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PSB: protagonizar num projeto próprio ou coadjuvar no berço esplêndido do governo?

22 de maio de 2013 0

Ministro Bezerra (E) opera contra Campos (D), presidente do seu próprio partido

O PSB vive um dilema. É, inequivocamente, um dos partidos em maior ascensão no país. Seus números comprovam isso. Detém bons governadores, dentre os quais o mais aprovado do país – Eduardo Campos, de Pernambuco. Ele foi reeleito com a surpreendente marca de 82,84% dos votos. Na última eleição, a sigla conquistou capitais importantes e teve um dos maiores crescimentos na quantidade de prefeitos e vereadores.

A agremiação ganhou tamanho e um nome para construir um projeto nacional, que se desenhou quase que naturalmente. Mesmo desconhecido na parte geograficamente baixa do país, Campos já aparece em algumas pesquisas com 6% dos votos. Quem entende de política sabe que o índice é significativo para esse período – em que as pessoas ainda não pararam para efetivamente olhar e escolher seus candidatos.

Tanto essa constatação é real que o próprio PT identificou o risco, para seu projeto, que representa a candidatura de Campos. O jornalista Gerson Camarotti, da Globo News, informou que, por determinação do ex-presidente Lula, a cúpula petista deflagrou uma estratégia para tentar asfixiar a pré-candidatura do socialista à Presidência da República. A ordem é tentar inviabilizar a ideia nos próprios diretórios estaduais do PSB.

E as reações favoráveis à ação comandada por Lula começaram a aparecer. Os governadores Camilo Capiberibe (AP) e Renato Casagrande (ES), ambos do PSB, já deram sinais de que lutarão pela permanência do partido na base de Dilma – apoiando sua reeleição.

Notícias de ontem dão conta de que o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, lidera uma espécie de motim no PSB contra a candidatura do governador de Pernambuco a presidente. Ele teria acionado integrantes do seu gabinete para articular a derrota da tese da candidatura própria na Executiva do partido.

Com uma chance de protagonismo à vista, o primeiro grande adversário de um projeto nacional do PSB é o assédio da coadjuvação governista. Trata-se do que o cientista político Francisco Ferraz, em recente artigo, chamou de “tara do adesismo político”. Em parte, fruto do sistema; noutra, fruto do mero interesse pragmático: verbas, cargos, comodidade...

É sempre mais fácil ser amigo do rei – ou da rainha. Que o digam PMDB, PP e outros tantos partidos, outrora detentores de identidade própria e capacidade de liderança, que abandonaram seus projetos para navegar com tranquilidade na nau governista.

É a inversão daquela conhecida frase de rebeldia: Se hay gobierno... Soy a favor!

Eis a encruzilhada do PSB: protagonizar ou coadjuvar.

O que disseram – ou não – peemedebistas gaúchos sobre o apoio a Dilma

20 de maio de 2013 2

O blog consultou, via Twitter, peemedebistas gaúchos sobre o possível apoio regional do partido à reeleição da presidente Dilma.

A pauta foi motivada pela iniciativa de aproximação construída por Eliseu Padilha, ex-deputado e presidente da Fundação Ulysses Guimarães.

O levantamento também ajudou a mostrar a atenção dispensada às redes sociais. Muitos parlamentares não responderam ao questionamento. Claro que o silêncio pode ter sido oportuno.

A pergunta enviada para todos foi a mesma: "Consulta para constar em matéria no blog. És a favor do apoio do PMDB/RS a Dilma?".

Veja as respostas:

Alceu Moreira Alceu Moreira: "Nas condições atuais, não".

Osmar Terra Osmar Terra: "Entendo que é cedo para esse tipo de definição.Nosso compromisso partidário é com Michel, mas nossa base é oposição no Estado!".

Márcio Biolchi Márcio Biolchi: "Defendo amplo debate interno e unidade partidária. E estar junto dos candidatos, ou apoiados pelo PMDB".

Maria Helena Sartori Maria Helena Sartori: "Essa questão está sendo discutida com as bases do partido".


