Conheci o Michel de uma maneira, digamos, esquisita. Fui conferir no blog do Faça a Diferença se havia algum comentário sobre o programa que abordava inclusão no mercado de trabalho, mostrando um seminário organizado pela superintendência regional do trabalho e tal... Para minha surpresa havia uma manifestação de uma pessoa indignada: o Michel!
`Assisti o programa até o fim. Bueno, visando uma crítica contrutiva, deixo aqui que não apenas mostrem "cadeirantes", cegos, surdos, downs...
Fui ovacionado durante 5 minutos de aplausos em pé neste seminário (...) mal me vi nesta matéria! Será porque sou um Paralisado Cerebral, que não fala corretamente? Tenho uma deficência mais aparente? Vamos ser mais abertos para as outras deficiências; não apenas aquilo que é menos aparente! Como disse nas minhas palavras no seminário:"Minha deficiência não é menor do que a sua, apenas mais aparente", pensem nisso!`

Michel e ao lado seu amigo surdocego Alex
Na hora que li as palavras do hômi, fiquei muito surpresa e também chateada... Longe de mim e da equipe do programa selecionar `deficiências menos aparentes` para usar na matéria!!! Expliquei pro Michel que houve na verdade problemas técnicos: perdemos o material gravado pela manhã (onde ele aparecia) e tivemos que voltar no seminário à tarde... Mal entendido resolvido, ficamos amigos e me encantei com a sua história. Ele tem paralisia cerebral que afetou bastante sua fala e o movimento das mãos, por isso, usa um notebook que opera com os pés para se comunicar. Para quem não sabe, normalmente a paralisia cerebral compromete a parte motora e não a cognitiva. Com vocês, Michel:
`Bem, gostaria antes de qualquer coisa, agradecer ao convite da Juliana para escrever no Sem barreiras. Para quem não me conhece, meu nome é Michel, Paralisado Cerebral, desde 1974, em decorrência de erro médico.
Não é minha intenção aqui falar da minha trajetória, acho que fazer isto é subestimar a capacidade da pessoa com deficiência. Considero que posso não só trazer minha experiência de vida como também experiência de pensamento. Todavia, penso que será interessante destacar um pouco da minha trajetória para que possam perceber alguns pontos falhos desta matéria chamada: inclusão.
Estou escrevendo este artigo com meu notebook, mas fazer isto usando o pé é algo nada comum como podem ver na foto. Sempre fui muito realista sobre minha deficiência, nunca fui neurótico, revoltado, mal resolvido, etc. Ter uma deficiência não é, nem nunca será sinônimo de incapacidade.

Michel, escrevendo no seu notebook
Na maioria das vezes, partem do pressuposto de que aquele indíviduo que esta ali na cadeira de rodas, que tem expressões no rosto, movimentos involuntários e não consegue se expressar com fluência verbal, não pensa. Tendem a rotular o paralisado cerebral como deficiente intelectual. Esta era – e ainda é – uma constante na minha vida. Mas o grande diferencial é a capacidade de comunicação que possuo. Se encontro alguma predisposição, consigo contornar rapidamente (se tiver chance). Ser paralisado cerebral não é fácil, venho do movimento de exclusão absoluta dos anos 80 e metade da década passada. Muitos conhecidos, ainda hoje se encontram na exclusão.
Vejamos minhas limitações: Falo com dificuldade; Ando da mesma forma; Dependo de terceiros; Uso cadeira de rodas; Ou seja: um verdadeiro “manco torto”!

É assim que ele digita!
Aceitar e fazer humor com minha condição modéstia parte é um diferencial muito importante no meu processo inclusivo. Foi partindo desta premissa que construí minha identidade como pessoa com deficiência. Ainda assim, é extremamente difícil conquistar espaço, quebrar paradigmas e preconceitos.
Lembro-me quando conclui meu ensino médio, técnico em informática, passei no vestibular a exatos oito nove atrás e fui um dos primeiros. Porém, ao chegar à faculdade a mesma não possuía acessibilidade e conhecimento do que vem a ser um paralisado cerebral.
Entendemos por acessibilidade toda e qualquer instituição de ensino que forneça não apenas acessibilidade arquitetônica. No caso dos paralisados cerebrais, requerem desde preparo dos docentes à adaptações de conteúdo para ambientes computacionais dentre outras.
Recentemente tivemos o caso do Guilherme Finotti, outro paralisado cerebral que praticamente foi impedido de fazer a prova do ENEM em um simples computador, felizmente o caso ganhou visibilidade da mídia e o MEC foi forçado a recuar.
Esta questão da inclusão ainda esta muito confusa, o MEC prega a inclusão das pessoas com deficiência em classes regulares como esta na LDB porem, na outra ponta praticamente barra o estudante de fazer uso de um simples computador como meio alegando possibilidade de fraude?! Fala sério! Este é o “Brasil de todos” ?!
Vejo também, um aumento do estigma quando vejo outros paralisados cerebrais do nosso estado se formando em jornalismo e ao mesmo tempo sendo infeliz “pedindo” namorada em rede nacional!! Desculpe mas isto foi o fim, me senti ofendido como PC e como Homem também. Nada contra o feito dele mas, acho este episodio muito ridículo. Enfim, cada um, com seu cada um!
Hoje, depois de ter participado do Seminário Aprendizagem e Qualificação das Pessoas com Deficiência do Ministério do Trabalho e Emprego - em 28/04/2009 com um projeto de inclusão elaborado em conjunto com meu amigo Alex Garcia apresentado no lançamento do comitê pro-inclusão - venho tentando inclusão no mercado. Recebo muitas promessas mas nenhuma efetivamente concreta.
A lei de cotas contempla poucos e concentra basicamente em cadeirantes e sensoriais. Não contempla todos, alias considero ela – a lei – uma espécie de “tapa buraco” para corrigir a falta dos meios, educação de qualidade, inclusão.

Alex e Michel na feira do livro
Faço parte do comitê até hoje, sempre me convidam para palestrar e participo sempre que sou convidado. A impressão que tenho é de que o “poder” continua sempre com as mesmas pessoas há décadas, e estas nunca foram comprometidas de fato com a inclusão da pessoa com deficiência. Esta questão somente mudará quando nós, digo nós pessoas com deficiência, tivermos o controle das decisões, não apenas concentrado na mão de meia dúzia.
Esta semana recebi vários convites sobre a Reasul, e 1ª Semana Gaúcha da Pesssoa com Deficiência, me remeteu a um pensamento: “poxa que legal, finalmente vamos valorizar as pessoas da nossa terra” e tudo mais.... Porém, ao ver o set list de palestrantes TODOS vem de fora do estado. Não é uma questão de ser “bairrista”, mas sim, de valorizar nossos talentos, nossos exemplos de sucesso como Alex Garcia, Michel, Guilherme e tantos outros que poderia enumerar. Como disse: nada contra uma empresa de fora do estado organizar esta feira, mas daí não ter nenhum palestrante gaúcho é um pouco surreal!
Encerro este meu artigo com um agradecimento à Ana Maria Machado da Costa do MTE que tem aberto novamente as portas para mim e também à Cilene Tams Rossato da Gestão de pessoas por abrir as portas da Unilasalle para mim. Em 2010 estarei estudando de fato com acessibilidade. Ah claro, mais uma vez a esta Loira sexy pelo convite !!!
Michel Inacio Schlindwein`
Loira sexy? Ô Michel, tô achando que tua PC afetou a visão!!!
Postado por Juliana Carvalho