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Posts do dia 5 agosto 2011

O DESABAFO DE THAÍS

05 de agosto de 2011 0

Recebi dias atrás um e-mail tocante de uma fisioterapeuta chamada Thaís Botelho. A jovem faz especialização em um posto de saúde no Morro da Cruz.  Seu trabalho de conclusão de curso vai falar sobre acessibilidade e inclusão social de idosos restritos ao domicílio. Nesse primeiro e-mail, Thaís relatou que leu meu livro e fez um desabafo: “Infelizmente dá uma dor muito grande saber de todos os avanços da saúde em relação a reabilitação e as tecnologias assistivas, algumas coisas que tu cita no fim do livro, e ver que a maioria destas coisas, não chega para boa parte da população. População essa que fica a margem de novas possibilidades frente a uma lesão seja ela qual for. É triste e duro entrevistar um cuidador e ouvir dele que “lugar de aleijado é em casa”, e ficar sem palavras quando não temos mecanismos suficientes ou potenciais para efetivar os direitos. Admiro-te muito pela tua garra e por teu enfrentamento diante das dificuldades. Queria compartilhar estas coisas contigo porque quero gritar pra todo mundo, ainda não gostando de falar essa dura realidade, que tem muita pessoa com deficiência que não sai de casa porque o acesso público, aqui leia-se ruas ou becos, são feitos de pedras com mais de um metro de altura; que tem gente que não consegue andar de cadeira de rodas dentro de sua própria casa porquê não passa na porta e ainda não tem condições financeiras, ou rede de apoio, para mudar sua residência; que tem muito amputado que vive prisioneiro do lar mesmo tendo capacidade plena de decisões e julgamento.”

Depois de ler esse breve e “soda” relato, perguntei se a Thaís não gostaria de escrever mais sobre o tema para postar aqui no Sem Barreiras. A gente grita contigo Thaís:

“Acessibilidade e Inclusão Social é possível?
Por muito tempo achei que para isso se concretizar precisava apenas que o paciente cooperasse com o tratamento que tudo se solucionaria. Que ignorância a minha! Ainda hoje, por mais difícil que seja, acredito que a acessibilidade e inclusão social é possível, e é isso o que me faz seguir em frente. No entanto, sei que essa questão é muito mais complexa e depende de uma série de fatores e os exemplos bem sucedidos servem de ânimo para estimularmos os que ainda não atingiram essa meta.
É duro saber todos os avanços da ciência na área da reabilitação, saber que atualmente tem-se noção do potencial da plasticidade sináptica, que permite que o sistema nervoso possa se readaptar frente a uma lesão; que as células tronco podem fazer maravilhas; que existem próteses altamente desenvolvidas que podem ser guiadas através de sensores de movimento; e ao mesmo tempo, ver que essas tecnologias na maioria das vezes não chega para boa parte da população que necessita. E insisto em me perguntar o porquê de tudo isso. Por que muitas pessoas com deficiência, com potencial para diversas atividades, permanecem somente dentro de suas casas fazendo apenas o necessário para sobrevivência, comendo, dormindo e fazendo necessidades fisiológicas? Por que não estão a visitar os amigos, a estudar, trabalhar, ir à Redenção, namorar, jogar basquete, conhecer o mundo, Viver?
Essa é a realidade que me deparo no Morro da Cruz, onde atualmente trabalho. Idosos que tem pequenas alterações funcionais não podem sair de casa porque sua rua é formada por pedras de quase um metro de altura, tornando impossível caminhar com uma simples bengala. Ambiente em que amputados literalmente se rastejam para se locomover; lugar em que crianças com paralisia cerebral nunca frequentaram uma escola e que não tem cadeira de rodas nem passe livre; localidade na qual filhos carregam seus pais nos braços morro abaixo e acima porque não há outra forma de sair dali; onde jovens com poucos déficits passam o dia em casa, pois eles, ou a sociedade lhes julgam inúteis; e que é possível encontrar familiares que acham que lugar de aleijado é em casa. Estas e tantas outras histórias, marcadas com a falta de acessibilidade e exclusão social, poderiam ser citadas. E por quê? Onde será que está a raiz desse problema?
Foto do Morro da Cruz
Imagem do morro da cruz

Talvez o acesso da localidade seja realmente precário. Região de morro tem um terreno difícil de habitar, precisa de muito planejamento e adequações. Talvez seja essa sociedade, que perpetua o pensamento dos que se acomodam à apenas a sobrevivência da pessoa com deficiência, já que não conhecem uma realidade diferente. Realmente precisa de muito planejamento e investimento na área da saúde, habitação, assistência social, educação e em tantos outros seguimentos. Precisa também de muita força de vontade e uma rede de apoio bem fortalecida para ultrapassar as barreiras. Mas é preciso também que aquelas pessoas com deficiência que venceram tudo isso, possam ser exaltados e seguidos como exemplo de que é possível sim ter acesso e se integrar às relações sociais. Devemos insistir nessa máxima até que ela se torne verdade absoluta. Fora de regra deve ser todo tipo de segregação social, que exclua de alguma forma as pessoas de terem efetivados seus direitos e garantias fundamentais.
Acreditar na acessibilidade e inclusão social para todos é um desafio. Desafio, inclusive, contra uma construção histórica. Mas se nós que acreditamos não levantarmos a bandeira e insistirmos no potencial dessas pessoas, quem os fará? Existe alguma forma diferente de mudar essa dura realidade e dar um novo rumo a essa história?
Thaís Botelho da Silva
Fisioterapeuta – Residente da Escola de Saúde Pública RS”

E que Deus n0s dê força para continuar lutando pela (R)evolução, Thaís!!!

Essa é a Thaís

Essa é a Thaís