Por Carolina A. Castro
A Operação “Vento Divino” (Divine Wind, em inglês) começou bem, o Bob Barker, navio em que eu estou, zarpou de Hobart, na Tasmânia dia 16 de dezembro. Com a bússola apontando para o sul e uma tripulação cheia de esperança em acabar com as atividades ilegais dos baleeiros japoneses no santuário de baleias da Antártica.

Bob Barker a navegando rumo ao sul.
O Navio almirante, Steve Irwin partiu alguns dias depois e por último o barco interceptor da Sea Shepherd, o Brigitte Bardot que ano passado se chamava Gojira e foi fundamental para o sucesso da campanha daquele ano. (entrevista com Capitão Locky Maclean).
Encontrar o Navio Fábrica (Nisshin Maru) dos baleeiros é o objetivo da campanha. Se o encontrarmos, os três navios caçadores, equipados com arpão (Yushin Maru 1, 2 e 3) não podem mais caçar, pois assumimos uma posição atrás da rampa de carregamento do Nisshin em que a transferência de baleias dos navios arpões para o navio fábrica fica impossível.
Parece fácil, mas não é.
Os navios arpões são muito mais rápidos do que os nossos navios. Quando eles nos encontram antes de encontrarmos o Nisshin Maru, eles nos perseguem e informam nossa posição para o navio fabrica. Os baleeiros possuem três navios arpões e mais um navio segurança. O único de nossos barcos que consegue despistar esses navios arpões é o Brigitte Bardot.

Um dos navios arpões perseguindo o Bob Barker e uma baleia Minke. Como o barco estava nos perseguindo a baleia pode nadar tranquilamente sem ser caçada.
O Nisshin Maru, não tem velocidade maior que os navios da SSCS. Então, uma vez que o encontrarmos, a matança de baleias acaba pela estação. Foi o que aconteceu na campanha anterior (No Compromise) . O navio interceptor da Sea Shepherd encontrou o Nishin Maru, e o Bob Barker, sendo o único dos três navios da SSCS que consegue ficar nos mares do sul pelos longos três meses que dura a caça sem precisar reabastecer, assumiu a perseguição do barco fábrica baleeiro. Assim, os barcos arpões não puderam mais caçar nenhuma baleia naquela estação. Da cota de aproximadamente mil baleias os japoneses deixaram a antártica com somente 172.
Voltando a Divine Wind, No dia 24 de dezembro o navio Steve Irwin encontrou parte da frota baleeira. Nunca a Sea Shepherd havia encontrado os caçadores de baleias tão ao norte, antes de chegar a Antártica. Porem, somente quatro dias depois, enquanto fazia minha vigília no passadiço recebemos um telefonema desconcertante. O Brigitte Bardot estava em perigo. Naquela madrugada, durante uma tempestade, uma grande onda bateu na asa de bombordo do trimaram. Uma noticia terrível, sabendo da importância daquele barco para nosso sucesso.
A asa do Brigitte Bardot estava rachada e água entrava pelo casco. Não sabíamos se eles perderiam o pontão ou se poderiam voltar a Austrália sem que o barco afundasse.
Foram 10 horas de agonia até que pudéssemos alcançar o local atravessando uma tempestade grande e turbulenta que fez o nosso navio (Bob Barker) balançar violentamente por uma noite inteira. Quando chegamos ao a tripulação do Bardot estava bem e mandamos um dos nosso barcos de auxilio para ajudar com reparos temporários para que o pontão segurasse até a Austrália.

Bob Barker na tempestade que atingiu o Brigitte Bardot

Brigitte Bardot com a Asa quebrada e o Bob Barker ao fundo.
O Steve Irwin chegou ao local depois de varias horas para escoltar o Bardot até o porto mais próximo umas 1200 longas milhas náuticas pela frente. A viagem levaria 10 dias, e a ameaça da separação da asa do resto do barco a qualquer momento era uma constante preocupação. Felizmente eles chegaram na Austrália são e salvos, mas o Brigitte Bardot ficou fora da campanha Divine Wind.
Dia 4 de Janeiro de 2012 encontramos um navio no radar. Foi um momento excitante e de ansiedade. Quando nos aproximamos o suficiente para visualizar o barco, infelizmente não era o procurado navio Fabrica, mas sim um dos navios caçadores (arpão), o Yushin Maru 3.
Tentamos nos separar desse navio por dias, com métodos usados nas campanhas passadas, mas esse ano eles parecem estar mais preparados. Para essa estação os baleeiros japoneses receberam um incentivo de 28 milhões de dólares australianos a mais do governo japonês para investir em “segurança” contra a Sea Shepherd Conservation Society. “Parte desse dinheiro veio das doações feitas pelo mundo inteiro para ajudar as vitimas do Tsunami.” Afirmou o representante oficial da agencia pesqueira japonesa, em uma conferencia jornalística em novembro do ano passado.