Não responderam:

  • Pedro Simon
  • Darcísio Perondi
  • Mendes Ribeiro
  • Alexandre Postal
  • Álvaro Boessio
  • Edson Brum
  • Gilberto Capoani
  • Giovani Feltes
  • Nelson Härter

O vice-prefeito de Caxias, Antônio Feldmann, conforme noticiamos em post anterior, protagonizou a reação contrária à decisão de apoiar o PT para a Presidência da República. Ele voltou a opinar: "O PMDB deveria palmilhar o Brasil para comemorar os 20 anos de conquistas. Desde Itamar, com o Real, que PMDB apoiou e o PT, não".

Também ouvimos três jovens lideranças peemedebistas.

Gabriel Souza, suplente de deputado estadual, secretário de Planejamento e Desenvolvimento de Tramandaí e ex-presidente da JPMDB, foi  claro: “Sim, sou a favor”.

Daniel Kielling, atual presidente da JPMDB/RS, escreveu: “Sou a favor de o PMDB-RS seguir a decisão da Convenção Nacional e acho que o vice Michel Temer tem feito um grande trabalho. E tem mais uma coisa: o PMDB não vai apoiar o governo, o PMDB é o governo.  Michel Temer tem papel importante em Brasília.”.

André Carús, atual presidente do Demhab (Porto Alegre), vai em outra direção: “Sou contrário, em respeito à posição local que de oposição ao governo Tarso. PMDB deveria ter candidato próprio à Presidência”.

A conclusão, a julgar pelo que se pode depreender do cotejo feito acima, é de que o caminho está - sim - aberto para esse casamento.

O clima do encontro, retratado por uma vasta galeria de fotos no site do PMDB/RS, ajuda a confirmar: http://pmdb-rs.org.br/scripts/galerias.php?categoria=36&id=19624.

Vice-prefeito de Caxias critica apoio do PMDB/RS a Dilma: “As bases e as ruas indicam outro rumo”

15 de maio de 2013 2

Antonio Feldmann, vice-prefeito de Caxias


Começaram a aparecer algumas resistências no PMDB gaúcho ao apoio à presidente Dilma Rousseff. E elas vêm especialmente de líderes locais – as bases –, que vive mais de perto o conflito com o PT.

Ontem, pelas redes sociais, o vice-prefeito de Caxias do Sul, Antonio Feldmann, voluntariamente passou a reclamar dessa aproximação:

– PMDB e PT se digladiando na votação da MP dos Portos, ficando em lados opostos. Surto peemedebista de lucidez? Ou caindo na real?

Depois, questionado pelo nosso blog e pelo repórter Felipe Chemale, da Rádio Gaúcha, Feldman prosseguiu em seu Twitter:

– A eleição só acontece em 2014. Defendo candidato próprio do PMDB a Presidência e construção de propostas para o Brasil.

– Trabalho para que PMDB se alinhe aos seus princípios e suas bandeiras históricas. E não se apequene e se submeta.

– Não vejo e nem sinto alinhamento das ruas a essa bazófia e à verborragia dos neoburgueses da politica nacional.

– O que ouvimos das ruas é uma insatisfação generalizada com esse atual modelo político-econômico do Governo Central.

– E aqui a gente ainda costuma a ter princípios e valores, e fazer politica com dignidade e com interesse público.

– Não há unanimidade e muito menos consenso nisso. As bases e as ruas indicam outro rumo.

– Se as realizações são do PT, porque então querem apoio dos aliados, do PMDB e de outros partidos?

– O PMDB se desgasta na Câmara defendendo o governo, e aqui o partido-cabeça busca só pra si os méritos das conquistas. Que parceria, hein?

O blog está tentando consultar, através das redes sociais, os demais líderes com mandato ou cargo no PMDB para saber a opinião sobre o mesmo assunto.

Vai ser um bom teste: sobre a pauta específica e sobre o uso dessa ferramenta de comunicação.

Vamos dar uns dois dias para ver se recebemos as respostas.

O papel de Sebastião Melo

09 de maio de 2013 0

O governo Fortunati tem enfrentado dias de turbulências: aumento das passagens, corte de árvores, rompimento do conduto forçado, prisão do secretário do Meio Ambiente e outros tantos pequenos e grandes quiproquós. O primeiro semestre do ano teve uma sequência de desafios.

O prefeito se mantém sereno, toca o governo. Muitas obras estão em andamento, e a população gosta disso. Mas nesse cenário cresceu a importância do vice Sebastião Melo.

