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Personagens da Revolução

20 de dezembro de 2014 0

No caminho para Mariel, ícones da Revolução surgem ao lado da pista: imagens de Che Guevara gigante, perto do antigo porto do vilarejo; ou slogans do comunismo, como estes abaixo:

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Mariel, o vilarejo do polêmico porto

20 de dezembro de 2014 0

A viagem a Mariel, onde está localizado o porto construído pela Odebrecht propicia um mergulho na Cuba dos cubanos, aquela que os turistas normalmente não conhecem. A estrada que liga Havana ao povoado, a 40 quilômetros da capital, é ruim, esburacada. Tudo muda quando se passa Mariel e se chega próximo ao porto, como vocês verão na reportagem deste domingo em ZH.

Veja abaixo um pouco deste vilarejo, que vive basicamente do trabalho em uma fábrica de cimento e uma termelétrica. O porto, um dos mais modernos do Caribe, ainda não altera suas vidas.

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Ecos do passado

20 de dezembro de 2014 0

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Transformado em Museu da Revolução, o antigo Palácio Presidencial de Cuba é um dos lugares em Havana onde o regime está sólido.

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E a Guerra Fria se concretiza em objetos. À luz dos novos fatos, observar o passado heroico que o regime propagandeia confunde os visitantes.

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Vive-se hoje em uma país onde vigoram ícones da Revolução tão esmaecidos pelas realidades dos últimos dias quanto as fotos do museu

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Carrões pré-Revolução servem como táxis em Cuba

20 de dezembro de 2014 0

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Uma das atrações de Havana são os carros grandalhões dos anos pré-Revolução. Muitos caindo aos pedaços são usados como táxis (do governo) ou como veículos particulares. Alguns servem para passeios turísticos. Estes, coloridos e bem conservados, percorrem o Malecón por uma hora. Basta pagar o equivalente a US$ 30.

Entendendo o acordo

18 de dezembro de 2014 0

Havana está aos poucos absorvendo o impacto da notícia do histórico acordo que retomará as relações diplomáticas entre EUA e Cuba. Há muitas dúvidas no ar, entre a população: quando serão abertas as embaixadas, quando poderão conseguir visto americano e, principalmente, quanto à questão do embargo – que precisa ser aprovado pelo Congresso americano, algo praticamente impossível nesta legislatura.

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O clima em geral é de otimismo por aqui. Alguns cubanos usam a expressão de Barack Obama, que referiu-se à ruptura como algo antiquado. Outros, um tanto céticos, como o atendente do restaurante Gente, de frente para o Malecón (calçadão de Havana), preferem esperar para ver.

Obama e Raúl falam muito – disse.

Ecos do passado
A Praça da Revolução, coração do poder do regime castrista, é impressionante – pelo tamanho, pela imponência e pela história. Basta lembrar que, aqui, Fidel Castro reunia milhões de pessoas a cada comício, que durava seis, sete horas. Nesta quarta-feira, pouquíssimos turistas caminhavam por ela. Em um dos prédios administrativos, há uma famosa e gigantesca imagem de Che Guevara.

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Revista detalhada

18 de dezembro de 2014 0

A chegada à Cuba foi cansativa, tumultuada, como toda boa e difícil cobertura internacional. A segurança foi reforçada no aeroporto e os agentes da imigração estão fazendo perguntas detalhadas. Vencida esta parte, a demora na chegada das bagagens é grande: esperei por mais de uma hora pelas minhas. Acredito que as malas passem pelo raio X interno, antes de serem liberadas. Tudo o que o regime cubano não quer, neste momento é a entrada de armas que pudessem alimentar uma rebelião.

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Choque cultural
No caminho do aeroporto até o hotel, a gente vai tomando, aos poucos, consciência do que é Cuba, este país que durante a Guerra Fria colocou gigantes em conflito. É clichê, eu sei, mas é como se estivéssemos voltando ao passado: carros modelo pré-revolução de 1959 – muitos caindo aos pedaços -, casas em estilo colonial carcomidas pelas falta de pintura. O maior choque, porém, é no hotel. Não há internet nos quartos. No lobby, preciso disputar os poucos computadores disponíveis. E – pior – pagar o equivalente a US$ 5  por uma hora de acesso. É sofrível!

