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Crítica de A Dançarina e o Ladrão (El Baile de la Victoria)

30 de março de 2012 7

Um filme com vários clichês pode ser bom? Vai depender de como a história é conduzida, dos atores e, claro, de um roteiro sem nenhum grande absurdo pelo caminho. A Dançarina e o Ladrão (El Baile de la Victoria) foi atacado por parte da crítica internacional por ter muitos clichês. Apesar deles – ou inclusive por eles -, o filme demonstra o talento do espanhol Fernando Trueba em contar uma história sobre as possibilidades que todos deveriam ter de recomeçar a própria vida. Esta produção fala também sobre redenção, a descoberta do amor nos locais mais improváveis e sobre a (parece cada vez mais) difícil arte de sonhar.

A HISTÓRIA: Dois olhos castanhos olham em direção à Cordilheira dos Andes. Algo levanta poeira, ao longe, e a dona dos olhos castanhos parece agitar-se. A câmera sobe até o céu e retorna mostrando a cidade de Santiago do Chile. Uma notícia na rádio informa que o novo governo promulgou uma anistia para os presos do país, libertando todos que tivessem cumprido dois terços de suas penas e que não tivessem sido condenados por assassinato. Entre os que seriam soltos estava uma “lenda do crime”, o ladrão especializado em roube de cofres Nicolás Vergara Grey (Ricardo Darín).

Mas a história vai centrar-se mesmo em um anistiado menos conhecido, o jovem Ángel Santiago (Abel Ayala) que, logo que sai da cadeia, encontra a apaixonante Victoria Ponce (Miranda Bodenhofer). A história destes dois e mais a de Vergara Grey será entrelaçada em um conto sobre as mudanças ocorridas no Chile após a ditatura de Pinochet.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme A Dançarina e o Ladrão): Como recomeçar a vida quando todas as portas parecem estar fechadas? Que chances dois ex-presidiários tem de serem respeitados e amados? Estas são duas perguntas levantadas por A Dançarina e o Ladrão. Mas o filme não fala apenas da dificuldade de dois indivíduos em se reerguerem, mas do desafio de toda uma nação para começar a dar os primeiros voos após um longo período de ditadura.

O roteiro do trio formado pelo diretor Fernando Trueba, de Jonás Trueba e de Antonio Skármeta é inspirado na obra homônima do escritor chileno lançada em 2003. Não li o livro de Skármeta, por isso não sei até que ponto o filme segue com fidelidade o original. Mas posso dizer que o diretor e os roteiristas acertaram na dosagem do drama, da comédia e da “aventura” nesta produção.

As histórias paralelas e intercaladas dos personagens de Vergara Grey e de Ángel mantêm o interesse do público até o final. Trueba não se preocupa em acelerar a narrativa, e nem cede ao estilo de um filme policial. Ele prefere equilibrar o drama dos dois ex-presidiários na busca por novas rotas na vida ao mesmo tempo que mostra o lirismo da dança e do talento de uma garota que plasma a dor provocada pela ditadura chilena.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é por acaso e nem forçada a mudez traumática da personagem Victoria. Toda a odisseia envolvendo a garota, que dá título ao filme, na busca por uma oportunidade, de leveza e da própria “voz” resume a própria trajetória do país, que deve buscar os caminhos para encontrar o “gosto” pela vida novamente. Também não é à toa o pulso cicatrizado de Victoria, e o amor que ela sente por um garoto como Ángel. O condor macho do final, símbolo clássico da liberdade, também não aparece por acidente.

Aliás, cada parte de A Dançarina e o Ladrão é bem planejado. Eis um filme inteligente, e que não pensa duas vezes em abrir espaço para cenas plasticamente bonitas. Alguns podem ficar irritados quando Ángel sai cavalgando pela cidade. Eu achei lindo. E a reação das pessoas enquanto ele passava, de espanto e resistência, mostra como ninguém hoje parece estar aberto para o inusitado e para as belas surpresas que a vida pode nos trazer – ainda mais em cenários de dureza, como os dos centros urbanos.