Ele se movimenta com desenvoltura e discrição nos bastidores, fazendo um anteparo político e articulando atores e partidos. Também age no relacionamento com a sociedade, tentando semear um ambiente de concordância. E faz tudo isso sem causar qualquer sombra a Fortunati. É discreto e conhece a cidade.

Para além do curto prazo, a plantação de Melo quer dar frutos em 2016. Muito cedo para pensar nisso? Não para a política e os políticos.


Simon sobe o tom contra Dilma e PT. Veja discurso

26 de abril de 2013 1

Não é de hoje que Pedro Simon (PMDB) flerta com o PT. Se não apoiou formalmente, é certo que jamais combateu frontalmente, sistematicamente.

Nunca poupou elogios a Lula e Dilma. Votou em ambos. Sempre elogiou a trajetória de ascensão petista como um case partidário e social. Jamais fez juízo sobre eventual construção de uma hegemonia.

Também foi crítico algumas vezes, mas sempre na medida dos assuntos com repercussão pública – notadamente nas suspeitas de corrupção. Apenas em pautas específicas, pontuais.

Por outro lado, jamais se serviu fisiologicamente do governo, motivo que nunca o fez refém. Ficou numa espécie de amizade crítica.

Nesta semana, porém, em discurso no Senado Federal, o senador gaúcho parece ter subido o tom em relação ao governo Dilma e ao próprio PT. Ele criticou severamente a tentativa de aprovar regras eleitorais que impediriam a criação de novos partidos. Comparou o PT com a Arena. Cogitou chamar Dilma de "generala". Indicou estar arrependido de ter votado nela.

Nas redes sociais, o senador Cássio Cunha Lima (PSDB) chegou a chamar o pronunciamento de “discurso histórico” e do “início do fim de um ciclo”.

Sobre o mérito do novo posicionamento de Simon, cada leitor fará o seu próprio julgamento. Jornalisticamente, é preciso constatar essa mudança de tom.

Confira:


A volta por cima de Valdir Andres: na política, a derrota pode não ser definitiva - tampouco a vitória

23 de abril de 2013 0

Valdir Andres, prefeito de Santo Ângelo, vai ser indicado pelo PP para a presidência da Famurs. Ele venceu com mais de 50% de votos os concorrentes de Rio dos Índios, Casca e São Jerônimo. A eleição entre os prefeitos de todos os partidos será apenas homologatória do nome escolhido hoje.

A trajetória de Andres, no entanto, vem de reveses em âmbito estadual nos últimos anos. Depois de uma densa trajetória como prefeito, deputado estadual e secretário de Estado, ele passou a diminuir suas votações para a Assembleia Legislativa: 42 mil votos em 2002, 37 mil em 2006 e 36 mil em 2010. Nos últimos dois pleitos, ficou apenas como suplente.

Diante do aparente desgaste, Andres decidiu reconstruir seu status público a partir de sua própria cidade – onde já fora prefeito. Empresário local na área de comunicação e com bom trânsito social, voltou para casa e encarou novamente as urnas em Santo Ângelo. Ganhou a eleição de 2012. Ressurgiu.

Agora, com a escolha para ser o “prefeito dos prefeitos”, como presidente da maior entidade municipalista do Rio Grande do Sul, Valdir Andres recupera terreno político e se reposiciona, com mais vigor, na dimensão estadual – em um momento importante, antevéspera eleitoral.

Claro que essa experiência não é única. Mas é a mais recente e serve para mostrar que, na política, há dias de vitória e outros de derrota. E, ambos, não costumam ser definitivos por muito tempo. Ganhar e perder são efemeridades.

Rapidamente, me ocorrem outros casos. Fortunati não se elegeu deputado federal em 2002 e acabou prefeito de Porto Alegre. Manuela D’Ávila perdeu para a prefeitura de Porto Alegre em 2008 (sequer foi ao 2º turno) e voltou como deputada federal recordista de votos em 2010. Artur Virgílio perdeu a eleição de senador para Vanessa Grazziotin em 2010 e, dois anos depois, ganhou dela a disputa para a prefeitura de Manaus.

