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Ziureka

05 nov16:03

ZIUREKA: Preconceito disfarçado

Edna Lautert

Vi na TV outro dia uma reportagem sobre preconceitos. De cor, credo, opção sexual, religião, religiosidade, e por ai vai.

Causou-me estranheza que na reportagem não foi citado uma vez sequer o preconceito que sofrem os gordos. A humanidade classificou-nos por doentes e já não estamos nem mais na lista das pessoas vítimas. Somos xingados na rua, nas praças, no ônibus, somos vítimas de desdém da sociedade, e quem nos defende? Chegamos ao cúmulo de ouvir um jurado de um programa TV chamar uma dançarina gordinha de “bolarina” e todos rirem, abertamente. Ninguém fez ou faz nada!

Acho incrível que as pessoas tenham por hábito classificar pessoas: “Essa é P. Essa é M. Essa é G. Aquela comeu a comida toda do time”. Porque o gordo ele não é GG. Ele, aos olhos dos outros, é o que come tudo, o grandão, o “sem caixão”, e por ai vai. Sem contar que cada pessoa que olha um gordo tem sempre uma receita: olha, você precisa fazer um exercício. Olá, que tal você fazer uma dieta? Olha, você poderia tomar tal atitude. Mas será que algum gordo pediu por isso? Tudo bem que existam exceções, assim como nos magros há os casos de doenças. Mas, não é para ser engraçado. Por que isso é dramático.

A humanidade pressupõe igualdade de condições. Mas, na prática, isso não acontece. Quando eu era jovem eu costumava amar Vinícius de Moraes. Até descobrir que ele era um homem preconceituoso. Foi ele quem perpetuou a frase “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Eu sempre digo ‘perdão Vinícius, eu costumava te amar até conhecer o resultado de tua obra”. O que são os feios e as feias?

Cada vez que você cumprimenta alguém, você sabe com quem está falando? O que essa pessoa traz por dentro? Sua alma, seus sentimentos, sua grandeza? Ou você as classifica pelo que vê?

E na rua, quando alguém lhe pede ajuda, você lembra dos ensinamentos cristãos que regem que nenhum ser humano deve negar abrigo a um irmão? Que jamais se nega pão a quem tem fome? Ou uma roupa a quem tem frio? Eu não estou falando de você doar tudo o que tem a alguém. Mas, uma parte. Uma parte que te sobra. E que faz falta para quem não tem. Como você se sente negando a mão a outro ser semelhante a você, e que não teve a mesma oportunidade sua?

Não me venha com essa mentira deslavada de que isso é coisa que não acontece por aqui. Isso é real, e se você negar é porque no fundo não consegue admitir diante da humanidade as atrocidades que você comete.

A cada segundo, no Brasil, uma mão se levanta enquanto uma alma chora a dor de um preconceito. E, isso, caro leitor, é culpa sua.

A vida nos tornou objetos de desejo, ou de desprezo. De reconhecimento, ou de esquecimento. O que nos torna diferentes é a capacidade, de mesmo contra a vontade de todos continuar lutando e poder dizer: escute aqui, olhe bem pra mim. Pode chorar agora, porque eu...Eu existo, e todo mundo sabe.

O que eu gostaria de saber é até quando você vai continuar apenas tomando conhecimento e sendo ignorante? Ser ignorante a um assunto não é não conhecer. É calar!


* Jornalista, membro da Associação Brasileira dos Jornalistas e da Academia Santo-angelense de Letras. Colunista do clicRBS.


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28 set09:38

ZIUREKA: O Morro do Cata Latas

Edna Lautert*


Lá vai ela, cruzando a estrada. Chutando latas.

Vez por outra agaixa aquela pele visguenta e traga um pito, juntado do chão. Os dentões, pútridos, escondem um nojento sorriso, enquanto o cuspe avança pela calçada.

-Êta! Hoje a feira não vai dar prá canha! - resmunga - bem que aquela cooperativa poderia pagar mais.

