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Seja franco: você toparia que sua mulher participasse de um ensaio sensual?

16 de agosto de 2011 62

Foto: sxc.hu

Não sei se é machismo, ciúme, sentimento de posse. Mas não há dinheiro no mundo que faça com que minha mulher pose nua ou faça os chamados ensaios sensuais. O assunto rondou a mesa do almoço ontem. Havia três homens e uma mulher na mesa. Ela, claro, acha maravilhosa a ideia e posaria “sem medo algum”. O trio masculino argumentou que ela falava isso pois sabia que nunca seria convidada para um ensaio. Não pelo fato de ela ter um corpo ruim, pelo contrário. Ela possui muitos atributos. Mas falávamos no sentido de que a chance de ela, meramente “mortal”, posar nua era pequena. Graças a Deus ela entendeu o que quisemos dizer e a conversa prosseguiu.

Eu e mais um colega concordamos que é impossível ver a própria mulher nua em uma revista sem pensar nos pensamentos que outros homens estão tendo a respeito dela. Sem contar que ficamos apenas na questão imaginação e não na questão física do lado fantasioso — você me entende muito bem. O outro falou que toparia. Causou espanto na mesa. Entre os homens e a mulher. E como conheço ele de tempos, sei que não estava jogando para a torcida, como costumamos falar, apenas para agradar o exemplar do sexo feminino que estava conosco. A lógica dele é: podem ver e fazer o que quiserem, mas quando chega em casa quem manda sou eu. Autoconfiante o rapaz, eu disse, após boas risadas dos quatro.

Acontece que foi a vez dela descrever o prazer de posar nua. Como se já tivesse sido capa das mais diversas revistas femininas, passou a descrever cenários em que gostaria de ser fotografada, bem como poses e estilos que imaginava, pelo menos naquele momento, que tirariam os homens do sério. Entendemos perfeitamente que, para uma bela mulher, sentir-se bela, saber que os homens estarão desejando-a, sem toque algum, apenas olhando e observando suas curvas em uma revista era um grande fetiche para nossa colega. Não paramos para analisar os motivos dessa vontade, desse impulso. Mas isso bem que rende outro post.

Veja bem: não interprete como machismo. Interprete apenas como um “não acho legal”. E ponto. A questão está simplesmente no fato de que na revista com a foto da mulher nua ou em algum ensaio sensual que eu, você, nós, vós e eles já estiveram em mãos alguma vez, a foto em questão não é a mulher que eu tenho em casa. Aliás, sabemos dar muito valor ao que temos ao nosso lado. Só não queremos compartilhar, somos totalmente egoístas neste ponto. E antes que você, mulher, nos defina como homem das cavernas, pense em todas as revistas que você já viu, lembre de tudo o que você já pensou sobre as imagens. E analise se não temos um pouco de razão.

E você, samba-cancioneiro: toparia que sua mulher participasse de um ensaio sensual?

Piercings, tatuagens e outras belas miudezas

28 de maio de 2011 6

Foto de Adriana Franciosi/ZH

Já falamos sobre o quanto gostamos de detalhes, gostamos de prestar atenção aos detalhes delas, provavelmente porque para nós o universo delas é tão pleno de pequenas coisas que nos escapam que ficamos olhando, admirados e perplexos, achando tudo um tanto misterioso e ao mesmo tempo muito bonito. Meu colega Johnny Saint-Claire já até manifestou neste post sua podolatria explícita. Mas não ficamos só neles, os pés. São um bom ponto de partida (não é vergonha começar por baixo), mas há mais. Detalhes tão múltiplos que é difícil estabelecer uma estrutura que a tudo resuma. Há garotas que repetem os mesmos tiques de outras, e numas o gesto será detestável, e em outras, adorável. Mas vou tentar resumir uma teoria geral das belas miudezas:

Inteligência — A própria noção de inteligência será variável de pessoa a pessoa, mas de modo geral meu conceito dela é uma capacidade de discernimento intuitivo das informações e das situações que o acaso colocam à disposição. Sem isso, não há rabo glorioso que se sustente sozinho.