Ops! Parou
Os carros dos anos 50 estão, como falei, caindo aos pedaços, mas têm um baita charme. O táxi que me levava para o centro antigo de Havana era um desses. Parou na avenida do Malecón. Quebrou o câmbio. Fiquei a pé.

De um democrata para outro democrata

17 de dezembro de 2014 0

Em 2008, ouvi de um cubano no bairro de Little Havana, em Miami, que ele nunca perdoaria os democratas pela invasão da Baía dos Porcos. Era novembro, vésperas da eleição que sepultaria os anos Bush e levaria Barack Obama à Casa Branca. Minha passagem pela Flórida durante a cobertura das eleições americanas tinha, entre vários objetivos, tentar entender o sentimento político dos dissidentes do regime de Fidel Castro. Little Havana é sua capital nos EUA.

Ali, historicamente, seria muito difícil encontrar um eleitor de Obama. De fato, ao chegar de táxi a sua principal avenida, não havia bandeiras democratas, apenas comitê republicano e vários adesivos do candidato do partido, John McCain. A explicação me veio de um dos moradores do bairro, cubano, que deixara seu país havia pelo menos duas décadas.

- Não perdoamos Kennedy.

O playboy John Kennedy, filho dileto do clã comparado à Camelot, foi responsável pela frustrada operação militar na Baía dos Porcos. Em 1961, a mando de seu governo, 1,5 mil cubanos dissidentes viveram o sonho e a desilusão de que derrubariam Fidel Castro, num desastrado desembarque na ilha de Cuba a partir da Guatemala. Quem não morreu, acabou preso pelo regime castrista.

Este é apenas um dos motivos pelos quais os cubanos de Miami não votam nos democratas. Ou não votavam, até 2008. Nas conversas informais, principalmente entre os jovens, resvalava um voto em Obama.

Em 2012, ao voltar aos EUA para cobrir a disputa de Obama, que tentava a reeleição, e John McCain, retornei a Little Havana. O discurso dos cubanos de Miami era semelhante, pesando para o lado democrata.

Lembrei destes episódios ao ouvir nesta quarta-feira o presidente Obama dizer que o embargo e a ruptura com Cuba não combinam com os novos tempos, é uma política antiquada.

Embora também democrata como Kennedy, Obama  faz história ao retomar as relações diplomáticas com Cuba. A dois anos do fim de seu mandato, amarrado pela maioria republicana no Congresso, ele fez  tudo o que foi ossível no assunto, desde que dentro da lei. Ou seja, restabelecer relações diplomáticas não significa levantar o embargo econômico – algo que depende de aprovação no Congresso, onde os democratas são minoria.

A quarta-feira foi histórica, o primeiro passo foi dado e provavelmente não há mais retorno. Mas uma caminhada longa está pela frente.

A questão dos túneis

31 de julho de 2014 2

Texto publicado em Zero Hora desta quinta-feira.

Vietnã, anos 1960. Quando as bombas de Napalm já haviam feito os estragos do dia, depois que os helicópteros regressavam do front e o sol se punha no Oriente, algo misterioso ocorria nas bases americanas. Silenciosamente, um soldado sumia. Outro era degolado. Um terceiro aparecia asfixiado. Só após muito tempo os americanos descobriram a origem daquilo tudo: pequenos buracos de não mais do que 30 centímetros de largura sob suas barracas de campanha. Mandavam cães inspecionar. Os cachorros voltavam envenenados, quando não eram deixados em sacos pretos, dilacerados.

Nos 10 anos de guerra no Sudeste Asiático, o Vietcongue construiu uma rede subterrânea de 120 quilômetros de extensão. Era sua arma secreta contra os soldados do Sul apoiados pelos EUA. Ainda hoje é possível visitar o que sobrou desse labirinto em Cu-Chi, a uma hora de carro de Ho-Chi-Minh, a antiga Saigon. Os túneis clandestinos que ligam a Faixa de Gaza a Israel têm objetivo semelhante.

Na guerra assimétrica do Hamas contra os israelenses o impacto psicológico do labirinto subterrâneo é enorme. Nas tropas e nas populações vizinhas. Além de caminho para homens-bomba rumo a Tel-Aviv ou Jerusalém, os túneis são rota para sequestro de israelenses. No dia 17 de julho, 13 militantes conseguiram se infiltrar em Israel, emergindo a 100 metros do Kibutz Sufa. Houve outras cinco tentativas. Por isso, o objetivo principal da campanha israelense na Faixa de Gaza é destruir essas passagens. Espantados, os militares encontraram até agora 31 túneis desde 17 de julho.

