DA MINHA COLUNA DE ZH DESTE DOMINGO
Damasco, a capital da guerra civil síria, é complexa, poluída, de trânsito caótico, mas guarda uma mística impressionante que o gris da ditadura não consegue descolorir. Habitada há 8 mil anos, é uma das metrópoles mais antigas do mundo. Tem um dos mercados árabes mais famosos do Oriente Médio e uma rua, chamada Rua Direita, denominada pelos romanos Via Recta, que seria a mais velha do planeta.
Menos cosmopolita do que Beirute, a capital síria é o destino bíblico do apóstolo Saulo (que, depois de convertido, virou Paulo). Cego, ele deixou Jerusalém e na mística estrada de Damasco teve o seu momento de iluminação, quando se converteu ao cristianismo, virando um dos maiores pregadores da fé de Jesus Cristo.
Outra lenda é islâmica: Maomé, voltando de Meca, avistou Damasco de cima das montanhas. Recusou-se a entrar na cidade. Do alto, teria dito: só entraria no paraíso uma única vez, quando morresse.
Histórias como essas estão por todo o Oriente Médio – Jerusalém, Amã, Beirute têm as suas. A diferença é que, em Damasco, lendas e histórias de iluminação confundem-se com a nuvem de uma das mais crueis ditaduras do século 21. O partido Baath está no poder desde 1963 e o clã dos Assad, se não chega a obscurecer a história milenar de Damasco, afasta turistas, historiadores, arqueólogos.
Estive em Damasco duas vezes em 2006, no caminho da cobertura da guerra no Líbano. Foram poucos momentos. Lembro da imigração difícil para ocidentais, uma sociedade extremamente militarizada – com soldados nas ruas, nos hotéis, nos cafés - retratos onipresentes de Bashar al-Assad e de um Sheraton que, da excelente cadeia internacional, guarda apenas a imponência do prédio.
No mês passado, Damasco sentiu, pela primeira vez, os efeitos da guerra atual. Houve o atentado ao superprotegido complexo da Defesa, o martírio entrou no conflito e no círculo próximo do presidente, altas patentes do exército fugiram para a Turquia. Mas Bashar al-Assad vai permanecer no poder, enquanto controlar Damasco. Homs é pequena demais para abalar as estruturas do regime. Aleppo seria como a Benghazi líbia, um enclave de onde poderia ser organizada tomada do país, mas a revolta foi sufocada com caças bombardeando a população civil.
A ditadura só tombará se Damasco cair. Hoje, a Estrada de Damasco está recheada de mil perigos e não oferece a Rendenção.


Excelente Trabalho!!! Parabéns.