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Posts na categoria "Missão Líbano"

Dia de fazer exercícios de tiro

16 de maio de 2012 0

Estamos em uma área chamada Bárbara II, entre 40 e 50 milhas da costa, entre o Líbano e o Chipre. Esta é uma área internacional para disparos de navios. O país que deseja realizar exercícios com tiros precisa comunicar à Espanha, que faz a gestão desse tipo de atividade na região do Mediterrâneo e do Mar Negro. O Brasil, por exemplo, reservou Bárbara II para fazer o exercício nesta quarta-feira. Há outra área “perto daqui”, a 120 milhas, onde hoje os EUA estão fazendo disparos.


Além de uma carta, onde navios que circulam pela região são alertados sobre o risco, a todo momento, pelo rádio há troca de comunicações. Em tese, todos sabem sobre as áreas de disparos.

O estrondo do canhão 4.5, da proa do navio estremece a fragata União e rompe o silêncio do Mediterrâneo. O projétil é capaz de atingir alvos em terra – como fez o regime de Kadafi, disparando do mar contra o território ocupado pelos rebeldes. Ou pode ser um disparo contra outro navio ou contra aviões. A distância do alvo: 20 quilômetros.



Como se trata de um exercício, são lançados no mar boias laranjas chamadas de killer tomatoes (tomates assassinos) – monitorados por radares, laser e binóculos.

Os disparos mobilizam toda a tripulação – desde a equipe médica, que fica de prontidão até o comandante, que é quem autoriza cada disparo. Além do canhão 4.5, foram feitos tiros com canhão 4.0 e metralhadoras 5.0.


ZH liga o Brasil ao Líbano

16 de maio de 2012 1

Como desde os tempos remotos o jornalista nada mais é do que um mensageiro, divulgo aqui duas mensagens que recebo do Brasil. Uma delas é do pai do marinheiro Feldhaus, de Santa Catarina:

Eu fico muito orgulhoso por ter um filho como este, que representa alem da família, uma cidade, um estedo e um pais e até meso a Organização da Nações Unidas em uma missão de paz, em uma região um tanto perigosa, mas que onde eles estavam atuando já não está tão perigoso no momento que é o litoral do Líbano.

Eu sempre fui muito patriota e ensinei meus filhos a respeitarem e amarem a pátria e seu símbolos, e acredito que isso tenha influenciado um pouco meu filho. Uma coisa eu sempre me orgulhei dos meus filhos, como do Theófilo também é a responsabilidade daquilo que assumem. Eles se dedicam com garra naquilo que escolhem na vida, isto é uma coisa que aprenderam desde pequenos com toda a família, avós tios, e pais. Fiquei muto feliz por term feito esta reportagem com meu filho.

A outra é da Claudiane, mulher do terceiro sargento Eduardo:

Eu me chamo Claudiane e meu marido é o terceiro sargento Eduardo. Estamos na expectativa porque, se der tudo certo, eles virão embora dia 21/05, mas só chegarão ao RJ no dia 7/7. É o que está previsto. Eu o amo demais, e foi muito difícil para mim ficar longe dele. Eu sei o quanto ele é importante, e ele sabe disso por mais que eu fale. Eu gostaria, se você pudesse, me ajudar a fazer esta homenagem a ele e disser o quanto o amo. Nossos filhos são Gabriel e Maria Eduarda.

E como não acredito em jornalismo sem emoção, permitam-me também eu, este simples repórter, me emocionar com as mensagens. Muito legal poder servir de ligação entre as famílias dos militares aí no Brasil e a fragata União, aqui do outro lado do mundo. Abraços!

A terça-feira a bordo

15 de maio de 2012 1

6h da manhã, o alto-falante anuncia:

- União, bom dia! A temperatura ambiente é de 22C, da água 18C.

Em seguida, vem um resumo das notícias no Brasil e uma agenda das atividades, que inclui até o cardápio.

