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Dilma e PT precisam ouvir a voz das ruas

15 de março de 2015 34

Os protestos que pintaram de verde e amarelo as principais cidades brasileiras foram um recado inequívoco de que há um imenso descontentamento com o governo da presidente Dilma Rousseff e uma indignação crescente com a corrupção na Petrobras. Não adianta o PT continuar tentando se enganar com a ideia de que são protagonizados pela elite branca ou que só os eleitores do tucano Aécio Neves saíram às ruas neste domingo.
As manifestações foram também uma demonstração de maturidade da democracia, com poucos incidentes de violência, sem confrontos e sem vandalismo. Embora aqui e ali tenham sido exibidas faixas pedindo intervenção militar, manifestações em defesa da ditadura foram insignificantes. Chamou atenção a ausência de bandeiras de partidos, apesar do apoio explícito dos principais líderes da oposição.
O 15 de março de 2015 entra para a História como uma das maiores manifestações de rua do Brasil, ombreando com as jornadas de junho de 2013 e as passeatas pelas Diretas, nos anos 1980.
Há neste protesto histórico um ponto que não pode ser ignorado: pela primeira vez nos últimos 40 anos, a direita (ou centro-direita) silenciosa saiu às ruas sem constrangimento de defender as causas liberais. São pessoas de diferentes idades que não têm vergonha de dizer que não são de esquerda ou de centro-esquerda. Nos últimos anos, o PT transformou a palavra neoliberal em ofensa máxima. Não é mais assim.
Sem um projeto uniforme, o que une os manifestantes é o antipetismo, o repúdio a teses e práticas petistas e uma aversão generalizada aos políticos.
O que Dilma pode fazer para salvar seu segundo mandato? Não são muitas as opções ao alcance da presidente, levando-se em conta que os pactos propostos por ela em 2013 não decolaram. A reação imediata do governo foi prometer para os próximos dias um pacote anticorrupção e o empenho para aprovar a reforma política que acabe com o financiamento empresarial das campanhas. A convicção no Planalto é de que a origem
da corrupção está nas doações de empresas para as campanhas.
Dilma precisa convencer a população de que está de fato empenhada no combate à corrupção e a impunidade. O discurso de que antes não se investigava não é suficiente para enfrentar a avalanche de números sobre o assalto à Petrobras. Também não adianta
os petistas dizerem que outros fizeram pior ou apontarem o dedo para o PP, mostrando que é o partido com mais políticos sob investigação. O PP só ganhou ministérios e cargos nas estatais porque é parceiro do governo de coalizão. E a lista dos investigados tem gente graúda do PT e do PMDB também.
O raciocínio do eleitor é simples: quem comanda o país tem a obrigação de não deixar seus aliados roubarem. E Dilma, que foi ministra antes de ser presidente, não conseguiu evitar o achaque à Petrobras.

Ginástica diária para fechar as contas

13 de março de 2015 35

ABERTURA DE POLÍTICA+, SEXTA-FEIRA

Proibido pela Justiça de parcelar o salário de servidores da área da segurança pública que ganharam uma liminar na quarta-feira, o secretário da Fazenda, Giovani Feltes, admitiu que a medida poderá ser inócua. Se faltar dinheiro no fim de março ou abril, o governo poderá não ter como honrar os salários. Tudo vai depender do comportamento da arrecadação.
Feltes disse que o governo está fazendo todos os esforços para pagar os salários, mas que a luta para administrar o caixa é diária. Em fevereiro, mesmo com o reforço do IPVA, o governo atrasou em dois dias os repasses do IPE Saúde para poder pagar os salários.
Feltes diz que o governo respeita a decisão da Justiça e considera legítimas as ações de servidores contra o possível parcelamento, mas não tem como fazer milagres. A Constituição obriga o governo a pagar os salários dentro do mês, mas no artigo seguinte diz que, em caso de atraso, é preciso pagar juros e correção monetária sobre o saldo devedor. A liminar concedida pela Justiça não estabelece multa em caso de descumprimento.
Apesar de o governador José Ivo Sartori ter criticado na campanha o uso dos depósitos judiciais por Tarso Genro, seu governo sacou R$ 300 milhões para pagar a parcela da dívida com a União.
Para este mês, a expectativa é receber pelo menos R$ 120 milhões do Fundo de Exportações, que o governo federal deveria ter liberado em fevereiro. Caso a receita de ICMS não seja suficiente para atender a todos os compromissos, o governo tentará negociar com o Judiciário, o Ministério Público e a Assembleia um corte na parcela mensal repassada a cada poder.
A solução apontada pelo Tribunal de Justiça, a cobrança dos devedores, não é tão simples assim. Hoje, o Estado cobra na Justiça R$ 29,6 bilhões de devedores, mas só um quarto desse valor é considerado passível de recuperação. Outros R$ 8,9 bilhões estão sendo cobrados administrativamente pelos auditores fiscais.