Qual a novidade de tal constatação? Diversos atores do cenário político – sejam candidatos, assessores ou profissionais do meio, inclusive analistas – costumam tratar eventual revés eleitoral como verdadeiro ocaso, certamente apoquentados com os resquícios da disputa. Todos os nomes citados acima foram dados como politicamente sepultados, mas voltaram.

Portanto, para quem estuda a política, o caso de Andres se soma como mais uma pedagogia das possibilidades de estratégia e reposicionamento de imagem. É preciso, porém, saber perder e construir o retorno. E, claro, querer.

Três ou quatro más notícias no tabuleiro político de Dilma. Mas ela segue favoritíssima

18 de abril de 2013 0

Foto: Robson Gonçalves e Tuca Pinheiro (Divulgação/PPS)

A constatação é uma obviedade, mas não pode passar despercebida: o surgimento de um novo partido – a Mobilização Democrática –, de Roberto Freire, é uma má notícia para o governo. Nada ameaçador para os cerca de 80% de popularidade da presidente Dilma, mas certamente uma nova pedra no caminho.

Especialistas de Brasília dão conta de que pelo menos 30 deputados devem migrar para a nova sigla. A bancada da MD pode chegar a mais de 40 parlamentares, recebendo opositores que restaram no PSD, alguns que remanescem no PR e no PP, descontentes do PSDB e do DEM e, claro, oportunistas de plantão.

A situação será tanto pior se Marina Silva conseguir abrir sua Rede Sustentabilidade. O novo partido, no entanto, pode ficar prejudicado se prevalecer a casuística decisão de reduzir, agora, a destinação de tempo de TV e recursos do Fundo Partidário para as novas legendas. O que beneficiou o governista Kassab (PSD) agora teria se tornado prática vedável. O PT canta vitória em 2014, mas dá evidente sinal de preocupação.

Aécio (PSDB) também parece ter despertado. Contrata marqueteiro, faz movimentos, estuda pesquisas. Eduardo Campos (PSB), não é preciso dizer, articula a consistência de sua candidatura através de um interessante discurso “por dentro” do atual projeto. Ele avança muito nos bastidores, embora ainda não apareça nas pesquisas – o que é absolutamente natural.

O governo corria solto em seu projeto eleitoral. O despertador dos adversários, porém, parece ter tocado. O favoritismo permanece com Dilma, mas só a urna dá o veredito final na política. As máquinas da disputa presidencial estão sendo preparadas.

Judicialização da saúde. A morte de um direito - e de muitas pessoas

12 de abril de 2013 0

"Todos os dias arquivo processos que perdem o objeto pelo falecimento de pessoas que mensalmente, durante anos, correm atrás de remédios que deveriam ser fornecidos administrativamente".

A frase triste - e verdadeira - é de um amigo que trabalha no Poder Judiciário. Escandaliza o que todos sabemos: a insuficiência dos serviços públicos de saúde e a judicialização do acesso a um direito que deveria ser garantido pelo Estado.

Os fatos são chocantes: há poucos dias, um bebê de Campo Bom - quase ao lado de Porto Alegre - morreu depois da demora em conseguir vaga para uma UTI neonatal.

Bernardo, filho de Jéferson Leite e de Adriana Bender, nasceu com quase quatro quilos e 49 centímetros na sexta-feira. Com disfunção respiratória, foi cadastrado na central de leitos na capital e no interior. A família buscou a Justiça pedindo compra de leito e transferência para hospital privado. Porém, não havia vaga em nenhuma das redes. A vaga só apareceu no domingo, em Novo Hamburgo, mas o paciente morreu durante o deslocamento.

Confira uma reportagem do Jornal do Almoço sobre o assunto: http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/jornal-do-almoco/videos/t/edicoes/v/bebe-de-dois-meses-morre-a-espera-de-leito-na-uti-neonatal-em-campo-bom-rs/2504384.

A saúde é um direito que está morrendo, e muitas pessoas com ele.

Pedro Taques e um dos melhores discursos dos últimos tempos

12 de abril de 2013 1

Para quem gosta de estudo de retórica, política e conteúdo, o vídeo abaixo mostra um dos melhores discursos dos últimos tempos. É do senador Pedro Taques, feito no dia em que ele foi derrotado na disputa para a presidência do Senado – em fevereiro último. O vitorioso foi Renan Calheiros.

