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A bestialização pelo futebol

31 de agosto de 2011 4

O futebol percorre um perigoso e lamentável caminho rumo à bestialização. O que era para ser divertimento ou – no máximo – uma saudável rivalidade entre amigos, eis que tem se transformado num palco de patologias individuais e coletivas do nosso tempo. Monstros humanos enrustidos ou assumidos soltam suas feras no aparente anonimato da multidão e na passionalidade desse meio.

Basta ver o que se passou recentemente com a Geral do Grêmio. Eu sei que é uma minoria, mas esses poucos estão fazendo barulho e deteriorando o sentido de torcer, muitas vezes sob a complacência dos bonzinhos. Todos os limites foram extrapolados. A razoabilidade das torcidas – organizadas ou não – tem dado lugar à estupidez. É claro que a paixão futebolística tem um quê de irracional. E é bom que seja assim. Trata-se de um flerte agradável e necessário para não deixar a vida cair nas rotinas estanques e metodológicas do nosso dia. É uma concessão à emoção, às coisas sanguíneas. À vibração.

Entretanto, hoje está em curso, mesmo na relação entre amigos próximos e familiares, algo que noutras épocas não tinha esse caráter tão profundo e quase ideológico. A escolha do clube virou causa de vida. Amizades são selecionadas por esse critério. É uma entrega devocional, histérica e exagerada. Mesmo entre formadores de opinião e profissionais da área parece haver uma supervalorização da importância do futebol como algo decisivo para a civilização contemporânea. Menos, bem menos…

Repito: torcer por um time – e até ser apaixonado por ele – é algo absolutamente compreensível e instigante. Também torço, e muito, pelo meu Grêmio. Dá leveza e diverte a vida, mesmo quando não ganha. Porém, fazer disso um mote para a bestialização é, quando não um crime, no mínimo uma demonstração inequívoca de desequilíbrio mental. Senão, de que mal padecem os rapazes que se violentaram no Olímpico senão desse distúrbio? O que dizer dos que se engalfinham por uma causa “esportiva”?

 Autoridades, dirigentes e torcedores civilizados – que são a absoluta maioria – precisam vigiar o próprio futebol. Ou ele é tomado pelas pessoas de bem – que querem tão-somente torcer ou até secar de vez em quando –, ou vira propriedade de bestas-feras que só fazem destruir e autodestruir-se. Ou fica para os sãos, ou será tomado por animais travestidos de homens. Ou vence com a alegria, ou sucumbirá diante da tristeza e do medo. Ou é festa, ou será funeral e cadeia. Ou é sinônimo de saúde, ou se esgotará como doença.

Nota do Editor: publiquei esse texto, originalmente, na Zero Hora de 12/12/2009, página 21. Com pequenas adaptações, infelizmente continua atual.

Comentários (4)

  • Dilson diz: 31 de agosto de 2011

    Sem reparos. E antes que alguém observe que somente se referiu a uma torcida, que fique claro que se aplica a todas. O preço da liberdade é a eterna vigilância.

  • Camila diz: 31 de agosto de 2011

    Olá Cleber, gostaria de parabenizá-lo pelo blog e os temas abordados pois, apesar dos inúmeros blogs que já existem na web (e na ZH), estava faltando um que abordasse temas variados e atuais, sob um enfoque tão interessante quanto o que você consegue dar. Mais uma vez, parabéns! Um abraço.

  • Marvin Vidal diz: 1 de setembro de 2011

    Eu nunca fui muito do futebol. Sempre preferi as corridas de carro, moto e até os esportes do luta.

    Lamentavelmente o futebol (paixão nacional) é o esporte que mais contabiliza faltas e jogadas “sujas” ao longo de seu tempo regimental. Nem mesmo o UFC (que é o mais glamuroso esporte de luta do momento) tem golpes baixos ou faltas. Mesmo o UFC sendo um esporte de contato e combate seus atletas comprimentam-se com educação e respeito ao final dos combates. Suas torcidas não externam a violencia. E mais…seus dirigentes (cartolas) não são envolvidos com as “máfias” desportivas.

    Em síntese, o brasileiro gosta de futebol pq não reage à violência, a miséria e a corrupção. O brasileiro não sabe tomar decisões por conta própria, por isso apela para baixaria…. e dentre estas…vota em populistas, totalitaristas, demagogos e “neo-socialistas”!

  • Fabio Moraes diz: 1 de setembro de 2011

    Belas palavras Cleber, realmente este problema está gerando muitas dúvidas em muitas pessoas, explico, vou ao estádio Olímpico desde pequeno, tenho isto como um orgulho, meu pai me levou desde pequeno, hoje tenho minha filha, fanática pelo nosso GRÊMIO, mas e dai, qual segurança de levá-la ao estádio, sim claro que já a levei, mas em jogos de pouca expressão, menor numero de torcedores, então mobilização urgente contra banalidades como esta, e que fique claro, como no comentário acima, não é exclusivo da torcida do GRÊMIO e sim do Brasil inteiro.

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