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Posts de junho 2012

Um pouco do que vi na crise no Paraguai

27 de junho de 2012 1

Pessoal,

Abaixo, alguns bastidores da cobertura da deposição de Fernando Lugo no Paraguai e percepções pessoais sobre a crise:

* A resignação dos paraguaios com o que aconteceu aqui é uma coisa que salta aos olhos. Um dia depois o impeachment de Lugo, a Praça das Armas estava vazia. Apenas funcionários da prefeitura limpavam o local. Pouquíssimos policiais. Nenhum manifestantes.



A Praça das Armas, um dia depois do impeachment. Foto: Rodrigo Lopes



À exceção da manifestação de sexta-feira, durante a votação do impeachment, os focos de resistência limitam-se a uma rua, em frente à sede da TV Pública, criada por Lugo. Os ativistas são estudantes, que protestam de forma pacífica no local. Um número muito reduzido. Abaixo, as imagens, entre elas a sede da emissora de TV ocupada por policiais, no hall de entrada.



Policiais na frente da emissora estatal. Foto: Rodrigo Lopes


Rua da TV Pública, local de protestos contra Franco. Foto: Rodrigo Lopes





Fachada na frente da TV Pública, criada por Lugo. Foto: Rodrigo Lopes





Fachada próxima à sede da TV Pública. Foto: Rodrigo Lopes


Prédio próximo à sede da TV Pública. Foto: Rodrigo Lopes

* A derrubada de um presidente com o uso da Constitituição tem um precedente recente: a destituição de Manuel Zelaya em Honduras, em 2009. Há várias diferenças com o caso paraguaio, mas, nos dois episódios, foram usadas brechas da lei para dar uma roupagem legal à saída do chefe de Estado. As deposições de Zelaya e de Lugo representam um ataque de setores mais conservadores nos tentáculos do presidente venezuelano, Hugo Chávez, na América Latina. A sensação aqui no Paraguai é de que há mudanças de presidentes, mas os políticos que estão no poder são os mesmos – haja vista Lino César Oviedo, acusado de golpe de Estado em 1996, contra Juan Carlos Wasmosy, preso, foragido, asilado no Brasil, regresso ao seu país e, agora, de volta ao centro da política paraguaia, apoiando a posse de Federico Franco, com olhos na eleição de 2013.


Franco, no Palácio de Governo, ao receber o apoio do embaixador alemão. Foto: Rodrigo Lopes

* Lugo nega, mas assessores confirmam que o presidente deposto não foi à cúpula do Mercosul, em Mendoza, porque temia não poder regressar ao Paraguai. Já Federico Franco admitiu que, por sua parte, também não era uma boa hora para se ausentar do país.

Plácio de los López, sede do poder Executivo paraguaio. Foto: Rodrigo Lopes

* É muito interessante circular pelo Departamento de Alto Paraná, onde fica Santa Rita e Ciudad del Este. É uma viagem cansativa de carro desde Assunção. Levei quase seis horas. Santa Rita tem 35 mil habitantes. É uma cidadezinha desenvolvida graças aos brasiguaios – gaúchos, catarinenses, paranaenses etc que migraram para o Paraguai em busca de oportunidades nos anos 1970 e 1980. Transformaram a região em um pólo, um dos principais produtores de soja, milho e trigo do país. No total, são 400 mil brasiguaios. Nas terras são produzidos 8 milhões de toneladas de soja por ano. Circular de carro pelas rodovias de Santa Rita é como andar pela Metade Norte do Rio Grande do Sul – campos verdejantes de soja ganham a paisagem (lamentei não ter chegado de dia lá, para fotografar os campos com uma luz suficiente para boas fotos).

Valeu o papo com os produtores, retratados em reportagem de ZH papel de terça-feira. Os brasiguaios estão felizes da vida com o impeachment de Lugo – que, em busca de fazer a reforma agrária, acirrou a tensão no campo. Os brasiguaios foram um dos grupos de pressão para a deposição de Lugo. Um dos produtores explicou as razões: Lugo insuflava os sem-terra (chamados aqui de carperos, por conta do uso de barracas, carpas, em espanhol) a invadir as terras de brasiguaios.



Cidade de Santa Rita, onde 75% dos 35 mil habitantes são brasiguaios. Foto: Rodrigo Lopes


Lugo criou uma norma que determinava que, antes de lançar agrotóxicos sobre a lavoura, o produtor precisava noticiar, em uma rádio local, que iniciaria o processo. Se um vizinho se opusesse, o produtor teria de pedir uma autorização especial à Justiça. Isso demorava. Quando a autorização chegava, a plantação estava cheia de pragas.

