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Crítica de Um Método Perigoso (A Dangerous Method)

27 de abril de 2012 1

Me disseram, certo dia, que qualquer pessoa que quiser ajudar outra a se tratar psicologicamente deve ter, também, um pouco de loucura para resolver. Ou, em outras palavras, que qualquer psicólogo ou psiquiatra deve, em algum momento, precisar de análise também, para enfrentar os seus próprios problemas e/ou demônios.

Impossível não admirar a Freud, um dos grandes nomes das ciências de todos os tempos. Mas mesmo admirando-o, nunca entendi muito bem porque da fixação dele com as questões sexuais. Li algumas teorias a respeito, mas nunca me aprofundei sobre as razões que fizeram ele ir tão fundo apenas nesta direção. Um Método Perigoso (A Dangerous Method) surge para contribuir com estes debates porque ele foca uma amizade entre dois científicos que mudou a história. Fala de Freud e de Jung. Fascinante.

A HISTÓRIA: Dois homens seguram uma mulher descontrolada em uma carruagem. Sabina Spielrein (Keira Knightley) quer sair dali, ela resiste, mas quando a carruagem para, ela é levada para dentro da Clínica Burghölzli na cidade de Zurique, na Suíça, em agosto de 1904. Na manhã seguinte, ela é recepcionada pelo médico Carl Jung (Michael Fassbender), que começa a experimentar com Sabina os métodos de psicanálise de Sigmund Freud (Viggo Mortensen). A proposta de Jung é que ele e a paciente se encontrem quase todos os dias para conversar. Conforme o caso dela vai avançando e o tratamento surte efeito, Jung se arrisca a começar a corresponder-se com Freud. A partir daí, o filme conta a história destes três personagens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme Um Método Perigoso): O surgimento da psicanálise, momento revolucionário no tratamento dos problemas e dores da mente, é o foco deste filme. A primeira sensação que Um Método Perigoso nos provoca é a da angústia, ao ver Keira Knightley se retorcendo, literalmente, para interpretar a personagem de Sabina Spielrein em sua fase de crise e mesmo depois.

A atriz faz um bom trabalho. Mas continuo achando que esse tipo de papel não é para ela. Senti Knightley um pouco deslocada no papel. Quando você sente o esforço do ator, é porque as coisas não vão bem. Quando assistimos a um ator vivenciando o personagem, tornando-o legítimo, aquele personagem faz sentido. Quando o esforço fica evidente… parece que para o espectador é jogada a outra parte do sacrifício.

Isso acontece com os outros dois atores. Eles estão bem, mas parecem se esforçar em assumir um tom sério e intelectual. Um Método Perigoso tem menos de duas horas, mas parece ter mais. E isso não se deve apenas à densidade do roteiro de Christopher Hampton, inspirado em sua peça The Talking Cure e no livro A Most Dangerous Method, de John Kerr. Parte do esforço que o espectador tem que fazer para continuar interessado na história se deve também pelas interpretações, algumas vezes forçadas.

Mas a história, por si só, é fascinante. E, evidentemente, não cabe em um filme, em uma peça ou em um livro. O surgimento da psicanálise e as relações amistosas e depois de ruptura entre Freud e Jung estão cheias de detalhes que merecem ser conhecidos e, eu diria, estudados.

Um Método Perigoso humaniza os dois ícones da psicanálise e nos faz pensar em como mesmo o mais genial e ousado cientista tem, ele próprio, as suas imperfeições. Se um ícone estivesse alheio a defeitos e problemas, não seria humano, certo? Eu já conhecia um pouco da história de Freud e Jung, mas francamente este filme torna muito mais simples a explicação de pontos fundamentais na vida dos cientista. Para começar, a fixação de Freud pelo que Jung chamou de “interpretação exclusivamente sexual do material clínico” que eles estudavam. (continua… para ler, clique abaixo)

Nunca entendi porque ele limitava as interpretações a essa questão. Devo dizer que sempre concordei com Jung e outros teóricos que afirmavam que havia muito mais em jogo do que apenas a questão sexual. Mas Um Método Perigoso torna evidente que esta foi uma escolha pragmática de Freud. Ele preferia manter-se firme à esta leitura do que abrir o foco para outras possibilidades e fazer a psicanálise ser combatida ao ponto de ser desacreditada. Faz sentido. Na época – e até hoje – as ideias dele foram muito combatidas. Se ele tivesse ampliando muito o leque, talvez tivesse todo o seu trabalho, que surtia e continua surtindo efeito, destruído.

Sobre Jung, eu sabia menos… e achei fascinante a escolha do filme em pegá-lo como personagem principal. Interessante as suas fraquezas e a vontade do médico pesquisador em lançar-se na experiência de satisfazer os próprios desejos, independente do efeito que estas suas ações poderia ter na parte frágil da história, Sabina Spielrein.

Claro que, posteriormente, ela mesma se tornaria uma teórica e pesquisadora, mas ela era a pessoa que precisa de maior cuidado. Se bem que, se olharmos com um pouco de lupa, toda a relação de admiração e, ao mesmo tempo, competitividade e negação de atitudes de Freud por parte de Jung mostrava que, este último, também precisava de algum cuidado e, quem sabe, ajuda profissional.

