Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts de setembro 2009

Obscurantismo

30 de setembro de 2009 1

Parlamentares, destituídos de espírito público e da compreensão do que seja uma Constituição, votam emendas a granel. Precisam estudar a história da democracia e da única Constituição dos EUA, de 1787 até hoje. A carta americana de Filadélfia conta com apenas sete artigos e 27 emendas — sendo que as 10 primeiras emendas constituem o Bill of Rights, direitos pétreos e fundamentais do cidadão.

No Brasil, criam-se PECs para arranjar emprego para vereadores e cartorários. Quinhentos artigos e 471 emendas? É Constituição ou cartela do Jogo do Bicho?

Postado por Sérgio da Costa Ramos

Bookmark and Share

Carta da alegria

30 de setembro de 2009 0

Para um país que conta com uma Constituição macarrônica, hipertrofiada, com quase 500 artigos e emendas criadas ao sabor de interesses pequenos e mesquinhos, mais uma emenda — a PEC 471 —, que dispensa a realização de concursos públicos para o provimento de titulares de cartórios, não chega a ser nenhuma surpresa.

É emenda obscura, "trem da alegria" para uma centena de cartórios em Santa Catarina.

Postado por Sérgio da Costa Ramos

Bookmark and Share

Mítico 3 de outubro

30 de setembro de 2009 0

Está chegando o dia que, por emblema, se tornou a data "registrada" para as eleições nacionais, em anos pares, desde os tempos em que vigorava a democracia do "bico de pena".

Na República Velha, as eleições eram falsas, mas a representação era verdadeira. As eleições não prestavam nem eram confiáveis, mas os deputados e senadores eram da melhor qualidade.

Ao contrário do que sucede hoje: as eleições são um exemplo para o mundo, com um sistema totalmente informatizado infenso a fraudes. O resultado é apurado de forma quase instantânea e totalmente confiável.

Ou seja: temos o melhor sistema eleitoral do mundo e... os piores eleitos. O povo brasileiro usufrui do privilégio de contar com o método mais aperfeiçoado de eleger, de forma honesta, um... facínora, um ficha-suja, um amigo do alheio.

Eleições são reflexos dos momentos de maior ou menor aperfeiçoamento institucional dos países, dependendo do seu "momento" político, social e econômico.

Do que nunca se ouviu falar foi das eleições do ponto de vista das crianças — testemunhas involuntárias das paixões do mundo adulto. Nunca alguém se preocupou com o coração dos não eleitores — as crianças —, às vezes assustadas com o arrebatamento das posições e o duelo dos candidatos. O que devia ser um aprendizado democrático muitas vezes se transformava numa rixa entre famílias.

Minha memória guarda algum material paleolítico das eleições dos anos 1950 — quando o 3 de outubro foi consagrado como "o dia das eleições". Era tempo do PSD contra a UDN — o PTB, de Getúlio Vargas, como fiel da balança.

As comemorações eram quase "futebolísticas", com passeatas, carreatas, rojões e fogos de artifício — um tempo em que as torcidas acreditavam no "produto". Hoje, predomina uma abulia, que é a total ausência de vontade:

— Se o eleito não roubar, já está bom...

Os garotos das famílias "vencidas" sofriam com o barulho dos vitoriosos — rojões, foguetes de assobio, busca-pés. Era mais ou menos como ser Anne Frank, trancafiada naquele sótão de Amsterdã.

Filho de pessedista juramentado, recolhia-me ao quarto como quem buscasse abrigo numa casamata. Logo nossa casa seria alvo de toda a artilharia pesada da UDN, cuja pontaria teria causado inveja às tropas dos generais Patton e Bradley, na invasão da Normandia.

Contrastando com o espocar dos fogos e do champanha dos adversários, o reduto vencido apagava as luzes, como se o mundo estivesse em guerra e o black-out fosse obrigatório. Só para fingir que não havia ninguém em casa.

O drama continuava no dia seguinte, nas salas de aula do Colégio Catarinense. O inimigo flauteava e, aí, o amor próprio exigia o duelo "reparador".

— Cospe aqui!

Escolhiam-se as armas e o desafio era imediatamente anunciado à classe inteira, com hora e local marcados, numa espécie de prorrogação da disputa eleitoral:

— Vai ter pau na Leiteria!

Com dois galos e um beiço inchado, salvava-se a democracia e o Brasil.

Postado por Sérgio da Costa Ramos

Bookmark and Share

Cruz e a chuva

29 de setembro de 2009 0

Premonitório poema de Cruz e Sousa, a Litania dos Pobres emociona: "Procurando o céu, aflitos/E varando o céu de gritos/ Faróis à noite apagados/Por ventos desesperados/Inúteis, cansados braços/Pedindo amor aos pedaços/Arcas soltas ao nevoento/Dilúvio do esquecimento/ Perdidas na correnteza/ Das culpas da Natureza."

