O jornalista Marcos Strecker acompanha a carreira de Walter Salles desde o começo. Por isso, ele resolveu lançar esse ano uma cinebiografia do cineasta brasileiro. Dividido em seis capítulos, Na Estrada - O Cinema de Walter Salles conta histórias da infância de Walter e sua família, como ele se tornou cineasta, faz uma análise de seus filmes, traz informações sobre o próximo projeto de Walter - a adaptação do livro On The Road -, e ainda traz uma conversa entre Marcos, Walter e Wim Wenders, além de 18 artigos de Walter escritos para a Folha de São Paulo.
Como publicado no Diário Catarinense de hoje, aqui vai a íntegra da entrevista que fizemos com Marcos:
Sala De Cinema - O livro traz um pouco da biografia de Walter, sua filmografia comentada, artigos do cineasta e até uma entrevista com Wim e Walter. Como você define o livro; uma biografia, uma cinebiografia? E como decidiu estruturá-lo desta forma?
Marcos Strecker _ Na Estrada é um livro sobre a obra Walter Salles, que é um cineasta do mundo. Mas para escrever sobre o seu cinema, era necessário também falar sobre sua origem, sobre sua vida e seus valores. Por isso eu falo sobre sua infância e adolescência, sobre a paixão pelo automobilismo, que pouca gente conhece, por exemplo. Não é uma biografia no sentido tradicional. Apesar de ser uma figura pública, filho de embaixador e Ministro da Fazenda, o Walter vem de uma família que sempre cultivou a discrição. Eu explico o cinema pela vida, mas também tento explicar porque filmes como Diários de Motocicleta e Central do Brasil são tão importantes. Por isso acho que a expressão cinebiografia define bem o livro.
SDC _ Como foi conviver com Walter e transpor um pouco de sua vida para o livro?
MS - O Walter foi muito generoso, aceitou compartilhar comigo seus projetos e seus roteiros. Poucos cineastas com a sua importância e em plena atividade, prestes a fazer um filme tão importante em escala mundial como On the Road, aceitam compartilhar assim seu processo criativo. Acho que isso mostra um pouco sua generosidade. Conheci o Walter antes dele lançar seu primeiro longa, A Grande Arte, na virada dos anos 1980 e 1990, e desde então fiz várias entrevistas com ele e com pessoas que se ligam ao cinema dele direta ou indiretamente. Temos influências comuns, incluindo cineastas como Antonioni, Wim Wenders e o brasileiro Mário Peixoto. Isso tornou nosso diálogo mais fácil, mesmo para abordar aspectos mais pessoais.
SDC - Na entrevista que participa Wim, vocês conversam sobre roteiro, processo de filmagens, road movies... é uma verdadeira aula sobre cinema. Como foi para você a experiência de ter conversas com dois grandes cineastas?
MS - Foi fantástico. Eu já admirava o Wim Wenders, um cineasta que redefiniu o cinema nos 1980, antes de conhecer o Walter, que também gostava da sua obra. Com o tempo, o Walter não só se tornou um grande amigo do Wim Wenders como também foi influenciado por ele em filmes como Terra Estrangeira e Central do Brasil. Wenders é um grande cineasta de road movies, os filmes de estrada, um gênero que também explica algumas das obras mais importantes do Walter, como esses dois filmes que eu citei. Foi um privilégio conversar de forma franca com o mestre e seu 'pupilo', que também se tornou um grande cineasta...

SDC - Dentre tantos cineastas hoje no Brasil, o que tornou Walter um dos cineastas mais reconhecidos da Retomada, ganhando destaque internacional logo no início da carreira?
MS - Pela ousadia, por ter sido diretamente influenciado por cinematografias elegantes e inovadoras de diretores como Antonioni e Mário Peixoto, pelo talento conciliador e por ter uma paixão profunda pelo Brasil humano e profundo. Walter não gosta de assumir o papel de porta-voz de nenhum grupo ou movimento, nem faria sentido, mas é o líder discreto do cinema brasileiro contemporâneo.
SDC - Por ter vivido na França na década de 1960, com o começo da Nouvelle Vague, Walter acabou sendo mais influenciado pelo cinema europeu do que pelo brasileiro?