Aliás, essa ideia de que mesmo os profissionais precisam de ajuda fica ainda mais evidente com o personagem de Otto Gross (Vincent Cassel). Ele mesmo se classificava como neurótico, e defendia a ideia de que ninguém deveria reprimir os seus desejos, até porque a monogamia era uma afronta ao indivíduo. Sua racionalidade, mesmo que muitos possam considerá-la equivocada, fez com que Jung se lançasse em direções que ele antes não havia experimentado.

Interessante conhecer os métodos antigos para o tratamento de pessoas doentes, e as primeiras medições relacionadas com os desejos e sentimentos dos pacientes desenvolvidas por Jung. A ciência avançou muito, desde então, mas poucos tiveram uma importância tão decisiva no desenvolvimento de um método inovador quanto Freud com essa ideia de conversar com o paciente – ao invés de tratá-lo com sessões de choque, isolamento, e etc.

A direção de David Cronenberg segue uma linha tradicional, sem que ele seja inventivo. Na verdade, acho que 90% dos diretores norte-americanos poderiam ter feito um filme igual ou muito parecido com esse. O roteiro de Hampton é bom, mas recomendado apenas para as pessoas interessadas nos personagens – duvido muito que este texto, denso como ele é, agrade ao grande público. O diretor de fotografia Peter Suschitzky também faz um belo trabalho.

Outro ponto é fundamental para explicar as diferenças entre Jung e Freud: a diferença social e de origens deles. A mulher de Jung, Emma (a ótima Sarah Gadon), era de uma família rica e tinha dinheiro. Jung trabalhava, mas não tinha que se preocupar tanto com o sustento da casa quanto Freud – que tinha mais filhos que Jung e era o provedor familiar.

Há uma cena importante em que Freud comenta que há outro risco para ele e o grupo de Viena que trabalhava a psicanálise: o fato deles serem judeus. Jung pergunta o que isso tem a ver, e Freud comenta que eis uma afirmação típica de um protestante.

Pouco depois, na primeira e, especialmente, na segunda guerra mundial, ficaria evidente que a questão dos judeus era algo importante para aquela época. Foi também na relação entre Jung e Freud, assim como nas convicções deles sobre quais deveriam ser as linhas da psicanálise. Em uma conversa com Freud, Sabina afirma que Jung está preocupado não apenas a explicar aos pacientes que eles são de determinada forma por isso e por aquilo (a proposta de Freud), mas ajudá-los a, a partir desta constatação, encontrar aquilo que eles gostariam de ser. Para Freud, isso era brincar de ser Deus.

Até hoje a divisão entre estas duas correntes existe. E mesmo sem ser uma pesquisadora e, muito menos, uma especialista nesta seara, me arrisco a dizer que eu prefiro a linha de quem vê as questões sexuais como fundamentais, mas não como únicas, e que tenta ir além da constatação do problema para tentar, também, buscar alternativas e caminhos para os pacientes em busca de ajuda. Sempre fui um pouco mais para o lado de Jung. E com este filme, apesar dos equívocos do homem, continuo tendo mais interesse por suas ideias.

Ainda que o filme seja interessante e tenha bons atores à frente da produção, senti falta de outros personagens, de outros pacientes e casos clínicos tratados por Jung ou algum por parte de Freud para exemplificar um pouco mais os seus métodos e conclusões. Há pouco exemplo prático nesta história, o que eu acho que a tornaria mais fascinante. Claro que foi uma escolha de Um Método Perigoso manter o foco na vida pessoal e nos bastidores do trabalho de Jung e Freud. Isso é bacana. Mas alguns discursos teóricos poderiam ter dado lugar para exemplos práticos. Faltou isso.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu admito que a Keira Knightley me irritou um pouquinho, especialmente com aquelas saídas fáceis de arcada dentária para a frente e contorsionismo do início, quando ela estava na fase mais difícil da doença. Sei que a personagem exigia mostrar este descontrole, só achei a forma equivocada.

Michael Fassbender está melhor e, em especial, Viggo Mortensen. Eles fazem um bom duelo. Os demais atores, ainda que importantes para a história, se destacam menos. Vale voltar a comentar sobre Vincent Cassel, que está muito bem e charmoso neste filme,  e a talentosa e comedida Sarah Gadon.

Da parte técnica da produção, além do diretor de fotografia, faz um bom trabalho o editor Ronald Sanders. A trilha sonora do veterano Howard Shore tem uma presença pouco marcante, basicamente importante no início e no final do filme. Achei ela bastante previsível, sem grande inventividade. Um trabalho medíocre, apesar de levar a assinatura de um mestre.

Fiquei curiosa para saber se o filme foi rodado nos locais citados, ou se várias cenas foram feitas em estúdio. De fato, Um Método Perigoso foi rodado nas cidades de Viena, na Áustria, e em diversas cidades alemãs, a saber: Bodensee, na Bavária, e Constance e Überlingen, ambas em Baden-Württemberg, além do estúdio MMC em Hürth, também Alemanha.