Postado por Sérgio da Costa Ramos

Bookmark and Share

Ladainha

29 de setembro de 2009 0

Entre as vítimas da natureza enlouquecida, dói ver o sofrimento dos muito pobres, aqueles que compram um fogão em 30 prestações de R$ 29 e testemunham, mais uma vez, a tragédia de ter a casa invadida pelas águas. Foi para esses que Cruz e Sousa compôs a Litania dos Pobres. "Litania" é prece, oração, "ladainha".

Postado por Sérgio da Costa Ramos

Bookmark and Share

Famoso clima ruim

29 de setembro de 2009 0

A chuva havia coberto as montanhas com uma neblina, que cobria as florestas até o tornozelo. O mau tempo era uma tônica que se repetia com a perversidade de uma "doença". Ventou e choveu gelo no mês de setembro de 1763.

Debaixo de uma densa cortina d`água, o navegador francês Louis Antoine de Bougainville ordenou "âncoras ao mar" aos seus imediatos nas corvetas L`Aigle e Le Sphinx, ambas sob as cores do bleu, blanc et rouge.

Fazendo as vezes de repórter social, o naturalista Antoine Joseph Pernetty — que era o Pero Vaz de Caminha da expedição — anotou as circunstâncias do encontro entre o governador Francisco Cardoso de Menezes e Souza e o almirante Bougainville:

"Fomos jantar na casa do governador e, por este motivo, seguimos para a pequena vila onde ele tem residência, cujo nome, em português — Nossa Senhora do Desterro — transpõe-se para o francês como Notre Dame de L`Exil ou de la Vierge Exilée."

A alta oficialidade das fragatas francesas pôde ver, então, toda a pobreza da vila: "As casas são construções ao rés-do-chão, como a dos nossos camponeses, só que muito mais despojadas. São ordinariamente cobertas de canas e folhas de bananeiras ou de alguma outra espécie de junco. Normalmente, não se veem chaminés. Os negros escravos aprontam suas comidas sobre um fogo aceso no meio do quarto e ali vivem, sem se incomodar, no meio da fumaça."

Na única boa residência da Ilha, esperava-os o governador Francisco, com o seu franciscano jantar. Couvert posto e mesa servida, os oficiais foram "apresentados" aos dignitários locais: o chefe de Justiça, um major da Praça, dois outros oficiais e um padre franciscano, "que sequer sabia Latim".

Os pratos — anotou Pernetty — estavam preparados à moda da região, mas "bem mal preparados no gosto dos franceses", que se desencantaram com aquela falta de sofisticação.

"O pão, sobretudo, me pareceu muito ruim, com a superfície dura, tendo ficado pouco no forno. A refeição era composta por ecas de caça, coelhos e aves, todos preparados com açúcar, que colocavam em todos os molhos, assim como o açafrão."

Se Bougainville não aprovou o menu do governador, com certeza ficou bem impressionado com a Ilha e sua beleza selvagem. Mas, sem surpresas para nós — dois séculos e meio depois de enchentes e lestadas —, "detestou o clima", "que é abafado e chuvoso, prisioneiro dos vapores e da condensação".

Pernetty também esconjurou o clima:

"Falta alguma coisa para que a Ilha seja uma moradia encantadora. Os leões, as panteras e os tigres predominam nas vastas florestas. O ar é insalubre, os homens estão, talvez pelo calor excessivo, num singular estado de inércia, e a natureza só contribui para consumir os seus habitantes."

Não mudou muito o clima. Os leões, as panteras e os tigres sumiram. Ficaram as neblinas baixas que encobrem as montanhas e as vestem, do cocuruto ao tornozelo.

E se alguma jibóia ficou, foi a do trânsito. Que segue, imensa no seu perpétuo estorvo, "coleando e se arrastando" pelas ruelas de asfalto.

Postado por Sérgio da Costa Ramos

Bookmark and Share

O pires

29 de setembro de 2009 1

Muito mais previsível do que a escolha de uma sede olímpica, a tragédia do clima, em Santa Catarina, não conta com um "fundo" semelhante. Já não seria a hora das autoridades se conscientizarem de que chuvas e tornados passaram a "assinar o ponto regularmente", de uns anos para cá? Ao invés de contarem com um racional "fundo de contingência", específico para o socorro de catástrofes cada vez mais recorrentes, as autoridades gostam mesmo é de "correr o pires em Brasília" — e encontrar um bom "bode expiatório" para as promessas não cumpridas.

