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09 set09:54

NÃO É CÉU: A dança do festeiro falido

Eduardo Matzembacher Frizzo, leitor-repórter*


Desde que me conheço por gente, ouço que Santo Ângelo tem a noite mais agitada da região. Pessoal quer se divertir, jogar conversa fora e tomar gelada entre amigos. Isso é bom porque faz o solteiro ficar menos solteiro e o casado esquecer que é casado ao menos até escovar os dentes. É bom porque faz a vida girar, os carros baterem, brigas estourarem e todo mundo ficar feliz, tanto os donos das boates quanto os donos das bocas de fumo. De fora tudo parece uma festa. Todos felizes largando oncinhas ao deus-dará das madrugadas. As lancherias sempre lotadas, os pais sempre preocupados e as virgens deixando de ser virgens cada vez mais cedo. Algo perfeitamente normal, não fosse uma realidade estranha: como pode uma cidade que há tanto tempo está sedimentada na estagnação econômica ter essa imagem? De onde os cidadãos tiram dinheiro pra gastar na tal da “vida noturna santo-angelense”? Talvez seja por isso que certa vez um amigo do norte me falou que todo santo-angelense é um festeiro falido.


Mas o que ocorre em Santo Ângelo não é diferente do que ocorre no mundo todo. As pessoas, quanto mais no buraco estão, mais tendem a não reconhecer que estão no buraco. Quando reconhecem, ou fazem festa ou se matam – dificilmente alguém irá conseguir ou mesmo querer sair do buraco. Mas nós temos nossas peculiaridades. Por exemplo: a maior parte do dinheiro que existe por aqui (aquele dinheiro que possibilita poder de compra e mesmo perspectivas empreendedoras) está nas mãos de profissionais liberais. O restante, com os funcionários públicos. E o que sobra, com alguns poucos empresários. Esses empresários, geralmente são o que são porque deram um golpe de mestre em algum momento de suas vidas. Não é à toa que Santo Ângelo tem a fama da “cidade latinha”: lá tinha tal coisa, lá tinha isso, lá tinha aquilo.


Somos uma cidade na qual as empresas raramente conseguem se desenvolver. Talvez isso se explique pelo fato de que a maioria dessas empresas é de pequeno porte e trabalha com a venda de produtos e a prestação de serviços, praticamente nunca com produção. Temos a Fundimisa, alguns dirão. Mas é a exceção da exceção. No mais, temos é um apanhado de lojas aqui e ali, uma guerreando contra a outra pra conseguir sobreviver. As que têm maior sucesso, sustentam suas contas do dinheiro dos profissionais liberais e dos funcionários públicos seguidos por aqueles poucos empresários. O restante tem suas portas abertas pelas compras à prestação do resto do povo – e essas empresas não têm sua sede em Santo Ângelo. Se isso diz de uma realidade aparentemente corriqueira, propicia um pensar interessante: a concentração de renda é um dos principais fatores geradores da estagnação econômica.


Afirmo isso sem nenhum rancor ou pesar. Afirmo apenas a título de diagnóstico descompromissado. Se temos um número restrito de profissionais liberais, funcionários públicos e empresários que detém a maior parte do capital que existe nas Missões, o que sobra para os outros? De certo abrir uma lojinha pra vender roupas compradas em São Paulo com uma margem de lucro perto de 200%. De certo se lascar estudando pra tentar sair da cidade ou apenas se contentar com uma vida mediana feita de pensamentos medianos, sentimentos medianos e contas bancárias medianas. De certo sobra – e é aqui que quero chegar – sair pra rua de festa em festa, já que pra quem está no inferno, abraçar o Diabo é questão de sobrevivência.


Penso que o fato de Santo Ângelo ter a noite mais agitada da região, seja uma conseqüência da nossa falta de perspectivas para o futuro. Em um local onde profissionais liberais e funcionários públicos, seguidos por poucos empresários (sem contar aquelas famílias que são proprietárias de grande parte dos imóveis comerciais e mesmo residenciais da cidade há décadas, pautando o setor imobiliário com aluguéis estratosféricos e completamente injustos), detém a maior parte do capital que gira no município, a estagnação econômica é conseqüência. Uma cidade assim não dará margem para a invenção seguida do empreendedorismo – ou seja: para a produção e não para o varejo. Vivemos em uma cidade que não vai e não irá pra frente enquanto não perceber onde se encontra. A questão toda está em saber que nos encontramos em tal lugar – nesse caso, no buraco. Feito isso, temos de não apenas conseguir, mas querer sair desse lugar. Do contrário, permaneceremos como a noite mais agitada da região e só isso por muito e muito tempo. Para o bem e para o mal, ficaremos na eterna dança do festeiro falido – e na sua próxima visita, meu amigo do norte terá a certeza de que sua afirmação estava correta.