Salto alto — Talvez o som mais associado à feminilidade seja o ritmado e melódico toque-toque de um par de saltos altos sobre piso ou calçada. São todos tão absolutamente banais, simples tiras que cingem o peito do pé ou uma armação de feltro ou couro a circundar a borda, quem viu um já viu todos, e, no entanto, é sempre comovente, em um sentido vagamente cômico, observar como elas conseguem enxergar beleza e transcendência a cada novo par adquirido, um par que, tirando a cor, parece muito com qualquer outro que ela tem no armário. Mas esse par terá o som. Aquele som. O som que é uma sirene de alerta para uma mulher a caminho. É sempre uma boa notícia uma mulher a caminho, mesmo que não se saiba de onde.

Cabelos - Elas sorriem e o cabelo cai no rosto, tapando parcialmente um olho e obrigando-as a fazer um gesto elegante para levá-lo ao lugar novamente. Elas caminham ao vento e o cabelo é um véu natural a esconder suas faces da curiosidade da rua. Elas se inclinam e o cabelo é uma cortina elizabetana fechando-se para o espetáculo dos olhos lânguidos que se escondem sob eles. Cabelos. O mundo deveria ser um lugar sem tesouras…

Umbigos — Com o verão, elas armam mil e uma sutilezas para que ao mesmo tempo os vejamos mas nos comportemos como se não os tivéssemos visto. Camisetas que são curtas demais para tapá-los o tempo todo e compridas demais para deixá-los à mostra. E ainda há aquele momento em que elas estiram o corpo para trás na cadeira e se espreguiçam alongando os braços, e aquela camisa ou blusa que é exígua demais para permanecer no lugar sobe, desvelando o umbigo, “como uma taça redonda, a que não falta bebida“, posicionado no centro do elegante ventre, “como um monte de trigo, cercado de lírios“.* E quando o gesto chega ao fim, a camisa volta com crueldade ao ponto inicial, exilando-nos da paisagem. Pior ainda quando há piercings, pequenos sóis orbitando o centro daquela promissora galáxia.

Acessórios — Elas usam acessórios. Acessórios, o próprio nome já diz, não são o principal. Mas elas se esmeram neles. Mais de um brinco em cada orelha, em tamanho decrescente. Uma argola pequena no arco ogival da orelha, lá em cima, só perceptível quando os cabelos estão para o lado ou presos. Tatuagens minúsculas em lugares estratégicos: fragmentos de desenhos estranhos que sobem do cós da calça ou descem da barra da calça no tornozelo. Tribais ou detalhes como flores e borboletas e pássaros a se insinuar no papiro da pele. Tornozelos, omoplatas, a linha fina da cintura, o umbigo, os pulsos, tudo parece válido, nada parece interdito para a decoração que transforma a pele, papel branco, em esboço artístico, em tela valiosa em exposição cotidiana. Correntinhas sutis formando pulseiras luminosas a cintilar à medida que a luz passeia pelo braço. Tornozeleiras.

Elas são detalhes, milhares de pequenos detalhes, nas quais investem tanto que por vezes a parte se sobrepõe ao todo, como um fantasmagórico zahir (pelamordedeus, isto é uma referência a um conto do Jorge Luís Borges incluído no Aleph, e NÃO, de modo algum, nem por decreto, uma menção ao romance do Paulo Coelho).

Tem mais, sempre tem. O problema é esse. A cada detalhe fixado, temos um detalhe perdido, porque são coisas que só tem sentido em movimento, pulsantes na vida. Não fixados em palavras.

*As citações são retiradas do Cântico dos Cânticos de Salomão, provavelmente um dos mais belos poemas eróticos já escritos em qualquer idioma, tempo e lugar — provando que não é só da bem-aventurança espiritual que fala a Bíblia.