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Crise dos 25 e desemprego pós-graduado

26 de agosto de 2011 3
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Se, há pouco tempo, crescia vertiginosamente a quantidade de universitários, hoje aumenta em proporção semelhante o número de candidatos ao mestrado e ao doutorado. Produto farto e lucrativo para as universidades, a pós-graduação tem sido uma aposta cada vez maior dos recém-formados. Só que, paradoxalmente, não é difícil encontrar portadores de denso currículo acadêmico sem um emprego condizente com tal formação. Ou, até mesmo, sem emprego algum. Pior ainda: sem noção alguma!

Na verdade, nem sempre o mercado se regula através das regras da academia. E vice-versa. Costuma haver uma distância oceânica entre o que a universidade ensina e o que o cotidiano da profissão exige. Alguns especialistas já identificaram essa contradição do ensino superior brasileiro. Claro que a ciência não pode ser transformada em mero laboratório de experimentação técnica. É fato, entretanto, que os cursos de graduação, em sua maioria, ficam devendo demais no que diz respeito à dimensão prática das profissões. Além disso, demonstram pouca afeição pela cultura do empreendedorismo.

Não postulo uma adesão às teses liberais da livre iniciativa – por mais que eu concorde com grande parte delas –, mas tão-somente a abertura de mais janelas para que o acadêmico enxergue o mundo em suas múltiplas possibilidades. E também para que não se deixe tomar por certo ranço que pulula algumas mentes catedráticas.

No Direito, vi uma veneração quase paranoica pelo concurso público, como se esse fosse o único sinônimo de sucesso na área. No Jornalismo, certa glamourização exagerada pelos empregos em grandes corporações. Nada contra nenhuma das opções. Pelo contrário: de fato, são caminhos potencialmente promissores. A questão é que existe vida para além desses destinos, tais como abrir uma empresa, inovar, chefiar equipes, explorar novos nichos profissionais, fuçar onde aparentemente não existe luz… E não falo apenas de recompensa financeira, mas também – e principalmente – de satisfação profissional, vocacional.

Não se pode culpar apenas a academia por esse contexto. Na Famecos (PUCRS), a propósito, onde colei grau em Jornalismo, percebi um notável esforço pela conexão entre a realidade do mercado profissional e a necessária crítica acadêmica. Mas cabe também ao estudante ou ao graduado, individualmente, dar rumo à sua própria história. Isso exige enfrentar o medo natural de quem conclui um curso superior e pôr a cara no mundo. Arriscar, experimentar – tanto quanto possível. E até ousar, por que não? Ter os olhos erguidos, ao menos. Muitos vitoriosos começaram desse impulso.

O mestrado e o doutorado não podem ser usados como fuga do necessário “pega pra capar” da profissão. Para não encarar o mundo de frente, há estudantes que constroem esse subterfúgio, uma desculpa para continuarem presos a estruturas formais de ensino capazes de redimi-los perante a família e a própria consciência. É compreensível, mas não aconselhável. Claro que isso não é regra – repito –, mas acontece muito.

Perdoem se a reflexão é pretensiosa. Reconheço que seu único critério é a observação pessoal. Mas se qualificação acadêmica nunca é demais, ela também não é tudo. Há virtudes humanas basilares – tais como disciplina, coragem, persistência e senso de oportunidade – que são tão ou mais importantes para vencer no mundo do trabalho. E na própria vida.

Esse doloroso parto para o mundo real, retratado num livro que li há alguns anos – “A Crise dos 25”, de Alexandra Robbins e Abby Wilner, editora Sextante –, é assustador no começo, mas pode ser a porta para fantásticas possibilidades.

Comentários (3)

  • Lisi Silveira diz: 26 de agosto de 2011

    Excelente texto e abordagem Cleber. Sou formada em jornalismo pela Ulbra e minha turma foi uma das primeiras por lá. Lembro que cobrava muito da coordenação a presença de professores q atuavam no mercado jornalístico e não apenas didáticos, q conheciam e dominavam muito a matéria, mas estavam há muito fora do mercado. Logo q iniciei o curso tive a oportun idade de trabalhar num veículo de comunicação e ali tive uma das maiores experiências profissionais da minha vida.
    Claro de se especializar é tudo, mas lembremos tbm de q muitos não têm esta oportunidade, financeiramente falando, pois hj se a graduação já é cara, imagina um mestrado ou doutorado …

  • Betina diz: 30 de agosto de 2011

    Muito bom e muito interessante.
    Acredito que todos os jovens deveriam e até precisariam ler isso.

  • rodrigo aguiar diz: 5 de setembro de 2011

    “O mestrado e o doutorado não podem ser usados como fuga do necessário “pega pra capar” da profissão.”

    “Mas se qualificação acadêmica nunca é demais, ela também não é tudo. Há virtudes humanas basilares – tais como disciplina, coragem, persistência e senso de oportunidade – que são tão ou mais importantes para vencer no mundo do trabalho.”

    Estas frases nada têm de “senso incomum”. São, na verdade, senso comum, cristalino. Esbarre com qualquer pessoa na rua e ela irá falar, sobre o tema, o mesmo que o blogueiro.

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