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Posts do dia 13 junho 2012

O último governador de um ciclo

13 de junho de 2012 26

Quase trinta anos longe do poder e seis de afastamento completo da vida pública por conta da doença que o matou fizeram do ex-governador Amaral de Souza uma figura praticamente desconhecida dos jovens. O último governador gaúcho da ditadura militar  morreu no início da manhã, em casa, onde vivera os últimos anos preso a uma cama, cuidado pela mulher, Miriam, e pelas filhas.
Nas primeiras manifestações de pesar pela morte de Amaral de Souza, um estaque unânime: foi no governo dele que o Rio Grande do Sul superou a síndrome do caranguejo, se uniu e conquistou o Polo Petroquímico de Triunfo. Discreto, Amaral nunca foi um grande orador, como era, por exemplo, o deputado Jarbas Lima. Mas foi ungido por Ernesto Geisel para "destampar a panela de pressão", como o Rio Grande do Sul era visto pelos militares nos estertores do regime. Conseguiu comandar a transição para a democracia sem maiores solavancos, elegeu o sucessor, Jair Soares, mas experimentou dissabores que o fizeram guardar distância da política. O governo do Estado foi seu último cargo público. Morreu como presidente de honra do PP, homenagem feita no ano passado, em uma solenidade à qual não pôde comparecer por estar doença. Dona Miriam e a filha Denise receberam a homenagem por ele.
Foi no governo de Amaral de Souza que os professores descobriram sua força como categoria. Reunidos no Cpers, protagonizaram a primeira grande greve do magistério, tomaram a Praça da Matriz por vários dias e atormentaram o governador com suas sinetas, lutando pelo piso de 2,5 salários mínimos.
No segundo semestre de 1982, ocorreu um episódio que os amigos de Amaral, como o secretário Mauro Knijnik,  gostariam de esquecer: a briga com o então todo-poderoso dono da Empresa Jornalística Caldas Jr., Breno Caldas. Endividado em dólares para equipar a TV Guaíba, Breno Caldas sofreu um baque com a maxidesvalorização do cruzeiro e tentou, sem sucesso, obter socorro no Banrisul. Como Amaral não atendeu seu pedido, escreveu no Correio do Povo um editorial com o título "Palmo e Meio". Nele, o velho Breno dizia que quando foi convidado por seis ou sete generais para dar sua opinião sobre o vice-governador Amaral de Souza, que estava para ser indicado governador, respondeu: "Eu não tenho opinião. Não tenho dele um conhecimento que me autorize a ter uma opinião formada a seu respeito. Quando muito posso ter uma impressão... e que não é favorável!" . Na versão de Breno Caldas, os generais teriam se surpreendido e insistido para que expressasse sua opinião. Ele teria respondido: "O Amaralzinho está abaixo do nível necessário... falta-lhe pelo menos um palmo e meio! Em todos os sentidos! Físico, pessoal e moral..." .
O desfecho é conhecido: Amaral, que estava no fim do governo, conseguiu eleger o sucessor em uma eleição repleta de polêmica. Em março de 1983, empossou Jair Soares e foi trabalhar como advogado. O império de Breno Caldas desmoronou, o Correio do Povo foi fechado e só reabriu em 1986, comprado pelo empresário Renato Ribeiro.
Essa não foi a única polêmica envolvendo a biografia de Amaral de Souza. Ele extinguiu o famigerado Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e, segundo a versão oficial, mandou incinerar documentos que permitiram montar o quebra-cabeça das perseguições políticas no Rio Grande do Sul. Ficou na História uma lacuna que a Comissão da Verdade, criada pela presidente Dilma Rousseff, não conseguirá preencher.
Para quem conviveu com ele fica a imagem de um conciliador que conseguiu conduzir o Estado sem maiores sobressaltos no período de transição. Era criticado pelas contratações de servidores  públicos, mas nunca viu seu nomes envolvido em um escândalo.