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Sobre Lincoln, o filme

24 de janeiro de 2013 8

Há duas unanimidades entre os brasileiros que  assistiram ao filme Lincoln em sessões especiais ou em cópias piratas: que é o mensalão dos Estados Unidos e que o desempenho de Daniel Day-Lewis é tão extraordinário que dele ninguém tira o Oscar de melhor ator. As duas premissas são verdadeiras, mas Lincoln é muito mais do que isso. Não é um um filme para arrebatar plateias fora dos Estados Unidos como são, em geral, as produções de Steven Spielberg. Lincoln é para quem gosta de política, tem um mínimo de conhecimento da história e paciência para assistir a sessões de casas legislativas e se encanta com um bom texto.  
O filme de Spielberg não tem a ternura de ET, a carga dramática de A Lista de Schindler, a emoção de O Resgate do Soldado Ryan, a tensão de Parque dos Dinossauros ou o ritmo aventureiro de Indiana Jones. Se comparar com outras obras do mesmo diretor é um tanto monótono, filmado em tons sombrios, com a maioria das cenas feitas em gabinetes fechados ou no plenário de uma acanhada Câmara dos Deputados, em fins do século 19. Não tem carros explodindo, não tem cenas de sexo, não tem mulheres bonitas nem homens atléticos. Os principais personagens são senhores idosos, que envergam um figurino de gosto duvidoso. Isso sem falar nos estereótipos – do lobista sem escrúpulos, do oposicionista histérico, do político fraco e manipulável. E, mesmo assim, é um grande filme.
Lincoln é a paixão de um homem por uma causa, a da abolição, em meio à guerra civil que o cinema popularizou em E o Vento Levou. Seu maior mérito é provocar a reflexão sobre os limites de um homem ético quando está em jogo uma causa maior. Em outras palavras, é a pergunta contida nas entrelinhas que o espectador precisa responder: até que ponto os fins justificam os meios?
Em uma das cenas finais, Tommy Lee Jones, no papel do abolicionista Thaddeus Stevens, pronuncia uma frase emblemática:
– A mais grandiosa medida do século 19 passou por meio da corrupção endossada e promovida pelo homem mais puro da América.
Sim, o que Lincoln manda seus assessores fazerem é comprar o apoio de democratas para garantir os votos que faltam mesmo com o apoio unânime dos republicanos. Não há distribuição de dinheiro, mas compra de apoio com chantagem e promessa de cargos. Quando seus interlocutores fracassam na tentativa de obter maioria, e faltam os derradeiros votos, Lincoln entra em cena, apelando para os princípios dos homens a quem precisa conquistar. Não suja as mãos, não usa o verbo comprar, mas dá aval ao jogo sujo que seus enviados fazem para atingir o objetivo.
O filme também abre espaço para a discussão do direito adquirido e das verdades de cada época. Para os adversários da emancipação dos negros, o fim da escravidão seria caótico para a economia dos Estados Unidos, e o voto feminino, uma tragédia. Foram necessários mais de 140 anos para que o negro Barack Obama chegasse à Presidência da República e, reeleito, fizesse um discurso de posse que em vários momentos lembrou a obsessão de Lincoln pela igualdade.

ALIÁS

Qualquer semelhança entre a forma como Lincoln conseguiu maioria para abolir a escravatura e os métodos usados no governo Lula para ter maioria no Congresso é mera coincidência.

Comentários (8)

  • Carlos Alberto Potoko diz: 24 de janeiro de 2013

    Querida Rosane, teu texto é bom, mas se perdeu na comparação. Seria mais apropriado comparar com D Pedro II quando da nossa lei área. O filme se passa ao mesmo tempo em que se preocupava com o conflito, o o 16º presidente norte-americano, Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis), travava uma batalha ainda mais difícil em Washington. Ao lado de seus colegas de partido, ele tentava passar uma emenda à Constituição dos Estados Unidos que acabava com a escravidão. Querer comparar tamanha magnitude épica com mensalão. Por favor!