Em um dos barcos velozes os tripulantes da SSCS tentam despistar os baleeiros.
Nesse meio tempo, o Steve Irwin que estava sendo seguido pelo Shonan Maru 2, o navio segurança dos baleeiros, chegou na Austrália acompanhando o Brigitte Bardot ao porto de Fremantle. Nisso, um grupo de três ativistas de defesa das florestas da Austrália (Forest Rescue) aproximou o Capitão Paul Watson e sugeriram tentar abordar o Shonan Maru pela noite. O navio de segurança Japonês esperava o Steve fora da zona de 12 milhas do território australiano. Se o plano tivesse sucesso, o navio japonês teria que retornar a Austrália para desembarcar os três cidadãos australianos e o Steve Irwin poderia se livrar dos perseguidores japoneses.
Por incrível que pareça, o plano funcionou. Mesmo com todo investimento em segurança e arame farpado pelo navio, os ativistas australianos conseguiram embarcar no Shonan Maru 2 e assim causaram um escândalo diplomático entre a Austrália e o Japão que alcançou proporções internacionais e foi coberto pela mídia do mundo inteiro.
Com todo essa confusão acontecendo perto da costa Australiana, no Bob Barker ainda estávamos sendo seguidos pelo navio arpão Nisshin Maru 3. O capitão Alex Cornelissen ao ver que os métodos passados não estavam funcionando decidiu mudar o rumo do navio em direção a Ilha Macquarie, situada nos mares do sul, mas que pertence a Austrália.
A Austrália tem uma lei que proíbe a entrada de qualquer navio que esteja engajado na caça de baleias em suas águas territoriais, ou seja 12 milhas da costa de qualquer território australiano.
O Bob Barker entrou no território da ilha australiana e assim conseguimos despistar os baleeiros.

Yushin Maru 3 invadindo o território Australiano na Ilha de Macquarie. foto: Carolina A. Castro
Mesmo com o sucesso do embarque dos ativistas Australianos no Shonan Maru, O Steve Irwin continuou sendo perseguido, mas agora pelo Yushin Maru 2, ou seja dois dos três navios arpões e o navio segurança estavam ocupados conosco ao invés de estarem caçando baleias.
O Bob Barker teve um problema com os motores e decidimos ir a Nova Zelândia para fazer reparos. Nos encontramos com o Steve Irwin para reabastecer-lhes e esperar por um dos navios baleeiros para nos seguir, já que eles não sabiam do nosso destino, levaríamos a eles fora da perseguição deixando o Steve Irwin com mais chance para achar o navio fábrica.
E assim a campanha continuou, com os navios baleeiros ocupados perseguindo nossa frota ao invés de caçar baleias.
Com esse jogo de perseguição, o capitão Paul Watson estimava que os baleeiros somente conseguiram caçar aproximadamente 100 baleias até aquele momento.
A cota dos baleeiros é de aproximadamente 1000 baleias, uma cota estabelecida pelo Instituto de pesquisa de cetáceos japonês para pesquisa letal de baleias no santuário de baleias da Antártica. O mundo inteiro sabe que a caça das baleias pelos japoneses não é para pesquisa e sim para o consumo. O Brasil todos anos, na reunião da Comissão Internacional da Baleia vota contra essa pratica ilegal exatamente no santuário de baleias da Antártica. Até mesmo a Comissão Internacional da Baleia já fez o pedido para que a pesquisa letal seja substituída por não letal, vista a falta de necessidade de matar as baleias para o tipo de pesquisa feita pelos japoneses, que na verdade não apresentam resultados nenhum de suas pesquisas.
Infelizmente a corrupção não é um problema somente brasileiro e sim humano.
Quando retornarmos ao santuário depois dos reparos feitos ao motor do Bob Barker, nosso capitão teve que partir porque ficaríamos mais tempo na Antártica do que o previsto já que abastecemos o navio novamente. Alex Cornelissen também é o coordenador da Sea Shepherd Galápagos, e suas responsabilidades os chamavam de volta ao Equador.
O primeiro oficial Peter Hammarstedt, já faz parte da organização há 7 anos e é um dos mais determinados ativistas que eu já conheci, extremamente inteligente e corajoso aos 27 anos ele assumiu a posição de capitão do nosso navio. E eu tive o prazer de estar lá para ver sua primeira campanha como capitão.
A tripulação estava com os espíritos renovados e agora que já estávamos no final de fevereiro e ainda não havíamos encontrado o navio fábrica estávamos ansiosos e seguros que dessa vez o encontraríamos.
Depois de três semanas no mar indo em direção a placa de gelo polar, no dia 5 de março de 2012 em uma região onde assumíamos que os baleeiros estariam por causa do tempo e condições propícias para a caça naquele local. Passamos um dia inteiro na espreita, fazendo vigílias no mastro e com vários tripulantes no passadiço e áreas elevadas do navio procurando com binóculos pelos baleeiros. Havia muito gelo e baleias, mas nada dos navios japoneses.