Depois, claro, há uma explicação para o apreço de Ángel por aquele cavalo. Algo até dispensável – a explicação, me refiro. Mas que pode agradar às pessoas que precisam sempre de uma saída lógica para tudo que veem pela frente. O trio de protagonistas luta por uma oportunidade. E por suas próprias paixões.

Vergara Grey tem frustrado o sonho de resgatar o afeto familiar. E o que fazer quando o que você mais queria retomar não existe mais? Para alguns, isso pode significar o fim da linha. Mas a história de amor até certo ponto pueril de Ángel e Victoria faz o veterano ícone da bandidagem rever a sua própria história, quando ela ainda não estava falida. (continua… para ler, clique abaixo)

Abel Ayala resgata uma tradição de personagens inocentes e que, mesmo com uma história complicada, acabam conquistando o público com um jeito simples e cheio de romantismo. Acompanhado de um chapéu durante grande parte do filme, ele lembra muito comediantes históricos, como Buster Keaton e, porque não, ao “herói” mexicano Cantinflas.

Ricardo Darín está brilhante, como sempre. Dá o devido peso, desesperança e novo ânimo para o personagem do criminoso que é admirado por seus feitos – e que, nem por isso, tem a vida mais fácil.

A direção de Trueba é uma das principais qualidades do filme, ao lado do trabalho dos atores e da trilha sonora fundamental que acompanha a história. Falarei mais dela abaixo. Grande trabalho também do diretor de fotografia Julián Ledesma. Trueba acerta ao equilibrar o foco no trabalho dos atores com as cenas em que destaca o lirismo da história, seja nas cavalgadas de Ángel ou nos passos da bailarina Victoria.

O filme também prende a atenção do espectador porque alimenta uma dúvida constante sobre o que poderá dar de errado naquela história, nos planos de Ángel. E há duas fontes de problemas: o próprio plano ousado para o último assalto que ele propõe para Vergara Grey e a ameaça do diretor do presídio (Julio Jung) de eliminá-lo como forma de proteger-se de um problema que ele próprio criou.

Aqui, mais uma vez, a imagem do abuso, de um sujeito que tinha o poder na mão e que o utilizou para subjugar alguém sem defesa – mais uma alusão ao que Pinochet fez com o próprio país. E o que Ángel faz a respeito? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como A Dançarina e o Ladrão ensina em mais de uma ocasião, a grande volta por cima dos personagens e da nação chilena está na fortaleza do perdão, muito mais que na busca pela vingança – que não faz o tempo voltar atrás e apagar as cicatrizes, mas apenas dar prosseguimento à dor.

Sobre o que realmente aconteceu no final… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quem se salvou e quem não conseguiu se salvar? Bem, como sempre, isso vai depender da leitura particular do espectador, que acredita no que quiser. O mais provável é que aquele cavalo estivesse correndo sozinho ou, na melhor das hipóteses, com o corpo inerte de Ángel. Dificilmente ele sobreviveria ao ataque que sofreu e, ainda, a uma cavalgada em terrenos inóspitos.

Ainda assim, não seria bobagem acreditar que ele conseguiu. E que ao encontrar aos outros dois protagonistas, ele conseguiria seguir em frente. Sonhar é sempre possível. A Dançarina e o Ladrão demonstra isso. E mesmo que ele tenha se tornado um “anjo”, e voado junto com as asas do condor, aquela não deixa de ser, também, uma espécie de vitória.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Curioso que esta produção não tenha um nome assinando a trilha sonora. Até porque ela é maravilhosa. Não sei quem definiu as músicas, mas vale comentar que a trilha tem algumas músicas brasileiras. Faz parte da seleção canções de Milton Nascimento (Tema dos Deuses e Pablo nº 2, que ele fez com R. Bastos), Andrés Calamaro y Jerry González (a clássica El Día que me Quieras), Herbie Hancock (Sleeping Giant), Kurt Weill (Youkali Tango-Habanera), Victor Young (The Left Hand of God), Coleman Hawkins Quartet (Love Song From Apache), entre outros.

Vale comentar que a assinatura da anistia para os presos, mostrada no início do filme, plasma uma das primeiras decisões do presidente chileno com a chegada da democracia e o fim da ditadura de Pinochet.