Ouço um tanto sonolento. O aviso não chega a me acordar. Estou das 5h entre dorme-acorda-dorme-acorda de novo. Acostumado a cobrir o ambiente militar, sei que o pessoal acorda cedo. Não seria eu a estragar a tradição.

A noite foi tranquila. Estava cansado, com as pernas doendo do primeiro dia a bordo. Depois do café da manhã, preparo minha própria agenda: prioridades de entrevistas, um papo mais demorado com o comandante Ricardo Gomes para entender os meandros da missão e detalhes da Fragata, demonstração de interceptação de navios suspeitos e o esperado voo de helicóptero.

Na popa do navio, tivemos uma encenação de como os capacetes azuis agem caso seja necessário entrar em um navio para inspeção da carga.

À tarde, um militar de ligação, pertencente à marinha do Líbano, deixa a embarcação de Bangladesh e se integra ao efetivo da União. Quando saio para observar essa operação, me surpreendo com a visão das montanhas que cercam Beirute. Há uma neblina no horizonte, mas mesmo assim, o skyline (nunca pensei que usaria essa expressão para Beirute) da cidade me alegra depois de quase 30 horas no mar.

A aproximação da terra é uma operação de risco. É quando o navio fica vulnerável  diante dos chamados ataques assimétricos. O termo usado até então apenas na bibliografia militar começou a ganhar popularidade após o 11 de setembro de 2001. Um ataque assimétrico nada mais é do que o inimigo não estar caracterizado como militar. Não é uma força regular, um exército. Pode ser um homem-bomba ou terroristas como os que atacaram Nova York naquela manhã de 2001, usando facas de cozinha para sequestrar os jatos.

No caso da costa do Líbano, um ataque assimétrico poderia vir de uma lancha civil, aproximando-se, disfarçadamente, para depois detonar explosivos. Por isso, militares da União são posicionados nas metralhadoras .50 a bordo.

A comida a bordo é excelente. Eu, que sou chato com comidas estranhas, não me sinto fora de casa. Talvez porque seja feita com o nosso tempero e o toque brasileiro, é claro. No almoço: salmão maravilhoso.

À tardinha, veio o esperado voo no Super Lynx AH-11 A, o helicóptero da embarcação (já descrevi abaixo, mas não resisti e coloquei mais fotos desse momento pra vocês).

Em Zero Hora papel, amanhã, mostro como a guerra na Síria está se espraiando para o Líbano. Agora são 23h44min aqui (aí pelo horário de Braspilia 17h44min). Estamos a 30 quilômetros da costa, no quadrante Norte, entre Beirute e Trípoli. Boa noite a todos!

Nenhuma terra por perto

15 de maio de 2012 0

Aqui do alto, a fragata União, um dos maiores navios da Marinha brasileira, não passa de um ponto cinza quase mimetizado ao azul do Mediterrâneo. A bordo do helicóperto Super Lynx AH-11A, subimos de 100 para 300 metros de altitude, em curva, com as portas abertas. O vento é forte. O sol se põe no Oeste, refletindo-se no mar, abrindo com raios um caminho para a fragata.

São todas figuras de linguagens que me vem à mente para buscar pontos concretos, aquele tal de “terra à vista”. Mas não há nada no campo de visão de 360 graus, a não ser o sol, o mar e a fragata. A União, minúscula lá embaixo, vira nosso único ponto de referência.

O Super Lynx pode ser equipado com metralhadoras e foguetes, dependendo da missão. Aqui, no Líbano, é utilizado para interrogar navios suspeitos, para transporte de oficiais entre a terra e a fragata ou em casos de emergência para deslocamento de feridos para hospitais em Beirute.

Depois de 20 minutos de sobrevoo, iniciamos a descida. Pousar um helicóptero em terra não é uma procedimento simples. Muito menos em um navio em deslocamento. A missão, porém, foi fácil, graças à experiência do capitão-tenente Glaucio Alvarenga Colmenero, um dos pilotos. Não chegamos nem perto da mais difícil – à noite, os pilotos precisam decolar e pousar olhando apenas para os instrumentos. Aí, não há sol, mar e a fragata vira apenas um ponto de luz na escuridão.