O Bento ouviu a lamúria.

-Falando sozinha de novo, Zefa?

-Vidinha à toa esta compadre. Hoje o troco não paga um trago.

-Deixa quieto, comadre. Te pago um gole.

-Humhum. E desde quando Bento paga alguma coisa?

Mesmo estranhando, resolveu calar e aceitar. Seguiu o infeliz até a venda da esquina. Sentou e ficou observando tudo. Estava lá o Zeca, o dono da ‘braba’. Haaarrre, que aquela era de entortar o ‘zóio’ do vivente!

-Me conta a novidade compadre.

- Que novidade mulher?

-Tu não juntou lata hoje, que eu sei.

- Precisava não. Fiz um biscate.

Zefa deu de ombros. De repente, veio-lhe um estalo:

-Tá vendendo erva de novo? - a pergunta saiu em voz alta demais.

-Zefaaaa!!!!

O grito veio lá, do outro canto do morro. Era Tonho, o ‘abecedado’ da esquina. Outro dia Zefa viu ele ‘trocando algumas’ e, decididamente, não ficou muito feliz.

-Não gostei do que ouvi por aqui - foi logo avisando.

- E o quê ouviu? - Zefa era safa. Não podia arriscar.

-Sabe a regra - disse ele, com desdém.

Ficou quieta. Sim, sabia a regra. E pensar que um dia pintaram aquilo ali como o paraíso.

Levantou, deu alguns passos, ainda sem saber como agir ou para onde ir.

Quem falava de erva no morro estava perdido.

Quando resolveu correr, o estampido ecoou pelas ruas, acordando meia dúzia de boêmios que ainda dormiam, no chão.

- A lixeira chegou!!! O aviso veio de Beatriz.

Das casas, meia dúzia de olhares, curiosos, observavam a ‘lixeira’ ganhar a rua. Enquanto, na esquina, o giz assinalava o corpo de uma mulher de meia idade, que passou pela vida, sem deixar sinal algum.

- O que houve? - perguntou o policial.

Ninguém sabia. No Morro do Cata Latas ninguém sabia nada. Sempre.

(Conto três vezes premiado em concurso regional, estadual e nacional de contos).

*Edna Lautert – jornalista – membro da Associação Brasileira dos Jornalistas, membro da Academia Santo-angelense de Letras e do conselho editorial do clic RBS Santo Ângelo.

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02 set14:45

ZIUREKA: Guerra contra a miséria humana

Edna Lautert, leitora-repórter*

Em 1999, depois de um longo período na Fronteira Oeste, eu havia assumido uma estranha predisposição para reportagem na área de justiça e segurança. Estava sempre à procura de um caso mal explicado, de uma denúncia, de uma injustiça. Eu queria consertar o mundo através das matérias que editava.

Foi nesse período que decidi estudar Direito: queria conhecer mais sobre a vida à luz do Direito e da ordenação jurídica, para poder escrever um grande romance. O tema: o mais obvio – ao meu entender, seria a Prática do Homicídio e suas Motivações. Assim, em todos os crimes cometidos na cidade de Santo Ângelo, lá estava eu, procurando pistas, fazendo perguntas, querendo publicar antes, e explicar antes o que parecia não ter explicação. A velha febre do repórter principiante de publicar antes, de carimbar um “exclusivo”, em uma reportagem. Mesmo sendo aquele exclusivo algo de conhecimento comum.

O primeiro caso impactante em minha vida, que desencadeou essa febre pelo estudo da prática do homicídio foi de um pai que matou a própria filha com uma xícara arremessada, e que lhe atingiu a nuca, em um casebre em Santo Ângelo. Pareceu-me algo tão dantesco, por motivo tão fútil, que não conseguia conceber um entendimento. E, mesmo com pouca experiência, tive a impressão de que o pai sofria de um dos piores sentimentos: de pobreza humana. Não era culpa do sistema, nem da forma de governo, das administrações, e das verbas escassas. Era algo tão comum, mas que esbarrava em cérebros moldados pelos discursos comuns, de quem nunca conheceu a lida à campo e vive de conjecturas.

