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02 set14:45

ZIUREKA: Guerra contra a miséria humana

Edna Lautert, leitora-repórter*

Em 1999, depois de um longo período na Fronteira Oeste, eu havia assumido uma estranha predisposição para reportagem na área de justiça e segurança. Estava sempre à procura de um caso mal explicado, de uma denúncia, de uma injustiça. Eu queria consertar o mundo através das matérias que editava.

Foi nesse período que decidi estudar Direito: queria conhecer mais sobre a vida à luz do Direito e da ordenação jurídica, para poder escrever um grande romance. O tema: o mais obvio – ao meu entender, seria a Prática do Homicídio e suas Motivações. Assim, em todos os crimes cometidos na cidade de Santo Ângelo, lá estava eu, procurando pistas, fazendo perguntas, querendo publicar antes, e explicar antes o que parecia não ter explicação. A velha febre do repórter principiante de publicar antes, de carimbar um “exclusivo”, em uma reportagem. Mesmo sendo aquele exclusivo algo de conhecimento comum.

O primeiro caso impactante em minha vida, que desencadeou essa febre pelo estudo da prática do homicídio foi de um pai que matou a própria filha com uma xícara arremessada, e que lhe atingiu a nuca, em um casebre em Santo Ângelo. Pareceu-me algo tão dantesco, por motivo tão fútil, que não conseguia conceber um entendimento. E, mesmo com pouca experiência, tive a impressão de que o pai sofria de um dos piores sentimentos: de pobreza humana. Não era culpa do sistema, nem da forma de governo, das administrações, e das verbas escassas. Era algo tão comum, mas que esbarrava em cérebros moldados pelos discursos comuns, de quem nunca conheceu a lida à campo e vive de conjecturas.

Os anos passaram, e eu consegui um pouco mais de evolução. Em agosto de 2004, quando um lavrador maranhense, de 35 anos, foi preso em flagrante por matar a filha de cinco anos por causa de uma xícara de café eu novamente voltei a pensar na miséria humana. Uma xícara de café remeteu-me ao caso do ‘pai da xícara’, aqui de Santo Ângelo, e eu novamente voltei estudar o tema. E, não me fartei de apenas fazer análises breves. Nos levantamentos realizados fui descobrindo, aos poucos, que crianças de todas as idades e nacionalidades eram e são vítimas de violência doméstica, diariamente, não apenas no Maranhão, não apenas em Santo Ângelo, mas nas grandes e pequenas cidades do mundo todo. Fruto do egoísmo e da falta de caráter dos pais e responsáveis. Fruto do excesso de voracidade, da falta de pudor, da invalidez de humanidade, que nos chega disfarçados pelo sistema como ‘famílias desestruturadas’.

Ao final do estudo, já não queria mais publicar isso em livro. Não tinha nada de descente nas histórias que colhi. Não tinha nada de desestruturação nas histórias que colhi. Tinha muito de falta de vergonha, de omissão da sociedade e dos poderes constituídos, de falta de amor em Deus e crença no amor e no perdão.

As pessoas envolvidas nesse processo aos poucos deixam de ser pessoas e se transformam: são os monstros que carregam dentro de si os casebres de miséria. Miséria de alma.


* Edna Lautert – jornalista, membro da Academia Santo-angelense de Letras. Membro da Associação Brasileira dos Jornalistas e do Conselho Editorial do clic RBS Santo Ângelo.


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13 Comentários »

  • Mariana disse:

    Consideravelmente as maiores misérias são mesmo dos corações miseráveis!

  • Luiza disse:

    Vi seu comentário no Facebook. Tento ler suas crônicas quando tenho tempo. Penso que tocas fundo na alma das pessoas. E essa semana não foi diferente!

  • Patricia disse:

    Eu penso que a miséria humana seja o mal do século.

  • Ana disse:

    Essa estória da xícara aconteceu de verdade. Eu lembro quando você contou.

  • Karla disse:

    A história que você contou foi bem superficial. Estava esperando um relatório mais completo. Gostaria de ver publicado esse teu livro. Não desista dele.

  • Luis disse:

    Obrigado pelo convite. Muito boa leitura. Vou esperar mais

  • Iria disse:

    Amiga, saudade tua. Nós vamos nos concentrar para que a miséria humana não nos atinja como um furação.

  • Rosemeri disse:

    Olá amiga, vc escreve tão profundamente, parabéns. Mas vc tocou numa questão que me comove e muito, as crianças, principalmente os filhos desses pais miseráveis. abç

  • Barbara disse:

    Isso mesmo titia… a pobreza faz parte de alguns… o objetivo é não se conformacom ela e sim tentar mudar as coisas… não esperar pelas coisas como se elas fossem cair do céu… e sempre tendo fé em deus pq ele sim faz milagres…

  • Matheus disse:

    Bah, tri massa. Teu único defeito mesmo é ser gremista….huauauauahuauhua

  • Flávia disse:

    Eu também encontrei muitos casebres de miséria por esse mundo a fora. Não apenas de pais contra filhos, ou vice-versa. Os valores humanos estão trincados. Mas não devemos desistir. Devemos lutar até o fim para reverter esse quadro. E nunca deixar de acreditar que há um dia melhor que o outro.

  • José Carlos disse:

    Não consegui vir e ler somente um. A gente brinca tanto. Mas aqui, no Ziureka o papo é sério mesmo Édna. Parabéns pelos temas abordados. Meus casebres de miséria humana estão encerrando um grande ciclo.

  • Fernanda disse:

    Deus abençoe você, sempre, pelas palavras e sabedoria.

Comentários