“A chapa está esquentando”, diz comandante da fragata União

15 de maio de 2012 1

Comandante da Fragata União, o carioca Ricardo Gomes está se despedindo da missão, depois de seis meses no Líbano. Ao receber ZH em sua cabine, a bordo da embarcação, ele fez um balanço da operação, a primeira da Marinha como comandante de uma frota naval internacional, e compara a tensão na região entre novembro, quando chegou, e hoje. Veja os principais trechos da conversa:

Zero Hora - Que balanço o senhor faz ao final desses seis meses no Líbano?

Ricardo Gomes - Quando a gente estava no Brasil, a ideia que se tinha do Libano é que uma bomba explodia em cada esquina da cidade. Hoje, Beirute não é uma cidade impossível de se viver, apesar de você precisar estar sempre atento. O risco existe. Isso aqui não é um exercício, é uma operação real. É um lugar em que você tem de estar pronto para empregar o armamento, se for o caso. A responsabilidade pelo navio e pelas vidas que estão aqui é minha. Ao colocar alguém de serviço, quando o navio está no porto, com o miltar usando colete, capacete e munição real para proteger o navio, as regras de engajamento (que norteiam o trabalho dos militares em força de paz), tudo tem de estar muito explicadinho para não haver excesso.

ZH - No porto, o risco de um ataque terrorista é maior?

Gomes - No mar, você tem liberdade de manobra de se colocar em uma posição favorável. No porto, não. Você precisa demostrar que está pronto para reagir, deixar o militar consciente de que é real, e, ao mesmo tempo, o militar não pode sair disparando em cima de um civil, que não esteja cometendo uma ameaça contra o navio.

ZH – Como está o moral da tropa?

Gomes - Você estar submetido a um ambiente de estresse por um mês é uma coisa, você estar nesse ambiente de estresse por seis meses é diferente. Esse trabalho em relação ao moral do pessoal é importante. Bate a saudade de casa, a monotonia do serviço repetitivo, mas temos de estar atentos. Nesse período aqui, já morreu muito parente do nosso pessoal: pais, mães, sogros, tios, também já nasceu filhos de militares. Há uma vida que está passando aí fora. O lado bom da facilidade de comunicação é que você está sempre matando a saudade. O ruim é que, às vezes, você toma conhecimento de notícias que afetam. Até pelo nível de segurança exigido hoje em Beirute, enquanto estamos atracados, você tem número de de militares a bordo que portam armas muito maior do que em situações normais no Brasil. Você distribui armas para marinheiros, para cabos, para sentinelas e esses caras têm de estar em condições piscólogicas de estar portando-as.

ZH - Como está a situação agora, com o conflito na Síria?

Gomes - Desde que chegamos aqui, senti que uma grande influência do entorno no Líbano: Irã, Síria. Em dezembro, houve o episodio do lançamento de foguetes contra Israel depois de dois anos. Parte da mídia disse que foi o Hezbolllah, parte disse que foram palestinos. Há uma preocupação muito grande da marinha libanesa de demonstrar que o Líbano controla o seu território, o seu mar. A nossa responsabilidade está sendo cumprida. Para que não tenham uma desculpa depois, dizendo: “Olha, você está deixando entrar armamento para A ou B”.

ZH - O nível de tensão está maior?

Gomes - Exatamente. Aconteceu há 15 dias a apreensão do navio Letfallah II, com dois contêineres cheios de armamentos.

ZH – A tensão hoje é maior em relação à Síria do que no Sul, com Israel?

Gomes - Até mesmo em termos de movimento portuário, os portos para o Sul não têm o mesmo movimento de Beirute e Trípoli. E até pela presença israelense na área.

ZH - Há frequentes violações por parte de Israel da área sob proteção da ONU. Ao mesmo tempo, a missão brasileira só pode responder, se for atacada. Isso não é frustrante?