A manifestação teve pouca repercussão na imprensa, bem menos do que deveria. Eu mesmo, que acompanhei com certo interesse aquela eleição, não parei para ver o discurso dos candidatos. Nesta semana, fui alertado sobre a manifestação de Taques  por um familiar atento, José Cerbaro – meu tio, que reside em Balneário Camboriú.

De fato, vi que estava diante de um pronunciamento digno de nota e estudo. A fala do senador de Mato Grosso é original na estratégia de discurso, elegante no estilo linguístico, contundente no posicionamento político, densa na abordagem histórica. E verdadeira! Sinceramente, uma aula.

Segue o vídeo e, depois dele, a transcrição.

Alô, alunos de Ciências Políticas, Jornalismo, História, Letras...

Íntegra do discurso de Pedro Taques:

“É como um perdedor que ocupo hoje esta tribuna. Venho como alguém a quem a derrota corteja: certeira, transparente, inevitável, aritmética. Sou o titular da perda anunciada, do que não acontecerá.

Mas o bom povo de Mato Grosso não me deu voz nesta Casa para só disputar os certames que posso ganhar, mas para lutar, com todas as minhas forças, as batalhas que forem justas. Sigo o exemplo do apóstolo Paulo, também um perdedor, degolado em Roma por levar a mensagem do Cristo: quero poder dizer a todas as pessoas que combati o bom combate.

As palavras dos vitoriosos são lembradas. Seus feitos, realçados. Sua versão, tende a se perenizar. O sorriso do orgulho lhes estampa a face, tantas vezes, antes mesmo de vencerem. E nem sempre se pergunta que vitória foi esta que obtiveram.  Será a vitória do Rei Pirro, que bateu os romanos na Batalha de Heracleia (280 A.C.) e olhando desconsolado para suas tropas destroçadas, disse que "outra vitória como aquela o arruinaria"? Será a vitória do Marechal Pétain, que ocupou o poder numa França emasculada pelos nazistas, traindo o melhor de sua gente? Será a vitória sem honra dos alemães diante do levante de Varsóvia?

Pois existem vitorias que elevam o gênero humano e outras que o rebaixam. Vitórias da esperança e vitórias do desalento. E, tantas vezes, é entre os derrotados, os que perderam, os que não conseguiram, que o espírito humano mais se mostra elevado, que a política renasce, que a sociedade progride.

Minha voz não é a da vitoriosa derrama de El-Rey de Portugal, mas a dos derrotados inconfidentes que fizeram germinar o sonho da nossa independência. O grande herói brasileiro, senador Aécio, – Tiradentes - é um perdedor, pois a Conjuração Mineira não venceu, naquele momento, mas nem as partes de seu corpo pregadas na via pública, ao longo do caminho de Vila Rica, o impediram de ser um brasileiro imortal.

Valho-me da memória de outro grande brasileiro, Ulisses Guimarães, anticandidato, lançado em 1973 pelo então MDB, MDB Jarbas Vasconcelos, MDB Pedro Simon, MDB Requião, tendo como vice-anticadidato Barbosa Lima Sobrinho. "Vou percorrer o país como anticandidato", disse Ulysses, para denunciar a "anti-eleição", do regime militar.

Ulysses Guimarães, este grande perdedor, este grande brasileiro.

Pois aqui estou, emulando o espírito daqueles grandes homens:

Eu me anticandidato à Presidência deste Senado da República.

Apresento-me para combater o bom combate. Quero ser Presidente da Casa da Federação. Quero que a sociedade brasileira observe que as coisas podem ser diferentes, que o passado não precisa necessariamente voltar, que há modos novos e melhores de fazer política, que esta Casa não é um apêndice, um "puxadinho" do Poder Executivo, mas que estamos aqui também pelo voto direto que nos deram o bom povo de nossos Estados.

Chega do Senado-perdigueiro! Chega do Senado-sabujo! Somos senadores, não leva-e-trazes do Poder Executivo!

Não podemos respeitar os demais poderes, o Executivo ou o Judiciário, se não nos respeitamos a nós próprios. Não ajudamos a boa governança constitucional, se nos olvidamos de nossos deveres, de nosso papel e nossas prerrogativas. Nossa omissão alimenta o agigantamento dos outros poderes, o que a Constituição repele.

