Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts com a tag "Toni Bentley"

Uma singela sugestão de leitura

28 de julho de 2011 14

Reprodução

O mundo virtual está em polvorosa com as declarações da cantora Sandy Leah Lima à revista Playboy que estampa Adriane Galisteu na Capa. Como noticiaram diversos portais de notícias por aí afora e vocês já puderam ler no twitter, a revista traria a seguinte declaração da cantora: “é possível ter prazer anal”. Isso, aliado à recente campanha publicitária da cerveja Devassa que pretendia vender a imagem de Sandy como uma moça mais… bem… devassa do que sua imgem pública angelical, fez a festa dos comentaristas de plantão no tuíter – chamando a atenção primeiro do próprio marido da cantora e depois da Sandy ela mesma, que já escreveu no twitter que sua declaração dada à revista não era exatamente aquela mas que valia a brincadeira.  O que aumenta os rumores de que mesmo essa confusão toda pode ser uma nova investida publicitária da cerveja, bem a calhar.

Este samba-cancioneiro em particular não pôde deixar de lembrar,  ao acompanhar à distância essa polêmica, de um livro que fica aqui como modesta sugestão de leitura às interessadas e aos interessados em explorar zonas literalmente mais profundas de seu próprio prazer. Em 2005, a editora Objetiva publicou por aqui um livro de memórias escrito por uma bailarina americana chamada Toni Bentley. O livro era o singelo relato de como a bailarina, separada aos 44 anos depois de um casamento frustrante, entregou-se a um caso com um rapaz que havia conhecido numa academia – uma relação que evoluiu para a prática contumaz de sexo anal, que a autora foi descobrir na idade madura como uma experiência transcendente às raias do místico.

A Entrega: Memórias Eróticas (Objetiva, 220 páginas, R$ 36,90) narrava a tentativa de Bentley de redescobrir o sexo após tantos anos de casamento. descreve sua perda da virgindade, o matrimônio traumático, relações monogâmicas insatisfatórias. Ainda uma mulher altamente desejável devido aos anos de prática intensa de balé, ela se entregou na maturidade a vários casos de ocasião até descobrir, com o cara que ela chamava de seu “amante alfa”, o “Homem-A”, que o sexo pela via de saída era uma forma de alcançar um orgasmo tão intenso que, para ela, assumia ares de experiência religiosa.

“Bem-aventurada, aprendi, ao ser sodomizada, que esta é uma experiência de eternidade num instante de tempo real. A sodomia é o ato sexual de confiança final. Quero dizer, você realmente pode se machucar – se resistir. Mas se deixar o medo para trás, literalmente ultrapassando-o, ah, que felicidade se encontra do outro lado das convenções. A paz que se encontra além da dor. Ir além da dor é a chave. Uma vez absorvida, ela é neutralizada e permite a transformação. O prazer em si é uma mera absolvição temporária, uma distração sutil, uma anestesia enquanto se está a caminho de algo maior, mais profundo, mais embaixo. A eternidade fica muito, muito além do prazer. E além da dor” – diz ela a determinada passagem.

Foi um milagre emocional e anatômico”, escreve em outra parte, recordando a primeira experiência anal. “Se eu tivesse andado sobre a água não poderia ter ficado mais maravilhada“.

No início, a autora aventou usar um pseudônimo, Madeleine Le-Clerc, uma adolescente que foi amante de Marquês de Sade de 1810 a 1814, quando o escritor morreu. Depois, optou por se identificar com a própria identidade. As descrições detalhadas de suas experiências – num vocabulário que mescla palavras de baixo calão com eufemismos – oscilam entre a prática e a teoria. Em um capítulo, a autora disserta sobre higiene íntima, modelos de lingerie e marcas de camisinhas e lubrificantes; noutro, filosofa sobre como o sexo anal a iniciou na espiritualidade. Criada em família ateísta, a pequena Toni sentia inveja das protestantes coleguinhas de balé. A busca por uma crença só teve fim quando preencheu seu “vazio interior”. Para ela sim o prazer anal não só é “possível” como é místico:

“Encontrei por acaso a grande piada cósmica, a suprema ironia de Deus. Entre pela saída. O paraíso está esperando.”

Ao todo, Toni conta detalhadamente as 298 vezes em que foi sodomizada pelo Homem- A. Ao fim do caso de três anos, rompido por iniciativa dela, um baú lacrado
passou a guardar os resquícios da história: em meio a bilhetes e fotos, “relíquias” como pêlos púbicos e preservativos usados. E, claro, as páginas do diário que mais tarde virariam livro:

“Além do mais, se eu não escrevesse aquilo tudo, ninguém jamais iria acreditar – muito menos eu. Não acreditava naquilo duas horas depois que ele deixava a minha cama. Então escrevi tudo, para fazer com que durasse mais. Para tornar aquilo real. As palavras pareciam a única forma de demarcar o terreno, de preservar minha  experiência transitória de eternidade. Este é um documento testamentário. Não percam a mensagem, distraídos pela profanação do ato. Sou, como você pode ver, uma mulher que andou buscando a submissão a vida inteira – para encontrar alguma coisa, encontrar alguém a quem pudesse submeter meu ego, meu desejo, minha desprezível mortalidade. Tentei várias religiões e vários homens. Tentei até um homem religioso. E aí ele me encontrou, o agnóstico que exigiu minha submissão.”

“Submissão” é, inclusive, o nome do título original em inglês: “The surrender”, o que também pode querer dizer “a rendição”. Dois conceitos aos quais ela se atém com particular insistência ao longo do livro, e que não deixa de ser o que motiva também os adeptos de práticas pouco usuais de sexualidade como o bondage e o sado-masoquismo fetichista: o prazer vêm da falta de controle, da ideia sempre presente de que o parceiro detém, ainda que em condições controladas e negociadas, o poder sobre o que vai acontecer com o outro.

“Uma vez, amei tanto um homem que eu mesma não existia mais – tudo Ele, não Eu. Agora amo tanto a mim mesma que nenhum homem existe – tudo Eu, não Eles. Todos eram Deus, e eu, uma invenção da minha própria imaginação. O mesmo jogo, posições trocadas. Não sei jogar de outra maneira. Alguém precisa estar por cima e alguém, por baixo. Lado a lado é um tédio. Tentei fazer isso uma vez durante alguns instantes loucamente confusos. A igualdade nega o progresso e evita a ação. Mas um alto e um baixo, bem, eles podem ir à Lua e voltar antes que os iguais consigam negociar quem paga, quem fica deitado e quem leva a culpa.

Minha transformação, entretanto, não foi de baixo para cima, mas de baixo para baixo: de minha desprezível submissão emocional a minha abençoada submissão sexual. Esta é a história da minha mudança – e do preço que paguei. Muito caro. Impossível de calcular.”

Já que se só se fala nisso – e para evitar as acusações reiteradas de futilidade que nos são atiradas ocasionalmente –, fica aqui, dado o mote, a sugestão do livro como o momento sacanístico-cultural de nosso blog.