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A questão dos túneis

31 de julho de 2014 0

Texto publicado em Zero Hora desta quinta-feira.

Vietnã, anos 1960. Quando as bombas de Napalm já haviam feito os estragos do dia, depois que os helicópteros regressavam do front e o sol se punha no Oriente, algo misterioso ocorria nas bases americanas. Silenciosamente, um soldado sumia. Outro era degolado. Um terceiro aparecia asfixiado. Só após muito tempo os americanos descobriram a origem daquilo tudo: pequenos buracos de não mais do que 30 centímetros de largura sob suas barracas de campanha. Mandavam cães inspecionar. Os cachorros voltavam envenenados, quando não eram deixados em sacos pretos, dilacerados.

Nos 10 anos de guerra no Sudeste Asiático, o Vietcongue construiu uma rede subterrânea de 120 quilômetros de extensão. Era sua arma secreta contra os soldados do Sul apoiados pelos EUA. Ainda hoje é possível visitar o que sobrou desse labirinto em Cu-Chi, a uma hora de carro de Ho-Chi-Minh, a antiga Saigon. Os túneis clandestinos que ligam a Faixa de Gaza a Israel têm objetivo semelhante.

Na guerra assimétrica do Hamas contra os israelenses o impacto psicológico do labirinto subterrâneo é enorme. Nas tropas e nas populações vizinhas. Além de caminho para homens-bomba rumo a Tel-Aviv ou Jerusalém, os túneis são rota para sequestro de israelenses. No dia 17 de julho, 13 militantes conseguiram se infiltrar em Israel, emergindo a 100 metros do Kibutz Sufa. Houve outras cinco tentativas. Por isso, o objetivo principal da campanha israelense na Faixa de Gaza é destruir essas passagens. Espantados, os militares encontraram até agora 31 túneis desde 17 de julho.

Provavelmente, são muito mais. Cada um, tem várias artérias, formando uma cidade debaixo da terra. Um deles, escavado a 18 metros de profundidade, tinha um quilômetro e consumiu 500 toneladas de concreto. Quase todas as entradas, ficam dentro de casas ou prédios _ o que facilita a retirada de terra, sem que os radares israelenses detectem. O mais surpreendente da questão dos túneis é que, ao mesmo tempo em que levam extremistas, são um dos únicos meios de subsistência dos palestinos de Gaza. Por eles, passam armas que matam em Israel. Mas, com o bloqueio israelense e o fechamento da fronteira com o Egito, é por eles que também passam comida e remédios para a população civil.

Portas abertas

27 de janeiro de 2014 0

Ainda que não tenha sido tratado com a relevância que merecia, o 20 de janeiro de 2014 guarda, em simbolismo, um ponto de inflexão histórica. Foi o dia em que a Organização Internacional de Energia Atômica (OIEA) confirmou o desligamento das centrífugas nucleares nas unidades de Natanz e Fordo, no Irã. Na prática, significou o retorno de um dos mais importantes países do Oriente Médio ao cenário internacional. O fim do isolamento. E a abertura das portas ao mundo.

Por 35 anos, o Irã viveu à margem da lei internacional, submetido, nos anos mais recentes e obscuros, a sucessivos embargos que serviram mais para fazer sofrer a população e menos para enfraquecer o regime. De cara, ao abrir mão do sonho dos conservadores de brincar de potência nuclear, o Irã foi convidado a participar da conferência de paz sobre a Síria, em Montreaux (e desconvidado depois, por pressão americana), e do fórum de Davos, dois dos principais cartões de visita internacionais da atualidade.

O informe positivo da OIEA, de imediato, fez serem reduzidas as sanções que estrangulam a economia iraniana. E, de quebra, levou os EUA a descongelarem US$ 4,2 bilhões bloqueados no Exterior – que, como primeiríssima necessidade, devem ir para a indústria aérea. Não são raros os acidentes com aviões iranianos.

O presidente Hassan Rouhani tem feito um esforço hercúleo para apagar as lembranças de Mahmoud Ahmadinejad, o homem que, em oito anos, colocou o mundo de costas para seu país com bravatas racistas e xenófobas. Estrela do encontro de Davos, Rouhani fez render sua estadia nos Alpes Suíços. Nos intervalos da conferência principal, teve reuniões fechadas com executivos de empresas petrolíferas aos quais garantiu, até setembro, um novo modelo de contrato de exploração de petróleo. As sanções frearam a modernização da indústria petrolífera iraniana, já afetada desde a Revolução de 1979.

Dentro desse novo contexto envolvendo o país persa, desconvidar o Irã da conferência de Montreux foi um erro – e a atitude mostra o desequilíbrio de forças na ONU pró-EUA e a incapacidade da entidade de servir como árbitro internacional. Aliás, o direito de desenvolver ou não armas nucleares é regido pelos vencedores da II Guerra Mundial, em especial os EUA. O mundo é mais seguro com a limitação do arsenal atômico – ainda que países como Paquistão, Índia e Israel disponham de arsenais atômicos à margem da lei internacional. Mas essa é outra história.

O ano da virada

05 de janeiro de 2014 0

Passado o primeiro ano da Era Obama 2 na Casa Branca, o presidente americano enfrenta um 2014 decisivo para deixar uma marca, aquela pela qual será lembrado e cobrado pela História. Com a reputação chamuscada dentro e fora dos Estados Unidos devido ao escândalo de espionagem, o democrata terá, em novembro, a chance de ver criadas as condições para uma mudança de peso no Congresso, que tantas dores de cabeça causaram ao presidente até aqui. Nas eleições, estarão em disputa todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, atualmente com maioria republicana, e 35 dos cem assentos no Senado, onde os democratas são maioria. O cenário não é otimista: uma virada democrata na Câmara é difícil, e, no Senado, pesquisas mostram que os republicanos avançam, podendo assumir o controle da Casa. A oposição no comando do Congresso amarraria ainda mais as mãos de Obama no ano legislativo, entre janeiro de 2015 e janeiro de 2017, justamente o trecho final do governo.