Os anos passaram, e eu consegui um pouco mais de evolução. Em agosto de 2004, quando um lavrador maranhense, de 35 anos, foi preso em flagrante por matar a filha de cinco anos por causa de uma xícara de café eu novamente voltei a pensar na miséria humana. Uma xícara de café remeteu-me ao caso do ‘pai da xícara’, aqui de Santo Ângelo, e eu novamente voltei estudar o tema. E, não me fartei de apenas fazer análises breves. Nos levantamentos realizados fui descobrindo, aos poucos, que crianças de todas as idades e nacionalidades eram e são vítimas de violência doméstica, diariamente, não apenas no Maranhão, não apenas em Santo Ângelo, mas nas grandes e pequenas cidades do mundo todo. Fruto do egoísmo e da falta de caráter dos pais e responsáveis. Fruto do excesso de voracidade, da falta de pudor, da invalidez de humanidade, que nos chega disfarçados pelo sistema como ‘famílias desestruturadas’.

Ao final do estudo, já não queria mais publicar isso em livro. Não tinha nada de descente nas histórias que colhi. Não tinha nada de desestruturação nas histórias que colhi. Tinha muito de falta de vergonha, de omissão da sociedade e dos poderes constituídos, de falta de amor em Deus e crença no amor e no perdão.

As pessoas envolvidas nesse processo aos poucos deixam de ser pessoas e se transformam: são os monstros que carregam dentro de si os casebres de miséria. Miséria de alma.


* Edna Lautert – jornalista, membro da Academia Santo-angelense de Letras. Membro da Associação Brasileira dos Jornalistas e do Conselho Editorial do clic RBS Santo Ângelo.


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19 ago10:38

ZIUREKA: O homem que sabia dar uma boa pegada

Edna Lautert, leitora-repórter*

O ‘Cisca’, como diziam as vizinhas, vivia de “caçar a mulherada”. Nem era bonito, o vivente, mas era conhecido pelo jeito especial de “pegar”.

Até a chegada de uma discreta moradora do 703. A mulher era bela, elegante, e..... “perversa”, como Paulo Rogério costumava identificar uma mulher bonita.

Antônia, assim que mudou para o local ouviu qualquer coisa a respeito do Dom Juan do 501, mas nem tomou conhecimento. Não gostou muito da mania daquele povo de sentar à sombra no final da tarde para fazer fofoca da vida alheia, e se mantinha distante.

Mas, a fofoca maior não conseguiu evitar: passadas duas semanas, nas rodas de conversa, dia sim, outro também, a pergunta era uma só: quando é que Paulo Rogério iria ‘pegar’ a megera do 703.

De pergunta virou aposta. De aposta obsessão. Paulo Rogério decidiu conquistar a ‘megera’, e, aos poucos, se tornou ‘escravo’ dela. Porém, algo saiu errado. E ele não tinha ideia de como consertar.

-Por mais que eu insista, ela não me dá uma chance. Não consigo mais dormir, sonho com essa mulher – desabafou. E, nesse dia assinou sua sentença diante dos ‘amigos’. Logo o vilarejo todo sabia do fracasso de Paulo Rogério, que havia sido derrubado por uma flecha do amor.

Em uma manhã Antônia preparava-se para ir ao trabalho, quando a campainha tocou.

A chegada de um buquê de flores, acompanhado de um largo sorriso, derreteu o gelo entre a dona da casa e a entregadora. E, a partir daquela manhã Antônia passou a receber a visita de Ana Maria, diariamente. A moça fora contratada por Paulo Rogério para levar flores para sua amada. E, com isso, ajudá-lo a derreter aquele coração.

Apesar de todos os presentes, Antônia nunca devolveu uma linha sequer. E, naquela noite, Paulo Rogério resolveu tomar uma decisão: vou pessoalmente ao apartamento dela. Terá de me responder. Ou sim, ou sim também. – e riu.