Os produtores, em geral, têm entre três e cinco armas em casa. E nenhum deles nega que, se sua propriedade for invadida por sem-terra, eles as usarão. Por tudo isso é que os brasiguaios estão na base de apoio do governo de Federico Franco e querem que o Brasil reconheça a sua legitimidade.

* A título de curiosidade: após a entrevista com os produtores, fui comer uma pizza em um restaurante de Santa Rita. Qual foi a minha surpresa ao assistir ao vivo o Jornal Nacional e a programação da RBS TV Santa Catarina no Paraguai.

* Federico Franco merece um capítulo à parte. Expliquei no post anterior como foi obtida a entrevista de Fernando Lugo. Veja foto do interior da sede do Partido País Solidário.


Interior da sede do Partido País Solidário, QG da resistência de Lugo. Foto: Rodrigo Lopes

Desde domingo, tenho tentado uma conversa particular com o presidente que assumiu o poder na sexta-feira. Algumas coisas não estão claras. E algumas das perguntas que eu pretendia lhe fazer:

- Ele era vice de Lugo, quando se deu o rompimento?

- Desde quando estava se preparando para assumir o poder?

- O que espera do Brasil?

- Também pretende fazer a reforma agrária, como?

- Se sabia que Lugo pensava em reforma agrária, por que aceitou uma aliança para ser eleito em 2008? Aliança de ocasião?

A lista de perguntas é longa. Pois bem, o celular pessoal do presidente, o qual tenho, não atende. Nas vezes que atendeu, com uma música (Federico Franco, presidente em abril de 2013), uma secretária disse que ele estava ocupado. Lino Oviedo tentou mediar, já que era um dos articuladores da deposição de Lugo. Não conseguiu.

Ontem, consegui uma fonte que garantiu que Franco daria uma entrevista às 6h da manhã de hoje, no Comando-en-jefe, a sede das forças armadas paraguaias. Lá estava eu às 5h30min esperando. Franco não apareceu, não deu entrevista, e os assessores batem cabeça. Um deles me disse que, como todos são novos, não se conhecem muito bem.

Franco formou um governo inteiramente novo desde sexta-feira, empossando ministros e técnicos. Hoje, por exemplo, trocou todo o comando das forças armadas, depois de ter prometido, no fim de semana, que manteria os antigos militares no poder. Vivi uma experiência assim em Honduras, quando da deposição de Zelaya e a posse de Roberto Micheletti. Zelaya, interessado em falar, era fácil entrevistar. Já Micheletti fugia das perguntas. Aqui, no Paraguai, a situação é semelhante. Lugo, que precisa de apoio e tenta o contragolpe, dá entrevistas. Franco evita - embora necessite do apoio da opinião pública brasileira e da comunidade internacional.

Assim termino mais uma cobertura.

Obrigado aos amigos leitores, do blog, de ZH.com e ZH no papel.

Até a próxima!

Abraços

Rodrigo

Os bastidores da entrevista com Fernando Lugo

27 de junho de 2012 1

Nas últimas horas, surgiram questionamentos em redes sociais sobre a semelhança da entrevista de Fernando Lugo a Zero Hora com a que foi publicada no site Opera Mundi. Leia abaixo, como foi feita:



Com Lugo, no local da entrevista, na sede do Partido País Solidário, em Assunção. Foto: Arquivo Pessoal


Ontem pela manhã, liguei para um assessor de Fernando Lugo pedindo uma entrevista com o presidente deposto. Ele disse que Lugo receberia a imprensa brasileira somente nesta quarta-feira. Como estava com viagem marcada de volta ao Brasil para a madrugada de terça para quarta, pedi que nos atendesse antes.

A entrevista foi marcada para as 16h. Na sede do Partido País Solidário, havia grupos de vários veículos de comunicação latino-americanos. A estratégia de Lugo desde ontem é dar entrevistas para cada jornal que se inscrevera, no máximo seis minutos para cada um. Eu e a repórter Luciana Taddeo, do site Opera Mundi, decidimos entrar juntos para a entrevista, realizada às 17h40min, em uma sala envidraçada, onde Lugo estava recebendo os jornalistas. O recinto não tinha mais do que dois metros quadrados. Conseguimos alongar a conversa por nove minutos.