Em 2014, os movimentos pró-imigração devem cobrar do presidente a conta pela não aprovação de medidas para facilitar a vida de imigrantes – uma de suas principais bandeiras em 2008. Os republicanos veem na legalização de 11 milhões de pessoas uma “anistia para ilegais”.

No campo da saúde, a reforma do sistema, chamada de Obamacare, entrou em vigor no dia 1º do ano, meio aos trancos e barrancos. A lei, espinha dorsal da estratégia de governo – e que quase levou Obama a perder as eleições passadas – proíbe as seguradoras de variar os valores dos planos com base no histórico clínico ou no sexo, a se recusar a assegurar um paciente muito caro ou a limitar a quantidade de reembolsos anuais. Por outro lado, exige que qualquer pessoa, americana ou estrangeira, adquira um plano de saúde. A ideia é simples: trazer mais pacientes para o sistema de seguros a fim de baixar os preços. A oposição republicana nunca engoliu essa medida – e a indisposição de muitos eleitores pode desequilibrar a balança na eleição de novembro.

A tônica do ano será revelada no anual Discurso sobre o Estado da União, marcado para 28 de fevereiro, após as férias do presidente. Obama deverá surfar no que, até agora, é o seu maior legado: a economia. Ele assumiu em janeiro de 2009 no auge da crise e vê o país em melhor situação. O desemprego, que era de 10% ao fim do governo George W. Bush, caiu para 7%. Os números não representam um oceano azul: o crescimento projetado para 2014 é de 2,6% e a inflação ainda está bastante longe da meta, mas há uma sensível retomada do varejo e do mercado imobiliário – os principais atingidos pela crise de 2008.

E a pequena, mas melhor notícia para Obama no ano que começa: a possibilidade de uma nova paralisação do governo, como a que ocorreu em outubro, está praticamente descartada. Democratas e republicanos saíram queimados da crise perante a opinião pública. E nenhum candidato quer ver o país paralisado, a Estátua da Liberdade fechada e os parques vazios em pleno ano eleitoral.

A Iugoslávia está morta. Viva a Iugoslávia

29 de dezembro de 2013 0

Quem esteve em Berlim nos últimos 25 anos certamente recorda a cena: nos arredores de Checkpoint Charlie ou nos arredores de Potsdamer Platz, dezenas de lojas ou ambulantes vendendo todo tipo de suvenir da antiga Alemanha Oriental. São máscaras contra armas químicas, réplicas de passaportes com o carimbo da República Democrática Alemã (RDA), pedaços do Muro e adesivos do hoje ícone pop bonequinho do semáforo do lado leste da antiga cidade dividida. Na Alemanha, esse fenômeno ficou conhecido como Ostalgia (nostalgia do Ost, Leste). No fundo, uma busca desenfreada por referências que se perderam da noite para o dia. Hoje, passados 25 anos da queda, pouco ficou desse sentimento – quase tudo virou business.

Se no caso alemão a nostalgia alimenta o turismo, mais à direita do mapa-múndi foi a crise econômica que despertou esse sentimento. Na capital da Eslovênia, Liubliana, uma exposição que vai até o dia 28 de fevereiro resgata o suposto lado light do ex-ditador Josip Broz Tito, o homem que, da II Guerra Mundial até sua morte, em 1980, manteve unida a fórceps a Iugoslávia.

Não é de hoje a chamada Iugosnostalgia. Uma das tantas biografias do marechal, Tito e seus Camaradas, escrita por Joze Pirjevec, mantém-se há dois anos entre as obras mais lidas do país. Para os nostálgicos, é inevitável lembrar o bom padrão de vida e a liberdade para cruzar as fronteiras ocidentais, algo impensável para os demais cidadãos do bloco soviético – Tito rompeu com Stalin em 1948 e manteve o país fora da esfera de influência de Moscou. Também dizem que bastou sua morte para que o país se despedaçasse em uma série de guerras nos anos 1990. Ignoram talvez o fato de a Iugoslávia ter sido um caldeirão em ebulição, com diferentes etnias amarradas pela ditadura e atreladas a um regime personalista e totalitário.

Se hoje é a crise que atrai os nostálgicos, o culto a Tito vai acabar também virando business. Em Belgrado, sua imagem é usada até, quem diria, para vender cerveja.

O que penso para 2014...

27 de dezembro de 2013 0

 É tempo de listas, balanços e retrospectivas. Veja para onde caminha a humanidade no ano que se aproxima: 

 

Mais poderoso

O presidente russo cumpriu a velha cartilha populista: usou um caso específico, o caso do Greenpeace, para dar uma lição a quem se atrever a protestar – seja contra o seu regime, veja as meninas do Pussy Riot, seja contra qualquer coisa, veja o caso dos ambientalistas. Apesar do viés autoritário, ele sai fortalecido, com ares de estadista conservador. Em 2014, deve se consolidar como o grande oponente no xadrez mundial ao protagonismo dos Estados Unidos, em um mecanismo de contrapoder que lembra a Guerra Fria.

 

Mais enrolado

Os alemães diriam que Obama conseguiu capturar o famoso Zeitgeist, o espírito do tempo. Mas poucas promessas de 2008 foram cumpridas – ninguém mais fala da Guerra do Iraque, é verdade, mas a prisão de Guantánamo continua aberta. Amarrado pela ferrenha oposição republicana e constrangido pelo escândalo de bisbilhotagem internacional, Obama tem um segundo mandato sem grandes obras e caminha para o pior dos pesadelos dos presidentes americanos: não deixar um legado para a posteridade. Como numa ampulheta, o tempo escorre pelo carpete do Salão Oval.

 

Chance para a paz?

Depois do ano em que o Ocidente esteve a poucas horas de um ataque à Síria, 2014 começa com boas perspectivas de uma chance à diplomacia. A data-chave é 22 de janeiro, dia previsto para o início da conferência de paz, chamada de Genebra 2. Pela primeira vez em 32 meses de guerra civil, negociadores do governo e da oposição sentarão à mesa para discutir a questão e tentar uma solução pacífica para a crise.