Era véspera de Natal e Antônia chegou molhada pela chuva, e até sorriu para ele ao avistá-lo na janela. Paulo Rogério pensava que seria a noite ideal. Deixou passar algumas horas, para não demonstrar a ansiedade. Então seguiu em direção ao apartamento de sua amada. Deu dois toques e a porta abriu. De certo a vizinha esqueceu de trancar. Quando começou a entrar na casa ouviu gemidos, e sussurros. Mas não parou. A curiosidade aguçava mais que o desejo de domar a fera e depois “largar”, conforme o combinado durante uma das tantas apostas que fez.

Tomou coragem e empurrou a porta do quarto. Parou, estupefato: a visão bloqueou seu pensamento. A véspera de Natal transformou-se num pesadelo do qual não conseguia acordar. Na cama, Ana Maria e Antônia trocavam carícias e juravam amor. Enfim, Paulo Rogério recebia a resposta que vinha procurar.


MORAL DA HISTÓRIA: se algo é vital, não mande outro em seu lugar!


*Edna Lautert – jornalista, membro da Associação Brasileira dos Jornalistas e

da Academia Santo-angelense de Letras.

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08 ago14:39

ZIUREKA- Tempo de escolhas: a verdade e suas variações

Edna Lautert, leitora-repórter*

Todo profissional tem um pouco de filosofia e pragmatismo. E sua verdade sempre vai se sobrepor às demais – cada ser humano possui a sua. O que é correto pensar é que, apesar de existir a ‘minha verdade’ e a ‘sua verdade’, uma terceira sempre vai se sobrepor, e assim sucessivamente, havendo, portanto, várias porções de verdade, cada uma com sua pessoalidade e suas implicações.

Não importa o quanto você está envolvido na sua verdade. Seja no trabalho ou nas relações pessoais, sempre haverá alguém cuja verdade se sobrepõe às demais.

E já que o assunto é verdade e suas implicações, existe uma um tanto perigosa: é a verdade dissimulada. De toda a imperfeição da humanidade e suas verdades, a mais impactante é a dissimulação. Porque ela vem como uma verdade, inventada com propósitos bem claros: causar impacto. Os seus efeitos serão sentidos, ou suprimidos, dependendo do quanto está habilitada, ou debilitada, a relação, ou a pessoa alvejada.

Ainda iremos encontrar o ordenamento jurídico, que é uma verdade impositiva, baseada em dispositivos legais, e que pode ser questionada nos tribunais. E a verdade subjetiva, que é aceita pela maioria em uma comunidade, e que pode ser facilmente comparada a questões culturais.


O jornalismo e a sua verdade

No jornalismo a verdade passa a ter três lados distintos: o da informação propriamente dita, o lado do contraponto, que é obrigatório na ética profissional. Mais que obrigatório, o contraponto é uma ação moral, que deve preponderar em todo profissional que quer ser visto com um mínimo de respeito pelo leitor. Fora o ponto e o contraponto, no jornalismo ainda haverá uma terceira verdade, que será a versão do leitor, ou seja, a forma como o leitor vai entender e traduzir, a seu modo, o mesmo assunto. Nesse caso a verdade do leitor seria sim uma verdade absoluta. Até que entre em choque com a ‘verdade’ de um segundo leitor, e, assim, sucessivamente, até entrar na ‘vala comum’ das verdades da humanidade.


* Edna Lautert – jornalista, membro da Academia Santo-angelense de Letras, e da Associação Brasileira dos Jornalistas.

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14 jul12:13

ZIUREKA: A barca

Edna Lautert, leitora-repórter*

Eu sempre comparei o coração humano a uma barca. Ora ancorada em um lugar, em uma margem do rio, ora em outro. E cada sentimento a um passageiro. E, somando todos os passageiros, encontraríamos o amor verdadeiro, que na vida real tem a face de cada um.

