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Nem toda madrasta é malvada

17 de abril de 2014 13

CRÔNICA

Sempre que uma criança é vítima de uma bandida, como Bernardo Boldrini foi de Graciele Ugulini, uma parcela da população tende a fazer generalizações absurdas, como se madrasta fosse, necessariamente, sinônimo de mulher má. Minha solidariedade às boas madrastas, que tratam os filhos de seu companheiro com carinho, respeito e dedicação. Graciele Ugulini e Ana Carolina Jatobá, a madrasta assassina de Isabela Nardoni, são exceções, mas, infelizmente, o estigma se acentua em momentos trágicos como este.
Na quarta-feira, o programa Polêmica tratou do caso e fez a seguinte pergunta: “Madrasta é suspeita de matar o filho da outra. As madrastas são estigmatizadas. É uma injustiça?” Foi um programa com convidados inteligentes  _ o psiquiatra Jaime Vaz Brasil, lúcido e inspirado, a psicóloga Sônia Sebenelo e advogada Delma Silveira Ibias, presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família. Imaginei que o resultado da enquete daria algo como 99% dizendo que é injusto estigmatizar as madrastas mas, para minha surpresa, 25% responderam que não. Mesmo não sendo uma pesquisa científica (as respostas são dadas pelo Facebook) fiquei alarmada e pensei com os meus botões: pobres das boas madrastas. Elas não merecem essa suspeita.
A palavra não ajuda. Madrasta é substantivo e adjetivo. Como substantivo feminino, diz o Aurélio, é “a mulher com relação aos filhos do anterior matrimônio do marido”. Até aqui, tudo bem. No sentido figurado, “mãe pouco carinhosa, que maltrata os filhos” ou “qualquer mulher ou qualquer coisa de que provêm dissabores em lugar de carinho”. Exemplo: “A fortuna lhe foi madrasta”. Como adjetivo, “ingrata, avara, pouco carinhosa”.
Na origem dessa má fama estão os contos de fada. Quem não abominou a madrasta da Cinderela, que escravizou a menina quando ela ficou órfã de pai? Que criança não teve medo da madrasta da Branca de Neve, que contratou um matador de aluguel para dar cabo da enteada e, fracassada essa tentativa, disfarçou-se de velhinha para dar-lhe a maçã envenenada? Bruxas as duas, como muitas madrastas da vida real, mas menos cruéis do que Graciele e Ana Carolina. Aliás,  Graciele consegue ser ainda pior do que Ana Carolina porque, segundo a investigação, premeditou o crime _ e pode ter matado Bernardo por pura ganância.
Conheço tantas mulheres que se enquadram nos neologismos “boadrasta” ou “otimadrasta” que seria injusto escolher uma ou duas para ilustrar esta crônica. Sou tentada a falar de Carmela, madrasta da minha amiga Helena, uma senhorinha encantadora que conheci nos anos 1980. Mas não quero fulanizar. Esta é uma relação em geral delicada, seja o marido viúvo, divorciado ou solteiro com filhos. As boas madrastas sabem que não podem querer ocupar o lugar da mãe. Seu papel não é fácil, porque as crianças fazem comparações, não raro têm ciúme do pai e com frequência, no caso de pais divorciados em processo litigiosos, são induzidas pela mãe biológica a rejeitar a nova companheira do pai.
Quase tudo o que se diz sobre as madrastas vale também para os padrastos. É verdade que há casos de criminosos que abusam ou agridem filhos da companheira, alguns que torturam e matam por não tolerar o choro de um bebê, mas não se pode generalizar. Também há mães e pais biológicos que maltratam os filhos, sonegam amor e se omitem diante da violência dos companheiros.