Provavelmente, são muito mais. Cada um, tem várias artérias, formando uma cidade debaixo da terra. Um deles, escavado a 18 metros de profundidade, tinha um quilômetro e consumiu 500 toneladas de concreto. Quase todas as entradas, ficam dentro de casas ou prédios _ o que facilita a retirada de terra, sem que os radares israelenses detectem. O mais surpreendente da questão dos túneis é que, ao mesmo tempo em que levam extremistas, são um dos únicos meios de subsistência dos palestinos de Gaza. Por eles, passam armas que matam em Israel. Mas, com o bloqueio israelense e o fechamento da fronteira com o Egito, é por eles que também passam comida e remédios para a população civil.

Portas abertas

27 de janeiro de 2014 0

Ainda que não tenha sido tratado com a relevância que merecia, o 20 de janeiro de 2014 guarda, em simbolismo, um ponto de inflexão histórica. Foi o dia em que a Organização Internacional de Energia Atômica (OIEA) confirmou o desligamento das centrífugas nucleares nas unidades de Natanz e Fordo, no Irã. Na prática, significou o retorno de um dos mais importantes países do Oriente Médio ao cenário internacional. O fim do isolamento. E a abertura das portas ao mundo.

Por 35 anos, o Irã viveu à margem da lei internacional, submetido, nos anos mais recentes e obscuros, a sucessivos embargos que serviram mais para fazer sofrer a população e menos para enfraquecer o regime. De cara, ao abrir mão do sonho dos conservadores de brincar de potência nuclear, o Irã foi convidado a participar da conferência de paz sobre a Síria, em Montreaux (e desconvidado depois, por pressão americana), e do fórum de Davos, dois dos principais cartões de visita internacionais da atualidade.

O informe positivo da OIEA, de imediato, fez serem reduzidas as sanções que estrangulam a economia iraniana. E, de quebra, levou os EUA a descongelarem US$ 4,2 bilhões bloqueados no Exterior – que, como primeiríssima necessidade, devem ir para a indústria aérea. Não são raros os acidentes com aviões iranianos.

O presidente Hassan Rouhani tem feito um esforço hercúleo para apagar as lembranças de Mahmoud Ahmadinejad, o homem que, em oito anos, colocou o mundo de costas para seu país com bravatas racistas e xenófobas. Estrela do encontro de Davos, Rouhani fez render sua estadia nos Alpes Suíços. Nos intervalos da conferência principal, teve reuniões fechadas com executivos de empresas petrolíferas aos quais garantiu, até setembro, um novo modelo de contrato de exploração de petróleo. As sanções frearam a modernização da indústria petrolífera iraniana, já afetada desde a Revolução de 1979.

Dentro desse novo contexto envolvendo o país persa, desconvidar o Irã da conferência de Montreux foi um erro – e a atitude mostra o desequilíbrio de forças na ONU pró-EUA e a incapacidade da entidade de servir como árbitro internacional. Aliás, o direito de desenvolver ou não armas nucleares é regido pelos vencedores da II Guerra Mundial, em especial os EUA. O mundo é mais seguro com a limitação do arsenal atômico – ainda que países como Paquistão, Índia e Israel disponham de arsenais atômicos à margem da lei internacional. Mas essa é outra história.

O ano da virada

05 de janeiro de 2014 0

Passado o primeiro ano da Era Obama 2 na Casa Branca, o presidente americano enfrenta um 2014 decisivo para deixar uma marca, aquela pela qual será lembrado e cobrado pela História. Com a reputação chamuscada dentro e fora dos Estados Unidos devido ao escândalo de espionagem, o democrata terá, em novembro, a chance de ver criadas as condições para uma mudança de peso no Congresso, que tantas dores de cabeça causaram ao presidente até aqui. Nas eleições, estarão em disputa todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, atualmente com maioria republicana, e 35 dos cem assentos no Senado, onde os democratas são maioria. O cenário não é otimista: uma virada democrata na Câmara é difícil, e, no Senado, pesquisas mostram que os republicanos avançam, podendo assumir o controle da Casa. A oposição no comando do Congresso amarraria ainda mais as mãos de Obama no ano legislativo, entre janeiro de 2015 e janeiro de 2017, justamente o trecho final do governo.

