clicRBS
Nova busca - outros

participação

18 nov14:46

NÃO É CÉU: O progresso da permanência

Eduardo Matzembacher Frizzo*

A estrutura fundiária brasileira pouco se modificou no decorrer de toda história do país. Informações do Censo Agropecuário de 2006 realizado pelo IBGE, demonstram que no Brasil existem cerca de 329 941 393 propriedades rurais, sendo que deste total 7 798 607 tem menos de 10 hectares, 62 893 091 tem entre 10 e 100 hectares, 112 696 478 tem entre 100 e 1000 hectares e 146 553 218 tem mais de 1000 hectares, de onde se vê que propriedades com grandes extensões de terra ocupam mais de 43% da área cultivável do país, restando às pequenas propriedades 2,7% do total. Comparando-se esses dados de 2006 com o Censo Agropecuário realizado em 1985, nota-se que naquele ano havia no Brasil cerca de 374 924 421 propriedades rurais, das quais 9 986 637 tinham menos de 10 hectares, 69 595 161 entre 10 e 100 hectares, 131 432 667 entre 100 e 1000 hectares e 163 940 667 mais de 1000 hectares, do que se percebe que entre 1985 e 2006, as propriedades rurais de grandes extensões reduziram sua área em pouco mais de 10%.


Parece inevitável pensar que diante desses dados o Brasil necessita de uma política séria de Reforma Agrária. Apesar da grande imprensa nacional alardear as ocupações do MST como atos de terrorismo, de maneira alguma, no meu entendimento, essas ações podem ser classificadas como tais. Se o Art. 186 da Constituição fala que a propriedade rural deve velar pela sua função social e o Art. 3°, inciso I, diz que a sociedade brasileira deve ser pautada pela liberdade, pela justiça e pela solidariedade, as ações do MST por meio de ocupações e demais manifestações são plenamente legítimas, isto porque traduzem o apelo a transformações sociais necessárias por meio de reivindicações de um movimento popular.


Mas não se pode negar que muitas vezes existem excessos por parte de alguns integrantes do MST, os quais merecem punição. Também não se pode esquecer do fato de que certas pessoas se agregam ao movimento simplesmente por terem interesse em terras sem jamais ter trabalhado no campo. Mas em um país onde a própria estrutura fundiária é conseqüência de séculos de opressão ao pequeno trabalhador rural, o MST se mostra como um movimento democrático e justo pela distribuição de terras e consequente possibilidade de trabalho àqueles que estão à parte da estrutura social brasileira. Se hoje existe um “inchaço” urbano nas médias e grandes cidades do país, o qual encontra a falta de estrutura como uma das suas principais razões devido ao déficit habitacional, a falta de saneamento básico, a insuficiência de vagas de trabalho bem como ao analfabetismo, muito disso é efeito reflexo do fato de que durante o Regime Militar, por exemplo, centenas de famílias foram expropriadas de suas terras em razão de ações unilaterais do Estado, tendo de se dirigir para os grandes centros em busca de trabalho e sobrevivência. Uma das consequências sociais disso está na crescente criminalidade nas cidades brasileiras.


Quando todo esse cenário brevemente traçado é somado ao fato de que o Censo Agropecuário de 2006 também revelou que mesmo ocupando um total de 24,35% da área cultivável do país, a agricultura familiar responde por 38% do valor bruto da produção brasileira – o que significa que nessas terras são cultivados 1/3 de tudo o que é produzido no Brasil, mesmo que elas ocupem menos de 1/4 da área destinada para a produção agrícola do país –, a necessidade da Reforma Agrária parece ser ainda mais urgente, já que demonstra o importante papel das pequenas propriedades no cenário nacional, o qual certamente contribuiu para os recordes de produção no campo atingidos nos últimos anos pelo Brasil. Com certeza um movimento de massa como o MST traz consigo problemas que se encontram também em todas as camadas sociais brasileiras, como a violência irracional e o apadrinhamento de certos partidos e políticos em busca de votos nas eleições. Mas sonegar sua vital importância democrática é sacrificar a própria possibilidade de transformação social em prol de uma ideologia secular que faz toda lei sucumbir diante de interesses privados.


Como disse Luis Fernando Veríssimo, desde a saída da primeira missa do Brasil todos são a favor da Reforma Agrária, só que dentro da lei. O que acontece é que apesar da Constituição Federal proporcionar vislumbres do Paraíso com “justiça”, “liberdade”, “solidariedade” e “função social”, não diz dos meios de alcançá-lo, papel este que deveria ser assumido pela legislação infraconstitucional. Mas quando essa legislação se perde em labirintos legais que proporcionam reducionismos canhestros por parte do Judiciário, o que permanece é uma interpretação hegemonicamente hipócrita da sociedade brasileira diante desse assunto. Se Canudos foi destruída legalmente no início do século passado pelas tropas federais, sendo que hoje essa ação é vista com repudia, é possível que as próximas gerações enxerguem com a mesma repudia o atual pensamento brasileiro dominante sobre a Reforma Agrária. O que fica é uma apatia cômoda fundada em uma cultura plena de um individualismo patrimonialista que favorece sempre os detentores do poder econômico e político. Se a única Reforma Agrária efetiva que ocorreu no país foram as Capitanias Hereditárias distribuídas entre os invasores europeus, pouco importa. Se prevalecem as grandes propriedades de terra nas mãos de poucas pessoas e empresas, mais interessante é esquecer disso.

No Brasil o que vale é o progresso da permanência.

* Eduardo Matzembacher Frizzo é estudante, professor universitário, advogado e Mestre em Desenvolvimento pela UNIJUÍ


Bookmark and Share
Comente aqui
11 nov20:24

Não é Céu: 34334897

Eduardo Matzembacher Frizzo*


O lado bom da vida só se revela de ladinho. Todo o resto é conversa de ópio. Talvez devêssemos dar crédito a quem vira amigo das traças. Mas se bibliotecas fossem importantes, o mundo não estaria abarrotado de arquivos que contém pastas que por sua vez trazem consigo todos os nossos dados. Chegará o dia em que traremos um chip implantado nas nádegas logo após o nascimento. Quando precisarmos entrar em uma repartição pública, por exemplo, mostraremos nosso traseiro a um scanner vermelho ou roxo que dirá da veracidade ou não das informações contidas no solitário pedaço de silício encravado em nosso adiposo tecido detrás.