Comentários (13)

  • Noelza Nins diz: 17 de abril de 2014

    Que perda de tempo, minha senhora! Todo mundo sabe, pelo menos a parcela da humanidade que conta, por ser letrada e cartesiana, que toda generalização é estúpida! Então por que este post a la contos da carochinha? Será a senhora madrasta de alguém? Teria sido muito mais louvável se a senhora tivesse escrito sobre a vergonha que deve ter se abatido sobre a cidadezinha de Três Passos, onde o crime pavoroso aconteceu. O menino teve sua morte anunciada e os habitantes da pequena Três Passos fizeram ouvidos moucos! Todos: educadores, vizinhos, autoridades constituidas para a defesa de menores sabiam da vida sofrida que o menino vivia e ficaram inertes. Tudo porque ele era filho de um médico, dono de uma clínica na cidade hipócrita e covarde! Agora, posam de comovidos, de abalados, de entristecidos! Inutilmente! O menimo está morto! Mesmo com o fato da mãe do Bernardo ter-se suicidado quatro anos atrás – o que revela uma arrasadora tristeza em continuar vivendo a vida que levava – isto se de fato ela tenha se matado e ñ sido morta pelo marido diabólico e sua amante psicopata, ninguém na cidadezinha apática suspeitou que aquela família não era uma família comum! Afinal, era a família de um médico e dono de uma clínica. Isto em Três Passos deve ser tido como muita coisa na vida, verdadeiros nababos! Pena que a avó do Bernardo tenha contratado um advogado tão bitolado e inapto para este caso. Um rábula sem nenhum brilho. Já começou mostrando o quanto é atrapalhado e sem nenhum preparo. Entrou com um pedido de guarda do menino na justiça no mesmo dia em que o Bernardo era sepultado! Risível? Trágico? Aposto que ainda ñ pediu a reabertura do processo da morte por suicídio da mãe do menino morto, exigindo que os testes da presença de pólvora nas mãos da envolvida no fato sejam mostrados para a sociedade. Tantos motivos para render um artigo de jornal e a senhora nos vem com esta “defesa” das madrastas boazinhas!

  • rosane_oliveira diz: 17 de abril de 2014

    Não, senhora Noelza, não sou madrasta de ninguém e não costumo escrever em causa própria. Estou tratando das omissões do poder público na coluna de amanhã, mas me considero livre para escrever neste blog sobre qualquer assunto, inclusive uma crônica sobre temas que não são da política. Lamento se a senhora ficou incomodada, mas não tenho a pretensão de agradar a todos.

  • Noelza Nins diz: 17 de abril de 2014

    Eu não fico incomodada de forma alguma com o que a senhora escreve ou deixa de escrever neste blog! A senhora é que reagiu ao meu comentário como se tivesse ficado incomodadíssima com o que eu escrevi…Dei a minha opinião – num espaço que é próprio para isto. Se a senhora é sensível a críticas, se não suporta ser retrucada, que não permita comentários neste blog. Ou a senhora supõe que todo gaúcho deva considerá-la acima do bem e do mal apenas porque a senhora é a colunista política de ZH? Não estamos em Três Passos…Não creio que a senhora vá publicar minha réplica já que isto lhe seria muito desagradável, afinal eu a enfrentei de pronto e com evidente vantagem intelectual…Para mim, basta que a senhora fique ciente de que ñ escreve apenas para ser lida por parvos ignorantes!

  • rosane_oliveira diz: 17 de abril de 2014

    Por que eu não publicaria, Noelza? Adoro o diálogo. Tentei apenas conversar com a senhora, aproveitando que hoje é meio feriado. EM outros dias não consigo fazer isso por absoluta falta de tempo. Mas fique tranquila. Daqui para a frente, vou apenas liberar seus comentários sem tentar conversar. Não faço competição intelectual. Era só uma tentativa despretensiosa de conversar. Feliz Páscoa para a senhora.

  • Carlos Silva diz: 17 de abril de 2014

    O post me pareceu ponderado. Contudo, faço ressalva à frase: “… pode ter matado Bernardo por pura ganância”. Cuidado, Rosane, com as palavras. As investigações estão apenas começando. Dos acusados, até agora, apenas o pai depôs e sem assistência de um advogado. Tudo o que a imprensa está veiculando, não passa de “disse-me, disse”. E as matérias estão vertendo sangue. Não estou defendendo os que são criminosos. Longe disso. Confesso ter chorado lendo os relatos do encontro do corpo e o que se passou depois. Esse garoto foi um forte, como poucos adultos o seriam diante dos infortúnios e maus tratos que experimentou. Também torço para que se faça justiça. Mas baseada em dados de realidade.