Em 2014, os movimentos pró-imigração devem cobrar do presidente a conta pela não aprovação de medidas para facilitar a vida de imigrantes – uma de suas principais bandeiras em 2008. Os republicanos veem na legalização de 11 milhões de pessoas uma “anistia para ilegais”.

No campo da saúde, a reforma do sistema, chamada de Obamacare, entrou em vigor no dia 1º do ano, meio aos trancos e barrancos. A lei, espinha dorsal da estratégia de governo – e que quase levou Obama a perder as eleições passadas – proíbe as seguradoras de variar os valores dos planos com base no histórico clínico ou no sexo, a se recusar a assegurar um paciente muito caro ou a limitar a quantidade de reembolsos anuais. Por outro lado, exige que qualquer pessoa, americana ou estrangeira, adquira um plano de saúde. A ideia é simples: trazer mais pacientes para o sistema de seguros a fim de baixar os preços. A oposição republicana nunca engoliu essa medida – e a indisposição de muitos eleitores pode desequilibrar a balança na eleição de novembro.

A tônica do ano será revelada no anual Discurso sobre o Estado da União, marcado para 28 de fevereiro, após as férias do presidente. Obama deverá surfar no que, até agora, é o seu maior legado: a economia. Ele assumiu em janeiro de 2009 no auge da crise e vê o país em melhor situação. O desemprego, que era de 10% ao fim do governo George W. Bush, caiu para 7%. Os números não representam um oceano azul: o crescimento projetado para 2014 é de 2,6% e a inflação ainda está bastante longe da meta, mas há uma sensível retomada do varejo e do mercado imobiliário – os principais atingidos pela crise de 2008.

E a pequena, mas melhor notícia para Obama no ano que começa: a possibilidade de uma nova paralisação do governo, como a que ocorreu em outubro, está praticamente descartada. Democratas e republicanos saíram queimados da crise perante a opinião pública. E nenhum candidato quer ver o país paralisado, a Estátua da Liberdade fechada e os parques vazios em pleno ano eleitoral.

A Iugoslávia está morta. Viva a Iugoslávia

29 de dezembro de 2013 2

Quem esteve em Berlim nos últimos 25 anos certamente recorda a cena: nos arredores de Checkpoint Charlie ou nos arredores de Potsdamer Platz, dezenas de lojas ou ambulantes vendendo todo tipo de suvenir da antiga Alemanha Oriental. São máscaras contra armas químicas, réplicas de passaportes com o carimbo da República Democrática Alemã (RDA), pedaços do Muro e adesivos do hoje ícone pop bonequinho do semáforo do lado leste da antiga cidade dividida. Na Alemanha, esse fenômeno ficou conhecido como Ostalgia (nostalgia do Ost, Leste). No fundo, uma busca desenfreada por referências que se perderam da noite para o dia. Hoje, passados 25 anos da queda, pouco ficou desse sentimento – quase tudo virou business.

Se no caso alemão a nostalgia alimenta o turismo, mais à direita do mapa-múndi foi a crise econômica que despertou esse sentimento. Na capital da Eslovênia, Liubliana, uma exposição que vai até o dia 28 de fevereiro resgata o suposto lado light do ex-ditador Josip Broz Tito, o homem que, da II Guerra Mundial até sua morte, em 1980, manteve unida a fórceps a Iugoslávia.

Não é de hoje a chamada Iugosnostalgia. Uma das tantas biografias do marechal, Tito e seus Camaradas, escrita por Joze Pirjevec, mantém-se há dois anos entre as obras mais lidas do país. Para os nostálgicos, é inevitável lembrar o bom padrão de vida e a liberdade para cruzar as fronteiras ocidentais, algo impensável para os demais cidadãos do bloco soviético – Tito rompeu com Stalin em 1948 e manteve o país fora da esfera de influência de Moscou. Também dizem que bastou sua morte para que o país se despedaçasse em uma série de guerras nos anos 1990. Ignoram talvez o fato de a Iugoslávia ter sido um caldeirão em ebulição, com diferentes etnias amarradas pela ditadura e atreladas a um regime personalista e totalitário.