Sensatez contra o golpismo

11 de março de 2015 77

Diz um velho provérbio que “mais sabe o diabo por ser velho do que por ser diabo”. Esse dito popular explica por que homens experientes como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-ministro Bresser Pereira e o senador Aloysio Nunes Ferreira não embarcam na canoa do impeachment. FHC, o mais sábio dos tucanos, comparou o impeachment a uma bomba atômica: “É feito para dissuadir, não para usar”.
O comentário de FHC desencantou parte dos seus admiradores, que não entendem a cautela do ex-presidente e a confundem com tolerância à corrupção, embora ele seja um crítico mordaz do governo. Aos 80 anos, FHC sabe o perigo embutido na precipitação. Pedir o impeachment sem provas de que Dilma tenha cometido crime de responsabilidade é flertar com o golpismo.
FHC é um homem inteligente. Sabe que a defesa precipitada do impeachment pode transformar Dilma em vítima e favorecer a volta de Lula ao poder numa futura eleição. Sabe, também, que se a presidente for impedida, quem assume é o vice, Michel Temer, e não Aécio Neves, como imaginam sociólogos de almanaque e cientistas políticos de Facebook.
Com elegância, FHC responde, 16 anos depois, à desastrada proposta do petista Tarso Genro, que em artigo na Folha de S.Paulo pregou a renúncia dele, presidente recém reeleito, porque o governo enfrentava uma crise de credibilidade.
Por ser experiente, FHC sabe também que as circunstâncias hoje são muito diferentes das de 1992. Fernando Collor caiu sem que ninguém o defendesse porque não tinha base social nem política. Dilma está desgastada, sim, mas conserva o apoio de setores importantes do movimento social e sindical. Em caso de ruptura democrática, esses grupos podem parar (ou incendiar) o país. Com a autoridade de ex-presidente, FH pode ajudar a desarmar os espíritos e evitar uma guerra civil.

Memórias de um corrupto confesso

10 de março de 2015 27

Nunca se viu na história das CPIs no Brasil uma confissão tão explícita de corrupção como a de Pedro Barusco, o ex-gerente da Petrobras que, na delação premiada, concordou em devolver a bagatela de US$ 97 milhões. Barusco detalhou na CPI uma história de anos de corrupção, iniciada em 1997 ou 1998, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso.
Ao vivo e em cores, com uma serenidade incomum para quem é protagonista de um escândalo bilionário, Barusco destoou do que os brasileiros estão acostumados a ver pela TV Câmara nas CPIs. Em vez dos tradicionais “nada a declarar”, “não sei”, “nada consta”, falou do recebimento de propina como quem relata suas realizações de executivo de uma empresa global.
Barusco só fugiu das respostas quando deputados do PT o pressionaram a detalhar a propina que recebeu no governo FH. Alegou que, pelo acordo de delação premiada, não poderia se aprofundar em explicações sobre esse período, mas garantiu que entre 1997 e 2003 a propina era pessoal, acertada diretamente com os fornecedores. Depois, o esquema teria se tornado sistêmico e usado para financiar campanhas.
Barusco reafirmou que as mesmas empreiteiras pagavam propina ao ex-diretor Renato Duque e ao tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. E forneceu um roteiro dos hotéis onde se encontrava com Duque, Vaccari e empresários para tratar de propina. Pelos cálculos do ex-gerente, o PT recebeu entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões de 2003 a 2013.
Como Vaccari foi o tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff em 2010, o depoimento adicionou novos ingredientes na crise que abala o Planalto. Vaccari está na lista do procurador Rodrigo Janot e suas relações serão dissecadas na investigação. Na CPI, ele será pressionado a detalhar o financiamento das campanhas do PT nos últimos anos.

