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Posts do dia 26 maio 2011

Ela estava com a banda

26 de maio de 2011 1

Foto: Ricardo Duarte/ZH

Quando eu tinha uns 15, 16, por aí, lá no fim dos anos 80, eu e um grupo de colegas de adolescência montamos uma banda. Como todo grupo de guris, não sabíamos tocar direito mas fomos desenvolvendo uma ou outra aptidão com o decorrer da aventura, dos ensaios e de tudo mais. Mesmo morando no Interior, onde as coisas chegam com muito atraso e quase não acontecem, fiz parte de uma geração que, antes da Internet e da TV a cabo, já tinha ao menos acesso a informações sobre o rock de fora, a explosão do chamado “rock Brasil”, uma era pós-rock’n’Rio em que o gênero “música com guitarras” era o equivalente da época ao axé ou sertanejo: o gênero que vendia, tocava no rádio e era a origem de uma série de grupos uns parecidos com os outros, diluindo o fenômeno que havia sido espontâneo no início. O fato era que a banda que se sonhava montar na época, para o bem e para o mal, tinha como moldes o que conhecíamos: rock, e foi o que fizemos. Passando de um punk que desculpava nossa deficiência técnica até um rock pretensioso de letras meio exageradas com influências de Legião e Engenheiros.

Eu era o vocalista. E seria uma boa frase para se dizer afirmar que devo ter ajudado a estabelecer novos significados para a expressão “pobre coitado” (não usávamos Loser naquela época) ao conseguir atuar como vocalista em uma banda que chegou a fazer alguns shows e nunca ter conseguido pegar ninguém em conseqüência disso, mas também é preciso reconhecer que naqueles meados dos anos 80 naquela cidade da metade Sul as coisas não eram tão simples.

Estava-se apenas ensaiando a coisa toda do “ficar” que hoje é a tônica. E, como se sabe, é preciso um tipo diferente de ser humano, especial, para desbravar caminhos, e eu definitivamente não era um deles. Era tímido, anti-social, cabelos selvagemente desgrenhados com aparência de sujos e uma barba exagerada para a minha idade, que já descia rosto abaixo formando uma massa escura e emaranhada. Tocávamos em festas, mas eu me sentia mal quando não estávamos no palco. Porque não conseguia conversar com ninguém, o som era muito alto, a luz era pífia, eu não conseguia estabelecer contato com ninguém. Eu não era o pior vocalista do mundo, mas tinha consciência de que era uma peça não de todo otimizada naquela engrenagem. Eu não tocava nada, só arranhava umas bases que nosso guitarrista solo me ensinou pacientemente para que ele pudesse voar nos solos de seu talento – ele sim tocava bem. Tínhamos duas guitarras mas não conseguíamos aproveitar a potencialidade disso, porque eu era um instrumentista tão ruim que perdia a concentração nas cordas quando estava cantando. Depois de um tempo, largamos a guitarra-base e me dediquei apenas aos “lead-vocals”, como vinha nos discos de nossas bandas preferidas.

O fato é que, apesar de meu breve flerte com um sonho musical que não se concretizou, vejo naquela época muitos elementos que mais tarde seriam fundamentais na construção da nossa personalidade. Estávamos descobrindo muitas coisas — e eu, com minha inadequação, mais do que os outros. Eu já conhecia o sexo – cortesia de uma vizinha dadivosa. Mas su sonhava era com outra coisa. Lívia era uma garota uns dois anos mais velha que a gente – já estava quase com 18. Era a namorada do nosso baterista, que chamarei de Adriano em homenagem ao livro da Marguerite Yourcenar que eu estava lendo pela primeira vez bem naquela época. Não, Adriano não era o nome dele, nem a Lívia se chamava Lívia, só escolhi esse nome  em homenagem à lividez de sua pele branca e repleta de sardas graciosas, traços que denunciavam sua ascendência germânica (ela não era da cidade, sua família, de ascendência germânica, era de Lajeado) . O irmão do Adriano era nosso baixista, digamos que o nome dele fosse Lisandro, já que estou homenageando romanos, era nosso baixista e também namorava uma guria, mas ela era menos presente que Lívia, era menos espontânea e era uma pobre alma ignorante sem muito estofo ou conteúdo.