* Eduardo Matzembacher Frizzo é estudante, professor universitário, advogado e Mestre em Desenvolvimento pela UNIJUÍ

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13 Comentários »

  • Thomson disse:

    Nada mais que um lugar comum na grande maioria das cidades medianas do estado…
    Ou seja, nosso país coloca-se de costas para um mínimo de oportunidades para a maior parte da população…mas não existe nenhum tipo de mobilização popular…então perpetua-se essa realidade…a grande conspiração de poder…a minoria detendo a maioria…

  • Paulo Oscar Glass disse:

    concordo com grau r genero , sem falar na frota de veiculos trancando nossas ruas tudo fiadinho

  • Eliane disse:

    Achei todo o texto muito drástico, em cima de uma opinião de fora, nem sabemos o caráter do indivíduo! É triste publicarem uma imagem negativa de nossa cidade, sem ao menos fazer uma enquete de quem reside por aqui. ~
    Não é porque se tem alguns títulos, que podemos divulgar uma particularidade, e mais, não se fala mau do lugar onde se trabalha e tira o pão!

  • rafa disse:

    PARABÉNS REALMENTE É UM RETRATO DE NOSSA CIDADE.

  • Ellis disse:

    Realmente, algo bem interessante acerca da realidade de várias cidades e não apenas de Santo Angelo. Me parece que o caráter do indíviduo já se encontra expresso na própria escrita….de quem talvez, felizmente, deseja compartilhar seu desejo pelo não conformismo, de não se viver de forma mediana, voltando-se para o próprio umbigo, pois é isso o que acontece quando nos alienamos ao não questionar o lugar onde se vive. Drástico mesmo é a sociedade de hipocrisia e superficialidade, na qual se gasta o que não se tem por pelo menos mais uma, e mais uma, e mais outra festa. Tá certo que cada qual que se acomode medianamente com sua forma de lazer e prazer, mas, mais drástico definitivamente, é passar fome e frio…e isso acontece em nossas cidades interioranas também.
    Lembrando de outras formas, que podem ser mais drásticas, porém mais reais, e pretendendo desacomodar…pode-se associar o seguinte link:
    http://www.youtube.com/watch?v=sfYStvOmYh0

  • Sergio disse:

    Santo Ângelo é apenas um exemplo entre milhares, onde o pensamento dominante é o seguinte: não importa o que eu sou, mas sim o que os outros pensam que eu sou.

  • Marcelo Caetano disse:

    Achei tendenciosos, preconceituosos e sem embasamento os argumentos apresentados, acrescido com uma certa pitada de inveja típica de moradores de cidades circunvizinhas. Sou Santo-angelense e moro em SC, quando vejo algo sim, fico chateado com a situação de que ainda existam algumas pessoas querem conturbar a imagem de uma cidade pólo regional, bonita, acolhedora e que realmente o lazer é um de seus pontos fortes. Para eu e tantos outros santo-angelenses que moram fora, lugar não há como nossa cidade, nosso povo e nossa história.
    Infelizmente um artigo que não contribui em nada.

  • tanato Caibaté disse:

    Na minha mal formada opinião, esses são reflexos da contemporaneidade. Reflexos de criaturas que formam uma sociedade que perdeu em algum lugar o significado de cidadania (verdadeiro significado). As relações são efemeras e fugazes, não passando de uma noite. E se as relações se tornaram tão desimportantes imaginem os senhores o que não restam das responsabilidades sociais. Ninguém tem interesse na manutenção da sociedade, clamamos por politicos honestos e devotados aos seus eleitores, mas quando temos oportunidades de fazermos algo para mudarmos nosso entorno, fazemos exatamento o mesmo que fariam os à quem direcionamos nossas criticas. Não condeno quem faz festa e não investe em seu futuro, total o futuro é de cada um. Não condeno tambem quem os critica e tenta trazê-los a realidade.
    Não sei se me expressei de forma correta, mas não pude deixar passar batido.
    Um abraço ao mestre Matzembacher
    Venicius Follmann de Oliveira – “eduquemos as crianças e não teremos que dar bolsa familia aos adultos”

  • Vinicius disse:

    é a realidade de Sto Angelo,e assim segue com as novas gerações, cada vez caminhamos mais para o fundo do poço, enquanto alguns poucos riem e se perpetuam no poder

  • ricardo disse:

    Eu não moro mais em santo angelo e nao pretendo mais voltar, o cidadezinha desgraçada que nao gira o dinheiro o preço das casas é absurdo aluguel então… agora cidade festeira? nao sei daonde… se fosse contar num sabado a noite creio q umas mil pessoas no maximo estão fora de casa, a nao ser aqueles feriados dos quais os filhos vão visitar os pais pq moram em otra cidade pra estudar, ja q pagar mil reais numa faculdade parece ser normal.

  • Ítalo disse:

    Não costumo postar comentários, porém, está de parabéns, pela forma de ver a cidade. Acho queeee é bem por aí mesmo!
    Esse COMENTÁRIO é merecedor..

  • Portalete disse:

    Uma abordagem sociológica interessantíssima. Acredito que outras cidades estejam passando pelo mesmo processo. Infelizmente é uma tendência dos municípios onde a produção é mínima em relação ao comércio de produtos e serviços. Evidente que, onde a produção exige, não há lugar para tantas “festanejas”, pois o dia começa cedo. Produzir mais, fazendo o dinheiro girar mais e melhor, colocando-o ao alcance de um número maior de santoangelenses, é o desafio a ser encarado. Resta saber quem está disposto a esta árdua tarefa. Com certeza não será a classe política, pois estaria mexendo em vespeiro. Quem sabe os empresários, ou então a força estudantil? Difícil, mas não impossível….

  • Dariane Mello disse:

    Ótimo texto, se encaixa perfeitamente com Cruz Alta, também!

Comentários