 

Orgulho recuperado

O Brasil encerra 2013 por cima, após o escândalo da espionagem americana. Ao conseguir aprovar na ONU, junto com a Alemanha, uma resolução que regulamenta o direito à privacidade na internet, o país lança as bases do que pode ser a primeira legislação internacional sobre crimes na era digital. O grande teste será na Assembleia-Geral, no meio do ano. Antes, o Brasil vai sediar, em 23 e 24 de abril, a Reunião Multissetorial Global sobre Governança na Internet.

 

Irã moderado

Foi uma conversa de 15 minutos. Mas entrou para a história de 2013 e lança boas energias para 2014. Pela primeira vez desde 1979, um presidente americano conversou com um colega iraniano. A ascensão do moderado Hassan Rouhani ao poder no país dos aiatolás, depois de uma era obscura de Mahmoud Ahmadinejad, dá uma boa chance, senão para uma aproximação diplomática, pelo menos para alguns passos rumo ao entendimento sobre a questão nuclear iraniana.

 

Expansão para o Leste

Mesmo sem conseguir seduzir a Ucrânia, a Europa saiu ganhando e chega às beiradas russas. No dia 1º de janeiro, a Letônia, que pertence à UE desde 2004, adota o euro como moeda oficial. Será o 18º membro da zona do euro, o que é considerado por muitos como um sopro de ar fresco para o bloco, mas que gera resistências entre a população.

 

Renascido das cinzas

Freedom Tower, One World Trade Center ou, simplesmente, WTC1. O principal edifício do novo complexo do World Trade Center, no local onde ficavam as torres gêmeas destruídas em 11 de setembro de 2001, será inaugurado em 2014, ainda sem data. Será o prédio mais alto dos EUA.

 

O até logo de Mujica

Ao legalizar a maconha, José Mujica deixa a presidência do Uruguai para entrar para a História por ter legalizado a maconha. Em outubro, o país vizinho realiza eleições gerais – não há reeleição direta lá. O favorito é Tabaré Vázquez, que já governou o Uruguai entre 2005 e 2010.

 

De volta às trincheiras I

Será um ano de efemérides mundiais, como os cem anos do início da I Grande Guerra. Em 28 de julho, o mundo irá lembrar o crime que foi apenas o estopim da explosão da panela de pressão: o assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, arquiduque Francisco Ferdinando.

 

De volta às trincheiras II

Em julho, o Brasil comemora os 70 anos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. No outono europeu, ocorreu o primeiro combate. No vale do Rio Serchio, na Toscana, militares brasileiros ajudaram na tomada de Massarosa, Camaiore e Monte Prano. Em 24 de novembro, teve início a batalha de Monte Castelo.

 

Independência ou…

Em 18 de setembro, a Escócia vai realizar um referendo sobre sua independência em relação à Grã-Bretanha.

 

Era de mudança

Francisco comanda a primeira grande reforma da Igreja no século 21 – as bases estão no documento a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho). E já teria confirmado, segundo a rede CNN, uma visita histórica à Terra Santa, em maio de 2014.

O ano de Putin

19 de dezembro de 2013 0

O discurso duro, interrompido 34 vezes, na sala São Jorge do Kremlin, na quinta-feira, diante de mais de mil pessoas, coroou o ano de Vladimir Putin. Depois de ter sido presidente sem grandes marcas de 2000 a 2008, um primeiro-ministro forte, mas sem legado no governo de Medvedev (2008 a 2012), o ex-espião, enfim, em seu segundo mandato, consolida-se como um dos homens fortes do século 21. Putin é hoje o único grande contraponto à superpotência americana.

Isso lhe faz lembrar algo? Sim, o cheiro de Guerra Fria não é à toa. O poder precisa de um contrapoder para ser exercido. No caso específico, Putin cresce em influência mundial no antagonismo em relação a Barack Obama.

Não foi um ano bom para o presidente americano. Amarrado pela ferrenha oposição republicana, Obama não consegue fazer alavancar as promessas das duas campanhas e corre o risco de terminar sua era na Casa Branca sem um legado para a posteridade. Pior, o grande risco para Obama é ser lembrado por algo detestável – o escândalo de bisbilhotagem internacional.

Putin, ao contrário, tem vários motivos para comemorar no dia 31 de dezembro, quando olhar para o ano que passou. Vejamos:

1 Liderou um plano que, se não está estancando a guerra civil síria, pelo menos não transformou o país em uma nova Líbia. Enquanto Obama chegou muito próximo de autorizar uma incursão ocidental ao país de Bashar al-Assad, Putin sai como o baluarte da negociação.

2 Enquanto o país das liberdades de Obama caçava o homem que desnudara o escândalo de espionagem, Putin concedia asilo a Edward Snowden.

3 Putin tem comandado uma modernização sem precedentes das forças armadas russas, com investimento equivalente a 552 bilhões de euros.

4 Ainda que a crise na Ucrânia esteja sem solução, ele conseguiu, ao menos por enquanto, evitar que a ex-república soviética ingresse na União Europeia. O canto da sereia de Putin é trazer a Ucrânia para uma união aduaneira, da qual já fazem parte Uzbequistão e Cazaquistão.

Putin é um ator incômodo no teatro internacional. É uma voz discordante da hegemonia americana e europeia. Flerta muitas vezes com o autoritarismo, como se viu no episódio da prisão dos militantes do Greenpeace e das meninas da banda Pussy Riot. Mas apresenta-se com solidez. Em um mundo instável, ele finca pé como baluarte conservador, na defesa de valores tradicionais, que muitos desejam. Consolida-se, assim, como fiador desses valores ante, na sua visão, a decadência do mundo ocidental.