Dilma associa terceiro turno a impeachment

09 de março de 2015 29

Até hoje, os petistas acusavam de golpista quem pronunciasse a palavra impeachment, mesmo que falando em hipótese. A presidente Dilma Rousseff mudou essa escrita depois de constatar o crescimento da rejeição a seu governo. Disse que considera legítimos os protestos marcados para o próximo domingo, mas que um desejo de terceiro turno  não justifica um pedido de impeachment.
– Eu acho que há que caracterizar razões para o impeachment e não o terceiro turno das eleições.
E acrescentou:
– Terceiro turno, para qualquer cidadão brasileiro, não pode ocorrer, a não ser que você queira uma ruptura democrática. Eu acredito que a sociedade brasileira não aceitará rupturas democráticas.
As manifestações de Dilma e do chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que também falou em terceiro turno, são uma reação clara aos protestos de domingo à noite, quando opositores de seu governo vaiaram e bateram panelas enquanto ela discursava em cadeia nacional de rádio e TV.
Dilma, que no domingo parecia estar falando de um país que não é o Brasil, caiu no mundo real depois dos protestos e dos comentários irados nas redes sociais. Resolveu marcar posição antes das manifestações previstas para domingo, sabendo que a palavra impeachment estará nos cartazes e nos discursos.
Dilma foi mais cautelosa do que os dirigentes do PT, que se expuseram ao ridículo ao dizer que as manifestações de domingo foram financiadas pela oposição. Faltou explicar como se financia um panelaço feito dentro das casas dos opositores.

Teorias conspiratórias não ajudam na defesa

09 de março de 2015 14

ABERTURA DE POLÍTICA+, SEGUNDA-FEIRA

No esforço de se defender das suspeitas de envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras, políticos que serão investigados pelo Supremo Tribunal Federal passaram o fim de semana tentando desqualificar o trabalho do procurador Rodrigo Janot e de sua equipe. Líderes do PP levantaram a suspeita de que teriam entrado na lista de Janot por suas posições políticas contra o governo. Péssima estratégia.
Convém lembrar aos que zombam da inteligência dos seus eleitores que o procurador não tirou a lista da própria cabeça. Ele e uma equipe de técnicos passaram 39 dias analisando documentos e dissecando os depoimentos dados por ex-diretores da Petrobras, pelo doleiro Alberto Youssef e por empreiteiros presos na Operação Lava-Jato.
O ex-diretor Paulo Roberto Costa, que assim como Youssef fez acordo de delação premiada, era indicação do PP na Petrobras. Não é de se estranhar, portanto, que nessa leva tenha tanta gente do PP. Estar fora desta primeira lista não é garantia de que o sujeito se safou.
Se Renato Duque resolver contar tudo o que sabe, o abalo será nas estruturas do PT, que bancou sua indicação. O diagrama do funcionamento do esquema, montado pelo MPF, diz que Duque era o responsável pela propina repassada aos políticos do PT, por meio do tesoureiro João Vaccari Neto. A propina destinada aos parlamentares do PMDB vinha da diretoria comandada por Nestor Cerveró, tendo o lobista Fernando Baiano como operador. Em vez de se falar em “lista de Janot”, o mais adequado é dizer “a primeira lista de Janot”. Porque a investigação está longe de ser concluída.
Dizer que as contas de campanha foram aprovadas pela Justiça Eleitoral significa pouco ou nada. A investigação vai tentar descobrir se houve caixa 2, enriquecimento ilícito e gastos incompatíveis com a renda.