Mas acho que esse tempo já chegou. Não da maneira como afirmo, certamente, mas que chegou, chegou. A comprovação é a quantidade de vezes que o indivíduo tem de fornecer o CPF no decorrer da vida. Se contabilizarmos, falamos mais aqueles onze números da carteirinha azul que nossa própria alcunha de batismo. Quem sabe, para o bem do sistema que é a vara de marmelo da coletividade, não deveríamos mais ser identificados por letras, mas por números. Toda identidade existe para os outros, jamais para nós. Se é assim, o que chamamos de nome seria nosso apelido e o que chamamos de CPF seria nosso nome. Não ficaria mais prático? Quem disser “não”, jamais ligou para um 0800 ou foi a um guichê de banco.


Apesar disso, não há motivo para dramas. De mexicanas, bastam as novelas. Se dramas valessem alguma coisa, alguém lembraria da Maria do Bairro. Mas ninguém lembra. No máximo ela virou oito minutos de vídeo besta-cult no YouTube. E todos aqueles nomes compostos, como Alfredo Guilherme, Olavo Gustavo, Pedro Rodrigo e Renata Fabíola, passaram a ser motivo de piada entre os funcionários dos cartórios desse Brasil. Como se percebe, isso apenas atesta minha tese de que se nos chamássemos por números ao invés de caracteres abecedários, seríamos muito mais racionais, concisos e menos idiotas pelos cantos da existência.


Acontece que a moda não pegaria. Mesmo que estatísticas embasadas pelos mais rigorosos métodos de pesquisa digam quais serão os rumos das eleições, essas pesquisas nada seriam se não houvesse o nome dos candidatos por baixo das porcentagens. Se o nome do candidato fosse um número e você tivesse que digitar outros tantos números para votar no sujeito, imagine o banzé. Haveria protestos mundo afora defendendo o direito ao prenome e ao sobrenome, dizendo que os numerais, no máximo, poderiam servir para identificar os miseráveis, isto com a única intenção de que as políticas sociais, bondosas por natureza, pudessem atingir um montante cada vez maior de pobres coitados. E convenhamos que esse argumento poderia ser implantado como lei hoje mesmo, caso o Congresso Nacional não fosse a casa da hipocrisia brasileira – e portanto reflexo de todos nós, comprometidos com a petrificação da miséria do nascimento à morte, o que move carreteiros dançantes e descontos no Imposto de Renda.


O que dá para perceber da impossibilidade efetiva do que defendo, é que não somos um povo prático. Gostamos de carimbos, formulários, filas, funcionários mal-humorados, protocolos, senhas e tudo aquilo que acompanha essa coisa que tanto criticamos e amamos chamada “burocracia”. Até mesmo minha proposta é um sintoma dos miolos burocráticos que trago comigo, os quais servem, ao menos na teoria, para racionalizar as operações estatais, de modo que nenhum cidadão seja privado do braço forte e da mão amiga que essa entidade invisível que denominados “Estado” crava em nós.


O fator complicador se refletiria principalmente nas músicas. Mais precisamente no que insistem em chamar de “sertanejo”, seja “colegial”, “maternal” ou “universitário”. Como falar “eu te amo” para um número? Como mandar um número catar coquinhos nas margens do Arroio Dilúvio? Seria o cúmulo da higiene. Mas se os campos de concentração nazistas foram tão eficazes em suas pretensões de extermínio ao nominar os prisioneiros com algumas siglas numéricas, certamente acharíamos uma saída para o dilema. Bastaria alterar umas rimas daqui, umas rimas dali, elencar o número 7 ou o 19 (que rima com “love”) como símbolo da paixão, que tudo estaria resolvido. Os numerólogos perderiam seus empregos, mas poderiam ser contratados como técnicos de uma nova ordem baseada unicamente na matemática. Se ninguém entende o sistema tributário desse país, há algum motivo para não contratar os sábios da metafísica dos números para elencar as novas espécies de impostos que recairiam sobre os cidadãos brasileiros? É claro que nada impediria essa prática.


Se as coisas estão do jeito que estão, se ao invés de buscar alternativas para salvar o planeta vasculhamos o espaço para achar outro planeta que consumir, melhor mesmo é aceitar nossa condição de civilização suicida que permanecer na enganação sadia de uma happy hour e achar que esse é o auge da felicidade, desde que somado a um foundie com queijo uma vez por ano em Gramado. Eu gostaria de me chamar 34334897 pelo simples motivo de que não tenho a menor idéia do que significam esses números. Se houvesse algum sentido nessa sequência, desconfiaria da coesão dos próprios numerais e tudo se tornaria tão sem graça quanto frases pós-coito. O lado bom da vida é que, para ela ter um lado bom, sempre podemos variar de posição. Ou, se não seguirmos o conselho de qualquer sexóloga e mesmo daquele guia para ginastas que é o Kama Sutra, inventar algumas outras que nos dariam mais prazer que dor. Tudo codificado numericamente, óbvio, ainda que os geômetras, afeitos a conceitos que nunca entendi, como “triângulo retângulo”, perdessem completamente sua escassa sanidade, terminando seus dias em um manicômio denominado “Pitágoras”.

* Eduardo Matzembacher Frizzo é estudante, professor universitário, advogado e Mestre em Desenvolvimento pela UNIJUÍ


Bookmark and Share
Comente aqui
04 nov14:38

NÃO É CÉU: Negação, violência e justiça

Eduardo Matzembacher Frizzo*


Somos quem negamos ser. Nossas resignações nos denunciam. O sujeito moralista ao extremo carrega uma imoralidade latente que dá impulso ao seu senso moral. O partido esquerdista radical estrutura seu pensamento por meio de uma construção sólida que não dá margem à liberdade distante dos seus alicerces. Quando falamos e sem querer posicionamos palavras indesejáveis durante a fala, essas palavras expressam o próprio sentido do discurso, ainda que contraditórias em relação àquilo que desejaríamos expressar.