O escritor Antonio Skármeta é um dos nomes mais conhecidos da literatura chilena. Nascido em Antofagasta em 1940, ele é autor também do clássico O Carteiro e o Poeta, que rendeu um belíssimo filme homônimo e que ele escreveu na Alemanha quando estava exilado – com o golpe militar em seu país, ele teve que sair de lá, morando primeiro na Argentina, por um ano. Recebeu diversos prêmios em sua trajetória como escritor.

Fernando Trueba é um diretor espanhol veterano. Procurando saber mais sobre ele, fiquei contente em saber que ele se formou na Faculdade de Ciências da Informação em Madri… temos algo em comum. Tenho um prazer incontido quando sei que pisei nos mesmos corredores que grandes diretores como ele. :)

Nascido em Madri em 1955, Trueba tem no currículo a direção de 27 filmes e o roteiro de outras 29 produções. Ele estreou na direção com o curta Óscar y Carlos, de 1974. Dos longas, destaque para Ópera Prima, El Año de las Luces, Belle Epoque (com Penélope Cruz e  que ganhou o Oscar como Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1994), La Niña de Tus Ojos e Chico & Rita, este último indicado ao Oscar de Melhor Animação este ano.

Trueba é um sujeito engraçado. Nesta matéria do jornal El Mundo, ele fala sobre El Baile de la Victoria e sobre os seus projetos futuros. Comenta, por exemplo, que o livro no qual o filme se inspirou lhe interessou pela “mistura dos tons entre a tragédia, a comédia, o romantismo, inclusive o western. O filme fala sobre o amor e a beleza; do que é preciso ser feito para aprisionar a beleza”. Depois, ele segue dizendo que este talvez seja um dos temas que mais lhe interessam, o de como “aprisionar a beleza e colocá-la dentro de um retângulo”.

No final, ele fala sobre o cinema de seu país: “O cinema espanhol, como o francês e o alemão, é um monte de merda do qual, de repente, surgem coisas bonitas”. hehehehe. Achei um tanto exagerado mas que, nem por isso, deixa der ser menos ácido ou engraçado. :)

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho da atriz Ariadna Gil como Teresa Capriatti, o amor da vida de Vergara Grey; a brasileira Marcia Haydée – bem que eu desconfiei pelo sotaque dela ao falar espanhol – como a professora de dança de Victoria; e Luis Dubó como o assassino de aluguel Rigoberto Marín.

Mesmo tendo nascido no Brasil, Marcia Haydée ficou conhecida por estrelar filmes produzidos na Europa. Seu trabalho de maior destaque foi o papel de Marguerite Gautier no filme alemão Die Kameliendame (The Lady of the Camellias, de 1987).

Mesmo rodado no Chile, A Dançarina e o Ladrão é uma produção espanhola e foi o filme indicado pela Espanha para concorrer na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar de 2010. Mas ficou de fora da lista dos finalistas.

A Dançarina e o Ladrão estreou no dia 18 de setembro de 2009 no Festival de Cinema de San Sebastián, na Espanha. Depois, ele participaria de outros quatro festivais, nenhum de grande expressão. Nesta trajetória, o filme foi indicado a 12 prêmios, mas não ganhou nenhum.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,6 para a produção. Pouco conhecido no mercado dos Estados Unidos – tanto que não há informações sobre o desempenho do filme nas bilheterias daquele país ou no restante do globo -, A Dançarina e o Ladrão não foi alvo, até o momento, de nenhum texto de críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes.

CONCLUSÃO: Concordo que A Dançarina e o Ladrão tem muitos clichês. Mas quem se importa com isso quando o filme funciona? Além do mais, cada vez é mais difícil uma produção não ter qualquer clichê. Em A Dançarina e o Ladrão, o diretor Fernando Trueba consegue destilar algumas cenas belíssimas, e os atores seguram bem a responsabilidade de seus papéis. Além do mais, é sempre um prazer assistir ao grande Ricardo Darín em cena. Desta vez, ele não é o protagonista. Mesmo assim, ele faz a diferença na produção.