Um novo epílogo para a história de Eike Batista

08 de março de 2015 7

No caderno Proa de hoje, escrevi uma resenha do livro Tudo ou Nada, da jornalista Malu Gaspar. Depois de pronto, tive que atualizar várias vezes, porque novos fatos iam ocorrendo. E não é que depois de publicado surgiu mais uma novidade? Agora a suspeita é de que o juiz flagrado dirigindo o Porsche de Eike (já afastado do cargo) também teria guardado em lugar incerto uma montanha de dinheiro apreendida entre os bens do empresário.

Vai aqui o texto do Proa:

No dia em que a Polícia Federal bateu na mansão de Eike Batista e de lá retirou a Lamborghini branca que enfeitava a sala de estar, um Porsche e outros quatro carros, um piano e um ovo Fabergé que depois se revelaria uma imitação, a jornalista Malu Gaspar escreveu em seu perfil no Facebook: “Tá ficando difícil atualizar esse epílogo!”. Malu é a autora de Tudo ou Nada, livro essencial para entender a ascensão e a queda de Eike Batista, o homem que já foi o mais rico do Brasil e, no início de fevereiro, perdeu os últimos símbolos de sua vida de extravagâncias.

Não foram só os carros de luxo e a imitação de Fabergé. O iate ancorado em frente à mansão de Angra dos Reis, três jet skis e duas embarcações também foram para um depósito, como garantia de pagamento aos credores lesados. A Justiça autorizou o bloqueio de milhões de dólares e de bens repassados aos filhos e às ex-mulheres, a ex-atriz Luma de Oliveira e a empresária Flávia Sampaio, na tentativa derradeira de salvar pelo menos parte da fortuna.
Malu Gaspar tem dificuldade para atualizar o epílogo porque a cada dia se sucedem fatos novos na trajetória descendente do filho de Eliezer Batista, o homem que há nem 10 anos era tratado como um símbolo de ousadia, inovação e empreendedorismo. Nas 545 páginas de Tudo ou Nada, Malu Gaspar conta a história do Grupo X e constrói um perfil impiedoso de seu comandante.

O visionário que encantava plateias e seduzia investidores emerge das páginas como um bufão. O Eike retratado no livro é um megalômano que não conhecia limites, um empresário de ética duvidosa, um jogador que enganou analistas, ganhou e perdeu bilhões no cassino do mercado de capitais, um ilusionista que vendia vento como se
fosse petróleo, ouro ou diamante.

Se Tudo ou Nada fosse um romance, o personagem Eike seria considerado clichê _ um tipo que lembra os homens dos best-sellers de Sidney Sheldon. Um sujeito que exibe carros de luxo na sala da mansão, monta no Rio uma filial do seu restaurante preferido, o Mr. Lam (e importa o chef ), usa um estranho aplique para disfarçar a calvície e coleciona aviões, barcos, mulheres e amigos poderosos entre políticos e empresários. Mas o Eike de Malu Gaspar é real, construído a partir de depoimentos de quem conviveu ou trabalhou com e para ele, de documentos públicos e secretos, de gravações de entrevistas antigas e de recortes de jornais e revistas que o exaltaram nos tempos de glória. A jornalista entrevistou 106 pessoas, reconstituiu cenas e diálogos que dão ao livro o aspecto de roteiro pronto para ser filmado.

Ao narrar a trajetória do Grupo X, Malu Gaspar brinda os leitores com um painel sobre usos e costumes do capitalismo brasileiro do século 21, das relações promíscuas entre políticos e empresários,  de como funciona a manipulação no mercado de capitais. De certa forma, ajuda a entender até o funcionamento do esquema de corrupção na Petrobras, que está sendo desvendado na Operação Lava-Jato. Eike criou uma petroleira para competir com a Petrobras. Recrutou executivos na estatal, pagando salários astronômicos e oferecendo pacotes de ações que transformaram alguns deles em milionários. Em um negócio que move bilhões, colegas que ficaram na Petrobras encontraram um jeito de enriquecer também, aumentando o valor da propina que começara a ser cobrada ainda no século 20.