É como derrotado que posso dizer francamente que a sociedade brasileira clama por mudança, por dignidade, por esperança, por novos costumes políticos, por uma nova compreensão de nosso papel como senadores.

Anticandidato-me à Presidência do Senado, para combater o mau vezo do Poder Executivo de despejar suas medidas provisórias, ainda que fora de situações de urgência e relevância, em continuado desprestígio de nossas prerrogativas legislativas.

Lanço-me para que façamos valer a Constituição e seu artigo 48, II, segundo o qual devemos velar pelas prerrogativas de nossa Casa Legislativa. Almejo aplicar severa e serenamente, o artigo 48,  XI, do Regimento Interno do Senado, segundo o qual o Presidente tem o dever de impugnar proposições que lhe pareçam contrárias à Constituição, às leis e ao próprio Regimento".

Eu, anunciado perdedor, comprometo-me perante meus pares e perante todo o país a impugnar estes exageros do Poder Executivo. Será que o anunciado vencedor pode fazer idêntica promessa?

Vou aplicar o mesmo rigor aos "contrabandos legislativos", impedindo que o oportunismo de alguns acrescente às já abusivas Medidas Provisórias as emendas de interesses duvidosos que nada têm a ver com o objeto original da medida que se supõe urgente e relevante.

Prometo desconcentrar o meu poder como Presidente, distribuindo a relatoria dos projetos por sorteio. Como agirá o vencedor? Distribuirá apenas entre os seus?

Vou criar uma agenda pública e transparente, a ser informada a toda a sociedade brasileira, para a apreciação dos vetos presidenciais, estas centenas de esqueletos que deixamos por aqui. Vou designar as comissões e convocar as sessões do Congresso Nacional que se façam necessárias. Como farão os vencedores?

Vou além: toda a agenda legislativa tem de ser democratizada. Comprometo-me a construir mecanismo pelo qual os cidadãos possam formular diretamente requerimentos de urgência para votação de matérias, nas mesmas condições que a Constituição exige para a iniciativa popular de projetos de lei.

Farei ainda com que o Senado invista no desenvolvimento de mecanismos seguros de petição digital, para facilitar a mobilização dos cidadãos em torno das iniciativas populares já previstas na nossa Carta Magna.

Mobilizarei também toda a Casa para promover a atualização dos textos dos Regimentos Internos do Senado e do Congresso Nacional, documentos originários de resoluções dos anos 70, aprovadas durante o período escuro de nosso país e anteriores até mesmo à nossa Constituição democrática.

Aos servidores do Senado faço o compromisso de dar o que eles, profissionais dedicados, mais querem: organização, estruturação administrativa eficiente, seriedade, probidade. É também o que espera a sociedade brasileira. Não serão tolerados abusos de qualquer ordem. Funcionários públicos, representantes do povo, estamos aqui para servir a Sociedade e o Estado e não para nos servimos deles!

Como farão os vencedores? O que farão aqueles que já venceram antes e nada fizeram? Como esteve o Senado, quando ocupado pelos presumidos vencedores de hoje?

Posso ser um perdedor, mas para mim, a lisura, a transparência, o comportamento austero são predicados inegociáveis de um Presidente do Senado. Será que os vencedores também poderão dizê-lo?

Os que hão de vencer dialogarão com a classe média, com os trabalhadores, as organizações da sociedade civil, com a Câmara dos Deputados, com estudantes e donas-de-casa? Os vencedores darão continuidade a reformas como a do Código Penal, a Administrativa e o Pacto Federativo, ou preferirão deixar as coisas como estão?

A ética estará com os vencedores ou com os perdedores, Senhores Senadores?

Quais de nós serão mais bem acolhidos, não nesta Casa, mas pela sociedade brasileira. Os vencedores ou os perdedores?

Queremos o melhor para nós ou o melhor para a nação?

Existem voltas ainda hoje esperadas, como a de Dom Sebastião, que se perdeu nas batalhas africanas. A volta do Messias, esperado por judeus e cristãos. Os desaparecidos na época do regime militar, senador Aluísio, que hão de aparecer, ainda que para a dignidade de serem enterrados pela família.

Mas existem voltas que criam receios, de continuísmo, de letargia, de erros ressurgentes.