Se hoje é a crise que atrai os nostálgicos, o culto a Tito vai acabar também virando business. Em Belgrado, sua imagem é usada até, quem diria, para vender cerveja.

O que penso para 2014...

27 de dezembro de 2013 0

 É tempo de listas, balanços e retrospectivas. Veja para onde caminha a humanidade no ano que se aproxima: 

 

Mais poderoso

O presidente russo cumpriu a velha cartilha populista: usou um caso específico, o caso do Greenpeace, para dar uma lição a quem se atrever a protestar – seja contra o seu regime, veja as meninas do Pussy Riot, seja contra qualquer coisa, veja o caso dos ambientalistas. Apesar do viés autoritário, ele sai fortalecido, com ares de estadista conservador. Em 2014, deve se consolidar como o grande oponente no xadrez mundial ao protagonismo dos Estados Unidos, em um mecanismo de contrapoder que lembra a Guerra Fria.

 

Mais enrolado

Os alemães diriam que Obama conseguiu capturar o famoso Zeitgeist, o espírito do tempo. Mas poucas promessas de 2008 foram cumpridas – ninguém mais fala da Guerra do Iraque, é verdade, mas a prisão de Guantánamo continua aberta. Amarrado pela ferrenha oposição republicana e constrangido pelo escândalo de bisbilhotagem internacional, Obama tem um segundo mandato sem grandes obras e caminha para o pior dos pesadelos dos presidentes americanos: não deixar um legado para a posteridade. Como numa ampulheta, o tempo escorre pelo carpete do Salão Oval.

 

Chance para a paz?

Depois do ano em que o Ocidente esteve a poucas horas de um ataque à Síria, 2014 começa com boas perspectivas de uma chance à diplomacia. A data-chave é 22 de janeiro, dia previsto para o início da conferência de paz, chamada de Genebra 2. Pela primeira vez em 32 meses de guerra civil, negociadores do governo e da oposição sentarão à mesa para discutir a questão e tentar uma solução pacífica para a crise.

 

Orgulho recuperado

O Brasil encerra 2013 por cima, após o escândalo da espionagem americana. Ao conseguir aprovar na ONU, junto com a Alemanha, uma resolução que regulamenta o direito à privacidade na internet, o país lança as bases do que pode ser a primeira legislação internacional sobre crimes na era digital. O grande teste será na Assembleia-Geral, no meio do ano. Antes, o Brasil vai sediar, em 23 e 24 de abril, a Reunião Multissetorial Global sobre Governança na Internet.

 

Irã moderado

Foi uma conversa de 15 minutos. Mas entrou para a história de 2013 e lança boas energias para 2014. Pela primeira vez desde 1979, um presidente americano conversou com um colega iraniano. A ascensão do moderado Hassan Rouhani ao poder no país dos aiatolás, depois de uma era obscura de Mahmoud Ahmadinejad, dá uma boa chance, senão para uma aproximação diplomática, pelo menos para alguns passos rumo ao entendimento sobre a questão nuclear iraniana.

 

Expansão para o Leste

Mesmo sem conseguir seduzir a Ucrânia, a Europa saiu ganhando e chega às beiradas russas. No dia 1º de janeiro, a Letônia, que pertence à UE desde 2004, adota o euro como moeda oficial. Será o 18º membro da zona do euro, o que é considerado por muitos como um sopro de ar fresco para o bloco, mas que gera resistências entre a população.

 

Renascido das cinzas

Freedom Tower, One World Trade Center ou, simplesmente, WTC1. O principal edifício do novo complexo do World Trade Center, no local onde ficavam as torres gêmeas destruídas em 11 de setembro de 2001, será inaugurado em 2014, ainda sem data. Será o prédio mais alto dos EUA.

 

O até logo de Mujica

Ao legalizar a maconha, José Mujica deixa a presidência do Uruguai para entrar para a História por ter legalizado a maconha. Em outubro, o país vizinho realiza eleições gerais – não há reeleição direta lá. O favorito é Tabaré Vázquez, que já governou o Uruguai entre 2005 e 2010.

 

De volta às trincheiras I

Será um ano de efemérides mundiais, como os cem anos do início da I Grande Guerra. Em 28 de julho, o mundo irá lembrar o crime que foi apenas o estopim da explosão da panela de pressão: o assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, arquiduque Francisco Ferdinando.

