Para que se cumpra o papel esperado de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, deputados e senadores não podem fazer investigação seletiva, protegendo os seus e jogando os adversários aos leões. Que se convoquem todos os homens e mulheres sobre os quais pairam acusações de envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, sejam deputados, senadores, governadores ou jornalistas. Que se chame para depor o jornalista Policarpo Jr., da revista Veja, ou que ele se antecipe e vá à CPI para esclarecer suas relações com as fontes do submundo.
Antes de condenar o jornalista, como vêm fazendo os adversários da Veja, é preciso ouvi-lo, como manda a Constituição no capítulo sobre o direito de defesa. As gravações que vazaram até agora mostram que Cachoeira, o senador Demóstenes Torres e o empresário Claudio Abreu, da Construtora Delta, eram fontes de Policarpo e a ele se referiam com intimidade, inclusive chamando-o pelo apelido de "Poli". Não há, até o momento, gravações comprometedoras da voz de Policarpo com as fontes do submundo. O que se conhece são referências a ele em diálogos de Demóstenes, Cachoeira e Abreu. Essas conversas indicam conhecimento das rotinas da revista, fornecimento de informações obtidas ilegalmente, como as fotos das pessoas ligadas ao governo que se encontraram com o ex-ministro José Dirceu em uma suíte do Hotel Nahoum.
É verdade que a revista Veja publicou reportagens de alto impacto contra membros do governo, mas quem demitiu os ministros e assessores acusados de irregularidades foi a presidente Dilma Rousseff, por entender que as denúncias tinham fundamento ou por não ter motivo para preservá-los nos cargos. Outros, como Gilberto Carvalho, acusados em reportagens da Veja, foram mantidos porque as denúncias não paravam em pé. A reportagem sobre Dirceu acabou se transformando em um tiro no pé para a revista, já que um dos seus repórteres foi parar na delegacia, acusado de tentar enganar uma camareira para entrar na suíte do ex-ministro.
Se a revista Veja cometeu excessos, esse é um problema da relação dela com seus leitores. Não pode servir de pretexto para uma cruzada contra a liberdade de imprensa nem para tentar provar que o mensalão não existiu. Um erro não anula o outro, nem o justifica. Amordaçar a imprensa é o sonho de consumo dos que desejam exercer o poder sem vigilância, dos corruptos que desviam dinheiro público e dos corruptores que se infiltram nas estruturas de poder e distribuem benesses para levar vantagem.


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