Tchurma, o Sem Barreiras hoje traz uma história emocionante! Tenho uma prima, que se chama Daniela P. Carvalho. Ela é uma doçura de pessoa, sempre foi. Já faz algum tempo ela surpreendeu toda a família adotando uma criança. Não era um bebezinho recém nascido, rosado e gordinho. A Dani adotou uma criança que nasceu sem deficiência, mas em virtude de maus tratos acabou com paralisia cerebral. Sim, não dá pra acreditar que uma criatura possa fazer tanta judiaria com um bebe, mas a `mãe da criança` (e põe aspas nisso) a espancava e com seis meses, o Carlinhos teve lesões tão graves no cérebro que hoje ele não pode caminhar nem falar. Depois de tudo isso, a `mãe` abandonou o moleque no Lar Santo Antonio dos Excepcionais... E quando a vida parecia ter virado às costar pro Carlinhos, eis que surge a Dani e seu maridão Robson. Ela conta pra gente como foi que aconteceu essa história.
Poderia definir como ‘angústia’ o que senti ao saber que o Lar Santo Antonio dos Excepcionais seria um dos clientes da carteira que eu atenderia. Eu acabara de ingressar em um novo emprego com o cargo de atendimento aos clientes e precisava me dedicar ao máximo, pois era uma ótima oportunidade profissional. Estávamos em de fevereiro do ano de 2004.
Por mais que eu tenha tentado protelar este momento, num certo dia lá estava eu, entrando no abrigo, completamente apavorada. Minha imaginação mostrava um lugar aterrorizante, meio fantasmagórico. Qual foi minha surpresa ao me deparar com aquela realidade tão diferente do que eu havia idealizado. Olhando aqueles rostinhos só conseguia sentir vergonha e constrangimento ao ver que meus receios não tinham cabimento diante de tanto sofrimento e abandono.
‘Triste’ acho que é a palavra que melhor define a realidade de qualquer um que seja abandonado pela família à própria sorte, ainda mais tendo uma grave deficiência. O ser humano, sem dúvida, é, no mínimo, surpreendente.
Após o primeiro impacto, refeita e novamente senhora de mim, fui absorvida por um sorriso que me lembrara alguém conhecido. Foi uma sensação inexplicável, algo de familiar e encantador me chamou muito a atenção. Fiquei dias a lembrar daquele sorriso aberto, e uma pergunta martelava dia e noite no meu pensamento: que nome teria aquele sorriso?
Na semana seguinte, voltei ao abrigo e imediatamente me dirigi ao salão onde ficavam as crianças. Ao localizar aquele pequeno corpo deitado na cama, meus olhos correram à placa de identificação: Carlos A. P. Carvalho. Fiquei gelada, não acreditava no que meus olhos me mostravam. A lembrança dos aventais bordados pela minha mãe nos tempos em que eu frequentava a creche foi imediata: Daniela P. Carvalho. Era mais que coincidência, era um sinal, a confirmação de que realmente algo me ligava àquela criança. Apesar da abreviatura representada pela letra P não ter o mesmo significado em nossos nomes, naquele momento fui tomada pela certeza de ter encontrado alguém da minha família. Foi amor à primeira vista. Nunca mais me separei daqueles olhos.
Como durante as visitas de trabalho não havia tempo para ficar ao lado de Carlinhos, comecei a frequentar o abrigo aos finais de semana, apenas para ficar com ele. Seis meses depois meu marido tomou a decisão de também conhecê-lo. Impressionantemente ele também sentiu algo que não soube explicar ao ver Carlinhos pela primeira vez e passou a me acompanhar nas visitas ao pequeno.
Pouco tempo depois ingressamos no programa de Apadrinhamento Afetivo coordenado pelo Instituto Amigos de Lucas e reconhecido pelo Juizado da Infância e Juventude, onde conseguimos a guarda especial de Carlinhos. Com ela, conquistamos o direito de levá-lo para nossa casa aos finais de semana, viajar com ele nas férias e feriados. Foi um caminho sem volta. A cada segunda-feira era mais difícil deixá-lo no abrigo. Um profundo vazio se fazia em nossa casa, não víamos a hora de chegar a próxima sexta-feira para trazê-lo de volta. Suas roupas começaram a ocupar mais espaço no armário, os sapatinhos, o colchão onde ele dormia em nossa casa parecia pedir uma cama definitiva. Gradativamente Carlinhos foi conquistando o seu espaço na casa e nos nossos corações. Até que um ano e meio depois de termos apadrinhado aquele menino, resolvemos adotá-lo.