  • Gustavo diz: 24 de janeiro de 2013

    Qualquer comparação entre a forma como Lincoln conseguiu maioria para abolir a escravatura e os métodos usados no governo Lula é para ter maioria no Congresso é distorção. Lula usou de influência e métodos excusos para perpetuar o poder do grande partido e favorecer interesses privados. Se Lincoln comprou indiretamente votos para passar a 13ª emenda, ao menos o fez por uma causa justa, em um momento em que não era provável a vitória.

  • Hortelino Trocaletra diz: 24 de janeiro de 2013

    Mas a Guerra Civil ocorreu em razão da Suprema Corte manter, em decisão final, o direito de escravidão. Então, somente através de Emenda á Constituição, o que era impossível, diante da dificuldade do quórum para aprovação. A partir dai, somente uma guerra civil poderia conceder a liberdade aos negros – excepcional povo afro-americano. Essa guerra matou mais americanos do que a 2ª Guerra Mundial. E era o exemplo de Churchill, quando dizia que os Estados Unidos eram um Pais muito perigoso e vingativo para ser acordado.

  • Carlos Pires diz: 24 de janeiro de 2013

    A propaganda sempre foi a alma do negócio, mas acho que neste caso os atuais envolvidos no Mensalão e seus partidos se quiserem usar este fato histórico ocorrido nos EUA para justificar os dias de hoje, não vai dar certo. Primeiro pq. o povo esta mais interessado no BBB do que em História e quem tem algum conhecimento sabe muito bem que não dá para comparar um estadista como Lincoln e muito menos seus métodos com qq. politico e seus atos no Brasil dos dias de hoje. Fica um assunto só para meia dúzia discutir.

  • marco diz: 24 de janeiro de 2013

    Endosso as opiniões anteriores. A compra de votos do mensalão era por motivos torpes. Naquela época a escravidão fazia parte do cotidiano e para muitos agricultores a abolição era uma mudança de paradigma e uma tragédia. Neste contexto Lincoln, teve visão de humanidade além de seu tempo, lutou contra a maré e vendeu a alma por uma boa causa. A comparação com o mensalão é infeliz.

  • jr ac/dc diz: 24 de janeiro de 2013

    Todos os congressos são iguais. Mensalão do Lincoln lá. Aqui de volta o Calheiros.
    Dos 3 senadores gaúchos só um disse que não vota nele. A maioria é omissa.

  • Jose diz: 25 de janeiro de 2013

    Rosane, gostaria que lula fosse a metade do politico que Lincoln foi ha mais de um seculo. Homem grandioso, astuto, habilidoso manteve os EUA unido depois de uma guerra civil sangrenta. A comparacao nao cabe. Quais eram os fins de Lincoln? Quais eram os fins de lula? Por favor compare!

  • nelico diz: 28 de janeiro de 2013

    Alguem comentou que congresso são todos iguais…Pode até ser,mas cada deputado brasileiro custa 10 vezes mais que na Espanha,6 vezes mais que na Argentina e 4 vezes mais que na frança.Isto sem considerar a “troca de favores” que é o que eles mais praticam durante seus mandatos.Até quando o “patriotico” povo brasileiro vai engulir tamanho disparate?Até quando o lulo-petismo vai corroer as instituições publicas brasileiras? Até quando os caciques do PMDB vão elaborar leis para beneficiar seus apadrinhados?Até quando os partidos de aluguel vão negociar seu apoio politico-eleitoral em troca de cargos sem concurso na administração pública?Até quando o judiciario vai funcionar como cagado favorecendo a corrupção,o peculato e a formação de quadrilha?Até quando as diligencias da policia federal serão torpedeadas por procuradores venais e bancas de advogados famosos que se utilizam de embargos declaratorios ou de infringencia p/ protelar a punição dos malfeitores?

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