A África do Sul sem Mandela

08 de dezembro de 2013 0

A história contemporânea da África do Sul pode ser dividida em duas fases: antes e depois de Nelson Mandela. Como o mito, que sobrevive à morte do homem, seu legado de construtor de pontes seguirá inspirando discursos dentro e fora do país. O desafio é ir além da retórica. Mandela fez a África do Sul evoluir de um Estado pária durante quatro anos foi considerado fora da lei pela comunidade internacional por causa do apartheid para uma nação reconhecida como potência em ascensão em um continente rico em déspotas e carente de estadistas. Mandela uniu negros e brancos, mas durante seu governo precisou apagar tantos incêndios que ele mesmo reconheceu não conseguiu fazer muito pela economia.

Quando deixou o poder para entrar para a história, em 1998, Mandela foi sucedido por governantes que, menos carismáticos e de caráter duvidoso, envolveram-se em escândalos de corrupção. O país viveu uma série de crises e brigas políticas dentro do partido do líder, o CNA (Congresso Nacional Africano). Além de negligenciar a luta contra a Aids, o sucessor de Mandela, Thabo Mbeki, criou um pacote de reformas econômicas em grande parte responsável pelos altos índices de desemprego. Foi sucedido pelo extravagante Jacob Zuma, que se equilibra no poder, apesar da corrupção e de acusações de estupro.

Ao desemprenho que atinge um quarto da população e à corrupção que corrói as estruturas do Estado, soma-se a criminalidade crescente – é o país com a mais alta taxa de homicídios do mundo. Mas o mais preocupante é o conflito agrário. A exemplo do que ocorreu no Zimbábue de Robert Mugabe, o governo se apropriou de terras improdutivas. Agricultores têm se armado e alegam que pretendem lutar para defender o que acreditam ser deles.

Cerca de 20% dos lares não têm água corrente, e 10% vivem sem luz. Quase 100% dos pobres são negros – isso não mudou. Mas há também muitos brancos na miséria. Segundo o Conselho de Pesquisas de Ciências Humanas da África do Sul, a proporção de pessoas na pobreza na África do Sul não mudou de forma significativa desde 1994. “Na realidade, a camada mais pobre está mais pobre e a diferença social entre pobres e ricos aumentou”, diz a entidade. Mandela fez sua parte ao reconciliar negros e brancos. É hora de começar a batalha para reduzir a desigualdades entre ricos e pobres. Surgirão novos líderes capazes dessa façanha? Mais silencioso do que a cisão racial, o apartheid econômico continua a segregar o país de Mandela.

A ficha caindo

27 de outubro de 2013 0

Tão velha quanto a guerra é a espionagem. Muitas vezes condenada no campo da moral e da ética, a batalha pela informação é e cada vez mais será fundamental em conflitos. Foi assim na II Guerra Mundial e nos quentes anos da Guerra Fria, quando, muitas vezes, o jogo de inteligência poupou os políticos de apertarem o botão do conflito nuclear. Foi também graças à espionagem que os EUA deixaram de procurar Osama bin Laden em uma caverna afegã para localizá-lo em uma mansão na paquistanesa Abbottabad. As guerras não são ganhas por generais no front, mas pelos serviços de inteligência em quartéis-generais a milhares de quilômetros do campo de batalha.

Espionar o inimigo sempre foi justificado – a ação supõe uma ameaça à segurança nacional. No caso dos amigos, é traição. Por isso, as novas denúncias reveladas pelo ex-funcionários da NSA Edward Snowden aprofundam ainda mais a gravidade do caso. Os EUA de Barack Obama bisbilhotaram nações amigas – como o Brasil – e até aliados sólidos e tradicionais como a França, a Alemanha e a Espanha.

O que os EUA buscavam ao espionar os amigos? Qual o interesse por trás das escutas de líderes como Dilma Rousseff, Angela Merkel ou François Hollande? Segurança mesmo, como alega a Casa Branca, ou um doentio vício de tudo saber?

As consequências do escândalo vão muito além de um mal-estar diplomático, pedido de explicações, convocações de embaixadores. A falta de lealdade arranha a confiança recíproca que os EUA tanto buscam na hora de cerrar fileiras contra inimigos comuns – teriam hoje os americanos apoio para uma ação armada contra a Síria, por exemplo? Mais: EUA e aliados são extremamente dependentes em termos de troca de informações – diariamente, compartilham centenas de dados sobre terrorismo, grupos suspeitos, quadrilhas internacionais de drogas, armas e tráfico de pessoas. Ironicamente, preocupado com a segurança do país, o governo Obama acabou colocando em risco não apenas a tranquilidade de seus cidadãos – vigiados também – mas a segurança internacional. Agências de inteligência europeias, acostumadas a passar informações para os americanos diariamente, continuariam a compartilhar dados importantes? A desunião da rede de informações – como já se provou no 11 de setembro americano, no 11 de março espanhol e no 7 de julho britânico – só contribui para grupos terroristas cada vez mais fluidos e descentralizados operarem.

Até a semana passada, era só o discurso de Dilma Rousseff a ecoar na Assembleia Geral da ONU. Na quinta-feira, o escândalo ganhou proporções mundiais com a revelação de que 35 líderes, entre presidentes, primeiros-ministros e chanceleres foram grampeados. Cai a ficha na Europa.

Com a palavra, um Nobel da Paz

06 de outubro de 2013 0

Engana-se quem pensa que um Nobel da Paz passa o tempo apenas estudando os problemas do mundo. Na rotina de José Ramos-Horta, há espaço para ouvir Elvis Presley e ler Paulo Coelho.

Forjado no exílio, quando o Timor Leste era dominado pela Indonésia, Ramos-Horta conseguiu colocar na agenda da comunidade internacional a luta pela independência da pequena ilha que fala português no Sudeste Asiático. Não sem feridas: teve quatro irmãos assassinados por milícias pró-Indonésia. Após a guerra civil e a intervenção da ONU, com a ajuda de militares brasileiros, ele se tornou o segundo presidente do novo país. Sobreviveu a um atentado na porta de casa e acredita que o ataque, ao invés de reacender antigas rixas, serviu para unir o povo. Hoje, distante do Timor, ele é o representante do secretário-geral da ONU em Guiné-Bissau, país africano que vive uma instabilidade política. Na semana passada, antes de palestrar no Fronteiras do Pensamento, na Capital, Ramos-Horta recebeu Zero Hora para uma entrevista. A seguir, os principais trechos.