 

De volta às trincheiras II

Em julho, o Brasil comemora os 70 anos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. No outono europeu, ocorreu o primeiro combate. No vale do Rio Serchio, na Toscana, militares brasileiros ajudaram na tomada de Massarosa, Camaiore e Monte Prano. Em 24 de novembro, teve início a batalha de Monte Castelo.

 

Independência ou…

Em 18 de setembro, a Escócia vai realizar um referendo sobre sua independência em relação à Grã-Bretanha.

 

Era de mudança

Francisco comanda a primeira grande reforma da Igreja no século 21 – as bases estão no documento a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho). E já teria confirmado, segundo a rede CNN, uma visita histórica à Terra Santa, em maio de 2014.

O ano de Putin

19 de dezembro de 2013 0

O discurso duro, interrompido 34 vezes, na sala São Jorge do Kremlin, na quinta-feira, diante de mais de mil pessoas, coroou o ano de Vladimir Putin. Depois de ter sido presidente sem grandes marcas de 2000 a 2008, um primeiro-ministro forte, mas sem legado no governo de Medvedev (2008 a 2012), o ex-espião, enfim, em seu segundo mandato, consolida-se como um dos homens fortes do século 21. Putin é hoje o único grande contraponto à superpotência americana.

Isso lhe faz lembrar algo? Sim, o cheiro de Guerra Fria não é à toa. O poder precisa de um contrapoder para ser exercido. No caso específico, Putin cresce em influência mundial no antagonismo em relação a Barack Obama.

Não foi um ano bom para o presidente americano. Amarrado pela ferrenha oposição republicana, Obama não consegue fazer alavancar as promessas das duas campanhas e corre o risco de terminar sua era na Casa Branca sem um legado para a posteridade. Pior, o grande risco para Obama é ser lembrado por algo detestável – o escândalo de bisbilhotagem internacional.

Putin, ao contrário, tem vários motivos para comemorar no dia 31 de dezembro, quando olhar para o ano que passou. Vejamos:

1 Liderou um plano que, se não está estancando a guerra civil síria, pelo menos não transformou o país em uma nova Líbia. Enquanto Obama chegou muito próximo de autorizar uma incursão ocidental ao país de Bashar al-Assad, Putin sai como o baluarte da negociação.

2 Enquanto o país das liberdades de Obama caçava o homem que desnudara o escândalo de espionagem, Putin concedia asilo a Edward Snowden.

3 Putin tem comandado uma modernização sem precedentes das forças armadas russas, com investimento equivalente a 552 bilhões de euros.

4 Ainda que a crise na Ucrânia esteja sem solução, ele conseguiu, ao menos por enquanto, evitar que a ex-república soviética ingresse na União Europeia. O canto da sereia de Putin é trazer a Ucrânia para uma união aduaneira, da qual já fazem parte Uzbequistão e Cazaquistão.

Putin é um ator incômodo no teatro internacional. É uma voz discordante da hegemonia americana e europeia. Flerta muitas vezes com o autoritarismo, como se viu no episódio da prisão dos militantes do Greenpeace e das meninas da banda Pussy Riot. Mas apresenta-se com solidez. Em um mundo instável, ele finca pé como baluarte conservador, na defesa de valores tradicionais, que muitos desejam. Consolida-se, assim, como fiador desses valores ante, na sua visão, a decadência do mundo ocidental.

A África do Sul sem Mandela

08 de dezembro de 2013 0

A história contemporânea da África do Sul pode ser dividida em duas fases: antes e depois de Nelson Mandela. Como o mito, que sobrevive à morte do homem, seu legado de construtor de pontes seguirá inspirando discursos dentro e fora do país. O desafio é ir além da retórica. Mandela fez a África do Sul evoluir de um Estado pária durante quatro anos foi considerado fora da lei pela comunidade internacional por causa do apartheid para uma nação reconhecida como potência em ascensão em um continente rico em déspotas e carente de estadistas. Mandela uniu negros e brancos, mas durante seu governo precisou apagar tantos incêndios que ele mesmo reconheceu não conseguiu fazer muito pela economia.