Lançado em outubro passado, Tudo ou Nada já está com o epílogo defasado. Com o título
De Volta ao Começo, o capítulo final fala de um Eike falido, em abril de 2014, consultando um guru coreano, discípulo do Dalai Lama, e dele ouvindo uma exótica profecia: “O senhor é um líder nato. O senhor nunca atuou em política, mas é um talento político. O senhor será presidente do Brasil.”

O que aconteceu depois não cabe no posfácio das próximas edições. Malu Gaspar terá de escrever outro volume, que pode começar com Eike no banco dos réus. Ou com o juiz Flávio Roberto de Souza dirigindo o Porsche Cayenne ou tocando o piano que levou da casa do empresário para seu condomínio. Esse epílogo ainda está em aberto. Se virar filme, será difícil encontrar um ator capaz de encontrar o tom do personagem principal sem parecer caricatura.

 

 

Escândalo pluripartidário abala PP gaúcho

06 de março de 2015 25

A temida e esperada lista do procurador Rodrigo Janot, eclética e repleta de figurões, atingiu em cheio o Partido Progressista no Rio Grande do Sul. Cinco dos seis deputados federais serão investigados (Afonso Hamm, Jerônimo Goergen, José Otávio Germano, Luis Carlos Heinze e Renato Molling). O sexto nome é o do ex-deputado Vilson Covatti, que não concorreu à reeleição para apostar na carreira do herdeiro, Luiz Antônio, eleito na primeira tentativa.
Todos terão oportunidade de se defender, mas o abalo político é enorme. A lei diz que o ônus da prova cabe a quem acusa, mas em política essa regra se inverte. Quem depende de votos precisa provar que é inocente, sob pena de comprometer seu futuro.
Os deputados gaúchos citados se dizem inocentes, levantam suspeitas de conspiração, mas o procurador Janot baseou-se no depoimento do doleiro Alberto Youssef, que disse ter certeza de que estão no grupo que recebia entre R$ 30 mil e R$ 150 mil por mês. Seria mesada e não contribuições oficiais de campanha repassadas pelo diretório nacional.
A lista é repleta de pesos-pesados dos principais partidos da base do governo e inclui um líder da oposição, o tucano Antônio Anastasia, ex-governador de Minas Gerais. São 32 políticos do PP, sete do PMDB, seis do PT e um do PTB.
Na lista de Janot, estão os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, ambos do PMDB, o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, quatro ex-ministros dos governos Lula e Dilma – Antônio Palocci (PT), Edison Lobão (PMDB), Gleisi Hoffmann (PT) e Mário Negromonte (PP).
O elevado número de políticos ligados ao PP tem uma explicação: essa leva é baseada nas delações premiadas do doleiro Alberto Youssef e do ex-diretor Paulo Roberto Costa, indicado para a Petrobras pelo PP. Novos nomes deverão ser submetidos ao Supremo no decorrer das investigações, com o processamento das delações premiadas de outros diretores e de empreiteiros.

Confira aqui o diagrama do esquema de corrupção na Petrobras, elaborado pelo Ministério Público Federal:

 