Lívia não, ela gostava da gente, ia aos shows, interagia, era o que hoje se chamaria na gíria porto-alegrense de uma guria “parceira”. Ela gostava de poesia, foi a primeira pessoa que ouvi comentar ou citar Rimbaud, Baudelaire, Schiller, Goethe. Ela sacava tanto de rock quanto nós, gostava de reggae, tinha uma voz suave e encorpada. E se havia uma cena que eu gostava de presenciar nos intervalos de nossos ensaios — quando sentava meio quietão num tamborete na garagem tentando rabiscar alguma letra que mais tarde Lisandro musicaria — era a intimidade de gestos sutis e de encantos recíprocos que Adriano e Lívia construíam. Sentavam-se lado a lado e ela desenhava com os dedos pequenas formas invisíveis no dorso das mãos dele, soprava seus cabelos compridos e falava entre sorrisos sobre o ensaio, sobre as músicas, sobre o mundo, e ensinava a ele palavras em alemão que na época eu achava que continham alguma obscenidade secreta, e quando anos depois resolvi perguntar sobre o significado para uma amiga que falava alemão, descobri que eram manifestações de carinho e delicadeza e bom humor.

E eu via essa cena com um misto de fascínio, encanto e — e aqui a situação se complica — uma inveja que eu próprio sabia que não era legal, mas estava lá. Ela era bonita, mas não era linda, era legal, me tratava melhor do que muita gente, mas não era do fato de ela estar com ele que eu sentia inveja, eu não estava apaixonado por ela, eu sentia inveja era daquela cumplicidade íntima, daquelas manifestações sutis e pouco ostensivas, porque legítimas e naturais, de carinho. Tudo o que eu queria para mim era algo como aquilo. Eu não queria Lívia, eu queria que alguma garota lá em algum lugar fosse comigo como Lívia era com Adriano. Eu, que anos antes provavelmente havia sido o primeiro daquela turma a perder a virgindade, não havia aproveitado aquela experiência para formar um caráter seguro e sedutor, mas sim sonhava com uma namorada com quem pudesse construir estradas e caminhos transparentes a ligar castelos de fumaça.

Isso não deixou de explicar um pouco da personalidade que desenvolvi ao longo dos anos e um certo impulso a favor do namoro que carrego até hoje. Ao projetar o futuro da banda, eu não sonhava com as groupies, sonhava com uma namorada.

Vai ver foi por isso que eu fui um fracasso como roqueiro.

Quando uma mulher com 40 anos dá um baile nas menininhas

26 de maio de 2011 61

Tem quaretinha a J-Lo, sabia? Foto: divulgação

Falamos muito sobre mulheres, seus problemas, seus defeitos. A mania que elas têm de (querer) mandar em nós — acho que a maioria consegue o feito, mas isso é outro post. Falamos até mesmo das mães das mulheres. Mas neste post vamos valorizá-las. Especificamente as mulheres de 40 anos.

Tenho notado, ao andar pela rua, um grande número de mulheres de 40 anos muito melhores que muita mulher de 20, 30. Não de hoje, claro, passei a valorizar demais uma mulher de 40 anos. Antes de me massacrar em pré-julgamentos, em nada tem a ver — apenas — com beleza física ou questões estéticas. A Jennifer Lopez, na foto ao lado, nasceu em 1969, por exemplo.

São dois os pontos: a maturidade e a maneira fácil com que resolvem as coisas. Não imagino uma DR com uma mulher de 40 anos. Ela é decidida, forte, sabe o que quer. Jamais vai ficar horas e horas gritando que você “não diz mais eu te amo”, que “está distante”, não “tem mais tempo para as coisas de antigamente”. Ou seja, ela não dá bola para fatos pequenos, que vão resultar em um estresse maior que este fato realmente merece.

Ela deixa estar. Mas não pelo fato de que desdenha da relação e está com o homem por ser cômodo — e muitas mulheres, você que lê este post, talvez, estão com seus homens por comodidade. O fato de ela ter 40 anos faz com que ela saiba que há fases. Tanto no relacionamento quanto no dia a dia do casal. Ela tem pleno conhecimento que há dias em que o homem só precisa ficar quietinho, em frente da TV, com sua cervejinha na mão. Quem sabe até sentado no sofá de olho no nada. Quieto, o homem só precisa estar quieto.

E no quesito “deixar ficar quieto” as mulheres de 40 dão um baile nas meninas de 20, 30. Como disse lá em cima: tenho notado um grande número de mulheres e seus lindos 40 anos na rua. E elas estão muito melhores que as de 20, 30. Aprenda com a de 40, menina. Pelo menos sobre o momento de reflexão. O que vai além disso ficamos apenas na imaginação — ou vocês escrevem aí nos comentários.

Trecho do livro “La femme de trente ans”, de Balzac, via @leoscardoso:

“Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (…) Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer”