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Posts com a tag "Michael Winterbottom"

Elas e os detalhes delas

23 de maio de 2011 5

Dou-me conta que andamos um tanto ranhetas nesses posts, como se as mulheres fossem só fonte de incomodação ou encrenca – não que elas não sejam às vezes, mas não são só isso. Além do mais, as alternativas que se apresentam ao romance com o belo sexo — a saber: o celibato ou o homossexualismo —, não são do particular interesse deste integrante do Samba-Canção (que, evidentemente, não pode falar pelos demais).

Gostamos de mulheres. Um dos motivos pelos quais este blogueiro em particular não gostou do filme 9 Canções, de Michael Winterbottom é que, apesar da fartura de cenas de sexo minuciosamente fotografadas, o filme tinha um mote narrativo alquebrado. Para quem não viu ou para quem viu e não se lembra, a história do filme acompanha um glaceologista inglês que, isolado na Antártica, relembra sua relação de um ano com uma jovem norte-americana tarja-preta que fazia intercâmbio no país. Ele lembra de nove shows a que assistiram (de umas bandas indies que nada disseram a este apreciador do rock jurássico) e, entremeado com isso, uma que outra conversa e algumas transas (aquelas minuciosamente fotografadas).

Embora na época muitos críticos de cinema se apressassem a saudar aquele filme como uma produção artística que transcendia a pornografia, na verdade ele não transcende quase nada. A maioria dos chamados “pornô com história” não vai muito além daquilo ali mesmo: encontrar um fiapo narrativo mais ou menos consequente para enfileirar cenas de sexo. E por que seu mote narrativo é capenga e o que isso tem a ver com a abertura deste texto? Porque ele renega os detalhes, e os verdadeiros apreciadores de mulheres são apegados a detalhes.

Não apenas os detalhes físicos, sobre os quais provavelmente tratarei em outro texto (tem de alimentar o blog e se eu ficar queimando todos os assuntos aqui em breve serei tomado pela afasia), mas sobre as pequenas idiossincrasias às quais se tem acesso depois que aquela primeira estranheza se dissipou e o “lance” com a garota foi promovido a “rolo” para mais tarde virar “namoro”. É aí que de fato se percebem as pequenas minúcias daquela mulher em particular na organização de sua vida e de suas emoções e isso sempre equivale a aprender um novo idioma: é difícil, no começo você entende pouca coisa, mas a recompensa de conseguir entender uma simples frase quase te faz sentir uma pessoa mais apta para o mundo.

Qualquer indivíduo razoavelmente saudável acima de 30 anos que não tenha tido a sorte ou a desgraça (vai saber…) de estar casado com o amor de sua vida desde os 18 anos já passou por um certo número de relacionamentos e testemunhou um bom número desses pequenos detalhes tão diferentes entre si e ao mesmo tempo tão comuns, e já se encantou com eles e os registrou de tal modo em sua memória que eles voltarão a sua mente quando o sujeito recordar de uma determinada mulher, especificamente, tanto ou mais do que as transas que tiveram ou os shows de rock a que foram juntos:

* O modo como aquela loira alta de pele translúcida e uma voz meiga de hippie tardia gosta de encher de água quente as canecas antes de preparar o café e deixá-las assim por alguns minutos, para esquentar a porcelana.

* Aquela risada ampla e límpida, dada com gosto e todos os dentes, por aquela morena de longos cabelos crespos — que, um minuto depois, estará olhando envergonhada para os lados tentando reparar se alguém presenciou sua inesperada explosão de alacridade.

* A forma obsessiva como aquela outra morena de cabelos lisos e olhos úmidos puxa os blusões até a metade dos punhos no inverno, e o mistério de como aqueles blusões parecem estar sempre cheirando a sabão em pó e a limpeza.

* O jeito como aquela garota pequena com traços levantinos e temperamento instável encosta-se cansada na parada de ônibus e ainda tem fôlego para cantarolar baixinho a letra em inglês de um filme musical que você, particularmente, viu só uma vez e achou horroroso, mas que ali, naquele momento em plena perimetral, enquanto o sol quase não nasce por trás do céu enfarruscado daquela manhã fria, ali, à frente do asfalto ainda úmido do sereno da noite, ali faz todo o sentido e você quase gosta.

* O modo como o quarto daquela outra menina morena e miúda parece um depósito repleto de caixas cobertas de papel colorido, aquelas caixas em tal número que parece haver uma para cada coisa: brincos, joias, pulseiras, dois relógios ou três, clipes, canetas, contas a pagar, tornozeleiras, fichas de ônibus (quando ainda havia fichas de ônibus).

* A mania que aquela morena de óculos com uma pinta no rosto tinha de deixar a TV ligada na MTV porque assim podia preencher o vazio de seu apartamento com algo possível de ser facilmente ignorado (e isso na época em que a MTV de fato tocava mais música).

São detalhes que se apresentam como um indício de uma mulher muito tempo depois de ela haver partido – ou de você haver partido. E que resumem um pouco daquilo que você torceu para que durasse pra sempre, sem saber que o aquele momento particular duraria para sempre na sua memória, não na sua vida.