  • rebento diz: 18 de abril de 2014

    NO…ELZA, você não venceu “com evidente vantagem intelectual”. Tentou, com EVIDENTE PRETENSÃO, dar uma de intelectual. Um pouco mais de HUMILDADE talvez lhe seja útil…

  • Gervásio Paulus diz: 18 de abril de 2014

    Considero sensatos e ponderados os teus textos sobre este assunto, tanto neste post (sobre as madrastas), quanto no seguinte que publicaste. Sobre o comentário de uma leitora tua de suposta superioridade intelectual que ela mesma se atribui, lembrei de uma frase que diz: o maior inimigo do conhecimento não é a ignorância; o maior inimigo do conhecimento é a pretensão do conhecimento.

  • Rodrigues diz: 19 de abril de 2014

    Noelza Nins, com certeza, você, infelizmente, é uma madrasta má. O texto foi ótimo, amei. Assuntos assim é que devem ser tratados diariamente. Acontece que existem muitas madrastas que se sentem ofendidas sempre que vê alguém dizer esses estereótipos de que ”toda madrasta é má”. Esse conceito, na verdade vem de historinhas infantis, aqueles contos de fada onde uma garotinha perde os pais e vai morar com uma madrasta má.

    A mesma coisa acontece e que eu acho um absurdo quando todas discriminam as sogras, como se elas fossem um monstro assustador. Tudo isso é palhaçada. Preconceito sem fundamento.

  • João amorim diz: 20 de abril de 2014

    Isso tudo transcorreu dessa maneira, porque o doutorzinho era da “alta sociedade” da cidade.Se fosse ” um pé de chinelo” por muito menos estaria sendo processado por maus tratos e, até teria perdido o “pátrio poder” sobre o filho.

  • Gilson Martinez diz: 21 de abril de 2014

    Este caso causa uma comoção coletiva e nos convida há uma série de reflexões. Uma delas é a de se perguntar para onde efetivamente estamos indo, como sociedade, uma vez que aparentemente uma das motivações principais é o dinheiro, a apropriação do dinheiro que pelo direito pertencia uma parte ao Bernardo mas que os assassinos ao não concordarem com isso, o mataram. Mataram para ficar com todo o dinheiro, para ficar com todo ele, mas para que? não se sabe, apenas para ter mais e mais. Outra reflexão é a justificativa que a chamada rede de proteção da para se imiscuírem de suas responsabilidades. Alguém do MP fala: A culpa é de toda a sociedade, sim mas a sociedade é um ente abstrato e não operacionaliza e nada. Ela cria ferramentas para defende-la e o MP é umas das mais importantes ferramentas da defesa da sociedade. Seria muito melhor o conselho tutelar, o judiciário e toda a rede dizer neste caso: Sim, nós falhamos, vamos punir os culpados e ver como nos tiramos lições de nossas omissões coletivas.

  • cecilia tavares diz: 22 de abril de 2014

    O tema sobre as relações entre pais x filhos x enteados é sempre pertinente, bem como as questões sobre o poder publico, entre tantas outras.
    O caso Bernardo trás a tona não só o pior dos instintos humanos, mas o que Sigmund Freud também pontuou em relação a crueldade: “Quando a comunidade não levanta mais objeções, verifica-se também um fim à supressão das paixões más, e os homens perpetram atos de crueldade, fraude, traição e barbárie tão incompatíveis com seu nível de civilização que qualquer um julgaria impossíveis”.
    Um pai relatou que numa festa da escola, Bernardo se intitulou o “palhaço desconhecido”- numa alusão a sua fantasia.
    Especificamente neste caso, não se trata de julgar isoladamente o cruel e final “golpe de misericórdia” mas principalmente, o assassinato lento dos últimos 4 anos dessa criança.
    É a comunidade levantando suas objeções…e a sociedade tentando manter o mínimo de civilidade.