Certos posicionamentos que hoje se querem jurídicos são bons exemplos disso. Em princípio o Direito existe para ordenar a sociedade, legitimado por um aparato estatal sob o primado da vontade popular. Essa vontade é expressa por meio do voto, o qual dá poder aos representantes do povo para analisar e aprovar leis que por sua vez irão ordenar a sociedade. Atualmente, vê-se um apelo popular imenso que clama por leis mais duras ou ao menos interpretações mais duras das leis vigentes quanto a determinados crimes. Vive-se na crença de que a pena extinguiria a possibilidade de um novo crime, de modo que assim a ordem social pudesse ser minimamente estabelecida.


Essa postura traz consigo o discurso da negação da violência. Quanto mais violência se vê, menos violência se quer. Daí surgem os partidários da criminalização de usuários de drogas e mesmo da legalização da pena de morte. Acontece que esse teor legal que brota desses apelos sociais, igualmente carrega a violência em suas linhas. Procura-se negar a violência pela violência, escondendo essa verdade por meio de um discurso que visa a paz. Quer-se curar o sintoma com o sintoma, não sendo buscada a origem da doença que ocasionou o sintoma.


A glamourização do Estado vista nos últimos meses em ações como a invasão do Complexo do Alemão é uma prova disso. Parece que a realidade que vimos jamais existiu e que somente agora veio à tona. Não se pode negar que o tráfico de drogas se encontra a tal ponto entranhado na realidade brasileira que ações como aquelas tomadas pela Polícia e pelas Forças Armadas se fazem necessárias mediante alguns contextos. Ocorre que analisar esse fenômeno de forma rasa implica em negar, por exemplo, que ele apenas se deu como maneira de publicizar a imagem de que o Brasil é um país preparado para receber eventos globais como as Olimpíadas e a Copa do Mundo. Ou seja: trata-se a violência através da violência com o objetivo de propagar a paz ou ao menos a sensação de paz.


O maior problema existente na sociedade quando se trata da ilegalidade e dos seus sintomas sociais, é a tolerância que aos poucos desenvolvemos diante da ilegalidade. O jogo do bicho, embora ilegal, detém bancas de apostas por todos os lados. Beber e dirigir, igualmente ilegal, é prática tolerada universalmente. Há um nível de tolerância que prejudica a efetivação das pretensões de ordem social que desejamos, fazendo com que nossas percepções, atreladas a um senso comum orgiástico, fechem suas portas para uma análise profunda da realidade, a qual deveria se concentrar na origem do sintoma e não apenas no sintoma.


Freud fala que o sonho é um apanhado de significantes que esconde um significado. Isso implica em dizer que a origem dos sonhos se encontra embrenhada no teor complexo do próprio sonho. Interpretar os sonhos não está para buscar um significado místico para aquilo que sonhamos, mas se relaciona com a busca de uma verdade do sujeito, a qual é negada pelo sujeito e por isso se encontra coberta por tantas imagens aparentemente sem lógica, obedecendo às tramas de uma determinada estrutura que por fim revela aquele que sonha.


No panorama social atual, talvez devêssemos fazer o mesmo. Em meio a tanto alarde midiático acerca da violência, a qual nos propicia um gozo que não queremos aceitar e por isso queremos repreender com mais violência, o que explica o apelo social por leis duras ou ao menos interpretações restritas da própria legislação, existe um significado que está nos escapando. Esse significado recalcado denuncia aqueles que somos e esconde o fato de que gostamos de ver o caos social para perceber que nossas vidas, apesar de repletas de problemas, ainda detém a mínima paz. Talvez o reconhecimento dessa realidade propicie o nascimento de algum senso de justiça que não esteja travestido de vingança.


Certamente a angústia gerada por essa consciência não é pouca, manifestando-se no momento em que nos encontramos desprendidos de um significado que até então era certo e objetivo, mas agora se encontra envolto em mil questionamentos. Mas o reconhecimento do fato de sermos quem negamos ser, pode gerar uma revolução na própria percepção que temos da realidade, fazendo com que nossos pensamentos, antes de tirar conclusões precipitadas, saibam analisar o contexto no qual se deram para enfim atingir algum patamar confiável. O fator complicador de uma percepção que ande por esse caminho, está para o fato de que até mesmo a confiabilidade desse patamar será questionada com o tempo, denunciando a realidade irrevogável de que nossa única certeza é a dúvida. Mesmo assim, apenas por sobre as ruínas da certeza é que alguma justiça pode ser construída. Negar nossa condição é negar quem somos. Negar quem somos é afirmar aqueles que somos por meio da negação. Se apostarmos que quanto maior a negação maior a violência, não haverá espaço para soluções justas distante do reconhecimento dessa realidade.

Mas o que queremos, afinal?

* Eduardo Matzembacher Frizzo é estudante, professor universitário, advogado e Mestre em Desenvolvimento pela UNIJUÍ

Bookmark and Share
Comente aqui
31 out13:03

VIDA ÚTIL: Você acha que prevenir é melhor do que remediar,ou que, quem procura acha?

Kelly Cristina Meller*

O ditado popular já diz tudo por si só. Há pouco tempo, o ex-presidente Lula anunciou que deixara de fumar suas cigarillas. O fato não é este, e sim quantos cigarros ele tenha fumado até este dia, o que pode ter sido uma das causas de sua doença. Repercutiu neste domingo a manchete de que Lula está com câncer de laringe e começará o seu tratamento nesta segunda-feira. Assim, acontece todos os dias, famosos e pessoas como nós, são acometidas por esta doença, num índice assustador. Na semana passada, participei do XI Congresso Brasileiro de Enfermagem Oncológica, onde, no intervalo apreciei uma sessão de autógrafos do ator global Herson Capri, no qual escreveu uma das várias histórias do livro “Sem medo de Saber”, de Ilan Gorin. O livro é uma abordagem provocativa e instigante sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer. São belas e vencedoras histórias sobre a luta contra esta doença. Os autores são pessoas conhecidas, alguns atores e jogadores e outros os seus próprios familiares.

