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O amor como cultura

20 de maio de 2011 5

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Vamos falar claro: desde a Antiguidade há uma imposição social em nome da família e em detrimento do indivíduo. Na Roma Antiga, o imperador Augusto chegou a criar um imposto para ser pago pelos celibatários a partir de uma determinada idade, porque aquele cara, em tese, deveria compensar com dinheiro o fato de que não estava gerando cidadãos para a defesa do Estado. Da necessidade de família, mas não necessariamente de escolha, passamos para o atual momento, em que tornou-se meio regra receber um pouco daquele olhar torto de pena de quem ouve que não estamos “com alguém”.Há uma exigência social tácita de que em algum momento o sujeito “se estabeleça” e case, ou arranje alguém que o ature — uma urgência cuja histeria parece ser a mola-mestra de todo um gênero dedicado às moças, que já ouvi ser denominado “produto-tal-coisa mulherzinha”: Bridget Jones começou como um livro-mulherzinha, passou depois a um filme-mulherzinha, etc… O discurso de toda essa vertente pop dirigida às mulheres é que hoje elas são independentes, poderosas, cultas, inteligentes, tecétera, tecétera e que justamente por isso estão sem namorado firme. O corolário dessa tese, às vezes enunciado claramente e às vezes não, é que os homens de modo geral são imaturos e “se assustam” com uma mulher verdadeiramente interessante e desafiadora — “não querem compromisso”, para nos reduzir à fórmula mais batida.

Todo esse romantismo prêt-à-porter não pode ser outra coisa senão nocivo — principalmente quando, com seu habitual talento para patrolar completamente qualquer diferença histórica e conceitual, a industria cultural reduz mesmo dilemas de outras épocas a simplórias “histórias de amor”, de O Vento Levou a Titanic. A questão é que 1) estamos em um momento histórico de redifinição da estrautura social e familiar, e o o casamento-para-constituir-família não deveria mais ser a finalidade básica para ninguém que não o queira, e 2) o amor romântico vendido por essas produções tatibitate (mesmo aquelas dirigidas a mulheres de maior discernimento, como Sex & The City) é uma construção também ele histórica.

Em seu ótimo livro Sem Fraude nem Favor (publicado em 1999 pela Record, procurem no sebo), Jurandir Freire Costa desenvolve, em linhas gerais, o seguinte conceito: o amor na antigüidade nao era o que hoje chamamos de amor, e o amor romântico a que os romances açucarados e mais tarde os filmes melosos nos acostumaram nao é de forma alguma um sentimento universal na História da humanidade, como nos acostumamos a encarar. É uma invençao da sociedade burguesa florescente após a revoluçao francesa, e seus antecedentes históricos e geográficos podem ser mapeados com absoluta exatidao. Claro que o mito das almas repartidas por um poder celestial e condenadas a se procurarem eternamente é bem mais antigo do que isso, e no Banquete do Platão há um personagem chamado Pausânias que defende exatamente essa idéia. Mas foi nosso tempo que atrelou a idéia de felicidade ao sucesso da procura amorosa.

A própria noção de felicidade pessoal é bem recente, produto do ganho de terreno obtido pelo individualismo ao longo do tempo. Em sociedades tecnologicamente evoluídas, a cidade, a pólis, a comunidade e o todo vão gradativamente cedendo espaço à noçao de realizaçao pessoal, e os “cidadaos” tornam-se “indivíduos”. A cidade parece bem, entao eu começo a tratar do meu bem, minha segurança. E na nossa sociedade capitalista, é exigida a eficiência, a eficácia, o sucesso — daí a pressão social para que eu seja realizado e nao apenas bem sucedido. Isso implica uma condição imprescindível: eu não preciso só ter um puta emprego, um bom carro e uma gorda conta bancária, eu preciso ser feliz.

E esta sociedade atual mantém umbilicalmente ligada a idéia de “ser feliz” com a de “encontrar alguém”, achar “a outra metade”. O interessante é que essa procura assume uma feição meio mística, meio Paulo Coelho, porque o sujeito procura, procura, mas na verdade precisa procurar como se não estivesse procurando, se desligando do objetivo, e quando não se está mais pensando naquilo que se devia achar, é nesse momento, e normalmente no lugar mais perto de onde eu estava no princípio, é que se acha aquilo porque tanto se buscou. Tudo muito bom, muito legal, mas temos um problema lógico que se transforma no paradoxo torturante do mundo moderno: para ser alguém e aliviar o vazio tedioso da existência, eu preciso ser feliz. Uma das condições indispensáveis para isso é encontrar alguém. Para encontrar alguém… não se faz nada, o “amor chega até você”, como dizia uma música tenebrosa da década de 80 — se bem que dizer música tenebrosa da década de 80 é um pleonasmo. A crueldade do raciocínio é opressiva e perfeita, ao mesmo tempo. Se eu preciso de uma coisa que assume ares místicos, uma coisa que “acontece com a gente”, no fim eu não tenho a menor garantia de que essa condição para a completitude do meu ser será alcançada, mesmo com toda a angústia, toda a dúvida, toda a busca. Isso fragmenta o universo em duas castas. Se eu preciso de amor para ser feliz, mas não há fórmula para alcançá-lo, eu sou favorecido por algo como “o destino”, “o acaso”, “os astros”, o “plano eterno superior” e mesmo “a graça de Deus” (nao riam, tem muita gente que acha que um/uma parceiro/a é um presente do Todo-Poderoso. Onde será que ele enfia o laço do embrulho?). A contraparte é que, se estou sozinho, não encontrei ninguém, não recebi o sorriso da fortuna e logo nao posso ser ou estar feliz.

E se ninguém ainda me descobriu, eu estou condenado a ser infeliz até ser tocado pela redenção do amor de outro. Daí os olhares que pretenderiam ser de pena, coitadinho, mas na verdade são do mais profundo desrespeito*

* Em tempo: não, isto não é uma diatribe de um solteiro recalcado, sou casado. É apenas o olhar perplexo de alguém que acha que deveria haver até direito à infelicidade.