Na saída, outros jornalistas de meios de comunicação locais continuaram sendo atendidos. E Lugo, pacientemente, recebeu-os um a um até a noite, segundo um assessor.

A entrevista de ZH foi ao ar no site às 19h46min de terça-feira (leia aqui) e também foi publicada na versão papel na edição de quarta.

O político se mostrou preparado e com respostas prontas. Estava claro que passara o dia respondendo questões semelhantes. Um dos diferenciais da entrevista de ZH foi pressionar Lugo a falar sobre um assunto indigesto para o seu governo: os brasiguaios, um dos grupos de pressão que atuaram pela sua deposição.


Brasiguaios são recebidos por Franco em Assunção e prometem mediar apoio de Dilma

26 de junho de 2012 4

Liderado por Francisco Mesomo, gaúcho de Machadinho e dirigente da União Curupaiti (união de cooperativas), um grupo de brasiguaios foi recebido hoje pelo presidente Federico Franco, no Palácio Presidencial. Produtores rurais, que vivem há mais de 30 anos no sul do país, vieram entregar oficialmente o seu apoio ao novo presidente e a promessa de mediar a retomada das relações entre o Paraguai e o Brasil.

- Aqui não houve golpe de Estado. Lugo foi deposto por mau desempenho de suas funções. É isso que queremos explicar à presidente Dilma - afirmou a ZH Mesomo, logo após o encontro.

O produtor também esclareceu que o grupo, integrado por 15 brasiguaios, pediu segurança no campo. Esta é uma das principais preocupações dos brasiguaios, que acusam o ex-presidente Lugo de ter insuflado os sem-terra contra eles, ampliando a xenofobia e a ocupação de terras.

- O presidente Franco nos garantiu respeito à propriedade privada. Era isso que queremos ouvir - acrescentou Mesomo.

O Paraguai produz 8 milhões de toneladas de soja - a maior parte produzida pelos brasiguaios e comprada pelo Brasil. Um agricultor de Santa Rita, perto de Ciudad del Este, que prefere não se identificar, cultiva uma área de 1,2 mil toneladas.

- Nosso maior medo é o EPP - disse a ZH.

O Exército do Povo Paraguaio (EPP) é uma milícia que tem levado terror ao campo e com relações com as Farc colombianas. Os produtores admitem que, para se proteger, guardam armas em casa.

- Cada um tem cinco a seis armas. E, se for pra garantir nossa propriedade, duvido que um produtor não saia para fora e as use - disse um deles, sob anonimato.

Desde que Lugo assumiu, as tensões no campo também levaram muitos produtores a contratar segurança privada para proteger suas terras.

Lugo instaura governo de resistência e manda recado a brasiguaios: "Seus interesses são apenas um ponto na relação entre Brasil e Paraguai"

25 de junho de 2012 4




Presidente deposto Lugo em coletiva ao instaurar governo paralelo. Foto: Rodrigo Lopes



Reunido desde as 6h da manhã desta segunda-feira, o presidente deposto Fernando Lugo instaurou um governo paralelo no Paraguai, em claro desafio ao presidente Federico Franco. Onze ministros participaram da reunião, na sede do Partido País Solidário, no centro de Assunção. Após o encontro, ele falou aos jornalistas. Referiu-se a si mesmo como “presidente” e rejeitou a autoridade de Franco. Classificou a instauração do governo de resistência como um “gabinete nas sombras” e confirmou que irá à Cúpula do Mercosul, em Mendoza, esta semana, para explicar a quebra da ordem institucional no país.

Ao ser questinado sobre a mudança de postura – na sexta-feira, ele aceitou a decisão do Congresso de afastá-lo do poder e, desde ontem, tem adotado um tom de resistência, Lugo afirmou que acatou o impeachment para evitar um massacre nas ruas:

- Fomos submetidos a um juízo político e não vamos dar esse prazer aos promotores da morte, que provocaram morte de agricultores e policiais – disse, ao lembrar que, em frente ao Congresso, na sexta-feira, havia 5 mil pessoas que poderiam entrar em confronto com a polícia.

Ao ser perguntado sobre a possibilidade de atuar como mediador para restabelecer o apoio internacional ao Paraguai, Lugo afirmou que Franco não tem autoridade para convocá-lo:

- Federico Lugo, não digo presidente Franco..., não tem autoridade política para convocar o presidente Lugo para ser mediador nos conflitos internacionais.