  • Eliseu diz: 7 de junho de 2014

    Esse assunto ainda é muito polêmico, levanta discussões em qualquer âmbito, mas também não podemos generalizar, o que eu posso afirmar com muita razão é que somente uma parcela mínima das madrastas é boa e realmente se importa com os enteados, a maioria delas não sente “amor de mãe”, pelo contrário, encaram os enteados como concorrentes do amor do marido, que no caso dos enteados é o pai, a minha atual madrasta é assim, extremamente dissimulada e egoísta, sempre nos enche de presentinhos e em troca, exige que tudo seja da maneira dela, ela nunca aceita ouvir opiniões contrárias e fica agressiva quando alguém não faz o que ela quer. Ela já jogou meu pai contra mim e minha irmã, persiste em manter a desordem e a desarmonia em casa como forma de controle da situação, provavelmente ela sente uma amor obcessivo por ele e portanto pretende nos afastar o máximo possível. Conheço muitos que têm madrastas, e nenhuma delas pareceu ser assim como a minha, e o pior de tudo, é que essa já e a segunda madrasta, a primeira que tive era um verdadeiro demônio, era exatamente como essa madrasta do menino Bernardo, cínica, dissimulada e uma psioopata, desejava a morte dos vizinhos e sempre me ameaçava de morte, queimava meus dedos na chapa do fogão, me acordava no inverno com água gelada e dizia que ia me matar à pauladas se eu não me afastasse do meu pai ou não fizesse como ela queria, por sorte meu pai abriu seus olhos a tempo e a expulsou de casa sem um tostão, agora ele recolheu essa outra víbora que já está no mesmo caminho. O que quero dizer com meu desabafo é que nem toda madrasta é ruim e cruel, mas a maioria ainda não consegue ver os enteados como filho e sim como concorrente, e no caso do Bernardo, tenho certeza de que existem muitos outros casos como esse ocorrendo agora no Brasil…
    Um político influente da minha cidade dizia o seguinte sempre: TODA MADRASTA É UM AMOR DE PESSOA… ATÉ O MARIDO MORRER, DEPOIS SE TORNA O ÓDIO EM PESSOA.

  • Ágape diz: 9 de novembro de 2015

    Nossa, depois de tanto tempo desse post, faço um comentário.. mas ta valendo rs.
    Bem… é certo que o ser humano nunca consegue mensurar a dificuldades/problemas alheios, até que “pessoalmente venha a vivê-lo”. Sou madrasta, algo que, ironicamente, me tornei (pois eu sempre assisti os filmes da Disney rs), afinal casando com um homem que tem filhos. Hoje, posso dizer que jamais poderia imaginar como dói esse estigma que a madrasta carrega.. estigma criado há milênios, vindo de uma sociedade patriarcal, onde a prole só seria “legítima” e “aceita” caso fosse derivada do casamento. Assim, os filhos de fora do casamento não eram – e não poderiam – ser aceitos pela madrasta e por toda a família.Essa tradição milenar ainda permeia nossas mentes, embora “devagarzinho” estejamos evoluindo.
    Hoje, com a igualdade dos filhos havidos fora do casamento (o que ocorreu constitucionalmente em 1988, somente há 27 anos), acredito que a madrasta e seu papel na vida do enteado e da família deve ser melhor discutido, a fim de eliminarmos a “marginalização da madrasta”.
    Enfim, o fato é que cuidar, educar, zelar, dar comida, banho, cuidados nas horas que a criança está chorando, gritando de pirraça (normalll, faz parte), já é difícil e estressante para as mães, imagine para uma mulher que propõe-se a cuidar e amar uma criança com que não é seu filho, realizando atividades por puro amor-doação… não é fácil e exige muuuuito equilíbrio emocional.
    Na minha opinião, essas mulheres bruxas, que maltratam crianças, não podem nem ser consideradas madrastas, pois a verdadeira MADRASTA/PADRASTO, ao contrário do estigma que a palavra carrega, é aquela que assume-se como auxiliar do pai/mãe da criança, CUIDANDO e ZELANDO. Essas mulheres que maltratam enteados são simplemente MULHERES MÁS, a maldade está em seus corações, podendo fazer mal a qualquer coisa ou pessoa que as “atrapalhe”.
    Penso que a pessoa “madrasta” deve SIM ser melhor discutida pela sociedade e pelas autoridades legislativas, a fim de que seja expressamente aceita como parente do enteado, sendo menos estigmatizada, afinal, quanto mais marginalizamos o indivíduo, mais difícil é para este ver-se como alguém que tem um papel importante, e que pode fazer essa relação dar certo!

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