Zero Hora – Como é ser um Nobel da Paz?

José Ramos-Horta – É uma honra, não sei se mereci. Nunca sonhei, nunca pensei no assunto. No dia em que recebi o telefonema, fiquei muito surpreendido, chocado. Eu estava em Sydney, foi a ligação de um jornalista que havia recebido a informação e me contatou para que eu comentasse. Espero que meu nome tenha sido útil para colocar Timor Leste no mapa e que tenha contribuído para pressionar a comunidade internacional a encontrar uma solução para o problema.

ZH – Um Nobel tem tempo para descansar?

Ramos-Horta – Quando descanso, ouço música. De Lisboa para cá, ouvi Elvis Presley. Tenho um (iPod) nano, só de Elvis, que ganhei de presente. Mas gosto de música clássica, Andrea Bocceli.

ZH – O que o senhor está lendo?

Ramos-Horta – Deixei de ler Paulo Coelho (risos).

ZH – O senhor lia Paulo Coelho?

Sim, mas deixei de ler porque ele plagia muito a Bíblia. Tudo gira em torno da Bíblia.

ZH – Mudando de assunto: o senhor é cotado para secretário-geral da Organização das Nações Unidas. É um sonho?

Ramos-Horta – Não tenho interesse, nem possibilidade. A próxima região a ter direito ao posto será a Europa. E europeus com condições para secretário-geral não faltam. Os europeus sempre querem mandar no mundo.

ZH – Em crises recentes, a ONU foi incapaz de evitar guerra, como na Líbia, no Iraque e, agora, na Síria. Esse modelo está esgotado?

Ramos-Horta – A reforma da ONU, para que se estabeleça um equilíbrio estratégico, é necessária. O mundo hoje é diferente de há 30 anos. O Brasil é hoje a sétima economia do mundo. A Índia tem 1 bilhão de habitantes, a China, 250 milhões. Não se pode continuar pensando nas envelhecidas potências europeias como únicas superpotências. Mas não acredito que a reforma do Conselho de Segurança possa, por si só, torná-lo mais eficaz. Mais democrático e legítimo talvez, mas não necessariamente eficaz. Temos de ser realistas: há problemas no mundo, como na Síria, que são extremamente difíceis de resolver. Conflitos muito sectários, com raízes históricas, religiosas, fanatismo envolvido, eu diria que praticamente não têm solução. Como é possível que algum gênio da ONU possa resolver uma questão assim? Veja o conflito Irã-Iraque, nos anos 80: morreram mais de 1 milhão de pessoas, os dois países estavam exaustos. Eles decidiram dialogar e parar com a guerra, porque se esgotaram. Não porque alguém mediou.

ZH – O que o senhor achou da fala da presidente Dilma Rousseff na ONU, questionando a espionagem do governo americano?

Ramos-Horta – Eu me solidarizo com o Brasil e outros países que foram alvo dessa descarada interferência da agência americana. Extravasaram os limites do aceitável. As ameaças à segurança dos EUA são muito sérias. Mas é preciso parceria solidária ativa e de igual para igual entre EUA e Brasil, entre EUA e Alemanha, e não espionagem. O argumento americano é segurança, mas espionaram acordos de ciência e tecnologia. É preciso parceria entre forças de segurança, troca de informações, e não espionar e-mails da presidente brasileira. Isso não tem nada a ver com segurança.

ZH – O senhor tem sequelas do atentado que sofreu?

Ramos-Horta – Sim, foi um preço que paguei. Mas, depois que fui ferido, a violência parou e nunca mais voltou. Quando fui ferido, o próprio grupo que fez isso ficou desorientado e disse que, quando eu regressasse do hospital, entregaria as armas, mas só se renderia a ele. Três dias depois, quando saí do hospital, eles de fato entregaram as armas.

ZH – Como foi o ataque?

Ramos-Horta – Foi na rua. Um major rebelde foi até a minha casa sem avisar. Eu tinha ido caminhar. Quando ouvi um tiro, voltei. Um dos rebeldes pensou que eu lhes havia armado uma emboscada, então fui baleado.

ZH – Como maior país da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o Brasil deveria fazer mais pelo Timor Leste e pelas outras nações que falam o idioma?

Ramos-Horta – Sem dúvida, o Brasil devia investir muito mais no português em Timor Leste. O Brasil tem riqueza para isso. Um país que consegue gastar US$ 8 bilhões em estádios de futebol, como não pode colocar 500 professores brasileiros em Timor Leste ou Guiné-Bissau? O Brasil, pela sua raiz luso-tropical, pela maneira de ser do brasileiro, é aceito em todo o mundo. O professor, o engenheiro, o médico são os melhores embaixadores brasileiros no mundo. E o Brasil é cada vez mais admirado pela sua tecnologia em petróleo, é uma potência industrial.

ZH – Um Nobel da Paz realmente acredita que a paz é possível?

Ramos-Horta – A paz só será possível quando ela existir em cada casa, em cada família. Devemos incutir nos filhos a bondade, a generosidade, a solidariedade, e não o egoísmo, a vaidade. Que a paz possa surgir nas escolas para tranquilidade das crianças. E que não tenham medo de ir para casa, porque sabem que os pais os acolhem como amor, sem violência doméstica. Se a paz não começar em casa, não vai existir nas escolas, nos bairros, não vai existir no país.