A primeira pergunta da entrevista coletiva foi de Zero Hora. Lugo foi questionado sobre os brasiguaios, produtores rurais de dupla-cidadania que vivem na fronteira com o Brasil e que já manifestaram apoio a Franco.

- Tivemos um bom relacionamento com o Brasil justamente sobre seus interesses aqui no Paraguai. Eles têm todo o direito de pedir ao governo da companheira Dilma que reconheça esse governo. Mas creio que o governo do Brasil vai avaliar que não é o único interesse que tem o país em seu relacionamento com o Paraguai. Em um histórico encontro com o presidente Lula, um dos pontos que tínhamos era salvarguardar os interesses dos brasiguaios. É legítimo o pedido de cidadãos brasileiros, mas o acordo que fizemos com o presidente Lula tinha 30 pontos. Um dos pontos é o deles.


Presidente deposto Lugo, ao instaurar governo paralelo. Foto: Rodrigo Lopes





Lugo organiza o contragolpe em reunião nesta segunda-feira

24 de junho de 2012 1

Leia reportagem aqui

Lugo fala

24 de junho de 2012 0

No link para a entrevista de Fernando Lugo, na frente de sua casa, nos arredores de Assunção.

Leia aqui.

Lugo desafia governo paraguaio e deve participar da Cúpula do Mercosul

24 de junho de 2012 1

Entrevistei Fernando Lugo no início da tarde deste domingo em frente a sua casa, em Assunção.

Aos leitores do blog, antecipo que Lugo vai desafiar o governo paraguaio e participará da Cúpula do Mercosul, nesta semana, em Mendoza.

Em seguida, a matéria completa em zerohora.com.

Venezuela segue Argentina e deve retirar embaixador do Paraguai neste domingo

24 de junho de 2012 2

A Venezuela deve retirar neste domingo seu embaixador do Paraguai em protesto contra o impeachment de Fernando Lugo. A medida é a mesma tomada pela Argentina e deve agravar a situação do país no Mercosul.

Apesar de a decisão brasileira de chamar o embaixador para uma conversa ter sido menos radical do que a da Argentina, o novo chanceler paraguaio, José Félix Fernández Estigarribia, declarou que sua prioridade na Cúpula do Mercosul será o entendimento entre Paraguai e Brasil. O evento acontece nos dias 28 e 29, em Mendoza.

Embaixador brasileiro no Paraguai embarca para Brasília

24 de junho de 2012 7

Chamado de volta ao Brasil pelo governo, o embaixador Eduardo dos Santos embarcou na manhã deste domingo para Brasília, onde amanhã se reúne com a presidente Dima Rousseff. Em um rápido contato telefônico com ZH, Dos Santos disse estar acompanhando a situação pela imprensa paraguaia.

- Não quero fazer avaliações precipitadas. Fui chamado pelo governo brasileiro para prestar esclarecimentos. E vou seguir a ordem. O chanceler Patriota já explicou a nossa posição. E ontem divulgamos uma nota na qual expressamos a posição do governo brasileiro - afirmou.

Na nota, o Brasil informou:

" O governo brasileiro condena o rito sumário de destituição do mandatário do Paraguai, decidido em 22 de junho último, em que não foi adequadamente assegurado o amplo direito de defesa. (...) Medidas a serem aplicadas em decorrência da ruptura da ordem democrática no Paraguai estão sendo avaliadas com os parceiros do Mercosul e da Unasul".

De volta ao Brasil após chefiar uma missão de chanceleres da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) ao Paraguai, Patriota considerou o impeachment de Lugo um retrocesso e não exclui a possibilidade de o país sofrer sanções do grupo sul-americano.

A situação política ficou um pouco mais crítica nas últimas horas depois de uma série de medidas diplomáticas dos vizinhos. A mais dura foi da Argentina: a presidente Cristina Kirchner retirou seu embaixador Rafael Edgardo Roma de Assunção - no jargão diplomático, é um passo antes do rompimento das relações. A Casa Rosada justificou a saída do diplomata devido "aos graves acontecimentos institucionais e a ruptura da ordem democrática".

O ato argentino é mais incisivo do que o do Brasil. Chamar seu embaixador para prestar esclarecimentos, como fez o Itamaraty, é uma medida mais suave, mas que também manda um recado forte ao novo governo paraguaio.