Carregada de alguns simbolismos, esta produção também toca em algumas feridas do Chile e, porque não dizer, da América Latina, que ainda tem que se livrar dos fantasmas de tempos totalitários e de suas ditaduras. Mas estes temas são tratados nas entrelinhas e de forma simbólica, sem discursos pesados. Em primeiro plano, está o conto de um trio de marginalizados que busca uma alternativa para suas vidas. É um belo filme, mas não uma obra-prima.

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Comentários (7)

  • Bernardo G.B. Nogueira diz: 19 de junho de 2012

    Entre a cordilheira, o Brasil e o velho continente, ou, um roubo para a vida

    Entre a Rio + 20 e a véspera da votação na recém classificada na eurocopa Grécia, recorro a um gole de vinho coincidentemente chileno. Coincidente, vez que hoje meus olhos tiveram um enlace com o filme “A dançarina e o ladrão”, originalmente chamado “El baile de la Victoria”, de Fernando Trueba, inspirado na novela de Antonio Skármeta.

    Preciso falar de uma coisaa antes de exercer minha liberdade de olhar sobre o filme. E é em relação aos críticos. Parece-me estranho, mas na maioria das vezes, tenho a impressão que assisto a filmes diferentes daqueles sobre os quais os críticos escrevem, contudo, não irei criticar os críticos, senão criaríamos uma outra espécie, que talvez já exista: aqueles que criticam os críticos, mas isso seria tão enfadonho quanto as críticas que dizem que um filme que tem muitos clichês é ruim por isso. Talvez devessem ler o poeta que nos alerta: “todas as cartas de amor são ridículas”. Vamos aos sentimentos sobre o filme. Ridículos e não ridículos, “misturadamente”.

    Muitas sensações são facilmente despertadas com a leitura desse filme. Desatento, como é o coração, aparece um cavalo a romper com uma sociedade ordenada com semáforos, faixas de pedestre, buzinas e silvos de policiais sem graça. Assim como é sem graça a vida sem música e sem qualquer tipo de dança, de subversão e de amor, de roubo. A tônica de um cavalo entre as pessoas é significativa – maior que uma crítica que alega ser um clichê. Na verdade, o paradoxo do cavalo em pleno voo entre os transeuntes faz com que reflitamos até que ponto a nossa racionalidade matemática tem prioridade ante a “desmedida” de um cavalo em meio à gente. Quando as pessoas entendem isso como algo extraordinário, fico a refletir se não mereceria maior assombro, ações que colocam um verso em menor escala que um artigo de lei qualquer. Preferimos a dureza das leis à sutileza do poema. Esse contraste deve explicar por que o galope primoroso de um cavalo causa aos seres racionais tamanho espanto. Não somos leves.

    Mas fui direto ao cavalo. Deixem-me voltar um pouquinho para dizer um pouco do filme. Há ali algumas figuras que compõem a trama principal. Um ladrão que é lenda. Uma menina que é bailarina e não é nada. Um bandido que não é lenda e nem é propriamente bandido. O Chile pós-ditadura e um sentimento argentino, de um tango argentino. E assim como diz um antigo tango, “saído do subúrbio para o mundo”, tentarei cantar nestas palavras, do subúrbio do meu coração, para confins que só sei dizer em jeito de imaginação.

    Logo que recebe anistia e pode ganhar a liberdade, Nicolás Vergara Grey (Ricardo Darín), por óbvio, como um claro clichê, sai à procura da mulher que amou e de sua família, e, claro, os encontra a viver bem melhor do que antes de quedar-se entre as grades. Nesse momento, encontra-se com outro que havia saído da prisão sob a mesma graça, Ángel Santiago (Abel Ayala). Este último, tem na lenda dos assaltos, Vergara Gray, seu próprio ídolo, e pretende com ele realizar um assalto que irá mudar sua vida para sempre, nada mais clichê do que um ladrão pensar assim. Da mesma forma que é clichê ver Santiago a encontrar-se com Victoria Ponce (Miranda Bodenhofer), que viria a ser sua amada e a tornar o sentido da existência diferente para os dois recém libertados. Uma mulher a dizer o destino de dois homens, outro clichê. O fato de Ponce ser uma bailarina talentosíssima e estar à mingua nas ruas é o outro clichê. Poderia falar de outros, como o do criador de cavalos que é reconhecido pelo animal, contudo, penso que está de boa monta essa exploração dos clichês na obra, isso só para reconhecer o tanto que eles são leves nessa trama.