Quem não se comunica não convence

06 de março de 2015 17

ABERTURA DE POLÍTICA+, SEXTA-FEIRA
Se vai atrasar o pagamento dos salários dos servidores em março ou abril, como informaram seus interlocutores a deputados da base aliada, José Ivo Sartori precisa convencer a população de que a situação das finanças é crítica a ponto de não conseguir cumprir uma obrigação elementar. Até aqui, o governo não apresentou um quadro detalhado da situação das contas públicas.
Dados esparsos têm sido citados por secretários e mostrados aos deputados aliados, com a recomendação de que não passem os números adiante, nem revelem as medidas que estão em estudo. Falta escancará-los e, principalmente, dizer qual é a estratégia – se
é que tem uma – para enfrentar a crise.
Quem se dedica a estudar a situação das finanças do Rio Grande do Sul sabe que o quadro é dramático e que o atraso nos pagamentos é questão de tempo. O governo cortou despesas de custeio, mas isso é quase nada no conjunto dos gastos.
Atrasar salários é uma medida extrema. Desorganiza a vida dos servidores, provoca insegurança, afeta a motivação. Se o governo for incapaz de provar que não tem outro caminho, a relação com o funcionalismo será abalada, com risco de greves e manifestações em frente ao Piratini.
Além de não pagar o piso do magistério, como seus antecessores não pagaram, Sartori estuda suspender ou parcelar até os aumentos da área da segurança pública, aprovados no governo anterior, para pagamento parcelado até 2018. Essa alteração só poderá ser feita por projeto de lei, sob pena de criar um novo passivo, nos moldes da Lei Britto, origem de boa parte da dívida bilionária em precatórios.
Aos deputados, o governo já admitiu adotar uma medida que, na campanha, Sartori descartou dizendo que não havia clima para aprovação: o aumento do ICMS. Os estudos já estão sendo feitos, com simulações de resultado para a elevação da alíquota geral, de 17% para 18%, como foi feito no governo de Germano Rigotto, ou o aumento seletivo para produtos com maior potencial de arrecadação.

Pede para sair, senador Renan Calheiros

04 de março de 2015 20

São estarrecedoras as revelações do jornal O Estado de S.Paulo sobre os motivos que levaram o procurador Rodrigo Janot a incluir o senador Renan Calheiros na lista dos políticos que devem ser investigados por envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras. A propina na estatal – que variava de 1% a 3% do valor dos contratos – teria estourado o teto para garantir a fatia do presidente do Senado.

A base das suspeitas que envolvem Calheiros é o depoimento do ex-diretor Paulo Roberto Costa, no acordo de delação premiada. Para saber se Costa falou a verdade, é preciso que o Supremo autorize a investigação.

Para se defender e para não aumentar o descrédito do Congresso, Renan deveria se licenciar da presidência, mas seu apego ao poder é tamanho, que seria ingenuidade esperar dele um gesto de grandeza, depois de ter brigado tanto pelo comando do Senado. Relembrando, ele foi eleito com o apoio do Planalto, mas no primeiro percalço abandonou a aliada Dilma Rousseff e devolveu a medida provisória que, na prática, aumenta a carga tributária das empresas.

Por mais que tenha sido um ato de vingança pela perda de poder no governo, é preciso reconhecer que em um ponto o senador tem razão: aumento de imposto tem de ser feito por projeto de lei e não de MP. Na prática, reduzir as desonerações concedidas antes da eleição significa aumento de imposto.

A retaliação do senador, ao devolver a MP, soa infantil: a presidente da República não pode e não deve interferir nas decisões do procurador Janot. Se ele encontrou motivos para incluir o presidente do Senado na lista, seria o cúmulo Dilma pressionar para poupar o aliado.

Se há uma coisa que pode salvar a pele de Dilma é fazer valer o discurso do combate à corrupção. E dar transparência aos atos do governo, para reconquistar ao menos parte da credibilidade perdida.

Dias de cão no Planalto Central

03 de março de 2015 7

Não chega a ser surpresa a informação de que os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, estão na lista de políticos que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, quer investigar com autorização do Supremo Tribunal Federal. Desde o final do ano passado essa possibilidade era especulada. Surpresa seria os dois ficarem fora da lista.
As consequências da inclusão de dois dos principais líderes do PMDB na lista do procurador só poderão ser medidas nos próximos dias, quando for levantado o sigilo da investigação. Será preciso saber o que pesa contra os dois para responder à pergunta que está na cabeça de políticos e analistas: Cunha e Renan têm condições de continuar
na presidência da Câmara e do Senado?
Em um país menos tolerante com a corrupção, a abertura de um processo de investigação de possível envolvimento em desvio de recursos públicos seria suficiente para que se afastassem dos cargos. Cunha é o segundo na linha de sucessão da presidente Dilma Rousseff, e Renan, o terceiro. Como Dilma também está desgastada com a Operação Lava-Jato, a percepção generalizada é de uma crise de credibilidade que afeta as principais figuras da República.
A lista tem 28 pedidos de abertura de inquérito e sete de arquivamento, relacionados a 54 pessoas. O Supremo só precisa autorizar a abertura de investigação para os detentores de mandato. Quem já foi presidente, deputado ou senador pode ser investigado sem autorização dos ministros do Supremo.
A expectativa agora é de que o ministro Teori Zavascki levante o sigilo da investigação para que o Brasil saiba, com toda a transparência, quem – e por que – entrou na lista de Janot. O processo está apenas no início, mas já está claro que será mais bombástico do que o do mensalão.