Flerte com o autoritarismo

03 de outubro de 2013 1

Há quem defenda: a legislação de um país é assunto interno e exclusivo de uma nação. Mas não é porque uma lei permite que mulheres adúlteras sejam apedrejadas ou que criminosos tenham as mãos amputadas, como em alguns países islâmicos, que está blindada de críticas. No caso russo, vamos a elas:

Sem entrar no mérito das acusações contra os ativistas do Greenpeace – entre eles a porto-alegrense Ana Paula –, é preciso ter em mente que a Rússia está longe de ser um exemplo de respeito aos direitos humanos. E isso pode complicar as coisas para o lado dos ambientalistas. Como um czar, Vladimir Putin governa o país com mão de ferro há 12 anos, com forte personalização do regime. Três décadas depois da Glasnost (transparência e liberdade de expressão de Mikhail Gorbachev), a Rússia de Putin dá passos largos de volta ao autoritarismo. A Rússia é uma democracia recente, com 22 anos, e cujo chefe de Estado é um ex-espião da KGB. Séculos de autoritarismo (czarismo, stalinismo e o socialismo de partido único) estão encravados na cultura e explicam a centralização do Kremlin em relação ao Judiciário (há claros sinais de julgamentos políticos) e ao Legislativo (o partido de Putin, a Rússia Unida, domina as duas casas do parlamento).

Não é de hoje que o governo vem intensificando a perseguição a opositores, calando movimentos sociais e caçando homossexuais. Este ano, graças a uma polêmica lei, o Kremlin proibiu a “propaganda de relações sexuais não tradicionais”, crime com multa prevista de US$ 30 mil. Some-se a isso a prisão das integrantes do grupo feminista Pussy Riot, condenadas a dois anos de cadeia – com denúncias de trabalho forçado – por conta de uma música crítica ao presidente, cantada dentro de uma igreja.

As ações do Greenpeace são polêmicas – e nem sempre dentro da lei. Por isso, o grupo conta com um exército de advogados mundo afora. Tentar invadir uma plataforma é questão de segurança nacional – no Brasil, nos EUA ou na Rússia. O problema, é que, no caso russo, o furo é mais embaixo.

Lua de mel arruinada

22 de setembro de 2013 0

Como um casal que briga em plena lua de mel, a maior crise entre EUA e Brasil em anos ocorre justamente quando os dois países viviam o melhor momento de sua relação. Foi com pompa e circunstância, tendo o castelo da Cinderela ao fundo, na Disney de Orlando, que Barack Obama comemorou, em janeiro do ano passado, a solidez da parceria com o Brasil. Como símbolo desse momento, prometeu agilizar a concessão de vistos a brasileiros e chineses e anunciou a abertura de consulados em Belo Horizonte e Porto Alegre. Nunca antes tantos brasileiros desembarcaram em território americano deixando por lá US$ 5,9 bilhões por ano. Turbinado por essa realidade, o horizonte era de voo de cruzeiro, perfeita lua de mel.

Veio o escândalo de espionagem. O embaixador americano Thomas Shannon, que se despediu de Brasília em meio à crise – sua saída já estava prevista havia três meses – foi chamado duas vezes para prestar esclarecimentos ao Itamaraty. Dilma e Obama trocaram sorrisos amarelos em São Petersburgo. A nova embaixadora, Liliana Ayalde, desembarcou em Brasília falando da alegria de morar no país, mas evitou o assunto que todos esperavam. Em ato contínuo, a presidente Dilma adiaria a viagem a Washington.

Uma coisa é certa: nem os EUA cancelarão a reabertura dos novos consulados nem os brasileiros deixarão de despejar milhões de dólares em compras em Miami. Uma coisa é crise diplomática, outra é relação comercial. A tensão não deve colocar em xeque acordos bilaterais, tampouco deve haver retaliações. Não há quebra de relacionamento.

É importante destacar que as justificativas dadas pelo governo americano até agora para espionar Dilma e a Petrobras ficaram aquém do esperado não apenas pelo governo mas por toda a sociedade brasileira. O adiamento da visita foi acertado e no tom adequado. Não fazer isso significaria não dar importância a um assunto que foi classificado pelo governo como violação de soberania nacional.

Ora, o Brasil deixou há muitos anos de ser uma república de bananas. O país é um player atuante e cada vez mais observado no xadrez político internacional. Internamente, Dilma ganha posição de estadista – para alguns, com o risco de ser vista como populista –, que será reforçada nesta semana que se inicia com o discurso de abertura na ONU, no qual deve deixar clara a indisposição brasileira. O inconformismo com a situação também será levado aos Brics, grupo de países emergentes que, aliás, tem dois adversários dos EUA – China e Rússia – este último, inclusive, que deu abrigo a Edward Snowden. Na balança de poder, algo nada interessante aos olhos americanos.

Por que a Síria não é o Iraque

15 de setembro de 2013 1

O argumento do uso de armas químicas para justificar uma possível ofensiva americana contra o governo do ditador Bashar al-Assad traz à lembrança a falácia republicana para apear Saddam Hussein do poder, em 2003. Apesar de semelhanças nos discursos belicosos de George W. Bush (livrar o mundo de um pária internacional) e Barack Obama (punir um ditador que mata sua própria população), há diferenças entre os dois contextos:

1 Em 2003, grande parte dos americanos estava sedenta pela guerra e via no Iraque – muito graças à máquina de propaganda do governo Bush e dos neoconservadores que orbitavam a Casa Branca – uma continuação natural da Guerra ao Terror iniciada no Afeganistão. Os ecos do 11 de Setembro reverberavam, e o governo conseguiu colocar a deposição de Saddam Hussein na conta da “segurança do mundo e da democracia”. Hoje, os americanos em geral estão cansados de guerra. Segundo pesquisa da CNN, 69% dos americanos acham que não é interessante para os EUA se envolverem no conflito sírio.

