
Foto: sxc.hu
*Luiz Biajoni (@biajoni), autor do livro Sexo Anal
>>> Antes, um breve comentário dos samba-cancioneiros. Como a declaração de Sandy a respeito do sexo anal continuou rendendo na assim chamada "mídia", fomos pedir um aprofundamento analítico (ops) a um especialista no assunto, o escritor paulista Luís Biajoni, que estreou na literatura com a "novela marrom" Sexo Anal. Ele nos mandou gentilmente as linhas abaixo. O texto foi editado, mas é possível ler o original aqui. Contém palavras impróprias e termos não-convencionais. Reflitam:
Você já olhou bem para a cara do Lucas Lima, o marido da Sandy? Vai lá e faz uma busca de imagens no Google. Viu? O cara está SEMPRE rindo. Sempre. É um homem que vive com o sorriso estampado na cara. Agora todos sabemos porquê.
Ele tem um local de prazer. Quer dizer, é claro que todo mundo tem. Mas ele tem mais um. E não é um qualquer: é de sua mulherzinha linda, a Sandy. A partir de agora, ela e ele passam a ter o meu respeito. Ele, por conquistar esse lugar. Ela, por falar sobre isso em uma entrevista, de maneira natural. Acredite: é mais fácil dar para o marido do que falar sobre isso. O ânus é a última fronteira do sexo entre heterossexuais.
Quando escrevi meu primeiro livro, “Sexo Anal — Uma Novela Marrom” (que pode ser baixado em meu site) sabia que muita gente ia achar que se tratava de um romance gay. Não há sexo anal entre homossexuais no livro, o sexo anal é o de preferência da protagonista, a jornalista Virgínia. Essa sua preferência a faz conquistar um médico rico, proporcionando sua escalada social. Na história, Virgínia havia tentando vários namorados, mas não amara nenhum. Quando um deles, o último, arrisca o sexo anal, o coração da garota dispara e ela se apaixona. Adiante, vai perceber que não ama o rapaz e, por amar, havia lhe dado o ânus; deu-lhe e, por isso, acabou amando-o. Invertendo a lógica comum, deduz que vai amar qualquer homem que lhe comer o botão. Assim acontece.
Muitos maridos conseguiram comer os ânus de suas respectivas mulheres/namoradas por causa desse meu livro, vários me relataram. Mas melhor que isso: acho que várias mulheres/namoradas conseguiram dar para eles por causa do livro e isso me enche de orgulho. Acho que, antes da Sandy — e mesmo antes da Tony Bentley — fui um dos arautos da liberação anal. Liberação que tem a ver com auto-conhecimento, aceitação, entrega (como diz Bentley) e, principalmente, liberdade sobre o próprio corpo.
Aquela babaquice bíblica de Sodoma e Gomorra botou os homossexuais no claustro por eras e, por tabela, o sexo anal heterossexual. Interpretações faziam a leitura “a perseguida é de Deus, ânus é do Diabo”. Acho que foram os protestantes que, percebendo que era difícil segurar os hormônios da mulherada depois dos 14 anos de idade, inventaram que o “sexo pela frente é para depois do casamento e só para ter filhos, o resto tá liberado” — assim, era comum que mulheres aderissem ao sexo anal para preservar a virgindade. A frase me fez lembrar da virgindade antes do casamento propagada por Sandy: será que antes ela não liberava só? Pode ser.
É importante que se fale sobre essa modalidade sexual. Tecnicamente falando, recomendo muito o livro da Bentley. Como homem, que fala muito sobre esse assunto com muita gente, posso afirmar que os homens têm interesse e tesão e as mulheres têm curiosidade e medo quando se fala em sexo anal. É preciso quebrar tabus: pode ser muito bom para os dois.
Talvez por ser preciso, em primeiro lugar, grande descontração e cumplicidade do casal, é que eu digo que o sexo anal é a grande última fronteira do sexo heterossexual — parece que os casais não têm mais tempo para namorar, descontrair, curtir, ousar. Vivemos uma época de sexo burocrático e é por isso que uma declaração como a da Sandy bota em polvorosa a galera, umas dizendo “que absurdo”, outras fazendo questão de deixar claro que “eu também faço” e várias com ar blasé de “quem é Sandy?” ou “tudo isso só porque ela dá?”.
Os homens se agitam de interesse e tentam demonstrar que não. E vivem todos nesse cenário de faz-de-conta, como se o ânus não existisse. É que fomos educados assim, desde criança o nosso inocente ânus é tabu. É uma parte do corpo como qualquer outra, mas tratada com distinção especial. Passa anos sem ter nome, quando vai ter um nome é ânus. Fica em uma parte do corpo que não vemos, portanto não a conhecemos profundamente. É uma zona escura e obscura e, talvez por isso, nos interessa o ânus de outrem. O ânus daquele que amamos pode nos preencher da informação que nos falta para conhecermo-nos a nós mesmos.
Filosofia baixa, mas necessária nesse momento em que Sandy diz que “é possível ter prazer anal”. Bem, alguém pode argumentar que “é possível ter prazer besuntando um anão com geléia de damasco”, ou seja, é possível ter prazer com qualquer coisa, tem gente que gosta de chicotadas, ora veja. Mas quando se fala em ânus é preciso que se diga que você, mulher, tem a liberdade de dar e experimentar e satisfazer essa curiosidade do seu namorado/marido. E é natural que o marido/namorado argumente com sua mulher sobre essa curiosidade. É assim que vamos conhecendo melhor nosso prazer — e novos prazeres.
Um salve para a Sandy que cresceu bem, encarando sua imagem de santinha, aceitando fazer o comercial da Devassa e, agora, ampliando as possibilidades femininas mais que muita feminista de carteirinha, essas que queimam sutiã. A luta feminista tem que passar pela possibilidade do prazer.
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