Gomes - Pelo lado israelense, eles têm necessidade de obter algumas informações. Isso aqui ainda é uma guerra. Estamos em um período sem hostilidades, mas eles ainda estão em guerra. Então, Israel fica o tempo inteiro tomando medidas necessárias para, em caso de o conflito voltar, eles terem informações. Se você parar para pensar que eles fazem os voos, mas não fizeram nenhum ataque direto, não há frustração. A missão tem atendido o seu propósito. Mas eu diria que a chapa está esquentando ultimamente. As afinidades políticas entre os vários grupos, como o hezbollah, o governo da Síria e do Irã. As mensagens que são trocadas. O que vai acontecer haja uma acão contra a Síria ou Irã qual será a reação aqui no Líbano... Pode ser que a estabilidade do Líbano seja afetada.

ZH - No momento em que piora a situação na Síria, há algum plano para retirada de brasileiros?

Gomes - O assunto tem sido estudado, quais são as necessidades e tem sido feito planejamento. Agora, devido ao grande número de brasileiros na área, eu diria que a capacidade de uma fragata de transportar o pessoal não atende à demanda. Seriam necessários navios do entorno que possam ser fretados, como foi feito em 2006, para o Chipre. O assunto está sendo acompanhado pelo consulado.

A fragata União - Dados técnicos

15 de maio de 2012 0


O marinheiro Feldhaus cumpria nesta manhã de terça a função de vigilante no alto do navio. Foto: Rodrigo Lopes


A União é uma das seis fragatas da classe Niterói da Marinha brasileira.

Foi construída no Brasil em 1975 e incorporada à Marinha em 1981. O modelo é britânico.

Em 2005, passou por uma mordernização, com a incorporação de equipamentos de guerra eletrônica e radares de última geração. É dotada de dois canhões 40mm, um lançador de míssil anti-aéreo Aspide, quatro lançadores de mísseis Exocet e quatro metralhadoras .50. Um helicóptero Lynx com metralhadora.

A fragata é uma embarcação de escolta e multiemprego – pode atacar aviões, outros navios e submarinos.

Sua casa é a Base Naval do Rio, em Niterói.

Abastecimento – Tem duas turbinas e quatro motores. As turbinas são movidas a óleo diesel especial (MAR-C, equivalente ao combustível usado pela Otan). Para os motores, é utilizado um óleo de qualidade inferior (MGO, usado por navios mercantes). Para ser abastecida com combustível especial, a fragata precisa navegar até o porto de Mersin, no sul da Turquia – uma viagem de 12 horas. As turbinas são usadas apenas para imprimir velocidade mais alta – acima de 18 nós. A União tem autonomia para 10 dias de viagem.


Tropa realiza simulação de inspeção em navio suspeito. Foto: Rodrigo Lopes


Alguns números

Comprimento – 130 metros

Largura – 13 metros

Velocidade máxima – 30 nós (com turbinas)

A temperatura da água no Mediterrâneo 18 C

Tripulação atual – 237 militares

Um pouco do contexto histórico

15 de maio de 2012 0

O Líbano passou por uma guerra civil nos anos 80 e ocupações israelense e síria até os anos 2000. Em 2006, uma nova guerra explodiu entre Israel e a guerrilha libanesa do Hezbollah, depois que a milícia sequestrou dois soldados israelenses na fronteira. Israel reagiu com bombardeios e a invasão do sul do país. O conflito durou cerca de 30 dias.

Depois da guerra, foi criada pelo Conselho de Segurança da ONU a MTF (força-tarefa marítima), com o objetivo monitorar a fronteira entre Líbano e Israel e ajudar o governo libanês a evitar a entrada de armas ilegais que poderiam parar nas mãos do Hezbollah.

O Brasil participa da força marítima com a fragata União, da Marinha, que lidera a frota internacional que inclui ainda três navios alemães, dois de Bangladesh, um grego, um turco e um da Indonésia. Esta é a primeira vez que militares brasileiros participam da frota naval de uma força de paz.