E cada desavença familiar a uma barca sem maromba, flutuando nas águas, sem direção. Como uma pessoa sem família, a mercê do tempo, do acaso, ou do descaso das outras pessoas.

E cada ambiente de trabalho a uma árvore, emoldurando os rios e riachos que serão transpostos. Os funcionários expostos a grandes ventanias e mudança de estação, dançando ao sabor do tempo e ao prazer dos temporais, ou do lenhador. Os desafios são os ventos, que arrancam apenas algumas folhas, e a projetam pelo ar. A ambição e a concorrência desleal como partes da terra das ribanceiras, que se desprendem do solo e arrastam-se junto com as marés, deixando expostas as raízes, que podem reagir e sobreviver, ou deixar-se levar pela correnteza.

Fora do ambiente de trabalho, e da família, viriam as relações interpessoais, que podem ser flores, campos, cachoeiras, ou uma série de elementos nessa grande floresta tropical que é a vida e as aventuras que ela nos propicia.

Fora da análise poética, a realidade humana é um porto: a gente sai da projeção e entra para a realização. Busca enfrentar os desafios, pagar tributos, render sacrifícios, prestar contas a Deus e, ainda, conseguir um agradecimento, em um mundo onde as pessoas valorizam mais a ganância, deslealdade, preconceito e falta de ética. E onde “matar um leão por dia” é contra a lei, mesmo que seja apenas na concepção ilusória de quem supera um desafio.


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*Edna Lautert é jornalista profissional, membro da Academia Santo-angelense de Letras e da Associação Brasileira dos Jornalistas.

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24 jun10:27

ZIUREKA: A primeira vez no cinema

Edna Lautert, leitora-repórter*

Era um período de chuvas freqüentes na região. E, em uma época em que as moças não podiam ir ao cinema sem estar acompanhadas por um familiar. Altamira, Genoveva e Roeni resolveram aceitar o convite do primo Bento, e dos amigos deles, Diógenes e Malvino: todos iriam ao cinema assistir uma passagem de Carmem Miranda. A façanha prometia entrar para a história em Santo Ângelo.

Foi um dos membros deste grupo, que hoje está com 82 anos, que nos contou que Diógenes (nome fictício), apaixonado por uma das jovens que acompanhava o grupo ao cinema, resolveu mostrar que era elegante. Dirigiu-se até a ‘bodega’ para comprar balas, pegando logo um pacote. Para não demonstrar que estava pensando nela, resolveu oferecer balas para todos que estavam sentados naquela fileira, e o resultado não poderia ser diferente: Gertrudes, sempre espirituosa, pegou o pacote inteiro de balas. E agradeceu, em seguida. Figura estranha - pensou Diógenes, como não entendeu que era para pegar uma bala – não o pacote todo?

Lamentando, o jovem voltou até a bodega. Com certeza a noite não havia começado muito bem. Enquanto ele corria de um lado para outro comprando doces, a sua amada ajeitava-se, ao lado de um belo senhor de terno cinza, terminando com os planos de Diógenes, definitivamente. Não lhe restava mais nada: a não ser ver o maldito filme.

Mal quando o filme começava, um fato inusitado fez o grupo dispersar sua atenção: estava chovendo! Nossa, e como chovia! Rolava tanta água naquele filme que não restou dúvida: ela acabaria molhando todo o salão.

_Pessoal, vamos lá fora juntar os pelegos, pois a viagem será longa – foi Diógenes, novamente, quem teve a ideia de colaborar com os amigos. Ele sempre estava à frente de tudo, fosse hoje seria candidato a algum cargo eletivo, inclusive.

Saíram, correndo, porta a fora do cinema. Coisa muito louca mesmo: não é que lá fora não chovia?

*Jornalista, membro da Associação Brasileira dos Jornalistas; membro da Academia Santo-angelense de Letras

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14 jun15:50

ZIUREKA: A ‘verdade’ sobre o caos

Edna Lautert, leitora repórter*

Toda história sempre tem sua verdade. E, todo ser humano sempre terá sua verdade, que será exclusivamente dele, por se tratar de uma verdade existencial. Mas isso não é novidade, é sim uma reinvenção.