Quando deixou o poder para entrar para a história, em 1998, Mandela foi sucedido por governantes que, menos carismáticos e de caráter duvidoso, envolveram-se em escândalos de corrupção. O país viveu uma série de crises e brigas políticas dentro do partido do líder, o CNA (Congresso Nacional Africano). Além de negligenciar a luta contra a Aids, o sucessor de Mandela, Thabo Mbeki, criou um pacote de reformas econômicas em grande parte responsável pelos altos índices de desemprego. Foi sucedido pelo extravagante Jacob Zuma, que se equilibra no poder, apesar da corrupção e de acusações de estupro.

Ao desemprenho que atinge um quarto da população e à corrupção que corrói as estruturas do Estado, soma-se a criminalidade crescente – é o país com a mais alta taxa de homicídios do mundo. Mas o mais preocupante é o conflito agrário. A exemplo do que ocorreu no Zimbábue de Robert Mugabe, o governo se apropriou de terras improdutivas. Agricultores têm se armado e alegam que pretendem lutar para defender o que acreditam ser deles.

Cerca de 20% dos lares não têm água corrente, e 10% vivem sem luz. Quase 100% dos pobres são negros – isso não mudou. Mas há também muitos brancos na miséria. Segundo o Conselho de Pesquisas de Ciências Humanas da África do Sul, a proporção de pessoas na pobreza na África do Sul não mudou de forma significativa desde 1994. “Na realidade, a camada mais pobre está mais pobre e a diferença social entre pobres e ricos aumentou”, diz a entidade. Mandela fez sua parte ao reconciliar negros e brancos. É hora de começar a batalha para reduzir a desigualdades entre ricos e pobres. Surgirão novos líderes capazes dessa façanha? Mais silencioso do que a cisão racial, o apartheid econômico continua a segregar o país de Mandela.

A ficha caindo

27 de outubro de 2013 0

Tão velha quanto a guerra é a espionagem. Muitas vezes condenada no campo da moral e da ética, a batalha pela informação é e cada vez mais será fundamental em conflitos. Foi assim na II Guerra Mundial e nos quentes anos da Guerra Fria, quando, muitas vezes, o jogo de inteligência poupou os políticos de apertarem o botão do conflito nuclear. Foi também graças à espionagem que os EUA deixaram de procurar Osama bin Laden em uma caverna afegã para localizá-lo em uma mansão na paquistanesa Abbottabad. As guerras não são ganhas por generais no front, mas pelos serviços de inteligência em quartéis-generais a milhares de quilômetros do campo de batalha.

Espionar o inimigo sempre foi justificado – a ação supõe uma ameaça à segurança nacional. No caso dos amigos, é traição. Por isso, as novas denúncias reveladas pelo ex-funcionários da NSA Edward Snowden aprofundam ainda mais a gravidade do caso. Os EUA de Barack Obama bisbilhotaram nações amigas – como o Brasil – e até aliados sólidos e tradicionais como a França, a Alemanha e a Espanha.

O que os EUA buscavam ao espionar os amigos? Qual o interesse por trás das escutas de líderes como Dilma Rousseff, Angela Merkel ou François Hollande? Segurança mesmo, como alega a Casa Branca, ou um doentio vício de tudo saber?

As consequências do escândalo vão muito além de um mal-estar diplomático, pedido de explicações, convocações de embaixadores. A falta de lealdade arranha a confiança recíproca que os EUA tanto buscam na hora de cerrar fileiras contra inimigos comuns – teriam hoje os americanos apoio para uma ação armada contra a Síria, por exemplo? Mais: EUA e aliados são extremamente dependentes em termos de troca de informações – diariamente, compartilham centenas de dados sobre terrorismo, grupos suspeitos, quadrilhas internacionais de drogas, armas e tráfico de pessoas. Ironicamente, preocupado com a segurança do país, o governo Obama acabou colocando em risco não apenas a tranquilidade de seus cidadãos – vigiados também – mas a segurança internacional. Agências de inteligência europeias, acostumadas a passar informações para os americanos diariamente, continuariam a compartilhar dados importantes? A desunião da rede de informações – como já se provou no 11 de setembro americano, no 11 de março espanhol e no 7 de julho britânico – só contribui para grupos terroristas cada vez mais fluidos e descentralizados operarem.

Até a semana passada, era só o discurso de Dilma Rousseff a ecoar na Assembleia Geral da ONU. Na quinta-feira, o escândalo ganhou proporções mundiais com a revelação de que 35 líderes, entre presidentes, primeiros-ministros e chanceleres foram grampeados. Cai a ficha na Europa.