A frota é o braço marítimo da Unifil (Força Interina das Nações Unidas para o Líbano), criada em 1978 para supervisionar a retirada das tropas de Israel do território do Líbano. Toda a missão conta com 12 mil militares de 37 países.

Esta semana a Fragata União será substituída pela Fragata F-43 Liberal, que deixou o Rio no dia 10 de abril.

Catarinense é responsável pela qualidade do armamento em embarcação brasileira no Líbano

15 de maio de 2012 3

Está nas mãos de um catarinense a garantia da qualidade do armamento utilizado pela fragata União, embarcação que comanda a frota naval da ONU no Líbano. Natural de Ituporanga, o marinheiro Theofilo Fernando Feldhaus, 22 anos, cresceu em Jaraguá do Sul e integra a tripulação da União mesmo antes da missão começar.

A bordo, Feldhaus tem como funções garantir a limpeza do armamento — a fragata está equipada com dois canhões 40mm e metralhadoras . 50 e auxiliar na manutenção geral do navio. O armamento só pode ser usado em caso de ataque contra a embarcação. A União patrulha as águas libanesas em busca de navios suspeitos de transportar armas ilegais. A cada sete dias no mar, permanece três atracada em Beirute.

— É um orgulho estar aqui representando o meu país. Quando chegamos, pegamos temperaturas de 4ºC, que me lembravam o Sul. No verão, chega a 40ºC, que lembra o Rio — conta.

Os primeiros no Líbano, no final do ano passado, foram os de maior emoção. Quando a fragata atracava no Porto de Beirute, os militares aproveitavam para conhecer a capital libanesa.

— As pessoas nos paravam e queriam saber de onde éramos. Quando nos identificávamos como brasileiros, todos ficavam felizes — diz o jovem.

Depois de passar em concurso para a Marinha, em 2010, Feldhaus estudou na Escola de Aprendizes Marinheiros, em Florianópolis. Em seguida, mudou-se para o Rio e escolheu trabalhar na fragata União.

— Já escolhi porque gostava de viajar.

Da missão, que se encerra esta semana, o marinheiro conta que fica na lembrança a diversidade cultural libanesa: muçulmanos sunitas, xiitas e cristãos dividindo a mesma cidade.

O cotidiano no navio exige preparação e cuidado com o confinamento. Para driblar a saudade de casa, academia (há uma área com esteiras e equipamento para musculação a bordo) e telefonemas três vezes por semana para o pai, que mora em Jaraguá do Sul.

— É como se a gente estivesse em uma caixa — compara ele, sobre a vida a bordo.

A viagem de volta ao Brasil começa esta semana, quando a fragata União será substituída por outra embarcação do mesmo tipo, a Liberal. Feldhaus e os companheiros devem chegar em casa dentro de um mês. E com a experiência em sua primeira missão de paz, já há novos planos:

— Ano que vem, quero virar cabo.

Código internacional de sinais

14 de maio de 2012 0

18h58min

Sou chamado à ponte de comando. O comandante Ricardo Gomes está preocupado. Um navio não responde aos chamados por identificação. É possível avistá-lo. Gomes compara com a imagem de embarcações em um grande livro, uma espécie de dicionário de navios. É um Moma de inteligência russo. Esta é a terceira vez que ele aparece na área desde o início da missão.

— Ele está descendo em direção ao Sul. E um navio russo nessa região é um sinal.

A Rússia é um tradicional aliado do regime de Bashar al-Assad na Síria. Sua presença na área é uma demonstração de poder. Como não responde ao rádio, a tensão se estabelece. Estamos a 60 quilômetros da costa. A União aproxima-se da embarcação suspeita. Na sala de comando, com binóculos e máquinas fotográficas, os militares tentam identificar o nome do navio. Quando surge um sinal avisado pelo sinaleiro — o militar no posto de observação mais alto.

— Ele está dizendo boa viagem — alguém grita.

É o código internacional de sinais. Os militares correm para responder.

— Também desejam boa viagem.

