida por sem-terra, eles as usarão. Por tudo isso é que os brasiguaios estão na base de apoio do governo de Federico Franco e querem que o Brasil reconheça a sua legitimidade.
* A título de curiosidade: após a entrevista com os produtores, fui comer uma pizza em um restaurante de Santa Rita. Qual foi a minha surpresa ao assistir ao vivo o Jornal Nacional e a programação da RBS TV Santa Catarina no Paraguai.
* Federico Franco merece um capítulo à parte. Expliquei no post anterior como foi obtida a entrevista de Fernando Lugo. Veja foto do interior da sede do Partido País Solidário.
Desde domingo, tenho tentado uma conversa particular com o presidente que assumiu o poder na sexta-feira. Algumas coisas não estão claras. E algumas das perguntas que eu pretendia lhe fazer:
- Ele era vice de Lugo, quando se deu o rompimento?
- Desde quando estava se preparando para assumir o poder?
- O que espera do Brasil?
- Também pretende fazer a reforma agrária, como?
- Se sabia que Lugo pensava em reforma agrária, por que aceitou uma aliança para ser eleito em 2008? Aliança de ocasião?
A lista de perguntas é longa. Pois bem, o celular pessoal do presidente, o qual tenho, não atende. Nas vezes que atendeu, com uma música (Federico Franco, presidente em abril de 2013), uma secretária disse que ele estava ocupado. Lino Oviedo tentou mediar, já que era um dos articuladores da deposição de Lugo. Não conseguiu.
Ontem, consegui uma fonte que garantiu que Franco daria uma entrevista às 6h da manhã de hoje, no Comando-en-jefe, a sede das forças armadas paraguaias. Lá estava eu às 5h30min esperando. Franco não apareceu, não deu entrevista, e os assessores batem cabeça. Um deles me disse que, como todos são novos, não se conhecem muito bem.
Franco formou um governo inteiramente novo desde sexta-feira, empossando ministros e técnicos. Hoje, por exemplo, trocou todo o comando das forças armadas, depois de ter prometido, no fim de semana, que manteria os antigos militares no poder. Vivi uma experiência assim em Honduras, quando da deposição de Zelaya e a posse de Roberto Micheletti. Zelaya, interessado em falar, era fácil entrevistar. Já Micheletti fugia das perguntas. Aqui, no Paraguai, a situação é semelhante. Lugo, que precisa de apoio e tenta o contragolpe, dá entrevistas. Franco evita - embora necessite do apoio da opinião pública brasileira e da comunidade internacional.
Assim termino mais uma cobertura.
Obrigado aos amigos leitores, do blog, de ZH.com e ZH no papel.
Até a próxima!
Abraços
Rodrigo
























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