Talvez seja um pouco de utopia realizar um exame, por exemplo, para se aparecer algum achado por acaso, fazer uma detecção precoce desta doença. Num país como o Brasil, que a maior parte da população não têm acesso nem mesmo à um serviço de emergência quando necessita, pode até parecer piada. Mas, gostaria de compartilhar que esta idéia existe, e que a maior experiência mundial no diagnóstico precoce do câncer é a japonesa. Onde já existe protocolo de exames realizados anualmente com cobertura pelo Ministério da Saúde, e, outras condutas semelhantes são de clínicas privadas. Este livro que acabei de ler, cita os diversos casos da doença e das novas tecnologias de exames para o seu diagnóstico, que fazem dele uma importante ferramenta no combate do câncer e o motivo de divulgá-lo aqui.

“ Descobri que estava com câncer depois de fazer um RX de tórax. Não sentia nenhuma dor nem suspeitava de nada. Eu ia fazer uma lipoaspiração no abdômem para interpretar Jesus Cristo em nova Jerusalém, um personagem muito mais magro do que eu, e nos exames pré-operatórios a minha mulher, que é médica, fez questão que eu fizesse também uma radiografia dos pulmões. O cirurgião plástico, na época não pediu esse exame, mas minha mulher insistiu para que eu fizesse. E aconteceu comigo o que os médicos chamam de um achado, isto é, a descoberta de um tumor maligno sem que houvesse nenhum sintoma dele. A radiografia mostrou um nódulo já grande. Uma coisa que eu falo, principalmente para quem fuma ou já fumou, é que a prevenção é o melhor remédio para o câncer. Mais uns meses e eu teria morrido. O nódulo estava muito próximo de colar nas paredes do tórax e no coração. Se isso acontecesse, eu não estaria mais aqui. Fiz tomografia para detalhar tudo e meu médico me encaminhou para cirurgia imediatamente.Apesar de ter sido muito dolorido, o pós-operatório foi um sucesso. Um mês depois da cirurgia, eu estava interpretando Jesus. A minha saúde está muito boa. Corro, jogo futebol, nado, pratico várias atividades físicas. Tenho percebido que a quimioterapia e a radioterapia estão cada vez mais avançadas. Fico impressionado com os resultados positivos que tenho visto em várias pessoas. Eu costumo fazer uma certa propaganda a favor da prevenção. Não quero dar conselhos à ninguém, mas, da mesma forma que um exame salvou a minha vida, outros exames podem salvar a vida de muita gente. Quando somos jovens e estamos cheios de coragem e energia, é quando nos sentimos fortes e abusamos, levamos uma vida desregrada, nos alimentamos mal, bebemos, fumamos, enfim, cometemos todos os pecados da juventude. Se houver exageros, haverá um preço a pagar. Eu fumei durante muito tempo, dos 12 aos 43 anos. Parei em 1993 e descobri o câncer em 1999. Pelas características e tamanho do tumor, ele se formou ainda na época em que eu fumava. O que mudou na minha vida e na minha maneira de encarar as coisas, depois da cirurgia, e que sou uma pessoa mais feliz. É claro que isso se deve à outros componentes, como a maturidade, o casamento bem-sucedido, filhos amados, etc. Mas, sem dúvida a descoberta daquele nódulo foi um marco na minha vida. Eu descobri, por exemplo, que nenhum investimento é melhor do que viajar. Acho que viajar traz um retorno muito maior do que investir em apartamentos, carros, coisas desse tipo. Também fiquei mais tolerante, mais bem-humorado, com mais alegria de viver e menos apegado as coisas materiais”, relata o ator Herson Capri, em uma das histórias de “ Sem Medo De Saber”.

Kelly e o ator Herson Capri em tarde de autógrafos do livro “ Sem Medo De Saber “, em Gramado/RS durante o  Congresso

* Kelly Cristina Meller é Enfermeira, especialista em Terapia Intensiva, Mestre em Ciências da Saúde PUC/RS e repórter sobre saúde deste site.

Bookmark and Share
5 comentários
28 out12:28
28 out12:27

NÃO É CÉU: A espiral do silêncio

Eduardo Matzembacher Frizzo*


Quem abriu algum jornal nos últimos meses, certamente se deparou com a seguinte manchete: “Caso Bruno”. Da mesma maneira, quem acompanhou os noticiários do país nos últimos anos, com certeza leu outras manchetes semelhantes: “Caso Richthofen”, “Caso Isabella”, “Caso João Hélio”, “Caso Madeleine McCann”, “Caso Daniela Perez”, etc. O que isso demonstra, é o fato de que de tempo em tempo sempre aparece algum crime que pela divulgação maciça da imprensa acaba gerando uma enorme comoção popular, de modo que todas as atenções são voltadas para as repercussões desse crime em incontáveis desdobramentos jornalísticos. O que cabe comentar não é a natureza dos crimes, mas a razão de tantas pessoas se sentirem comovidas por esses casos ao ponto de vibrarem com a condenação dos acusados, como aconteceu quando da leitura da sentença do Casal Nardoni.


Ao que parece, não é o crime em si que gera tamanho clamor, mas sua excessiva divulgação pela imprensa, a qual, de uma ou de outra forma, produz uma visão excessivamente unilateral dos acontecimentos. Essa unilateralidade, porém, aparenta certa imparcialidade que não condiz com o próprio vício da imagem que existe nos meios televisivos, por exemplo. Não existe a menor dúvida de que o destino do casal Nardoni poderia ser completamente diferente não fosse a atenção que o assassinato de Isabella Nardoni recebeu da imprensa. De forma idêntica, a discussão acerca da possibilidade de redução da maioridade penal não teria tamanha força nos últimos anos não fosse a cobertura intensa do assassinato do menino João Hélio no Rio de Janeiro ou o caso de estupro e assassinato de Liana Friedenbach em São Paulo.