Mas a presença do navio na área é uma clara violação dos acordos com a ONU e o episódio será informado ao comando da missão.

**



19h36min

As luzes brancas são substituídas pela luz encarnada que toma os corredores. Ela é usada para que os pilotos do helicóptero se acostumem mais rápido à escuridão lá fora, no caso de voo noturno. No alto-falante, uma voz de comando decreta o fim do dia:

— Boa noite!

Tempero brasileiro

14 de maio de 2012 0

16h

O arroz e o feijão vieram do Brasil.

— Aqui, feijão só em lata — reclama o cozinheiro Bruno Barreto, 26 anos, do Rio de Janeiro.

Aproveito para espiar o que teremos de jantar: peito de frango acebolado e batatas fritas. A rotina do cabo Bruno é pesada. Acorda às 6h da manhã, o café precisa estar pronto. E vai dormir antes das 22h.

— A gente tenta colocar o tempero brasileiro — sorri, enquanto prepara o jantar, que será servido às 18h.

**

18h30min

Começo a perceber o confinamento como o maior desafio a bordo. É possível passar horas no interior do navio sem ver o tempo lá fora. Imagino que já anoitece. Mas basta sair no convés principal para ver que o sol ainda não se foi. Venta forte. O capitão-tenente Sandro Barreto, 32 anos, explica que debaixo de nós a profundidade é de quase mil metros.

Militar vive com saudade de casa. Com Barreto, não é diferente. Há poucos computadores com acesso à internet, mas um telefone com linha direta com o Rio ajuda a aliviar os momentos difíceis.

14h44min: o fogo é o pior inimigo de um navio

14 de maio de 2012 0


Um alerta percorre os corredores da União pelo alto-falante.

— Colisão pela proa à boreste.

Há fumaça. A brigada de combate a incêndios atua no local, um escritório, e em outros dois compartimentos — em um deles, há alagamento.

O fogo é o pior inimigo de um navio. Penso na tragédia na Estação Comandante Ferraz, na Antártica. Na fragata, um incêndio semelhante poderia ser ainda pior — faria a embarcação naufragar.

Felizmente, hoje, trata-se de uma simulação. Os "feridos" são levados para uma enfermaria transformada em centro cirúrgico. O capitão-tenente Alexandre Coutinho, 37 anos, e o capitão-tenente Rodrigo Mathias, 34, são os dois médicos a bordo. Na fragata, eles têm condições de fazer cirurgias com anestesia geral e há desfibriladores para casos de parada cardíaca.

— O momento mais crítico foi a viagem até aqui. Durante 10 dias, no Oceano Atlântico, precisávamos estar preparados para tudo — explica Coutinho.

Para a travessia, os médicos transportaram bolsas com sangue. Nos seis meses de missão, houve apenas ferimentos leves: pequenos cortes e contusões.

A última patrulha da União nas águas do Líbano antes do retorno ao Brasil

14 de maio de 2012 0

9h50min

Esta é a última patrulha da União nas águas do Líbano antes do retorno ao Brasil, uma viagem que deve levar um mês. Esta semana, ela será substituída pela Fragata Liberal, que já está no Porto de Beirute. No briefing de segurança, somos orientados sobre como abandonar o navio em caso de emergência. Fixo o olhar em tela de LCD onde são passadas as instruções. Sinto os primeiros efeitos do mar. Meu estômago dá voltas. Prestes a perder o equilíbrio, decido sentar.

Essa sensação passa com o tempo a bordo, garantem os mais experientes. A minha ainda não passou…

**

10h

A área total de patrulha das forças brasileiras compreende um retângulo imaginário de 180 mil quilômetros quadrados — até as fronteiras com Israel (Sul) e Síria (Norte). Saio para o convés principal. O tempo nublado não permite ver a posição do sol. É água por todos os lados. Não há como definir, sem os instrumentos do navio, para que lado fica a terra.

