Ainda ano passado, recebi um e-mail, da Priscila Pinto Oliveira, assessora de imprensa do Tribunal de Contas do Estado, informando ao blog, que o primeiro cadeirante auditor do TCE, Valdimir Costa da Silva, acabara de tomar posse.
Achei importante trazer o Vladimir ao blog, porque sabemos que o índice de desistência escolar, após um problema de saúde, que deixa sequelas é bem grande e o Vladimir, assim como o Milton e a Ju, servem de exemplos a todos que nos lêem, é muito difícil segurar a onda, mas não é impossível.
Não quero ser clichê como o Faustão, que transforma todo mundo num "exemplo de vida", mas acho que a força de vontade do Vladimir é digna de aplausos.
Segue um papinho básico com ele:
Sem Barreiras: Qua aconteceu com você, pra você tá na cadeira de rodas?
Bom, tenho degeneração no cordão posterior da medula. Causa provável: Mielite transversa. Tudo começou no final de 2001 (até aí eu caminhava normal). Começou com uma leve fraqueza nas pernas. No início de janeiro fui submetido a uma cirurgia para corrigir uma hérnia de disco na cervical. Até aquele momento achou-se que o problema era a hérnia, mas não era. Em 2004, passei, duas vezes, pelo tratamento de mielite transversa. Posteriormente, fui diagnosticado com os níveis de cobre abaixo do normal. Este fato pode ter ocasionado, ou contribuído, para a lesão. Resumindo, sou paraplégico desde 2004. Comecei a me locomover através de uma cadeira de rodas em março de 2004.
Sem Barreiras: Em algum momento da sua vida você parou ou desitiu de estudar?
Depois de passar por dois cursos universitários, que não completei, no segundo semestre de 2003 iniciei o curso de Ciências Contábeis na UFRGS. Com o problema de saúde, acabei perdendo todo o semestre. O ano de 2004 foi uma loucura! Tratamentos, adaptações, médicos, a necessidade de ajuda para fazer quase tudo (tomar banho, colocar a roupa, sair de casa, ...) fiquei perdido!
Sem Barreiras: Como você conseguiu dar a volta por cima?
Mesmo com todas as dificuldades, não parei de estudar. Com o grande suporte recebido da família, no primeiro semestre de 2004 consegui fazer uma cadeira na faculdade. Meu pai me levava de carro, ficava esperando e depois me trazia de volta. Foi assim durante todo o ano. Foi muito penoso, mas tinha uma força dentro de mim que me mandava continuar. O apoio da família é muito importante. A partir de 2005 consegui adaptar o carro e ia sozinho para a aula. Em 2004 morei com a família mas hoje moro sozinho novamente.
Sem Barreiras: Você é casado, filhos?
Sou separado e não tenho filhos.
Sem Barreiras: Você veio da UFRGS, também concursado por lá, você estuda só, faz cursinhos, cursinhos adaptados existem?
Comecei a estudar para concursos em 2005. Pela incrível falta de acesso proporcionada pelos cursos preparatórios, durante um bom tempo, estudei sozinho em casa. Comprei alguns livros e apostilas e mandei ver. Em 2008, depois de dar com a porta na cara em vários cursos preparatório, encontrei o CPC (Curso preparatório para Concursos que fica na Av. Farrapos). Este curso possui acesso às salas de aula e ao banheiro. Fico muito insatisfeito com o donos de alguns cursinhos que vem tentar justificar a falta de acesso com os famosos: “o prédio é antigo”, “é culpa de quem construiu o prédio”, “na próxima reforma a gente vê o que pode fazer”. É uma falta de inteligência desse pessoal. Além de não estarem cumprindo a Lei, eles deixam de fora um potencial grande de clientes. A reserva de vagas para pessoas com deficiência é garantida pela legislação.
Sem Barreiras: Fala da satisfação do resultado dos seus estudos, dá umas palavras de motivação, não podemos deixar os jovens que nos lêem deixar de estudar.
Fiz o curso de graduação e de especialização na UFRGS. Voltei para graduação. Hoje, estou cursando Ciências Atuariais (UFRGS). O estudo é super importante. Com a, cada vez maior, conscientização da sociedade em realizar a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, se faz necessário adquirir conhecimento, preparar-se para o mercado.
Sem Barreiras: Você teve algum apoio financeiro duranta seus estudos, bolsa, cotas. Dá uma palavrinha sobre ela, se teve.
Antes da doença eu já trabalhava, portanto, fui amparado pelo auxílio doença do INSS. É importante ter o seguro social nessas horas. Sem ele, a preocupação seria bem maior. Os gastos com remédios, cadeiras de rodas, fisioterapia são muito altos.
Sem Barreiras: Qual é sua profissão. Durante a faculdade, os perrengues que passou, falta de ônibus, rolava paquera, preconceito...
Sou formado em Ciências Contábeis e recentemente assumi o cargo de Auditor em um Órgão Público. Durante a faculdade passei por diversos apertos. Lembro de pelo menos 3 ocasiões em que meus colegas tiveram que me carregar, de cadeira e tudo, pelas escadas da UFRGS. Os elevadores estavam estragados. Muitos prédios da Universidade não possuem banheiros adaptados. Quando dá vontade, te vira. A falta de acesso é bem complicada. Tenho obrigação de apontar a boa vontade do departamento de Ciências Contábeis que me deram muita força no sentido de me colocar em salas com, no mínimo, um pouco de acessibilidade.
Sem Barreiras: Pra você, o que é um mundo sem barreiras?
Um mundo sem barreiras tem a ver com liberdade e inclusão. Liberdade para poder ir e vir, em todos os lugres e sem grandes dificuldades. Inclusão, no sentido de participar dos mais variados grupos e espaços; fazer parte.

Esse é o cara!