Seguindo esta teoria vamos analisar tipos de comportamento frente a problemas que vivemos no cotidiano. O primeiro deles é a expectativa. O ser humano otimista é um criador de problemas por natureza: ele vai, sempre, superfaturar a produção, antes da colheita, e depois, quando a expectativa não se consolida, ele vai criar o caos, com o anúncio da super quebra de produção, da derrota consolidada, do não atendimento a seus anseios.

E você vai me perguntar: mas e o ser humano pessimista? Simples: o ser humano pessimista ele não cria problemas. Como também não vive, não supera, não produz, logo, o pessimista é assunto para a psicologia.

@►Como exemplos brasileiros de problemas criados por pessoas “otimistas” podemos citar o caos aéreo: na verdade o caos aéreo é criado por todos aqueles que vendem uma estrutura que não temos. O país quer estar entre os melhores por tais e tais fatores, mas não lava a preguiça e o comodismo, preferindo subtrair, denunciar, condenar e jogar a culpa para o alto: ‘a merda’ cai onde tiver que cair, e quem souber se limpar segue caminhando e fazendo tudo de novo.

@►Outro exemplo está nos problemas das pseudo ‘sedes’ da copa no Brasil: se desde o início sabíamos que não tínhamos estrutura para isso, porque fomos buscar a concorrência? Pelo otimismo. O resultado agora é a corrida desenfreada por fazer de qualquer jeito uma obra para sediar a Copa, o que leva os “oportunistas” a superfaturarem o material a ser utilizado para tais obras. Com todo esse “otimismo” os governos vão buscar os recursos, investir o que não tem, deixar gente que precisa sem atendimento, novamente os mais necessitados, em favor de um egoísmo desmedido: a vontade de mostrar aos países de primeiro mundo que somos capazes de ser sede da Copa. E daí? Depois da Copa, seremos o que? O país do caos. O coerente, o correto, o mensurável seria o país planejar, preparar-se, executar, criar oportunidades e, depois disso sim, estando apto, concorrer a ser sede da Copa. Mas isso é apenas mais uma verdade.

@►Apesar do modismo de que somos “emergentes”, essa verdade mascara várias outras, como o costume em se elogiar atitudes que, por lei, são obrigações reais, ou, por moral, são obrigações reais.

Esse tipo de verdade é bastante conflitante. Mexer com o ego das pessoas é bastante conflitante. No país do ego e do vitrinismo quebrar alguns tabus pode não ser interessante.

*Edna Lautert – jornalista, membro da Associação Brasileira dos Jornalistas, membro da Academia Santo-angelense de Letras

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03 jun10:40

ZIUREKA: Louco bom não toma banho!

Edna Lautert, leitora repórter*

O rapaz chegava ao bar, e pedia, solenemente:

_Falem mais baixo!!!!!. E o eco ganhava a ruela, assustando os moradores.

No bar, cada grito era revidado com pontapé. E, a cada pontapé que ganhava, largava um sorriso, com aquela boca cheia de afta e visguenta. Era uma espécie de ritual diário de amizade, sabe como é.

Quando entrava, os freqüentadores do bar iam logo dando-lhe uns safanões, pois ele gritava demais.

Só sabia pedir para que falassem mais baixo.

-Mas qual é o teu problema guri? – muitas vezes o Jóca perguntava. – se não gosta daqui, vá rosnar em outra freguesia.

Mas ele não queria. Gostava do clube da cachaça. E todos ali o respeitavam, guardavam seu lugar. Até que, de repente, tudo mudou.

Sansão chegou ao bar de banho tomado, roupa lavada, cheirava a perfume, o besta. Não tinha o costumeiro cheiro de esterco. E a boca nem fedia tanto. Havia escovado os dentes. Parecia até gente, o infeliz!