Fiquei admirada com a quantidade de produtores e estúdios envolvidos em Um Método Perigoso. Nomes que aparecem na abertura do filme. Para a realização deste projeto, vieram recursos de quatro países: Reino Unido, Alemanha, Canadá e Suíça.

Um Método Perigoso estreou em setembro do ano passado no Festival de Veneza. Depois, o filme passou por outros 12 festivais, incluindo os de Toronto, Zurique, Nova York, Chicago, Rio de Janeiro, Londres e Estocolmo.

Nesta trajetória, o filme recebeu 13 prêmios, foi indicado a outros 13 e ainda ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Viggo Mortensen. Entre os que recebeu, destaque para os recebidos por Michael Fassbender no National Board of Review e pelos críticos de Londres e Los Angeles. Ainda que estes prêmios que ele recebeu não foram dados apenas pelo trabalho em Um Método Perigoso, mas por sua performance em outras produções, como Jane Eyre, X-Men: Primeira Classe e Shame.

Um Método Perigoso teria custado, aproximadamente, US$ 15 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos ele conseguiu um terço disto, arrecadando pouco mais de US$ 5,6 milhões até o dia 22 de março. No mercado internacional ele foi melhor, ainda que nada excepcional – se levarmos em conta os ótimos nomes por trás da produção, especialmente os atores -, arrecadando pouco mais de US$ 17,5 milhões. Por tratar-se de um filme difícil, que não foi feito para cair no gosto do grande público, até que ele não se saiu tão mal quanto poderia ter se saído.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para Um Método Perigoso. Para os padrões do site e pela densidade desta produção, podemos considerar esta uma boa nota. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 113 críticas positivas e 33 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,9.

Um dos críticos que eu costumo citar, Tom Long, do Detroit News, disse que a história real por trás deste filme é extraordinária, mas que o filme não consegue chegar neste nível. Devo concordar. Outro que eu gosto de citar, Peter Howell, do Toronto Star, afirma que Cronenberg chegou a um patamar na carreira em que não tem mais que satisfazer expectativas. Que, para ele, basta envolver o público. Na opinião de Howell, ele consegue isso neste filme.

Uma curiosidade sobre o filme: a atriz Keira Knightley disse que não sabia como interpretar o momento de histeria de sua personagem. Até que ela leu as anotações de Sabina Spielrein e viu que a mulher se descrevia, quando estava neste estágio, entre as figuras de um demônio ou de um cão. Daí Knightley começou a pensar nas caretas e recebeu a aprovação de Cronenberg.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre as diferenças entre Freud e Jung, um bom começo é este texto assinado por Adriana Tanese Nogueira. Gostei da explicação dela, bem didática. Interessante, em especial, a explicação dela para conceitos fundamentais dos dois cientistas. Como a livre associação de Jung, mostrada de forma interessante neste filme.

Bacana também a distinção entre a ação dos dois com os seus pacientes, e a forma com que Jung observou como qualquer psicólogo é parte do diálogo com o paciente – não pode ausentar-se do diálogo, como propunha Freud. Achei bacana também este outro texto, que reproduz uma parte do livro Incesto e Amor Humano, de Robert Stein. Finalmente, recomendo este outro texto, de Andrew Samuels, sobre a aproximação e ruptura entre Jung e Freud.

CONCLUSÃO: Eis um filme denso e complexo. Não porque ele seja feito de quebra-cabeças. Um Método Perigoso não exige que o espectador descubra uma charada. Mas ele trata de assuntos difíceis, conta parte da trajetória de personagens históricos complexos e remexe em questões densas da psique humana. Possivelmente muitas pessoas se sentirão retratadas na produção. Seja pela dificuldade que alguns tem, mais que outros, de manter a conduta próxima do discurso e de suas crenças. Seja pelas pedras que alguém que pensa fora da curva costuma encontrar pelo caminho.

Um Método Perigoso acerta em focar a atenção no talento do trio de protagonistas. Mas por ser dirigida por David Cronenberg, que já fez filmes mais ousados e experimentais, esta produção parece menor do que poderia ser. Em alguns momentos, ela chega a ser arrastada. Poderia ter ajudado o filme, neste sentido, focar em outros casos tratados por Jung e Freud, além da personagem de Sabina Spielrein. Mas como filme histórico, ele é interessante. Nos mostra uma parte importante da história até então pouco revelada. Vale ser assistido, especialmente se você gosta do tema psicanálise ou de saber um pouco mais sobre personagens históricos.

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Comentários (1)

  • Clarissa diz: 30 de abril de 2012

    Estava pesquisando críticas sobre o filme e gostei bastante da sua. A história de Sabina e parte da ruptura entre os dois psicanalistas foram retratados no maravilhoso filme Prendimi L’anima.
    http://www.interfilmes.com/filme_15445_jornada.da.alma.html
    Fica a dica pra quem se interessou.

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