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Meus ouvidos

05 de janeiro de 2015 1

Meus ouvidos
Falam comigo, não ouço nada e calo.
Meus ouvidos são os dois uma mentira.
São. E é por isso que na minha lira
De palavras fúteis poucas vezes falo.

***
Sim, as pessoas falam comigo e eu não ouço nada do que dizem.
Mas com os olhos percebo que estão se dirigindo a mim.
Estou desligado do mundo, portanto, em face de meus precários ouvidos.
Sim, é verdade, posso só agora depor: melhor que não se ouça tudo que se diz, tanta bobagem é dita, menos uma: “Não te esquece que amanhã é dia do pagamento”.
Desde que fiquei desligado do mundo pelos meus ouvidos, sou outro homem: se não for por escrito, nada fico sabendo ao meu redor.
O dr. Lavinsky, célebre meu otorrinolaringologista, cuida com devotamento dos meus ouvidos.
Quando entreguei a ele meus ouvidos, eles já estavam despedaçados. E ele vai consertando daqui, ajeitando dali, comigo quebrando os galhos valentemente.
Antes que me falhem os ouvidos, porventura nunca me venham um dia me falhar meus olhos. E estes lançam já suas ameaças.

Comentários (1)

  • Carlos Renato dos Santos Costa diz: 5 de janeiro de 2015

    Sabe Sant’ana existe vida em locais inacreditáveis. Inteligência, por sua vez, já é mais rara. Leio que tu falas de teu do corpo, essa existência tátil, passageira. Gostaria que todos os sentidos te fossem devolvidos na plenitude, mas me contento em saber que levas contigo sensações humanas e que tivestes a bondade de compartilhar. Sim, os olhos vão te faltar, mas ficará o olhar, esse mesmo olhar que sempre fitou o horizonte.

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