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05 nov16:03

ZIUREKA: Preconceito disfarçado

Edna Lautert

Vi na TV outro dia uma reportagem sobre preconceitos. De cor, credo, opção sexual, religião, religiosidade, e por ai vai.

Causou-me estranheza que na reportagem não foi citado uma vez sequer o preconceito que sofrem os gordos. A humanidade classificou-nos por doentes e já não estamos nem mais na lista das pessoas vítimas. Somos xingados na rua, nas praças, no ônibus, somos vítimas de desdém da sociedade, e quem nos defende? Chegamos ao cúmulo de ouvir um jurado de um programa TV chamar uma dançarina gordinha de “bolarina” e todos rirem, abertamente. Ninguém fez ou faz nada!

Acho incrível que as pessoas tenham por hábito classificar pessoas: “Essa é P. Essa é M. Essa é G. Aquela comeu a comida toda do time”. Porque o gordo ele não é GG. Ele, aos olhos dos outros, é o que come tudo, o grandão, o “sem caixão”, e por ai vai. Sem contar que cada pessoa que olha um gordo tem sempre uma receita: olha, você precisa fazer um exercício. Olá, que tal você fazer uma dieta? Olha, você poderia tomar tal atitude. Mas será que algum gordo pediu por isso? Tudo bem que existam exceções, assim como nos magros há os casos de doenças. Mas, não é para ser engraçado. Por que isso é dramático.

A humanidade pressupõe igualdade de condições. Mas, na prática, isso não acontece. Quando eu era jovem eu costumava amar Vinícius de Moraes. Até descobrir que ele era um homem preconceituoso. Foi ele quem perpetuou a frase “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Eu sempre digo ‘perdão Vinícius, eu costumava te amar até conhecer o resultado de tua obra”. O que são os feios e as feias?

Cada vez que você cumprimenta alguém, você sabe com quem está falando? O que essa pessoa traz por dentro? Sua alma, seus sentimentos, sua grandeza? Ou você as classifica pelo que vê?

E na rua, quando alguém lhe pede ajuda, você lembra dos ensinamentos cristãos que regem que nenhum ser humano deve negar abrigo a um irmão? Que jamais se nega pão a quem tem fome? Ou uma roupa a quem tem frio? Eu não estou falando de você doar tudo o que tem a alguém. Mas, uma parte. Uma parte que te sobra. E que faz falta para quem não tem. Como você se sente negando a mão a outro ser semelhante a você, e que não teve a mesma oportunidade sua?

Não me venha com essa mentira deslavada de que isso é coisa que não acontece por aqui. Isso é real, e se você negar é porque no fundo não consegue admitir diante da humanidade as atrocidades que você comete.

A cada segundo, no Brasil, uma mão se levanta enquanto uma alma chora a dor de um preconceito. E, isso, caro leitor, é culpa sua.

A vida nos tornou objetos de desejo, ou de desprezo. De reconhecimento, ou de esquecimento. O que nos torna diferentes é a capacidade, de mesmo contra a vontade de todos continuar lutando e poder dizer: escute aqui, olhe bem pra mim. Pode chorar agora, porque eu…Eu existo, e todo mundo sabe.

O que eu gostaria de saber é até quando você vai continuar apenas tomando conhecimento e sendo ignorante? Ser ignorante a um assunto não é não conhecer. É calar!


* Jornalista, membro da Associação Brasileira dos Jornalistas e da Academia Santo-angelense de Letras. Colunista do clicRBS.


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8 Comentários »

  • Liria disse:

    Edna: tocou-me o coração essa mensagem. E, por mim, senti o quanto tenho sido egoista por ser ausente.

  • Luiz disse:

    Olha, eu gosto de Vinicius, e da frase. Você conseguiu fazer com que eu me sentisse culpado por gostar das bunitas.ahaushaushauhaushau

  • José Carlos disse:

    Muito profundo Édna.Obrigado pelo convite no Face. Valeu a pena

  • Mariana disse:

    O pré-conceito, juntamente com o preconceito, são a destruição da humanidade.

  • Patricia disse:

    Muito profundo amiga.

  • Karla disse:

    Você esqueceu o idoso. Só para constar, eles são vítimas, diariamente, de preconceitos. Mesmo a sociedade alardeando aos quatro ventos que as políticas públicas de inclusão trazidas pelo estatuto do idoso estão dando certo.

  • VANISE disse:

    Políticas públicas? Esse estatuto o idoso é uma falácia. Mais um mecanismo legal que não funciona.

  • Marco Antônio da Silva disse:

    Valeu Edna! Um tema muito importante… Avante humanidade racional!

Comentários