Ele já estava com sete anos, foi o momento mais importante de toda a nossa vida. Construímos mais um quarto e um escritório para que eu pudesse continuar trabalhando em casa. Vi minha vida fazer sentido como nunca antes havia feito.
Tudo mudou. Nossos hábitos, horários, vida social, e tantas outras adaptações que tivemos que fazer em nossa pacata vida de ‘casal sem filhos’. Mas tudo valia à pena. A alegria de ter Carlinhos definitivamente em nossa vida compensava todos os convites que recusávamos em função de termos um filho. Passamos a fazer programas mais ‘família’ e menos ‘casal’. Só quem tem filhos sabe o quanto eles modificam a nossa rotina.
Crescemos como seres humanos, nos unimos mais ainda como casal, nos tornamos pai e mãe. Assumimos todas as responsabilidades que isto implica. E ainda assim, nos sentimos novamente crianças.
Um ano e meio depois tivemos nosso filho biológico: o Leonardo. Leo encheu nossa casa de alegria, uma experiência completamente diferente da adoção de Carlinhos. As necessidades eram diferentes, as demandas, os horários, enfim, tudo.
No dia em que Leonardo nasceu, mais uma vez me surpreendi com os mistérios da complexidade entre os sentimentos e a razão. Vi cair por terra a teoria de que filhos adotados são iguais a filhos adotivos. Filhos são filhos, independente de como chegam a nossas vidas. Ao ver Leonardo pela primeira vez, quando o médico o tirou de minha barriga, imediatamente lembrei-me de Carlinhos e comparei os sentimentos que eu tinha pelas duas crianças. Leo ainda estava sujo de sangue, estava apavorado com a nova atmosfera que o envolvia. Naquele momento pensei: “Não conheço este bebê. Ele também não sabe quem sou eu. Se me trouxerem qualquer outra criança após levarem-no para ser pesado e medido, eu não saberia diferenciá-lo ou identificá-lo. Não conheço seu cheiro, não sei por que motivos ele irá chorar, não sei nada sobre ele. Ao mesmo tempo em que ele também não saberia que não é sua mãe uma outra mulher que viesse a amamentá-lo. Ele receberia como mãe qualquer pessoa que o tratasse como filho. Diferentemente do Carlinhos, que me conhece, e que eu também conheço. Temos uma história, um amor que construímos, dependemos emocionalmente um do outro, pois os laços que nos unem são mais fortes do que a vida ou a morte.”
Senti-me horrível por ter este pensamento. Mas esta é a mais pura realidade. O amor se constrói dia a dia. Mesmo este amor incondicional entre pais e filhos. Sua condição é a convivência, a cumplicidade, a troca de experiência, o que aprendemos e ensinamos ao outro, pois o sangue pura e simplesmente não significa nada, não nos liga a ninguém, ele é razão genética e não emoção.
Felizmente minha capacidade de amar não se esgotara em Carlinhos. Quanto mais amamos, mais somos capazes de amar. E pouco a pouco o amor por Leonardo foi desabrochando. Na verdade ele sempre esteve em meu coração, desde que resolvi ter mais um filho. Com o passar dos dias fomos nos conhecendo, nos identificando, construindo nossos rituais, nossos hábitos, e tudo parecia cada vez mais familiar, mais harmonioso.
Os meninos foram lentamente se percebendo, se aproximando e se descobrindo como irmãos. Leo já nasceu irmão de Carlinhos. Um dia ele saberá que Carlinhos não possui a mesma identidade genética que ele. Mas tenho certeza de que para ele isto não fará nenhuma diferença, pois o amor que os une não conhece preconceito e nunca conhecerá.
Daniela Carvalho.
Chuif, chuif... Ela sempre me emociona!

Comemoração em grande estilo

O olhar do Carlinhos e a toalhinha dizem tudo

Dani e Carlinhos

Carlinhos, Papai Noel, Mamãe Dani e Maninho Léo

Papai Robson e Carlinhos
Postado por Juliana Carvalho