Todos os freqüentadores do bar, que costumavam se irritar com sua gritaria, ficaram intrigados. A conclusão era unânime: ficou rico!

-Amigo querido, você ganhou na loteria foi?

-Não, - respondeu.

Foi o que bastou. Pegaram-no, arrastaram-no porta fora, e o jogaram na rua. Trancaram a porta. Era louco, não podia ficar ali. Ninguém o queria por perto, contrastando com a podridão do moquifo.

*Edna Lautert, jornalista – membro da Associação Brasileira dos Jornalistas, membro da Academia Santo Ângelense de Letras.

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27 mai11:20

ZIUREKA: Como as batatas foram parar na política

Edna Lauter, leitora repórter*

Foi divulgado em uma emissora de rádio que durante a propaganda política o Juvenal distribuía batatas em protesto pela falta de alimentos no mundo. Ninguém conseguia comprovar, pois as batatas eram entregues durante a madrugada. O certo era que Juvenal angariava votos distribuindo-as. Jogada de mestre, pensava: quem come batatas, vota em Juvenal!

O episódio foi apenas mais um, naquela cidadezinha pequena, no ‘desemboque do fim do mundo’. Ninguém iria pensar nessa fofoca depois que Juvenal assumisse a prefeitura, e as batatas virassem purê.

_ Política se faz assim - dizia Juvenal, parodiando Machado de Assis: ‘ao vencedor as batatas’ (sic). A grandiosidade da ideia lhe garantiu a eleição.

Durante os primeiros dias de gestão, porém, Juvenal começou a ter problemas. Tentou construir um programa de desenvolvimento para seu município, mas não conseguia. Só havia pensado em batatas, e na campanha. Não tinha construído uma proposta de governo. Não estudou gestão administrativa e nem conhecia nada sobre administração pública. Conhecer a realidade de cada um dos moradores de sua cidade, então, impossível. Pensou em uma forma de sair daquela saia justa. E decidiu viajar. “Viajar sempre gera ibope”, lembrou. E ibope era sua palavra favorita. Queria sempre estar na mídia, a qualquer custo!

_Vamos participar de uma atividade em outro município. E aproveito para ver como o prefeito administra a cidade dele. Há de me surgir alguma ideia – destacou, em segredo, para a primeira dama.

_Juvenal, não vai levar um presente para o prefeito? – disse dona Gardênia, muito faceira, afinal, primeira dama que se preza viaja com o prefeito.

Juvenal pensou, ponderou.

-Vou levar batatas. Sobrou um monte da campanha e preciso dar cabo delas.

Na hora de decidir quantas batatas levar, porém, ficou indeciso. Colocou uma, mais uma, e foi colocando batatas no veículo, no lugar do caroneiro. Como estava acostumado a carregar o veículo e sair distribuir durante a campanha, e como era lerdo de pensamento, no meio da contagem acabou esquecendo a primeira dama. Entrou no veículo e saiu, faceiro que só ele.

Ao chegar em Alvorecer a cidade toda esperava o ilustre visitante. Uma recepção havia sido montada na escadaria de acesso ao pátio da prefeitura, onde uma multidão o aguardava. Desceu e foi recepcionado pelo prefeito municipal, que logo foi perguntando:

– E ai homem, e as novidades?

Pronto. Foi um sinal – pensou - o amigo, com certeza, esperava pelo presente. Afinal, todo mundo sempre quer alguma coisa como presente.

Foi logo abrindo a porta do veículo, que para sua infelicidade estava estacionado em um aclive. Logo as batatas foram espalhando-se escadaria abaixo, atingindo a multidão que os aguarda. Com a velocidade, o peso das danadas multiplicava-se. O tumultuo era inevitável.

Finalmente Juvenal havia entrado para a história, como ele tanto queria.

*Edna Lautert – jornalista, membro da Associação Brasileira dos Jornalistas – ABJ; membro da Academia Santo-angelense de Letras.

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