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Das mentiras que os homens contam

21 de maio de 2011 2

Tem uma história de um amigo, uma história que certamente já aconteceu com vocês também, e talvez comigo, mas nesse caso a história foi com um amigo. Ela ilustra uma verdade absoluta: todo homem mente. Mesmo que seja por uma boa causa, todo homem mente. Enfim.

Esse amigo estava se preparando para o primeiro encontro com uma garota. Uma garota que ele conhecia do trabalho, uma garota que há muito ele estava investindo, uma garota que ele gostaria de impressionar. Impressionar, guardem bem esse verbo e sentença de morte.

Então ele, que era um sujeito dos mais razoáveis em qualquer sentido, decidiu levar a garota prum “barzinho legal”. “Barzinho legal”, vocês sabem, é sinônimo de cartão de crédito estourado. Tudo bem, ele queria impressionar. E na cabeça dele, impressionar significava ser o que ele não era. Na cabeça dele, ser apenas ele não bastava.

Como eu disse, homens mentem. Mesmo que seja por uma boa causa.

E aquela era uma boa causa. A garota, contou esse amigo, reunia os predicados que todo homem razoável como ele _ e como nós _ deseja numa mulher: uma bela bunda e uma conversa agradável. Valia, portanto, causar uma boa impressão. E a primeira impressão é a que fica, principalmente quando você está focado em impressionar.

Só que esse amigo, meus amigos, foi além do “barzinho legal”. Não contente em retalhar seu minguado saldo bancário sem piedade, mandando descer garrafas de cerveja de trigo polonesa, petiscos do mediterrâneo, pedir licença para degustar um Cohiba (ele nem fumava!) e, ao final, pagar antecipadamente o taxi que levaria a garota para casa onde quer que fosse o lugar onde a criatura habitasse, ele também fez a barba.

Sim, ele fez a barba. Esse amigo _ que situação, vejam vocês _ não pegava numa lâmina desde o final da faculdade. Gostava do desenho que os pêlos desgrenhados faziam em seu rosto, era entusiasta dos benefícios meditativos do cofiar (podia passar horas puxando fiapos do queixo ou alisando o bigode), fora que também escondia uma ou outra cicatriz de acne acumulada durante a adolescência.

Mas, para aquele primeiro encontro, ele escanhoara a face deixando-a lisa. Lisa e lustrosa tal um champignon em conserva. Tudo porque esse amigo, xeretando a vida virtual da moça, descobriu que ela fazia parte da comunidade “Barba me pinica”. Decidido (decidido, mesmo!) a impressionar, sacrificou a pelugem de que tanto se orgulhava.

Mentiu, pois. Ao cortar a barba, mentiu. Mentiu porque esse amigo era um homem do tipo que tem barba. E um homem do tipo que tem barba não é do tipo que se barbeia. Ou seja, quais as chances desse amigo manter a rotina de giletear o rosto toda sacrossanta manhã para manter-se sem barba? Nenhuma, óbvio.

Porém, não existe amanhã para uma alma apaixonada. E a curto prazo o ardil funcionou. Durante o encontro, a garota elogiou o novo visual dele _ “ai, eu gosto, parece mais limpo”, teria dito _ e até acariciou as bochechas que esse meu amigo nem sabia mais de que cor eram. Havia conseguido (conseguido, mesmo!) impressionar a garota.

Um segundo rendezvous estava até marcado. E seria na casa dele, um “jantarzinho” regado a “vinhozinho” seguido de um “filminho”. Da última vez que falei com esse meu amigo, estava obstinado a transformar a legítima baia de solteiro onde até então habitara tranquilo numa filial da Tok & Stok.

Para continuar impressionando, mentiria novamente. Por uma boa causa, claro. Mas mentiria.