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Posts do dia 29 maio 2011

A grama do vizinho é mesmo sempre mais verde?

29 de maio de 2011 11

Mas se o jardim da casa ao lado for assim... Foto: Chandra Cardoso, divulgação

Ricardo tinha o estranho hábito de sempre considerar a praia ao lado melhor. A mulher que ele não tinha era sempre mais bonita. E ele tinha”só”todas as mulheres à disposição. Negro, alto, forte, espadaúdo — nada a ver com o personagem afetado interpretado pelo Lázaro Ramos na novela das nove —, Ricardo misturava Tyrese Gibson e Denzel Washington em proporção milimétrica (meninas, não sabem quem é Tyrese? Deem um Google e vejam se não sou um pai para vocês…). Talvez estivesse ele acometido pelo Mal da Eterna Insatisfação Masculina.Aquele sentimento tão comum quanto devastador que nos faz pensar que o carro da vaga em frente está sempre mais inteiro.

Os primos e amigos tinham inveja dele. O cara ficou com as melhores meninas da escola particular e caríssima do Centro. Era como um artigo raro e, por isso, disputado. Na faculdade de Direito foi igual. Passado o”choque da diferença”, todas elas sucumbiam ao charme discreto do galã de ébano. No verão passado, Ricardo foi com os amigos para o Moçambique, praia de beleza meio selvagem de Florianópolis que, fosse uma mulher, seria a Carol Trentini — comprida e simplesmente irretocável. Ricardo esteve no Moçamba duas vezes. Recusou o terceiro convite com aquele ar enfadonho de quem empurra o prato depois do churrasco.

— Acho a Praia do Matadeiro melhor — disse.

Alguém sugeriu Jurerê Internacional. O sábado seria de festa à beira-mar. Ricardo novamente reclamou:

— Pô, não tem outro lugar? São sempre as mesmas pessoas.

A night em Jurerê, de fato, não rendeu o esperado. Já pela manhã, antes de ir para casa, pit-stop na farmácia para comprar um antiácido. Foi a parada da vida dele. À descrição do que viu: loira dourada pelo sol estaciona o carro, abre a porta e coloca primeiro um pé (tamanho 35) para fora. Lembra que está descalça, volta a perna para dentro do carro, calça a sandália rasteirinha e desce.

O short jeans não era curto, tampouco as pernas, cujas formas denunciavam peso significativo no treino com o leg press. Parte inferior vistoriada, resolveu ampliar o campo de visão. Barriguinha chapada e uma leve penugem dourada naquela faixa que compreende o intervalo logo abaixo do umbigo até onde o short permitia mostrar. Subiu novamente os olhos e parou nos dois volumes de formas generosamente simétricas que o biquíni suportava sem esforço.Agora só faltava o toque final: rosto e cabelos.

Boca da Scarlett Johansson, queixo e maçãs do rosto da Natalie Portman e olhos e nariz da Naomi Watts. Os cabelos… Bem, os cabelos atendiam ao requisito 3L, sigla criada por ele para definir “liso, loiro e longo”. Nanda (ele já se imaginava chamando-a assim) era a mulher perfeita para ele. Apesar da autoconfiança, desta vez sentiu as pernas bambas e a cabeça confusa como se tivesse levado um chute do Anderson Silva. Mas a estratégia de criar uma oportunidade de encontro funcionou mais uma vez e, em 10 minutos de conversa, saiu com o MSN dela anotado.

Aquele dia ficou marcado como o início do namoro e também como o marco zero de um processo de mudança pessoal que incluiu juras de amor e fidelidade. Tanta paixão durou apenas um verão. Mesmo namorando uma mulher que eu e você só teríamos em sonho, uma deusa retirada da mansão Playboy ou de um catálogo da Dior, Ricardo aprontou. Não conseguiu aplacar o estranho hábito de considerar a praia ao lado mais bonita. Discussão, briga e fim de namoro. Ricardo virou chacota dos amigos e agora não pega nem gripe. O Mal da Eterna Insatisfação Masculina fez mais uma vítima.