Esse jornalismo preocupado com a divulgação desses crimes em todos os seus pormenores, aponta uma tendência da sociedade contemporânea relacionada com a “eleição” de determinados sujeitos que servem como uma espécie de expiação para as pessoas extravasarem uma indignação contida que em outros casos jamais chegaria a acontecer. Somando isso ao trato que certos apresentadores de televisão dão aos crimes, marcado por um pedantismo quase religioso que geralmente liga o crime com a ausência de fé em Deus ou com a ineficácia do Estado, forma-se um pano de fundo extremamente propício à profusão de opiniões que muito dificilmente irão se diferenciar daquela presente em grande parte da população, o que ocorre justamente pela atenção que a imprensa dá a esses casos.


Isso tudo lembra a Teoria da Espiral do Silêncio, de autoria da pesquisadora alemã Elisabeth Noelle-Neumann. Segundo Noelle-Neumann, os indivíduos buscam a integração social através da observação da opinião dos outros, procurando se expressar dentro dos parâmetros defendidos pela maioria com a intenção de evitar o isolamento. Nesse sentido, as pessoas tendem a esconder opiniões contrárias à ideologia majoritária, dificultando assim a mudança de hábitos com a finalidade da manutenção do seu status social. Essa opção pelo silêncio ocorre pelo medo da solidão social, onde as pessoas, influenciadas pelo que os outros dizem ou pelo que poderiam dizer, optam pelo silêncio quando suas opiniões correm o risco de não ter receptividade na sociedade. Dessa maneira, mudanças sociais somente ocorreriam quando houvesse um sentimento já dominante, o que passa invariavelmente pela imprensa.


O resultado desse processo é uma espiral silenciosa que incita as pessoas a perceber as mudanças da opinião pública e a seguí-las até que uma determinada opinião se estabeleça como atitude dominante, fazendo com que outras opiniões sejam rejeitadas ou evitadas pela maioria. Conforme Noelle-Neumann, a Espiral do Silêncio trabalha com três mecanismos que condicionam seu funcionamento: acumulação, devido ao excesso de exposição pela mídia de determinado assunto, consonância, relacionada à forma como as notícias são produzidas e veiculadas, e ubiqüidade, a qual está para a presença da mídia em todos os lugares. Juntos, esses mecanismos determinam a forte influência da imprensa sobre o público e seu papel determinante na formulação da percepção da realidade nesse público.


Elisabeth Noelle-Neumann chegou a essa teoria ao analisar uma mudança súbita nas pesquisas de opinião nas eleições alemãs entre 1965 e 1972, identificando o fato de que os eleitores procuravam ajustar suas opiniões de acordo com a opinião dominante, direcionando seu voto ao candidato que se apresentava como vencedor. As opiniões contrárias à maioria tendiam a recair em uma espiral silenciosa, o que, para a pesquisadora, ocorreria em razão do medo do isolamento social que uma opinião contrária ao padrão dominante difundiria em grande parte da população. O resultado disso, por meio da acumulação, da consonância e da ubiqüidade, dispôs o “clima de opinião” e o próprio resultado das eleições alemãs da época.


Diante desse cenário, é impossível não relacionar o modo como certos fatos são relatados pela imprensa com a opinião dominante que a população tem sobre eles. Não se discute a culpabilidade ou não dos sujeitos envolvidos em determinados crimes, mas a maneira aparentemente imparcial através da qual esses crimes são tratados. O bombardeio constante e repetitivo de imagens e textos, certamente provoca o surgimento de um senso comum pouco reflexivo revestido com ares de revolta branda, promovendo uma “eleição” de acontecimentos que merecem pouca ou demasiada atenção por parte da imprensa. Pouco importa se Bruno, por exemplo, é culpado ou não. O que importa é que falar sobre isso vende – e muito.

* Eduardo Matzembacher Frizzo é estudante, professor universitário, advogado e Mestre em Desenvolvimento pela UNIJUÍ

Bookmark and Share
Comente aqui
26 out14:12

ESPAÇO SUA CASA: A utilização da biomimética em projetos de interiores e arquitetônicos

Tatiana Hochheim Pinheiro*

Como podemos perceber através dos canais da mídia, o conceito de sustentabilidade está cada vez mais em voga, mas poucos realmente conhecem os demais canais por trás deste conceito que, se bem utilizados e estudados, podem fazer uma grande diferença no momento de construir, aprimorar ou até mesmo decorar um espaço.

Um destes canais é a biomimética, uma área da ciência que tem por objetivo o estudo das estruturas biológicas e das suas funções, procurando aprender com a natureza e utilizar esse conhecimento em diferentes domínios da ciência. Dito de modo simples, a biomimética é a imitação da vida. Ela tem sido um canal extremamente importante para a evolução do ser humano, pois foi através da análise e imitação da natureza que criamos boa parte dos objetos utilizados no nosso dia a dia, como motocicletas que são baseadas em grilos e até mesmo nossas casas que foram criadas tentando reproduzir e substituir o conforto e a proteção das cavernas.

A construção Eastergate Center no Zimbabwe é um exemplo de colaboração arquitetonica biomimética. Através de análises de cupinzeiros foi possivel construir um prédio de forma a mantê-lo climatizado naturalmente dia e noite.

Veja a foto do Eastgate Center em Harare, Zimbabwe. Construção baseada em cupinzeiro:


O cupinzeiro analisado pelo arquiteto Mick Pearce:

Como outro exemplo posso citar o projeto GROW (ainda um protótipo) é uma variante de captação de energia solar e eólica utilizado como revestimento de edificações. Originalmente um projeto de graduação em Design Industrial de Samuel Cabot Cochran, baseia-se em um sistema modular de tijolos em formato de hera:


O caráter modular do sistema o torna adaptável a todo tipo de edificação, além de ser facilmente substituível, facilitando a manutenção: cada “folha” pode ser removida individualmente para reparos ou troca – sem que se interrompa o funcionamento do sistema como um todo.

