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Posts com a tag "Rock’n’Roll"

Da necessidade masculina de abreviar a primeira vez (ou foi com uma profissional)

28 de julho de 2011 59

Foto: sxc.hu

Não peço que vocês, mulheres, entendam os motivos que levam um homem a procurar uma profissional do sexo. Ao mesmo tempo, agora que estou mais velho — maduro, como os homens gostam de dizer por aí —, questiono com um pouco mais de veemência a necessidade masculina de ter sua primeira vez antecipada com uma mulher da vida. Mulheres se guardam. Homens têm de transar. Com o tempo, mulheres querem transar. Homens transam. Na realidade, homens sempre transam. Mulheres aprendem a transar (que bom, não?).

Enfim, sem questões sociológicas ou que possam vir a causar debates calorosos. Me apego, mesmo, à questão do ato sexual com uma mulher que você nunca viu na vida, que cheira a um perfume barato e grita e geme como louca sem ao menos você ter iniciado alguma ação para que seja válido esse tipo de cena performática. Você lá, pelado, cheio de expectativas, mal sabe o caminho para o gol. Chega perto da mulher e ouve “uh, ah, oh”. O interessante é que você recém colocou um joelho e uma das mãos na cama. Sorte que a inexperiência ilude e é possível pensar que estamos matando a pau. Orgasmo, então, nossa! Tem mulher que finge que goza hoje em dia e a gente acredita. Imagina com 15, 16 anos.

A maioria dos meus amigos perdeu a virgindade com uma prostituta. Eita palavra feia: prostituta. Há uns 15 anos, não era tão fácil como hoje. Ou talvez não procurávamos direito. Ou o que é pior: escolhíamos as meninas erradas. Poucos eram os que ficavam e transavam. Tinha de rolar um namorinho antes. Mais romântico, claro. Menos prático. Atucanados com a possibilidade de serem os últimos da turma a conhecer o bem bom, se jogavam de corpo e alma para a noite das mulheres mal-faladas. Outro equívoco: valorizar o pensamento das amizades em vez da consciência do que se quer para si mesmo.

Me diz com sinceridade: se você pudesse voltar no tempo, aposto que escolheria não ter tido a primeira vez com uma garota de programa, não? Você poderia ter transado com a namoradinha, a vizinha, a filha da empregada, a própria empregada, a prima — opa, bom tema para post… Mas você escolheu uma profissional. E hoje, com a experiência de mercado, percebe que a funcionária não estaria em sua equipe de trabalho. Ou, o que é pior, nem teria deixado currículo na empresa.

É a vida sexual, amigo. Algumas coisas são passíveis de serem apagadas. Para outras, o perfume barato de maçã está lá. Sempre pronto para te fazer lembrar.

Ela estava com a banda

26 de maio de 2011 1

Foto: Ricardo Duarte/ZH

Quando eu tinha uns 15, 16, por aí, lá no fim dos anos 80, eu e um grupo de colegas de adolescência montamos uma banda. Como todo grupo de guris, não sabíamos tocar direito mas fomos desenvolvendo uma ou outra aptidão com o decorrer da aventura, dos ensaios e de tudo mais. Mesmo morando no Interior, onde as coisas chegam com muito atraso e quase não acontecem, fiz parte de uma geração que, antes da Internet e da TV a cabo, já tinha ao menos acesso a informações sobre o rock de fora, a explosão do chamado “rock Brasil”, uma era pós-rock’n’Rio em que o gênero “música com guitarras” era o equivalente da época ao axé ou sertanejo: o gênero que vendia, tocava no rádio e era a origem de uma série de grupos uns parecidos com os outros, diluindo o fenômeno que havia sido espontâneo no início. O fato era que a banda que se sonhava montar na época, para o bem e para o mal, tinha como moldes o que conhecíamos: rock, e foi o que fizemos. Passando de um punk que desculpava nossa deficiência técnica até um rock pretensioso de letras meio exageradas com influências de Legião e Engenheiros.

Eu era o vocalista. E seria uma boa frase para se dizer afirmar que devo ter ajudado a estabelecer novos significados para a expressão “pobre coitado” (não usávamos Loser naquela época) ao conseguir atuar como vocalista em uma banda que chegou a fazer alguns shows e nunca ter conseguido pegar ninguém em conseqüência disso, mas também é preciso reconhecer que naqueles meados dos anos 80 naquela cidade da metade Sul as coisas não eram tão simples.