Bastidores do novo governo paraguaio

23 de junho de 2012 0


Palácio de Governo do Paraguai. Foto: Rodrigo Lopes



O Palácio de Governo, no centro de Assunção, virou o principal cenário deste segundo dia de Federico Franco no poder. A segurança reforçada nos arredores, carros blindados no jardim e muita movimentação de funcionários e ministros tornaram o local o centro nervoso da cobertura da crise. Apesar de uma das fotos mostrar a movimentação intensa no primeiro andar, é no térreo que Franco está despachando neste primeiro dia de governo. O primeiro reconhecimento internacional veio do Vaticano, com a chegada do núncio apostólico Eliseo Ariotti pela manhã. No início da tarde, chegou o embaixador alemão Claude Robert Ellner e do ministro de Cooperação Econômica Dierk Miebel.

O corredor até a sala de reuniões ficou lotado de jornalistas e funcionários. E virou a área de trabalho da imprensa que cobre a crise.


Movimentação de funcionários no segundo andar do palácio. Foto: Rodrigo Lopes

Guarda presidencial. Foto: Rodrigo Lopes

Corre-corre da imprensa na chegada de políticos. Foto: Rodrigo Lopes

O corredor que conduz ao gabinete presidencial. Foto: Rodrigo Lopes

A chegada da comitiva alemã. Foto: Rodrigo Lopes





"Aqui, não há golpe nem quebra da ordem institucional", diz Franco

23 de junho de 2012 0


Franco deu a primeira entrevista neste sábado como novo presidente. Foto: Rodrigo Lopes


Na primeira entrevista coletiva após assumir como presidente, Federico Franco reconheceu estar preocupado com a eventual falta de respaldo internacional. Mas reafirmou que não "há golpe de Estado nem quebra institucional".

Sobre as ameaças da Unasul de não reconhecer seu governo, ele disse que seu chanceler, José Félix Fernández, irá tratar pessoalmente de conversar com os vizinhos para esclarecer a situação.

- O chanceler vai fazer contato com os países para tratar de demonstrar não com palavras, mas com fatos, nossa vocação democrática a favor do Estado e do direito à liberdade - afirmou.

Perguntado sobre Itaipu, hidrelétrica administrada por Brasil e Paraguai, ele disse que respeitará todos os contratos. Franco também prometeu tratamento preferencial aos brasiguaios - cerca de 400 mil, que vivem especialmente na área de fronteira.

- Vamos inclusive agilizar os trâmites de naturalização dos brasileiros que aqui estão - disse.

Os brasiguaios, muitos deles gaúchos, chegaram ao Paraguai na época da ditadura Stroessner. Hoje, são responsáveis por 90% da produção e exportação de soja do país. Eles estão no centro da tensão no campo porque a titularidade de suas terras é questionada por agricultores sem-terra.

Antes da entrevista, Franco recebeu no Palácio Presidencial o presidente da União Industrial Paraguaia, Eduardo Felippo, em uma demonstração de apoio do setor industrial. Felippo foi irônico ao ser questionado sobre as ameaças de o Mercosul expulsar o Paraguai do bloco econômico.

- Mercosul? Que Mercosul estão falando? - questionou.

Em seguida, explicou que o intercâmbio com a Argentina está parado. E que um rompimento de relações econômicas não faria diferença neste momento.

Franco inicia maratona para tentar convencer vizinhos

23 de junho de 2012 4

Diante das críticas internacionais sobre o processo quase instantâneo de impeachment de Fernando Lugo, o novo presidente do Paraguai começa neste sábado sua maratona para tentar convencer os vizinhos de que a mudança de regime ocorreu dentro da ordem democrática.

Ontem, em seu discurso de posse, ele pediu que os países entendam a situação no país e disse que "fará o maior dos esforços para que isso se normalize".

As críticas partiram primeiro do presidente do Equador, Rafael Correa, que anunciou que seu país não reconhece o novo governo do Paraguai. Logo vieram a argentina Cristina Kirchner e o boliviano Evo Morales. O Brasil, que liderou a tentativa de mediar uma saída para a crise, sem sucesso, adotou um tom cauteloso. Mas deixou claro que há possibilidade de o país sofrer sanções, como a expulsão do Paraguai de órgãos como a Unasul e o Mercosul.

O assunto deve ser tema da reunião marcada para os dias 28 e 29, em Mendoza, na Argentina. O protocolo de criação da Unasul, assinado pelo Paraguai e pelos outros 11 países da América do Sul, prevê o desligamento do signatário em caso de ruptura democrática.