A natureza é nossa maior professora e quando se trata de projetos não poderia ser diferente. Como designer de produto recorro a ela com bastante frequência durante meus estudos de interiores e mobiliário. É incrivel como ela é adequada a todas as áreas do conhecimento, basta ter um pouco de imaginação.

*Tatiana Hochheim Pinheiro é Designer de Produto e Interiores formada pela UFSM



Bookmark and Share
Comente aqui
21 out13:37

NÃO É CÉU: Outro Sol

Eduardo Matzembacher Frizzo*


Não são necessárias muitas coisas para se viver bem. Precisamos de alimentação, de abrigo contra o frio, de teto nos dias de chuva e de algumas pessoas para amar. Não necessitamos de quinquilharias eletrônicas empilhadas em nossas casas e muito menos de uma conta recheada com valores exorbitantes. Claro que saúde, educação e trabalho dignamente remunerado também são essenciais. Mas qual é o motivo de nos preocuparmos com tantas coisas fúteis para nossa vida se ela pode acabar de uma hora para outra? A noção clara da finitude anula boa parte das aspirações de grande parte das pessoas. Mas o modo como a sociedade se estrutura coibi a sensação da proximidade da morte em prol de um presente eterno sustentado atualmente principalmente pelo consumo.


Na Antiguidade, a morte era algo muito mais presente no cotidiano das pessoas. Os longos rituais fúnebres e a importância da morte para a família antiga são provas disso. Nas sociedades remotas, os entes familiares, quando faleciam, deveriam ser obrigatoriamente cultuados pelos seus descendentes. Tanto é que algumas sociedades arcaicas detinham túmulos coletivos no interior das casas, já que se acreditava que a vida não acabava com a morte, mas continuava no além-túmulo. Para nossos ancestrais, essa vida que permanecia após a morte não se relacionava com a desvinculação da alma do corpo. De outra forma, havia a crença de que corpo e alma não consistiam uma dualidade, mas uma unidade. Os mortos permaneciam vivos em outro mundo debaixo da terra.


Hoje pensar desse modo parece absurdo. A civilização judaico-cristã ocidental está embasada na metempsicose, conceito que diz da separação da alma em relação ao corpo. Frequentemente se afirma que o corpo é uma embalagem que carrega a alma. Fala-se que a carne, imperfeita por essência, é a morada de algo sublime que quando da morte irá se desprender desse abrigo e alçar ao Paraíso ou ao Inferno, tudo dependendo do comportamento do indivíduo quando em vida. Se refletirmos acerca da forma como a maioria das religiões se organiza, veremos que essa dualidade corpo/alma alicerça grande parte das crenças existentes. Independentemente da fé em uma felicidade eterna ou em um martírio infinito, acreditando-se na reencarnação ou na jornada terrena como uma busca pela iluminação da alma, vê-se que não mais persiste na cultura atual a antiga crença da unidade corpo/alma, sendo que o corpo quase sempre é visto como uma imperfeição que carrega a perfeição do espírito.


Ocorre que talvez essa crença na dualidade corpo/alma iniba muitas possibilidades que temos. Não é segredo para ninguém que a castração simbólica efetuada por algumas religiões quanto ao impulso sexual das pessoas, deixa marcas indeléveis em seu corpo, por exemplo. Igualmente não é segredo que muitos daqueles que passam a vida temendo os castigos divinos dentro de templos e igrejas, são completamente mesquinhos e egoístas em sua vida social, perseverantes unicamente em sua própria imagem. Mas o problema não é esse. O problema é que quanto mais encobrimos a possibilidade da morte, seja com crenças, compras, rancores ou objetivos profissionais, mais sonegamos a grandiosidade e a beleza da vida que pulsa em nosso corpo enquanto estamos vivos.


Se houvesse a aceitação irrestrita do nosso fim, quem sabe poderíamos enfim agir com respeito uns em relação aos outros. Quem sabe esqueceríamos ninharias e tantos desejos infundados que nos movem como sonâmbulos pelo planeta. Se aceitássemos a fragilidade e a precariedade do momento em que estamos vivos, sem um vislumbre do além, seja ele embaixo da terra, como nas crenças antigas, ou no Paraíso e na Ressurreição, como na concepção cristã, talvez realmente vivêssemos cada instante da existência instigados pelo amor, pela solidariedade e pela convivência harmônica uns com os outros. Se tanto as religiões quanto o consumismo procuram furtar nossa visão da possibilidade de um final irreversível, uma pela crença no além, outro pelo esquecimento da morte, a aceitação do caráter último desse fim poderia injetar em nossas veias um senso completamente diverso do mundo, das pessoas e de nós próprios, dando para a existência não apenas um senso negativo, mas um espectro positivo do privilégio que é simplesmente estarmos vivos em um universo tão grandioso como o que habitamos.


Mas essa ética da fatalidade e da irreversibilidade da vida está longe de ser mais que um horizonte. O fato é que as pessoas permanecem apegadas às coisas pequenas justamente para esquecer da possibilidade da morte. Preferimos varrer para o canto mais escuro da nossa consciência a certeza do fim, como quem nega a realidade em um discurso alucinógeno e constrói sua vida a partir de um redemoinho de ilusões. O apego irrestrito à vida é confundido com preguiça para as coisas do mundo, visto como desinteresse pelas convenções tidas como normais e tachado como loucura por aqueles que contam suas horas de vida no ponto de tantas empresas. Esquecemos de abraçar e beijar aqueles que amamos, não lembramos que de algum modo somos seres de uma mesma e antiqüíssima família e passamos pela vida sem dar por conta da beleza que nos espreitou por toda parte.


