
Comandante da Fragata União, o carioca Ricardo Gomes está se despedindo da missão, depois de seis meses no Líbano. Ao receber ZH em sua cabine, a bordo da embarcação, ele fez um balanço da operação, a primeira da Marinha como comandante de uma frota naval internacional, e compara a tensão na região entre novembro, quando chegou, e hoje. Veja os principais trechos da conversa:
Zero Hora - Que balanço o senhor faz ao final desses seis meses no Líbano?
Ricardo Gomes - Quando a gente estava no Brasil, a ideia que se tinha do Libano é que uma bomba explodia em cada esquina da cidade. Hoje, Beirute não é uma cidade impossível de se viver, apesar de você precisar estar sempre atento. O risco existe. Isso aqui não é um exercício, é uma operação real. É um lugar em que você tem de estar pronto para empregar o armamento, se for o caso. A responsabilidade pelo navio e pelas vidas que estão aqui é minha. Ao colocar alguém de serviço, quando o navio está no porto, com o miltar usando colete, capacete e munição real para proteger o navio, as regras de engajamento (que norteiam o trabalho dos militares em força de paz), tudo tem de estar muito explicadinho para não haver excesso.
ZH - No porto, o risco de um ataque terrorista é maior?
Gomes - No mar, você tem liberdade de manobra de se colocar em uma posição favorável. No porto, não. Você precisa demostrar que está pronto para reagir, deixar o militar consciente de que é real, e, ao mesmo tempo, o militar não pode sair disparando em cima de um civil, que não esteja cometendo uma ameaça contra o navio.
ZH – Como está o moral da tropa?
Gomes - Você estar submetido a um ambiente de estresse por um mês é uma coisa, você estar nesse ambiente de estresse por seis meses é diferente. Esse trabalho em relação ao moral do pessoal é importante. Bate a saudade de casa, a monotonia do serviço repetitivo, mas temos de estar atentos. Nesse período aqui, já morreu muito parente do nosso pessoal: pais, mães, sogros, tios, também já nasceu filhos de militares. Há uma vida que está passando aí fora. O lado bom da facilidade de comunicação é que você está sempre matando a saudade. O ruim é que, às vezes, você toma conhecimento de notícias que afetam. Até pelo nível de segurança exigido hoje em Beirute, enquanto estamos atracados, você tem número de de militares a bordo que portam armas muito maior do que em situações normais no Brasil. Você distribui armas para marinheiros, para cabos, para sentinelas e esses caras têm de estar em condições piscólogicas de estar portando-as.
ZH - Como está a situação agora, com o conflito na Síria?
Gomes - Desde que chegamos aqui, senti que uma grande influência do entorno no Líbano: Irã, Síria. Em dezembro, houve o episodio do lançamento de foguetes contra Israel depois de dois anos. Parte da mídia disse que foi o Hezbolllah, parte disse que foram palestinos. Há uma preocupação muito grande da marinha libanesa de demonstrar que o Líbano controla o seu território, o seu mar. A nossa responsabilidade está sendo cumprida. Para que não tenham uma desculpa depois, dizendo: “Olha, você está deixando entrar armamento para A ou B”.
ZH - O nível de tensão está maior?
Gomes - Exatamente. Aconteceu há 15 dias a apreensão do navio Letfallah II, com dois contêineres cheios de armamentos.
ZH – A tensão hoje é maior em relação à Síria do que no Sul, com Israel?
Gomes - Até mesmo em termos de movimento portuário, os portos para o Sul não têm o mesmo movimento de Beirute e Trípoli. E até pela presença israelense na área.
ZH - Há frequentes violações por parte de Israel da área sob proteção da ONU. Ao mesmo tempo, a missão brasileira só pode responder, se for atacada. Isso não é frustrante?
Gomes - Pelo lado israelense, eles têm necessidade de obter algumas informações. Isso aqui ainda é uma guerra. Estamos em um período sem hostilidades, mas eles ainda estão em guerra. Então, Israel fica o tempo inteiro tomando medidas necessárias para, em caso de o conflito voltar, eles terem informações. Se você parar para pensar que eles fazem os voos, mas não fizeram nenhum ataque direto, não há frustração. A missão tem atendido o seu propósito. Mas eu diria que a chapa está esquentando ultimamente. As afinidades políticas entre os vários grupos, como o hezbollah, o governo da Síria e do Irã. As mensagens que são trocadas. O que vai acontecer haja uma acão contra a Síria ou Irã qual será a reação aqui no Líbano... Pode ser que a estabilidade do Líbano seja afetada.
ZH - No momento em que piora a situação na Síria, há algum plano para retirada de brasileiros?
Gomes - O assunto tem sido estudado, quais são as necessidades e tem sido feito planejamento. Agora, devido ao grande número de brasileiros na área, eu diria que a capacidade de uma fragata de transportar o pessoal não atende à demanda. Seriam necessários navios do entorno que possam ser fretados, como foi feito em 2006, para o Chipre. O assunto está sendo acompanhado pelo consulado.
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