Prejuízos e insegurança nas estradas

02 de março de 2015 51

O que se viu hoje na BR-116 e na entrada de Camaquã, no confronto entre caminhoneiros e a polícia, mostra que o governo federal subestimou a força da manifestação. Não foi apenas o bloqueio da principal rodovia que liga a Capital ao sul do Estado, mas um protesto violento, que acabou atraindo outros descontentes com o governo. Pode ser uma prévia do que vem por aí a partir das manifestações previstas para 15 de março.
A ideia de que a sanção da Lei dos Caminhoneiros, pela presidente Dilma Rousseff, acalmaria os ânimos, não se confirmou. Pelo contrário: a tensão aumentou com a prisão de manifestantes e com a decisão do governo de usar a Força Nacional de Segurança para desobstruir a rodovia e garantir o transporte de combustíveis e alimentos para o sul do Estado. Dez municípios da região enfrentam falta de gasolina e diesel, escolas suspenderam as aulas e o prejuízo causado pelos bloqueios é incalculável.
Só na indústria de transformação, a perda diária é estimada em R$ 760 milhões. Esse número foi apresentado ontem, em reunião das federações empresariais do Estado, na Fiergs. Um dos segmentos mais afetados é o da indústria de alimentos, por lidar com produtos perecíveis. Nesse setor, calcula-se que o prejuízo diário chega a R$ 152 milhões.
O conflito nas estradas ameaça a segurança de quem não tem nada a ver com a briga dos caminhoneiros com o governo. Na noite de domingo, os manifestantes já haviam feito barricadas semelhantes às montadas ontem, queimando um carro velho e obstruindo a rodovia com um tronco de árvore. Ontem, em Camaquã, motoristas e passageiros de carros e ônibus correram riscos ao passar pela área em que manifestantes atiravam rojões, paus e pedras na polícia e os agentes respondiam com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo.

Perguntas que precisam ser feitas

14 de fevereiro de 2015 54

Pelo andar da carruagem, as medidas de maior impacto planejadas pelo governo Sartori só serão divulgadas depois que a população se convencer de que a situação financeira do Estado é, de fato, crítica. Por enquanto, nem os aliados estão convencidos de que a fonte de financiamento do déficit secou.

Enquanto o governo faz cortes cosméticos e evita discutir medidas mais profundas, a coluna propõe que se discuta qual é o sentido de se manter como intocáveis certas estruturas incompatíveis com a ideia de um Estado moderno e eficiente e de perpetuar benefícios que não cabem no orçamento. Algumas perguntas sobre as quais o governador e seus secretários deveriam refletir:

1. Qual é o sentido de manter uma estrutura cara como o Tribunal de Justiça Militar, que vai custar neste ano R$ 36,6 milhões?

2. Antes de nomear mais professores, por que não devolver para a sala de aula pelo menos metade dos milhares que trabalham em funções burocráticas nas coordenadorias regionais de educação, nas próprias escolas ou em outros órgãos públicos?

3. É aceitável que os coronéis da Brigada Militar se aposentem com menos de 50 anos de idade? E que o Estado tenha 480 coronéis inativos para 29 em atividade?

4. Qual é a lógica do pagamento de licença-prêmio por assiduidade a servidores públicos que têm estabilidade no emprego e ganham três meses de folga a cada cinco anos trabalhados?

5. Como se justifica a manutenção de uma estrutura inchada na Casa Militar, que já teve mais de 130 PMs cedidos? Hoje são 67, mas o quadro ainda não está fechado.

6. Por que o Estado paga gratificação de permanência a servidores que já completaram o tempo de aposentadoria, sem medir a produtividade e sem questionar a real necessidade de prorrogar a permanência.