Com certeza que pensar na mortalidade não é algo agradável. Refletir acerca da possibilidade e da certeza do fim, invariavelmente causa angústia a qualquer pessoa. Quando choramos em tantos velórios no decorrer da vida, choramos pela nossa condição finita além de derramarmos lágrimas por aqueles que amávamos e faleceram. Como diz Gabriel Garcia Marques, o luto é uma raiva cega e sem direção. Porém, a fatalidade da existência não precisa apenas carregar a absurdidade da sua notável falta de sentido, mas pode também trazer a possibilidade de um novo sentido fincado na vida e nada mais. Esse amor pela existência poderia nos libertar de amarras que mais nos atormentam que nos consolam, fazendo com que o corpo, antes de ser uma embalagem, uma imperfeição que carrega algo eterno, seja a única e verdadeira perfeição que de modo aleatório e desprovido de um planejador, de um arquiteto, deu-nos a possibilidade de trazermos na pele a poeira do cosmo para o qual invariavelmente regressaremos após a morte – mas não como espíritos: apenas como átomos que um dia se transformarão em outros corpos (e talvez em farelo mínimo de outro sol que iluminará outras vidas).


Mas também é possível que efetivamente nossa vida continue após a morte. Talvez em outra dimensão paralela a esta em que vivemos e a qual não conseguimos perceber por mera limitação da consciência, continuemos observando esta vida a partir de uma outra vida da qual não temos a mínima noção. O mistério da existência não se encerra com a certeza do nosso fim. Mas a certeza do nosso fim encerra todo o mistério da existência. Não se trata de crueldade. Trata-se de fatalidade, de irreversibilidade e de inevitável limitação. Quem sabe Deus seja a beleza da incompreensão. Mas tudo não passa de especulação, já que as evidências apontam invariavelmente para a nossa solidão cósmica. Frente às nossas lágrimas e angústias, a única resposta do Universo é o silêncio: o que nos une é a finitude.

* Eduardo Matzembacher Frizzo é estudante, professor universitário, advogado e Mestre em Desenvolvimento pela UNIJUÍ

Bookmark and Share
1 comentário
20 out13:50

VIDA ÚTIL - O poder do que falamos: a palavra

Kelly Cristina Meller*


Hoje acordei com vontade de escrever sobre o que a minha emoção sugere: “O que falamos ao outro”, seja ele nosso amigo, filho ou colega. Começando sobre o que está acontecendo conosco e ao nosso redor. É preciso nos transformar para renovar nossa mente, não nos conformar com o que está acontecendo, com o que somos. Salvo, se estivermos completamente satisfeitos. Acho difícil, e quero desafiar você a imaginar alguém que você já ouviu dizer “eu sou assim”, “não vou mudar”. O que entendo e compartilho é que Só Deus, perfeito, não precisa de aperfeiçoamento, nenhuma mudança. É completo. Já nós, estamos em processo de transformação, de mudança, abertos para sermos lapidados. Pelo menos é como deveríamos pensar. E também não adianta ouvir ou ler algo bom, positivo e deixar por isso mesmo. A diferença está com o que fazemos a partir do que ouvimos ou sabemos. Sobre isso compartilho que, o poder do que dizemos pode transformar o mundo.

O que falamos pode mudar o dia e talvez até toda uma situação de quem escuta. Quanto tempo passamos com nossos filhos, amigos ou no trabalho. Quanta influência temos na vida das pessoas e quanta influência as pessoas têm em nossas vidas. A palavra tem poder, cutuca o nosso emocional. Tem uma historinha que eu gosto de contar: “Uma certa jovem empresária, sócia de uns chineses e muito trabalhadora, não podia perder tempo. Acordou com uma lista enorme de empresas para ligar e falar vários assuntos. Na primeira ligação ela já viu que tinha errado, em vez de desculpar-se, começou a xingar a mulher do outro lado, que tinha perdido tempo…Aí ela respondeu: ‘Oh meu amor, você não ligou por engano, era para mim mesmo que você deveria ligar, quero te desejar muita paz e felicidade neste dia ‘”.O telefone quase caiu da mão dela. Aposto que algo parecido já aconteceu conosco. Era a palavra agindo, ela mudou seu estado de ânimo e foi capaz de transformar seus sentimentos naquele dia.

Assim como o fato de estar sempre resmungando e reclamando. Reclamar de doença toda vez não funciona, afasta as pessoas. Esse murmúrio não adianta, a gente só envenena a gente mesmo e em nossa volta. Outra situação ainda mais delicada é a maneira como tratamos os nossos filhos e chamamos à sua atenção: “ Deixa de ser burro, vê se estuda, deixa de ser malandro e egoísta” Quando falamos deixa de ser, estamos afirmando que é. Uma criança não sabe como ela é. Ela é e vive como vê e escuta. Para se ter um filho bem sucedido devemos em primeiro lugar ajudar com aquilo que dizemos e afirmamos. O limite deve ser dado e o comportamento corrigido, de acordo com a nossa missão de educar e não de criticar. Para corrigir sem errar é preciso não condenar o filho e sim o comportamento dele, porque quando criticado não têm ânimo para melhorar. Relacionar-se é o que há de melhor no mundo! Cuidar dos outros… não há nada mais importante na vida que cuidar das pessoas.Todos nós podemos de alguma maneira fazer isso. Usando nossa palavra para abençoar, incentivar e cuidar dos outros. Já contava uma mãe arrependida: “ Eu vivia dizendo para o meu filho que ele só dava trabalho e que ele não tinha futuro, afinal, ele não gostava muito de estudar.Com 19 anos ele morreu com um tiro numa briga de gangues. Pode não ter sentido essa conexão, mas nunca mais consegui me perdoar”, revela a mãe. Por isso devemos cuidar o que falamos, abençoar sempre e nunca amaldiçoar. E os sonhos de nossos filhos e amigos? Eles têm poder extraordinário. Quantas pessoas chegam até nós contando sobre um projeto, um possível curso a fazer. E o que fazemos, afirmamos que isso não vai dar certo. Quem somos nós para falarmos que não vai dar certo? Que direito temos sobre os sonhos das pessoas? Deus dá o querer e o efetuar. Já imaginou se Santos Dumont não acreditasse em seus sonhos? O propósito do sonho é da pessoa, não nosso. Não temos o direito de roubar ou influenciar ninguém em seus sonhos.