Tripulante procura os baleeiros japoneses por entre o gelo polar.
O capitão Paul Watson havia feito um plano para despistar os baleeiros que estaríamos naquele local, ele anunciou no site da SSCS que reabasteceríamos o Steve Irwin novamente em uma ilha bem ao norte de onde estávamos. O Steve Irwin estava mesmo lá e com ele o barco segurança dos baleeiros.
Estávamos prestes a desistir, quando o último tripulante de vigília no mastro subiu para fazer sua vigia de 45 minutos lá em cima, já era tarde e em março, já começava a anoitecer por algumas horas na Antártica. O plano era parar os motores pela noite e recomeçar a busca pela manhã, quando de repente o tripulante do mastro avistou algo e comunicou o passadiço.
Naquela hora eu estava fazendo uma torrada, o alarme de ação tocou, e todos na área da tripulação se olharam meio sem muita convicção, eu joguei minha torrada longe, pequei minhas câmeras e sai correndo para ponte, eu tinha certeza.
Quando lá em cima cheguei, todos estavam se abraçando e festejando. Essa é a minha terceira campanha com a Sea Shepherd, mas a primeira na Antártica, eu nunca havia visto o Nisshin Maru. Mesmo de muito longe dava para reconhecer o navio. Ele é enorme medindo 130 metros.
Com o navio fabrica estavam os navios arpões.
Quando os baleeiros se deram conta que ali estávamos dois dos navios arpões vieram em nossa direção e começou uma batalha de titãs. Eles tentavam nos encurralar, pois arrastavam linhas de 300 metros atrás de seus navios em uma tentativa de enroscar nossa hélice nessas cordas.
As condições começaram a piorar drasticamente e o mar se tornou inóspito e a noite caiu. E com ela também caia um tempestade de neve. A visibilidade era muito limitada e os navios baleeiros não paravam de nos molestar, e ainda por cima apontavam seus holofotes em direção ao nosso passadiço em uma tentativa de nos tirar a visão completamente. Havia muito gelo na água e inclusive grandes Ice Bergs, as condições eram perigosíssimas e nos não acreditávamos na irresponsabilidade dos baleeiros em tentar nos tirar propulsão naquelas condições, pois com o mar assim, não poderíamos nem mandar um mergulhador para tirar as linhas da hélice.

Os tripulantes da SSCS tentam defender o Bob Barker atirando sinais de luz nos baleeiros para que eles se afastassem de nosso navio.

As condições extremas daquela noite de batalha.
Assim passamos horas daquela noite, em uma batalha interminável, ate que finalmente perdemos o Nisshin de vista e na manha seguinte do radar.
Passamos mais alguns dias naquele local, pois ainda era a única área de tempo um pouco mais estável, tudo ao redor era tempestade. Eles não voltaram. E depois de alguns dias recebemos a noticia que eles estavam voltando para o Japão.
A celebração foi grande e nos também começamos a voltar para a Austrália, e antes mesmo de chegarmos a terra eles anunciaram quantas baleias caçaram pela estação.
De sua cota de 1035 baleias eles caçaram 267 baleias somente. 266 Minkes e uma baleia Comum (segunda maior baleia do mundo, depois da baleia azul e tambem em perigo de extinção).
A campanha foi um sucesso para a SSCS, mesmo somente conseguindo encontrar o Nisshin Maru no final da campanha o Capitão Paul Watson usou a estratégia dos baleeiros de nos perseguir contra eles mesmos. Nos perseguindo eles não conseguiram caçar muitas baleais na estação. Foi uma campanha difícil, o tempo foi muito duro, perdemos o Brigitte Bardot bem no começo da campanha, tivemos problemas com o Bob Barker, os baleeiros tinham um orçamento astronômico e ainda assim os ativistas conseguiram impedir a morte de 768 baleias nos mares do sul.
Para quem quiser ver mais fotos, eu fiz um álbum que pode ser visualizado clicando nesse link.
Mais informações: www.seashepherd.org
