    Gostaria de falar sobre Vergara Gray: se acaso ele é uma mostra de um ladrão mal sucedido, de outro lado, sob os olhos de Darín, transforma-se em todo o charme que o povo argentino carrega em seu olhar, com toda a sua certeza, seu vacilar e seu tango. Parece que a segurança do ladrão-mito contrasta com o humano em busca de um sentido que lhe havia sido furtado a partir dos roubos que cometera. A palavra sentido é o mote que me direciona nesse filme.

    De sua parte, Santiago representa uma total ausência de peias em relação à nossa irritante sociedade politicamente nojenta e correta. “Enfia” um cavalo pelas ruas de Santiago e faz com os cidadãos polidos e pálidos sujem-se com a verdade de um animal em plena atuação, em face da fantasmagoria que fica bem representada quando a dançarina Ponce é rejeitada pela comissão avaliadora do teatro municipal. Ali as expressões acerca da fisionomia da garota são realçadas pelos jurados, num claro apelo há um mundo aparentemente real, no qual o porteiro ereto se assusta ao ser obrigado a segurar as rédeas de um cavalo. O real é assim, não avisa, nem coloca uniforme, por isso que amor é um só, o verdadeiro, assim como a poesia.

    É claro que o amor é o irmão siamês do sentido aqui. Isso é mais um clichê. Da mesma maneira que é clichê ver uma primorosa dançarina estar relegada sem identidade e ser encontrada por um ignóbil aprendiz de bandido, posto que fora transformado em um, posto que fora obrigado a sê-lo, sem ser. Na verdade, os rostos de Ponce e Santiago são uma mescla de perdimento e doçura, outro clichê que embala a coisa toda do amor. É a tragédia de um jovem que tem seu sentido furtado, é a tragédia de uma jovem que tem sua fala também furtada.

    O regime de Pinochet, encenado em alguns momentos, também é um dos componentes que fazem interessante a questão do filme. Pois, além do clichê do amor, do perdimento e de todos que falei, há um outro que é irresistível: o clichê de que o amor somente o é se for inventado. Então, ladrões se unem para invadir um teatro e colocar no palco a bailarina emudecida pelo regime. Invadem a instituição e subvertem a ordem, e agora o que reina é o delírio da dança e da poesia, apadrinhado pelas mãos dos ladrões e assistidas com louvor por quaisquer olhos que se queiram reais, nus como os cavalos. Roubar o regime, saquear seu dinheiro, foi também uma forma clichê de trazer a voz para a dançarina. Falaram ali os oprimidos, falaram a partir de uma face estranha que as instituições costumam costurar na vida das pessoas.

    A dançarina cumpriu seu papel clichê. Musa de dois destinos. Como é belo um clichê em que lábios infinitos fazem apaixonar. Como é belo o clichê em que os passos de uma dança fazem revigorar a alma que resta na sarjeta de uma vida em que não há poesia, não há música e que não se curva ao reclame impreciso de uma esquina sempre a bailar de mãos dadas com a ideia de um novo amor. Como é belo o clichê de amar sem documentos. Como é belo o clichê de roubar o amor, de perceber-se furtado pelo ato de amor de outra pessoa. Pelo fato de ter seu futuro desenhado a partir do olhar apaixonado do outro, grande roubo, diria.

    Vergara Gray procurou o sentido depois que saiu da prisão. Junto com Santiago – cada um com sua finalidade – tentou, a partir do roubo aos cofres de Pinochet, encontrar um sentido para sua vida fora da prisão. Isso não o faria reconquistar a família. Ele não servia mais. Claro que para manter o clichê também haveria a necessidade dessa tragédia familiar para um cara que sai da prisão. De outro lado, Santiago, também, através do roubo, queria imprimir um sentido à sua existência. Ter dinheiro para comprar o cavalo que o levara até a prisão erroneamente e partilhar de uma vida boa com sua dançarina. Os dois se valeram de uma mesma estrutura para modificar sua existência. Contudo, me parece, o grande lance disso tudo nem estaria na ideia do roubo em si. Ora, mesmo havendo promessas, planos e previsões por parte dos dois para saber o que fariam dali em diante, um evento já os havia enternecido: o olhar, a boca e a dança de Victoria Ponce tinham já enfeitiçado e criado neles uma nova subjetividade, na qual todas as miradas apontavam para a construção de um sentido a partir e desencadeado por aquela dança, e assim, por serem movidos por um bailar, que é também uma forma de poetar, o sentido agora era um sentido de amor. Santiago morreu por ele e por ela. Gray, não se sabe, ou sabe-se apenas que fora ver o tango.