Sou o anticandidato, o que perderá. Não sou especial. Não tenho qualidades que cada cidadão brasileiro, trabalhador e honesto, não tenha também.  A ética que proclamo é aquela que quase todos os brasileiros se orgulham de cultivar. Eu não temo o próprio passado e, portanto, não tenho medo do futuro. Falo pelos derrotados deste país, todos os que ainda não conseguiram seus direitos básicos: as mulheres, senadora Lídice da Mata;  os índios, senador Wellington Dias; as crianças, senadora Ana Rita; os negros, senador Paulo Paim; os assalariados, senador Jaime Campos; os sem casa, senador Rodrigo Rolemberg; os sem escola, amigo Cristovam Buarque.

Falo pelos sem voto, aqueles que, embora titulares da soberania popular – o cidadão – se vêem alijados da disputa pela Presidência desta Casa, porque o terreno da disputa se circunscreveu aos partidos da maioria.

Essa não é mais a candidatura do Pedro Taques, e sim do PDT, do PSOL, do PSB, do DEM, do PSDB e de corajosos senadores de outras legendas, que não se submetem. Por que, como diz o poeta cuiabano Manoel de Barros, "quem anda no trilho é trem de ferro, liberdade caça jeito".

Essa candidatura é daqueles que nunca tiveram voz nesta Casa, é dos mais de 300 mil brasileiros que assinaram a petição online "Ficha Limpa no Senado: Renan não", promovida pelo portal internacional Avaaz.

Sei que nossa derrota é certeira, transparente, inevitável, aritmética. Mas faço minha a fala do inesquecível Senador Darcy Ribeiro:

‘Fracassei em tudo o que tentei na vida.

Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.

Tentei salvar os índios, não consegui.

Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.

Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei,

Mas os fracassos são minhas vitórias.

Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu’.

Nas andanças do tempo, vencedores podem ser efêmeros; os derrotados de um dia, vencem noutro. Maiorias se tornam minorias. Mas a dignidade, Senhores Senadores, jamais esmorece. Nós, os que vamos perder, saudamos a todos, com a dignidade intacta e o coração efusivo de esperança”.

Segurança pública: o caos em dez minutos de delegacia

08 de abril de 2013 0

Na última semana, ao acompanhar um cliente, precisei ficar por dez minutos numa delegacia de Porto Alegre. Foi o que bastou para um choque de realidade que o cotidiano costuma esconder.

A repartição era deprimente. Espaço pequeno, poltronas destruídas, paredes sujas, avisos de papel apagados e rasgados. Uma quantidade enorme de pessoas para serem atendidas. Todos ouviam o que todos diziam. Dois funcionários no balcão. Esforçados, se bem que visivelmente irritados.

As ocorrências eram registradas na parte de dentro do balcão, sem qualquer espécie de privacidade. Um caos compartilhado – do setor público e especialmente da vida das vítimas.

Em cada história, a propósito, se revelava um drama ainda maior. Um pai acompanhava sua filha de 16 anos. Ela tinha marcas de agressão no rosto. Relatou que fora estuprada. A policial encaminhou para a Delegacia da Mulher, que teria ambiente adequado. Fez bem, pois ali realmente seria ainda mais humilhante para aquela menina – cuja tristeza e constrangimento saltavam aos olhos.

Uma senhora, aparentando mais de 80 anos, relatava ter sido enganada por uma suposta oferta de premiação. Contava aquilo no depoimento dado em voz baixa, na frente de todos. Já a policial, talvez com menos cuidado do que a boa prática recomendasse, falava com ela em tom alto – repetindo tudo enquanto digitava. Mas como cobrar equilíbrio de uma funcionária pública também exposta a tamanho caos?

Foram só dez minutos. Dez minutos suficientes para constatar que estamos diante de um problema que perpassa governos. Um problema de estado, de um Rio Grande do Sul que está longe de ser o protagonista que de tanto já falamos. Nessa área, ao menos, não é.

Claro que tais problemas não se resolverão com pessimismo. Porém, tampouco com otimismo. Ou os gaúchos encaram o drama com alguma possibilidade de convergência e unidade de esforços, ou estaremos condenados àquele insuficiente e repetido debate do nosso espaço público.

O Rio Grande – da sociedade e da política – dá sinais de que precisa repensar-se. Ou continuará cuidando de maneira insuficiente de sua população.