Para terminar aí vai a melhor historinha de hoje: “ Existia um rei que gostava muito de reclamar e não confiava em ninguém. Ele tinha um 1º ministro que ele gostava um pouquinho. O defeito era que o 1º ministro vivia dizendo para o rei que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus. Um dia ele se irritou muito depois de um acidente que fez ele perder um dedo da mão. Então, ordenou prender o 1º ministro. Mesmo assim, ele insistiu com o rei que um dia ele entenderia porque perdeu o dedo. Passados alguns dias, o rei foi caçar sozinho, já que seu companheiro estava preso. Uma tribo de índios canibais prenderam o rei e resolveram ofertá-lo para o seu deus de pedra. Começaram a pintar seu corpo e quando viram que tinha somente 9 dedos lhe desprezaram. O rei foi embora muito feliz. Ao chegar de volta, ordenou soltar o 1º ministro e começou a zoar do seu Deus, que lhe permitiu ficar preso. Mais que rapidamente, o 1º ministro rebateu: “Deus é bom e bom é tudo o que ele faz”. Já imaginou se eu estivesse caçando contigo? Eu tenho 10 dedos….

Se a gente quiser, se os nossos olhos forem luz, tudo será luz. Se você já ouviu algo triste, como eu também já ouvi, não se deixe influenciar pela palavra negativa. Tenha bom ânimo, você é muito mais que vencedor. E nunca esqueça que, ” você tudo pode naquele que te fortalece. Porque se Deus é por nós, quem será contra nós”? Um abraço, muita luz e boa semana, Kelly Cristina Meller, colunista do site www.clicrbssantoangelo.com.

*Kelly Cristina Meller, Enfermeira Especialista em Terapia Intensiva e Mestre em Ciências da Saúde PUC/RS.

Bookmark and Share
5 comentários
19 out16:19

ZIUREKA: Todo mundo já viveu uma aventura dentro de um fusca

Edna Lautert*

Um dos personagens principais na vida das pessoas é o veículo automotor, que pode ter duas rodas ou quatro, ser novo, moderno, importado, ou usado, de segunda – terceira, quarta, quinta…-mão e, até mesmo, de última mão. Não importa. O valor que cada pessoa dá às coisas que adquire é especial. Porém, as histórias que elas vão viver dentro do veículo…bem, ai já não tem preço.


O tempo: 1996

Rita decidiu sair com os amigos, o namorado, dentro de um Fusca (aquele mesmo originário de 1936). O que Rita não pensou foi que era 1996, e aquele modelo de Fusca, coitado, passava dos 20 anos de vida.

Depois de uma noite perfeita, Rita e os amigos retornavam para casa. Divertiam-se muito, mas muito mesmo. Até que em uma curva, a porta do carro abriu – alguém sabe dizer por que motivo a porta do Fusca sempre abre, do lado do caroneiro?- Como resultado dessa festança toda Rita passou dois dias curando os hematomas no rosto, cotovelos, braços e pernas. Pouca coisa, uma vez que o asfalto estava vazio.


Ano 1999

Parece que Rita não conseguia desvencilhar-se das coisas materiais. Principalmente se elas fossem adquiridas com tanto esforço. O Fusca era uma delas. Mesmo tendo caído dele há três anos, conservou o “bichinho”, no quintal de sua nova e moderna casa. Um dia o filho dela saiu levando sua Pick Up Fiat Strada (sucesso de 1999), e, justamente naquele dia o bebê da vizinha resolveu chegar. Não teve dúvida: levaria ela para o hospital dentro do Fusca.

Meia hora mais tarde o Corpo de Bombeiros recebeu um chamado de urgência: uma mulher estava dando à luz no interior de um Fusca, nas imediações da Barra Funda, distante 10 quilômetros do Hospital de Pronto Socorro. Por sorte, depois que a vizinha da mulher desmaiou, um caminhoneiro que passava pelas redondezas estava auxiliando no parto.


A vingança do Fusca

Marta e João brigavam o tempo todo. Mais de duas décadas de casados e só paravam de brigar quando dormiam. A situação estava insustentável.

Tentando conversar, os dois decidiram dar uma volta de Fusca pelo interior. O ano era 2011. E o Fusca, de 1976. O veículo foi o primeiro adquirido pelo casal, no auge do amor que os uniu.

Voltando ao passeio, Marta e João decidiram visitar uma de suas fazendas. A estrada estava ruim. Tantos aclives e declives, sem contar os desníveis e os buracos. Na conversa, nenhum dos dois estava dando sinal de flexão. João, inconformado, apertava cada vez mais o acelerador – como se o Fusca tivesse culpa de tudo. Marta, xingava a mãe dele, que teve a infeliz ideia de o trazer ao mundo para infernizar a vida dela. Até que, em uma curva, a porta do caroneiro abriu. Marta rolou pela ribanceira, deixando para traz um João tão bravo, mas tão bravo, que só se deu conta que a mulher não estava ao lado quando chegou em casa.

_Que diabos, eu jurava que ela tinha ido junto. Brigamos tanto que já estou tendo alucinações.

Um mês depois João recebeu uma intimação. Marta havia pedido a separação judicial. Mulher ingrata, depois de tantas brigas desapareceu sem ao menos dizer-lhe adeus.



(As histórias aqui narradas são fatos reais. E foram selecionadas entre os participantes da promoção “Todo Mundo Já viveu uma história dentro de um Fusca”. Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos participantes. A seleção aconteceu pelo email da escritora e pelo Facebook).


*Edna Lautert – jornalista, membro da Academia Santo-angelense de Letras. Membro da Associação Brasileira dos Jornalistas. Integrante do Conselho editorial do Clic RBS Santo Ângelo.


Bookmark and Share
7 comentários