Estava-se apenas ensaiando a coisa toda do “ficar” que hoje é a tônica. E, como se sabe, é preciso um tipo diferente de ser humano, especial, para desbravar caminhos, e eu definitivamente não era um deles. Era tímido, anti-social, cabelos selvagemente desgrenhados com aparência de sujos e uma barba exagerada para a minha idade, que já descia rosto abaixo formando uma massa escura e emaranhada. Tocávamos em festas, mas eu me sentia mal quando não estávamos no palco. Porque não conseguia conversar com ninguém, o som era muito alto, a luz era pífia, eu não conseguia estabelecer contato com ninguém. Eu não era o pior vocalista do mundo, mas tinha consciência de que era uma peça não de todo otimizada naquela engrenagem. Eu não tocava nada, só arranhava umas bases que nosso guitarrista solo me ensinou pacientemente para que ele pudesse voar nos solos de seu talento – ele sim tocava bem. Tínhamos duas guitarras mas não conseguíamos aproveitar a potencialidade disso, porque eu era um instrumentista tão ruim que perdia a concentração nas cordas quando estava cantando. Depois de um tempo, largamos a guitarra-base e me dediquei apenas aos “lead-vocals”, como vinha nos discos de nossas bandas preferidas.

O fato é que, apesar de meu breve flerte com um sonho musical que não se concretizou, vejo naquela época muitos elementos que mais tarde seriam fundamentais na construção da nossa personalidade. Estávamos descobrindo muitas coisas — e eu, com minha inadequação, mais do que os outros. Eu já conhecia o sexo – cortesia de uma vizinha dadivosa. Mas su sonhava era com outra coisa. Lívia era uma garota uns dois anos mais velha que a gente – já estava quase com 18. Era a namorada do nosso baterista, que chamarei de Adriano em homenagem ao livro da Marguerite Yourcenar que eu estava lendo pela primeira vez bem naquela época. Não, Adriano não era o nome dele, nem a Lívia se chamava Lívia, só escolhi esse nome  em homenagem à lividez de sua pele branca e repleta de sardas graciosas, traços que denunciavam sua ascendência germânica (ela não era da cidade, sua família, de ascendência germânica, era de Lajeado) . O irmão do Adriano era nosso baixista, digamos que o nome dele fosse Lisandro, já que estou homenageando romanos, era nosso baixista e também namorava uma guria, mas ela era menos presente que Lívia, era menos espontânea e era uma pobre alma ignorante sem muito estofo ou conteúdo.

Lívia não, ela gostava da gente, ia aos shows, interagia, era o que hoje se chamaria na gíria porto-alegrense de uma guria “parceira”. Ela gostava de poesia, foi a primeira pessoa que ouvi comentar ou citar Rimbaud, Baudelaire, Schiller, Goethe. Ela sacava tanto de rock quanto nós, gostava de reggae, tinha uma voz suave e encorpada. E se havia uma cena que eu gostava de presenciar nos intervalos de nossos ensaios — quando sentava meio quietão num tamborete na garagem tentando rabiscar alguma letra que mais tarde Lisandro musicaria — era a intimidade de gestos sutis e de encantos recíprocos que Adriano e Lívia construíam. Sentavam-se lado a lado e ela desenhava com os dedos pequenas formas invisíveis no dorso das mãos dele, soprava seus cabelos compridos e falava entre sorrisos sobre o ensaio, sobre as músicas, sobre o mundo, e ensinava a ele palavras em alemão que na época eu achava que continham alguma obscenidade secreta, e quando anos depois resolvi perguntar sobre o significado para uma amiga que falava alemão, descobri que eram manifestações de carinho e delicadeza e bom humor.

E eu via essa cena com um misto de fascínio, encanto e — e aqui a situação se complica — uma inveja que eu próprio sabia que não era legal, mas estava lá. Ela era bonita, mas não era linda, era legal, me tratava melhor do que muita gente, mas não era do fato de ela estar com ele que eu sentia inveja, eu não estava apaixonado por ela, eu sentia inveja era daquela cumplicidade íntima, daquelas manifestações sutis e pouco ostensivas, porque legítimas e naturais, de carinho. Tudo o que eu queria para mim era algo como aquilo. Eu não queria Lívia, eu queria que alguma garota lá em algum lugar fosse comigo como Lívia era com Adriano. Eu, que anos antes provavelmente havia sido o primeiro daquela turma a perder a virgindade, não havia aproveitado aquela experiência para formar um caráter seguro e sedutor, mas sim sonhava com uma namorada com quem pudesse construir estradas e caminhos transparentes a ligar castelos de fumaça.

Isso não deixou de explicar um pouco da personalidade que desenvolvi ao longo dos anos e um certo impulso a favor do namoro que carrego até hoje. Ao projetar o futuro da banda, eu não sonhava com as groupies, sonhava com uma namorada.

Vai ver foi por isso que eu fui um fracasso como roqueiro.