2 O preço da campanha do Iraque em baixas americanas foi altíssimo– 4,4 mil militares dos EUA mortos. Obama quer punir o regime sírio por conta do suposto uso de armas químicas, mas não está disposto a pagar a conta de ver os filhos da nação voltarem para casa dentro de caixões. Por isso, se houver, o ataque à Síria será “sem botas no chão”, ou seja, sem o uso de tropas em terra. Em 2003, os EUA não confiavam que a oposição iraquiana teria força capaz de depor Saddam Hussein. Foram obrigados a mergulhar seus jovens no lamaçal iraquiano.

3 Em março de 2003, o então secretário de Estado de Bush, Colin Powell, anunciou que os EUA tinham provas de que o governo de Saddam Hussein produzia armas de destruição em massa – o argumento falacioso para a guerra. Recentemente, John Kerry, o atual chefe da diplomacia Obama, também afirmou: “Está claro que Bashar al-Assad usou armas químicas” – o que ainda não foi 100% comprovado.

4 Em 2003, houve um intenso trabalho de inspetores internacionais, que por semanas, esquadrinharam o Iraque em busca de vestígios das supostas armas de destruição em massa de Saddam. Saíram sem nada encontrar – até hoje, nenhuma arma do tipo aparece. No mês passado, um grupo de inspetores internacionais esteve pela segunda vez na Síria, por quatro semanas, principalmente nas áreas controladas por rebeldes. O relatório do que viram ainda não foi divulgado.

5 Bush estava imbuído de uma missão – quase uma obsessão familiar em terminar o que seu pai havia começado no Golfo: derrubar Saddam Hussein. A Casa Branca atropelou a ONU, e os EUA foram praticamente sozinhos à guerra. Embora não seja necessário, Obama divide o peso da decisão de apertar o botão do conflito com deputados e senadores. Bush queria a guerra. Obama, que foi contra a campanha do Iraque, tenta adiar a decisão. No campo das semelhanças, Obama, a exemplo de Bush, não terá o aval da ONU para uma intervenção.

6 O Iraque se meteu em duas guerras expansionistas contra duas nações islâmicas– o Irã e o Kuwait, o que transformou Saddam Hussein e sua ditadura em párias internacionais, odiados principalmente pelos vizinhos. No caso sírio, Bashar al-Assad não tem grandes inimigos regionais, à exceção de Israel. E, coisa que Saddam não dispunha, Al-Assad estende seus tentáculos sobre outras nações: no Líbano, graças ao Hezbollah, e nos Territórios Palestinos, por meio de grupos radicais que já protegeu.

7 A Síria é fundamental para o equilíbrio de forças no Oriente Médio, principalmente para o futuro das negociações israelo-palestinas. Em 2003, israelenses e palestinos viviam os efeitos da segunda Intifada, iniciada em 2000, e o fracasso dos acordos de Oslo. Hoje, há um fio de esperança na retomada do diálogo de paz. A erupção de uma guerra inflamaria os ânimos dos dois lados.

8 Saddam serviu aos interesses americanos durante a guerra Irã-Iraque. Era o ponto de oposição aos aiatolás nos anos 1980. Mais uma vez, os EUA se voltam contra um antigo aliado. A Síria, durante anos, foi útil aos interesses americanos de conter o Islã radical na região. O pai de Bashar al-Assad, Hafez, ordenou o massacre de Hama, em 1982, em que morreram 2 mil pessoas em levante da Irmandade Muçulmana.

Os barbudos da Síria

08 de setembro de 2013 0

Na Broadway Street, em Santa Monica, Califórnia, o comerciante sírio Rosif Mohamed define:

– Al-Assad é ruim, mas os barbudos são piores.

Encontrar Rosif, enquanto tentava comprar uma mala para acomodar as compras de viagem, me causa surpresa: um emigrante sírio em uma das mais badaladas praias da Costa Oeste americana, numa tarde ensolarada de sábado, seria uma oportunidade para compreender, por dentro, algumas das divisões no país que ele deixou há 20 anos.

Começa a conversa: Rosif é de origem curda. Pulverizados entre Iraque, Turquia e Síria, formam o maior povo sem pátria do mundo. Na Síria, são 10% dos 23 milhões de habitantes. Ele morava perto da fronteira com a Turquia e conta que seu povo sempre lutou contra a repressão do clã Al-Assad – primeiro contra o pai, Hafez, e, agora, contra Bashar. Diz que, por anos, foram proibidos de falar curdo nas escolas e sujeitaram-se a intimidações e prisões se exigissem tratamento igual ao dos demais cidadãos. É contrário à ditadura, mas teme que o futuro, nas mãos da oposição, seja pior.

– Os barbudos são radicais – afirma, referindo-se aos grupos rebeldes, de origem sunita, na verdade um saco de gatos que nem a Casa Branca ainda compreendeu.

Até a nossa conversa, Rosif não havia visto – e não sei se viu – o vídeo obtido pelo The New York Times (foto) e divulgado na semana passada. Nele, sete soldados sírios estão com os rostos grudados no chão de um local desconhecido. Um combatente rebelde recita um verso:

– Por 50 anos, eles foram companheiros da corrupção. Prometemos ao Senhor do Trono que este é o nosso juramento: nós vamos nos vingar.

O que segue é aterrador: o comandante atira na nuca do primeiro prisioneiro, e os outros atiradores rapidamente o copiam.

Nas guerras, sabemos, não há mocinhos. E, no caso sírio, guardadas as diferenças de contexto, é preciso aprender com as lições da Líbia: tão logo caiu o regime de Muamar Kadafi, o ditador foi caçado até ser torturado e morto diante das câmeras por homens que, dois anos depois, ainda não conseguiram provar ao mundo seus ideais democráticos. Na Síria, os rebeldes não se limitam a seculares e extremistas – há áreas cinzentas e nuanças desconhecidas. Alguns grupos têm claro apoio do Ocidente, outros são simpáticos a países árabes e ainda há aqueles que flertam com a Al-Qaeda.

Terrorismo é terrorismo sempre – de Estado ou de quem ataca mesquitas, decapita sacerdotes ou come o coração de um inimigo, como aconteceu em maio.

– São esses que governarão a Síria? – perguntaria, certamente, Rosif.