MS - Acho que isso é claro para quem analisa sua filmografia. Mas ele conhece profundamente o cinema brasileiro, e soube abraçar toda a geração do Cinema Novo, de quem é grande amigo. O Nelson Pereira dos Santos, por exemplo, é muito importante para sua carreira. E o Walter é diretamente influenciado pelo Mário Peixoto, que fez o clássico Limite, na década de 1930.
SDC - Ao distanciar-se do estilo de Glauber Rocha, você acha que Walter criou um estilo, uma linguagem própria em seus filmes?
MS - Não acho que ele teve a intenção deliberada de se afastar de autores como o Glauber Rocha, que foi o mais brilhante do Cinema Novo. Mas o Walter criou uma linguagem própria e autêntica ao traduzir para o universo brasileiro, cinematografias modernas e inovadoras do exterior, como a do Wim Wenders, e não seguiu o que se fazia aqui. Walter reelaborou o que viu no exterior e transformou em algo profundamente brasileiro, como faziam os modernistas. O Walter, aliás, é produtor atualmente do filho do Glauber, o Erik Rocha, o que mostra seu respeito por grandes nomes que marcaram o cinema brasileiro.
SDC - No livro fica explícito que os filmes de Walter, de uma maneira ou de outra, tem uma relação entre si, são interligados, seja por temas, personagens ou situações por que passam. Você acha que é algo pensado previamente, que acaba criando um histórico de filmografia mais "unida" na carreira do diretor? Isso acontece com todos os cineastas?
MS - Acho que isso mostra coerência, que o Walter está se aprofundando em temas que são importantes para ele. É natural em cineastas que fazem uma obra autoral, independente. Não é o que acontece com diretores de filmes comerciais, de encomenda, por exemplo.

SDC - Por que Coppola acabou escolhendo Walter, um brasileiro, para fazer um filme que parece ser tão complexo como On the Road, sendo necessário conhecer bem a cultura e a geografia estadunidense, e sendo que o próprio Coppola desistiu de filmar?
MS - Quando o Coppola comprou os direitos do filme, em 1979, talvez fizesse um filme muito inovador e revolucionário, como foi seu cinema na época. Mas as condições do cinema mudaram desde então, assim como mudou Coppola, apesar de se manter um grande gênio do cinema que é. Foi o talento, a seriedade e a coerência que Walter mostrou em Diários de Motocicleta que levou ao convite para dirigir On the Road. É um livro transgressor, sobre filhos de imigrantes que desejavam viver intensamente. Acho muito significativo que um brasileiro tenha sido escolhido para traduzir essa obra tão importante para a sociedade americana. Talvez os EUA da era Obama estejam mais preparados para enxergar esses personagens não conformistas, que vivem à margem do sonho americano.
SDC - Wenders fracassou, por diversas razões, ao fazer Hammet, que também foi produzido por Coppola. O que você acha que fará Walter criar um On the Road à altura do livro? Qual sua expectativa?
MS - Às vezes é necessário passar por um fracasso para aprender o caminho do sucesso. Acho que a dificuldade de Hammett tornou Coppola com o tempo um produtor mais sensível, mais aberto. Paradoxalmente, isso e a dificuldade de financiamento com a crise financeira de 2008 podem beneficiar Walter agora, fazer com que realize um filme mais ousado, autoral. Vai ser um filme menos 'caro', mas vai ser mais autêntico. Coppola entendeu isso e o apoiou. Tenho as melhores expectativas para o On the Road de Walter.
SDC - O Brasil está no auge de sua produção cinematográfica? Como você vê o cenário e o próprio público brasileiro de hoje em relação ao cinema? Ainda é muito dependente do cinema norte-americano?
MS - Não acho que está no auge, mas vejo trabalhos muito interessantes de diretores como Karïm Ainouz e Marcelo Gomes, não por acaso autores cuja obra dialoga muito com o cinema do Walter. E José Padilha, por exemplo, é um cineasta muito inteligente ao confrontar as contradições da nossa sociedade. O fato de ele e o Fernando Meirelles receberem convites para filmar no exterior mostra que nosso cinema amadureceu muito. O público gosta de entretenimento, claro, mas também respeita quando um filme autoral discute com inteligência nossos problemas, como aconteceu com Central do Brasil, que foi um enorme sucesso de público.
SDC - O que falta para o Brasil para ter uma cultura e uma produção mais forte de cinema?
MS - Diretores talentosos, produtores mais ousados, apoio para a distribuição e para o circuito exibidor.