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Entre Che, Camilo, João Paulo e Francisco

20 de setembro de 2015 0

O primeiro destino quando desembarquei em Havana há nove meses para cobrir a reconciliação entre EUA e Cuba, como enviado especial de Zero Hora, foi a Praça da Revolução. Ali, sob o olhar atento de Che Guevara e de Camilo Cienfuegos esculturados em dois prédios públicos, o mundo viu a Revolução Cubana se erigir. Era naquela imensa praça, um largo pelo menos 10 vezes maior do que o da Epatur, em Porto Alegre, que Fidel Castro consolidou seu regime. Naquela tarde, em que, cansado do voo entre Porto Alegre-São Paulo-Cidade do Panamá-Havana me empenhava em caminhar para conversar com cidadãos cubanos ainda em transe com a notícia do acordo com os EUA, percebi ali a força de uma ideologia. Praticamente vazia, com não mais do que 10 turistas, havia uma energia capaz de fazer cair sobre nossos ombros 50 anos de século 20. Foi nesse local que Fidel Castro fez seus mais fortes discursos, alguns de cinco, outros de oito horas. Na tarde em que caminhei pela Praça da Revolução não havia filtros, quase nenhum policial ou turista. Só Che e Cienfuegos.

A Praça da Revolução foi palco de momentos históricos – o Dia do Trabalhador sempre foi uma data histórica na ilha. O papa Bento XVI também discursou ali, em 2012, pouco antes de renunciar. Houve emoção.

Sempre há emoção para católicos por tantos anos proibidos de exercer sua fé na ilha. Mas houve, na história do mundo, dois grandes episódios a marcar aquele largo chamado Praça da Revolução. O primeiro, em 1998, quando João Paulo II pisou ali para pedir a abertura de Cuba ao mundo. A Revolução de 1959, por princípio comunista, atéia, perseguiu o catolicismo. Freiras, padres e fiéis foram presos, torturados ou se exilaram. Alguns resistiram – e viram, como eu vi, três dias após o acordo com os EUA, uma missa lotada na catedral de Havana Vieja. Tendo a Igreja como grande artífice da reconciliação. Em 1998, a imagem de um papa conservador a dialogar com Fidel Castro, no íntimo, soava como heresia para o outro lado.

O segundo grande ato foi hoje, domingo, 20 de setembro de 2015, com o papa Francisco, o primeiro Pontífice latino-americano a pisar no cimento da Praça da Revolução como Papa. O Vaticano foi o grande garantidor do acordo entre Barack Obama e Raúl Castro. O fiador. Desde às 3h da manhã, fiéis se acotovelavam para ver o Papa. Desde às 3h da manhã uma imagem de Jesus Cristo rivalizara, ombro a ombro, com Che Guevara e Camilo. Desde às 3h da manhã se configurava um domingo histórico.

 

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