O dilema de Obama

25 de agosto de 2013 2

Eleito em 2008 graças em parte ao atoleiro de seu antecessor no Iraque e laureado com o Prêmio Nobel da Paz mais pelo seu discurso e menos pelo que faria na prática, Barack Obama enfrenta o maior dilema de seus quatro anos e meio na Casa Branca: intervir ou não na Síria do ditador Bashar al-Assad?

Os riscos de ambas as atitudes são altíssimos. Mas liderar implica tomar decisões. Ficar de braços cruzados, diante da matança de inocentes, seria compactuar com um regime criminoso, que mata sua própria população – com cada vez mais suspeitas de uso de armas químicas. Uma intervenção, sem o aval das Nações Unidas (a Rússia vetaria qualquer tentativa de um ataque internacional), colocaria Obama em rota de colisão com seus princípios. Abriria a caixa de Pandora de um conflito que ninguém sabe como terminará dado o cenário sempre imprevisível do Oriente Médio. Além disso, Obama possivelmente encerraria seu governo com uma guerra aberta.

Não há ambiente hoje nos EUA para uma imersão de tropas em território sírio. O fantasma dos 10 anos de conflito no Iraque ainda assombra os americanos. Descartada uma invasão em massa, sobram opções menos caras do ponto de vista humano, porém com riscos ainda assim enormes. Um bombardeio com mísseis a partir de navios de guerra posicionados no Mediterrâneo seria uma alternativa menos arriscada, mas daria a Al-Assad argumentos para se mostrar como vítima ao mundo. E não enfraqueceria os pilares de sua ditadura.

Ataques aéreos com uso de caças seriam mais eficientes, mas desde que fossem intermitentes. O risco: uma série de bombardeios aumenta a chance de danos colaterais – a morte de civis sírios pela aviação americana, nem sempre cirúrgica. Não se sabe também qual o grau de eficiência da artilharia antiaérea síria – com certeza é melhor do que a de Saddam ou a dos talibãs.

A alternativa mais cômoda seria municiar os rebeldes com armas mais poderosas. Mas essa estratégia já se mostrou perigosa no passado – os grupos rebeldes sírios são um saco de gatos tão eclético quanto os líbios. E entregar armas a eles não dá nenhuma certeza de que elas não serviriam, no futuro, para matar americanos.

As portas do inferno

18 de agosto de 2013 0

A mão pesada dos generais, que na prática nunca deixaram o poder no Egito, calou o sopro de esperança que brotara na Praça Tahrir e reverberara pelo deserto do norte da África ao Oriente Médio. Cessaram os ventos libertadores da Primavera Árabe. Quem ainda tinha dúvidas sobre se o que aconteceu no Egito, em julho, havia sido um golpe militar, teve suas convicções abaladas pela crueza de uma ditadura escancarada na manhã de quarta-feira: 270, 350, 600 mortos, numa escalada tétrica até a noite de sexta-feira, que teve outros cem mortos.

O Egito repetiu na semana passada um enredo que o mundo assistira, paralisado, na Argélia, duas décadas atrás. Vamos ao flashback: em 1992, um partido islâmico chamado Frente Islâmica de Salvação vence o primeiro turno das eleições legislativas. Os militares dão um golpe. Os integrantes do partido são perseguidos. Na clandestinidade, fundam o grupo guerrilheiro Grupo Islâmico Armado (GIA), que, com ações terroristas, ensanguentaram o país por 10 anos, cobrando 150 mil vidas. Com o tempo, as milícias islâmicas passaram a lutar entre si – e até hoje continuam em ação, atuando como filial na África da rede terrorista Al-Qaeda.

De volta aos dias de hoje: a Irmandade Muçulmana, de Mohammed Mursi, vence nas urnas e governa por um ano. Mas o presidente é deposto pelos militares, com apoio de boa parte da população. Os líderes da Irmandade são caçados prédio a prédio no Cairo, e manifestantes, eliminados a tiros nas ruas. Já pegaram em armas. Só falta declararem a guerra. Falta?

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O Egito já tem, na prática, os seus próprios movimentos radicais – a Irmandade era, até aqui, um grupo islâmico moderado. Os extremistas respondem pelos nomes de Gemma Islamya e a Jihad Islâmica, que perderam a marcha da Primavera Árabe, quando o que valia era chegar ao poder pelo voto e não pelas armas.

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O general Abdel Fatah al-Sisi é a cara por trás da ditadura que se instalou nesses dias no Egito. Ele substituiu o todo-poderoso Mohamed Tantawi, a eminência parda do regime de Hosni Mubarak – chamado de “poodle de Mubarak” nos documentos vazados pelo WikiLeaks. Desde 2012, é o chefe das forças armadas e ministro da Defesa – à época, sua ascensão ao cargo foi vista como uma reforma na caserna. Mas logo, o general mostrou a cara. Foi ele quem apertou o botão para o golpe de Estado que derrubou Mohammed Mursi.

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Os EUA financiaram a ditadura de Hosni Mubarak, e o Egito é o aliado estratégico árabe mais importante no xadrez político do Oriente Médio. Isso explica a tímida reação do governo americano, em um primeiro momento, à matança de quarta-feira. Uma leve manifestação do secretário de Estado, John Kerry. No dia seguinte, Barack Obama foi mais enfático, cancelou operações militares conjuntas que seriam realizadas, mas disse que os EUA não tomariam partido. Por ano, os americanos dão uma ajuda de US$ 1,3 bilhão ao Egito, que, na prática, sustenta o poder dos militares.

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Países que viveram a Primavera Árabe estão paralisados. A Síria está em guerra civil. A Líbia tenta juntar os cacos das instituições, mas patina em conflitos entre milícias. No Bahrein, os protestos foram sufocados. Em meio à instabilidade, tornam-se territórios férteis para grupos radicais e remanescentes da rede Al-Qaeda ocuparem o vácuo de poder. As portas do inferno estão abertas.