Apoio do exército garantiu posse do novo presidente

23 de junho de 2012 3

Instituição mais poderosa do Paraguai, o exército foi um dos primeiros a aceitar a decisão do Senado de destituir o presidente Fernando Lugo. Foi por meio de um comunicado, logo após a votação, no momento em que a capital, Assunção, explodia em rumores.

Havia informações de que Lugo, ainda comandante-em-chefe da nação, havia ordenado que tanques saíssem às ruas em sua defesa. Houve inclusive boatos de que blindados estariam a postos em quarteis de Cerrito. Tudo isso gerou incertezas entre a população, que não sabia qual o apoio que Lugo ainda tinha nas forças armadas.

O comunicado, de apoio à decisão do Congresso, veio para acalmar. No texto, o exército pedia aos cidadãos que mantivessem a calma. Também destacava que a força reconheceria quem fosse investido como presidente.

Apesar do discurso pacífico, haverá mudanças nos próximos dias. O novo presidente, Federico Franco, deve ordenar a troca dos principais comandantes. Como isso irá impactar na caserna, ainda é uma incógnita.

Paraguai vai dormir resignado

23 de junho de 2012 1



Praça na frente do Congresso Nacional do Paraguai, em Assunção. Foto: Rodrigo Lopes



Assunção foi dormir em meio a incertezas sobre o futuro político do país. Mas a Praça de Armas, em frente ao Congresso Nacional, palco do julgamento histórico que tirou o presidente Fernando Lugo do poder, está vazia. Os manifestantes, cerca de 5 mil, segundo a polícia, foram dispersados pelas forças armadas. Nesta madrugada, é possível caminhar por entre canteiros e ao lado do obelisco central. Um policial aconselha:

- É melhor voltar amanhã, para sua segurança.

Mas nada parece ameaçar. Há rumores de que os apoiadores de Lugo recuaram para se reorganizar. Mas parece pouco provável. O número de policiais neste momento na praça e na frente do Congresso não passa de 50. As estruturas metálicas, que, durante a tarde, formavam um cordão de isolamento em toda a área do Congresso, agora, estão recolhidas. Só é mantida a barreira entre a praça e o prédio do parlamento.

Um grupo de quatro estudantes - dos cursos de Filosofia e História - resiste ao frio de 9C. Os jovens acamparam na frente dos policiais, afixaram duas bandeiras do Paraguai e prometem permanecer ali até manhã deste sábado. Foram os únicos a ficar.

- Os paraguaios são estúpidos. Aceitam tudo - indignava-se um deles, chamado Héctor.

De tempos em tempos, um deles aumentava a tom de voz, desafiava os policiais a cerca de 100 metros de distância.

- Vocês sabem a história do Paraguai? Duvido que algum de vocês saiba - gritava.

A voz ecoava no silêncio só quebrado pelo latido dos cães.

A resignação dos paraguaios com o que  aconteceu aqui - o processo de impeachment de um presidente em 31 horas - surpreende. Principalmente porque muitos consideram que o que houve foi um golpe disfarçado de julgamento político. E, mesmo assim, não saíram para as ruas. Não há tanques, barreiras e blindados. Nenhum tiro foi disparado.

Para alguns, é melhor assim, que não haja protestos:

- Não queremos um novo março paraguaio - diz um homem.

"Março paraguaio"? Demoro a entender.

- O senhor sabe o que houve em março de 1999?

Os protestos, a morte de jovens, o assassinato de Argaña, recordo. O Paraguai foi jogado ao caos institucional em um processo muito rápido: uma tentativa de golpe liderada pelo ex-general Lino César Oviedo e seu afilhado político Raúl Cubas Grau. Desta vez, os paraguaios não querem ver repetidas aquelas cenas. Talvez por isso, estejam anestesiados.





Faixa contra o impeachment é um dos poucos sinais de protesto. Foto: Rodrigo Lopes






Não há feridos graves

22 de junho de 2012 0

Até o momento, não há pessoas feridas gravemente. O momento de maior tensão ocorreu logo após o Senado anunciar a decisão de retirar Lugo do poder. Os militantes tentaram romper o cerco policial. Membros da Polícia Nacional reagiram com bombas de gás lacrimogêneo. Há feridos, mas sem gravidade.

A situação na Praca das Armas, em frente ao Congresso, é menos tensa agora.

A Polícia Nacional conta com 23 pelotões antimotins, 36 grupamentos da polícia montada e cerca de mil homens e um pelotão especial de Ordem e Segurança, além de dois carros com canhões de jatos de água para dispersão de distúrbios.