Um Karman-Ghia vermelho e um fusca “azul-calcinha” estavam estacionados bem em frente daquele que era o ponto de encontro dos jovens, em duas eras que conviveram por pequeno lapso de tempo: os anos dourados e os anos de chumbo.
De seus rádios de bordo, dois tons acima de decibéis toleráveis, ganhavam o éter dois sucessos da época:
— Upa negrinho na estrada/ Upa pra lá e pra cá/ Virge que coisa mais linda/Upa negrinho começando a andar...
A voz de Nara Leão, frágil, mas afinadíssima, era um suave contraponto à voz modulada de Chico Buarque:
— Hoje o samba saiu, procurando você/ Quem te viu/ Quem te vê/…
Dentro dos automóveis, sonhos de consumo de uma sociedade na infância da industrialização, dois casais de namorados, vivendo romances eternos, ou simples arrulhos de verão, enquanto o rádio continuava contando a história da época.
A Banda, Disparada, Louvação, Canto de Ossanha, Procissão, Domingo no Parque, Alegria, Alegria, Ponteio, Namoradinha de um Amigo Meu, Máscara Negra, Roda Viva, California Dreamin`, All You Need is Love...
Nara, Elis Regina, Jair Rodrigues, Gilberto Gil, Caetano, Edu Lobo, Roberto Carlos, The Mamas and the Papas, os Beatles. A música, os compositores – e o lugar... Aquele lugar que, combinado com o som, haveria de compor uma sinfonia de eternidade.
Estivéssemos nos anos 40, o lugar poderia ser a Tabacaria da gorducha de úberes fartos, “iniciadora” de Federico Fellini na Rimini de Amarcord, ao som da magnífica trilha sonora de Nino Rota.
Vivêssemos em Casablanca, Marrocos, em plena Guerra, ano de 1942, ouviríamos Sam tocar As Time Goes By, outra vez, contra as ordens de Rick Blaine, o dono do Café Américaine.
Mas estávamos aqui, em Floripa, a bordo dos nossos bólidos de época, trocando beijos com a namoradinha e ouvindo a bela e nova safra de compositores de um tempo florescente para o Mundo — e inquietante para o Brasil.
Na mesma época em que Mary Quant elevava as saias 20 centímetros acima dos joelhos, a Inglaterra ganhava a VIII Copa do Mundo, os Beatles compunham Lucy in the Sky with Diamonds, o Congresso, servil, elegia Arthur da Costa e Silva presidente do Brasil, a CIA assassinava “Che” Guevara nas selvas da Bolívia e — numa centelha do iluminismo científico — o cirurgião sul-africano Christian Barnard realizava o primeiro transplante de coração humano.
Entre Penny Lane (Beatles) e Eu sou Terrível (Roberto e Erasmo), o rapaz do Karman-Guia ordenara ao balcão:
— Dá um Chic-Chic aí!
O casal do Fusca apeou, queria uma “novidade” que só se experimentava no Rio. Bananas fatiadas ao comprido. Sobre elas, três bolas de sorvete: baunilha, chocolate e morango. Tudo regado a xarope de chocolate, marshmallow e cerejas ao maraschino.
O Chic-Chic era a versão mané — e nem por isso menos saborosa — do Esquibon. E a “Banana Split” acabava de ser apresentada, senão à Floripa, pelo menos à Praia de Fora. Ao balcão, “seu” Didi, o zeloso filho da “dona”, que sempre avisava aos “habitués” quando havia sorvete de butiá.
Em rápidas aparições, como “supervisora”, surgia ao palco do estabelecimento a inovadora proprietária, papel garantido no Amarcord local. Seu apelido era o “emblema” que emprestava caráter e identidade ao lugar: A sorveteria da Dona Cocota...
Ali, entre um “Chic-Chic”e uma “Banana Split”, namorou e resplandeceu a sociedade florianopolitana, ao som de todos os bons sucessos.
Entre eles, Satisfaction, que um jovem de 22 anos extraía de sua guitarra, fazendo concorrência aos Beatles.
Mick Jagger e Keith Richards também frequentaram a Cocota.
Era o tempo em que a Beira-Mar não existia, o Ponto Chic pontificava — fornecendo a rubiácea para o “Senadinho” — e os Carnavais aconteciam em torno da Praça XV.
Postado por Sérgio da Costa Ramos