    A Rio + 20 e a Grécia podem dar seu testemunho dessa ideia: dançarinos de uma nova melodia ou ladrões de si mesmos? Aquele evento, se não continuar querendo roubar para viver, poderá manter a vida no planeta, este país, se mantiver a chama de seus antepassados e se quiser livre, permitirá a vitória de uma nova subjetividade em face do regime, não o de Pinochet…

    Bernardo G.B. Nogueira
    Outono – Conselheiro Lafaiete

  • Daniel Juliano Soares diz: 6 de agosto de 2012

    O filme é muiiiiiiito chato. Não sei como o grande Ricardo Darín entreou nessa roubada. Aliás, ele segura alguns pontos do filme, mas o roteiro é confuso demais, pretensioso, e com uma mistura que não dá liga entre comédia, romance, drama, aventura, fantástico… Chato meso!

  • Francisco Cripa diz: 14 de setembro de 2012

    Parabéns à Alessandra e ao Bernardo pelos belos comentários sobre o filme.
    Gente inteligente é outra coisa.
    Daniel:
    - se tivessem matado o seu presidente da república, eleito democraticamente,
    - se tivessem matado seus pais e te deixado você órfão, mudo e perdido no mundo,
    - se tivessem desgraçado a vida de muitos compatriotas no período da ditadura militar,
    - se tivessem roubado milhões de dólares do seu povo,
    - se a corrupção, o autoritarismo e a falta de democracia tivessem campeado no país,
    - se você fosse um garoto de 17, que foi preso por dois anos por ter andado no cavalo de um ricaço,
    - se você tivesse o seu sonho barrado por uns burocratas insensíveis,
    - se você tivesse perdido o bem mais caro da sua vida: mulher e filho.
    Talvez você pudesse entender o drama destas pessoas e gostado mais do filme.
    Abra a sua mente e amoleça o seu coração, rapaz!
    Francisco Cripa
    BH/MG

  • Lucas Gazzola diz: 16 de outubro de 2012

    Parabéns a Alessandra e ao Bernardo pelas maravilhosas críticas ao filme. Assino embaixo.
    Alessandra, o filme pode não ser uma obra-prima, mas com certeza é uma bela obra de arte.
    Adorei !! Recomendo !!

  • Gustavo diz: 19 de novembro de 2012

    Poderia ter sido um bom filme se não fosse demasiado longo, arrastado e com um roteiro mal construido.

    Salva-se algumas tomadase uma certa poesia, mas infelizmente se as intenções são boas, o produto final decepciona. Fernando Trueba tem uma longa carreira e às vezes acerta, mas não nesse caso.

    Deve agradar ao publico acostumado com novelas e serve para passar o tempo, mas é esquecível.

  • Anna Christina Marti diz: 14 de janeiro de 2013

    Gostei muito do filme! Cenas belíssimas e ótimas atuações. É cativante a inocência transmitida por Abel Ayala (Santiago) em vários momentos e Ricardo Darín, como sempre, está impecável. A gente torce pelos protagonistas e reluta em aceitar que o final não tenha sido um clichê…

  • Edilson Palhares diz: 4 de fevereiro de 2013

    Parabéns às belíssimas leituras da obra feitas por Alessandra e Bernardo. Gostei do filme, no entanto o achei meio hermético para a grande maioria das pessoas que não têm conhecimento da realidade política do Chile em um passado ainda recente. Mas isto não é um problema, mas sim uma instigação. Quanto ao final aberto, achei um tanto inadequado ao tom realista da obra, apesar de todo o simbolismo implícito em todo a película. Mesmo assim, um bom filme.

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