**

11h44min

O centro de controle detecta a presença de um navio suspeito. Na tela do radar, a identificação: UJ4503. A informação é passada ao comandante, que ordena um interrogatório. O capitão-tenente Gleidir Abreu, 34 anos, natural do Rio de Janeiro, aparenta tranquilidade. Pelo rádio, em inglês, o navio suspeito responde. Saiu do Egito rumo a Beirute. Não é possível avistá-lo a olho nu. Estamos a 8 milhas da embarcação suspeita — aproximadamente 16 quilômetros. Ao ser questionado sobre a carga, a resposta:

— Pet Coke.

Na ponte de comando da União, os oficiais olham entre si:

— Pet Coke?

Gleidir insiste para que o comandante da outra embarcação seja mais preciso. Depois de alguns diálogos, a tripulação compreende que trata-se de garrafas PET vazias.

Em seis meses aqui, foram cerca de 600 interrogatórios como estes. Nem sempre há resposta. Não é incomum, segundo os militares, a ação de caças F-16 israelenses ou aeronaves não tripuladas violarem a área sob proteção da ONU.

Com ordem apenas para responder caso seja atacada, a fragata brasileira limita-se a informar o comando da Unifil, que se encarrega de protestar oficialmente pelo descumprimento dos acordos internacionais.

**

13h30min

Volto ao meu camarote para descansar. O balanço do navio pressiona minhas costas contra o colchonete, como se alguém de cima forçasse o seu peito para baixo. De um lado e de outro.

8h30min

14 de maio de 2012 0

— Tá parecendo Rio Grande.

A frase é do comandante Ricardo Gomes, no convés superior, enquanto Beirute fica para trás. A velocidade do vento atinge 15 nós (30 km/h). O Mar Mediterrâneo está agitado. Por isso, a comparação com Rio Grande. As condições do tempo mudam muito rapidamente por aqui. Relatórios com a previsão meteorológica chegam a cada três horas.

Pelo acordo com a ONU, a fragata União deve ficar 70% dos dias no mar. A principal ameaça, explica Gomes, são ataques assimétricos — embarcações civis que podem se aproximar da União para realizar atentados. Por isso, além de dois canhões 40 mm, a embarcação foi equipada com quatro metralhadoras .50, propícias para reações rápidas.

7h48min, o primeiro desafio

14 de maio de 2012 0

O primeiro desafio é não bater a cabeça no alto das escadas dos oito convéses da fragata. É preciso também olhar para o chão. As portas são em formato de U — em caso de inundação, isso evita que a água se espalhe. Logo, é preciso dar um passo alto cada vez que se cruza um compartimento. Termino o primeiro passeio de reconhecimento sem fôlego com o sobe-desce e um saldo de duas batidas com testa e uma canelada na escada. Pronto para zarpar.

Diário de bordo: 7h30min

14 de maio de 2012 0

— Em navio não se corre, anda-se acelerado — ensina um militar, repetindo uma das leis do mar.

Em um ambiente limitado como o da Fragata União, um acidente a bordo deve ser evitado a qualquer custo: um tombo, ou, pior, uma queda no mar, pode determinar não apenas a vida ou a morte, mas o sucesso ou o fracasso da missão.

Subo a bordo da embarcação nesta manhã, conduzido, a passos acelerados, por um corredor estreito, cheio de canos e fios próximos às paredes brancas.

A cabine 105, ao final do corredor principal, será o meu quarto pelos próximos dias. É um ambiente em madeira. Calculo dois metros quadrados. A cama, estilo beliche, é estreita. Com 1,87 m de altura, testo se consigo esticar o corpo. É possível, mas não muito. Além da cama, na cabine há um pequeno armário e uma pia. Na parede um decálogo de segurança:

"Lembre-se que o conhecimento de assunto sigiloso depende da função desempenhada pelo militar e não do seu grau hierárquico ou posição".

Espio pela porta, e a sensação que tenho é de, se me largarem aqui, sozinho, não conseguirei sair do navio. Por dentro, a fragata União é como um labirinto de corredores, escadas e portas-estanque. Atracada, nada se move. A embarcação parece estável. Continuará assim?