7. Até quando o Estado vai continuar pagando aluguel, enquanto é dono de imóveis subaproveitados?

Pipas e origamis para dizer adeus a Carlos Urbim

13 de fevereiro de 2015 8

Carlos Urbim, o guri daltônico nos deixou nesta manhã de neblina em pleno fevereiro. Sou tentada a achar que as nuvens desceram até o chão em Porto Alegre para envolver a alma do nosso querido amigo e carregá-lo para a eternidade. Urbim nos deixa órfãos de suas risadas, de seu sotaque fronteiriço, de seus textos que encantam crianças e adultos, da sua bondade, do seu jeito de eterno guri, mesmo que tenha se tornado avô.
Há 22 anos, eu só conhecia o Urbim dos livros. Entramos no mesmo dia em Zero Hora, no inverno de 1992. No processo de integração nasceu uma admiração pela pessoa generosa que ele era. Foi amizade à primeira vista.
Com meus filhos pequenos, frequentei suas inspiradas sessões se autógrafo, que arrebatavam as crianças. Depois ele saiu de ZH e passamos a nos ver menos. Nos aniversários da Cíntia Moscovich e do Luiz Paulo Faccioli, sempre com a sua Alice, nos eventos da literatura, na Feira do Livro. Ele foi um patrono carismático como poucos, iluminando a Praça da Alfândega com sua luz.
Se eu pudesse escolher um jeito para me despedir do Urbim, reuniria os amigos e soltaria pipas de todas as cores numa colina do Pampa. Pipas que ele veria com outras cores, transformadas pelo olhar daltônico e pelo jeito todo próprio de enxergar poesia onde a maioria das pessoas vê apenas um papagaio de papel de seda. Em vez de flores, eu faria como os japoneses: enfeitaria a despedida do meu amigo com cordões de origamis, pequenos tsurus de todas as cores, voando ao encontro desta alma que se desgarrou do corpo e cobriu de neblina o céu de Porto Alegre.

Tesoura afiada antes do decreto

13 de fevereiro de 2015 9

ABERTURA DE POLÍTICA +, SEXTA-FEIRA

Estava tudo preparado para a divulgação do decreto que revisa o orçamento de 2015 para torná-lo mais adequado à realidade financeira do Estado, mas o governador José Ivo Sartori pediu tempo para analisar os cortes durante o feriadão. Na prática, a chamada reprogramação orçamentária, feita normalmente no primeiro trimestre de cada ano, já começou.
A Fazenda definiu cotas para cada secretaria, com cortes que variam de 25% a 40% nas despesas de custeio. Os chefes das pastas tiveram de informar como reduzirão os gastos para atingir a meta. O receituário varia de secretário para secretário.
Na Educação, Vieira da Cunha decidiu não cortar nenhum programa, mas reduzir os recursos destinados a parte deles. Na Cultura, Victor Hugo optou por eliminar cargos de confiança, designando diretores que responderão por mais de uma instituição.
Até agora, o corte de maior impacto é o do repasse para santas casas e hospitais filantrópicos. Desde que o secretário João Gabbardo comunicou a redução do repasse de R$ 103 milhões mensais para R$ 70 milhões, o setor está em pé de guerra. No próximo dia 27, haverá assembleia para debater a suspensão dos atendimentos pelo SUS. A Federação das Santas Casas cobra também o pagamento de uma dívida de R$ 255 milhões.
O governo concluiu que só na Saúde as contas deixadas pela gestão anterior passam de R$ 700 milhões. No total, os restos a pagar chegam a R$ 1 bilhão.
A radiografia da situação das finanças, já com os números de janeiro e da primeira quinzena de fevereiro, serão apresentados publicamente depois do Carnaval, com os cortes previstos no decreto.
O governo optou por não divulgar agora as medidas mais duras que pretendia anunciar com a radiografia das finanças. A avaliação é de que, antes, é preciso convencer a população e os aliados de que a situação do Estado é mesmo crítica. A crise deve se agravar a partir de março.