Postado por Sérgio da Costa Ramos

Bookmark and Share

Corrida de fundo

29 de setembro de 2009 1

Não há quem, sendo brasileiro, não torça para a candidatura olímpica do Rio de Janeiro, cuja anúncio final virá à luz nesta sexta-feira, em Copenhague. Mas a "mão grande" já está aparelhada. Acaba de passar pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado um "fundo especial", lastreado no Tesouro, destinado a "cobrir eventuais déficits operacionais do comitê organizador". Isto é que é burocracia prevenida.

Postado por Sérgio da Costa Ramos

Bookmark and Share

Novos pecados

27 de setembro de 2009 2

A “Árvore do Mal” ganhou novos frutos, além da velha e simbólica maçã.

O Papa Bento XVI continua achando que usar camisinha é praticar um hedonismo pouco cristão. Mas acaba de pendurar novos pecados na árvore do mal, habitada pelas novas serpentes da “modernidade”:

Manipulação genética; poluição do meio ambiente; disseminação da pobreza; injustiças sociais; traficância de drogas e enriquecimento ilícito.

Ora, o “último” desses novos pecados nunca foi tão velho. Resume-se a um antigo mandamento da tábua de Moisés: “Não roubarás”.

Os pecados agora anunciados são os “antigos”, só que de roupa nova. É como se pendurassem frutas novas nas árvores da nossa infância.

Fruta. Quem pronunciar a palavra bem devagar vai sentir o sabor onomatopaico do pecado. Não foi à toa que nasceu da semente da fruta o verbo desfrutar — deliciar-se com o fruto, apreciar o produto vegetal que vem da flor e que tem raízes no Éden.

Em se tratando de fruto, quando mais proibido, melhor. A primeira penitência do primeiro homem foi exatamente a proibição de “desfrutar”... um fruto.

Deus (o Governo?) tinha instituído as suas proibições só para “tentar” o homem, que começava a provar as suas próprias imperfeições. O criador tinha feito desabrochar da Terra toda espécie de árvores agradáveis à vista  e cheias de saborosos frutos para se comer. Menos uma árvore: a que oferecia à tentação humana os frutos do Bem e do Mal.

Quer dizer: o pecado já nasceu induzido. O fruto saboroso atraía a cupidez humana. Mas uma proibição divina “convidava” o homem à transgressão.

No afã de “proibir”, a igreja acaba estimulando, ao invés de sopitar e refrear os pecados da humanidade. Ao impor o celibato aos seus próprios ministros, proibindo a natural conjunção entre homem e mulher — uma regra da natureza para o bem da família humana  — as leis canônicas se tornaram muito mais empedernidas do que as tábuas do Monte Sinai.

Proibições destituídas de razão — como a que impede um homem de Deus de constituir sua própria família — deságuam num estuário de aberrações, como os crimes sexuais que vitimam as crianças de hoje, a mercê de comportamentos tão repelentes e abjetos como os da pedofilia.

Nenhum bom católico (ou cristão) apóia experiências genéticas aberrantes, como a disseminação de clones humanos. Mas há caridade na Ciência, sempre que esta se condói com o sofrimento humano, ou busca a cura de graves afecções humanas no parque genético das células-mães.

Barrar pesquisas com células-tronco, por considerar esse material um “ser” dotado de direitos e de personalidade jurídica, é uma proibição “aberrante”, que se choca com a razão.

Não basta proibir o fruto. É preciso saber o que uma verdadeira criatura de Deus fará com ele.

Se um cientista descobre a cura do diabetes ou do pior câncer através de uma célula humana a serviço do Bem — por que insistir em pendurar esse fruto na Árvore do Mal?

Postado por Sérgio da Costa Ramos

Bookmark and Share

Um tempo na Praia de Fora

27 de setembro de 2009 0

Detalhe do cartaz de Amarcord, de Fellini/Banco de dados

Um Karman-Ghia vermelho e um fusca “azul-calcinha” estavam estacionados bem em frente daquele que era o ponto de encontro dos jovens, em duas eras que  conviveram por pequeno lapso de tempo: os anos dourados e os anos de chumbo.

De seus rádios de bordo, dois tons acima de decibéis toleráveis, ganhavam o éter dois sucessos da época:

— Upa negrinho na estrada/ Upa pra lá e pra cá/ Virge que coisa mais linda/Upa negrinho começando a andar...

A voz de Nara Leão, frágil, mas afinadíssima, era um suave contraponto à  voz modulada de Chico Buarque:

Hoje o samba saiu, procurando você/ Quem te viu/ Quem te vê/…

Dentro dos automóveis, sonhos de consumo de uma sociedade na infância da industrialização,  dois casais de namorados, vivendo romances eternos, ou simples arrulhos de verão, enquanto o rádio continuava contando a história da época.

A BandaDisparada, Louvação, Canto de Ossanha, Procissão, Domingo no Parque, Alegria, Alegria, Ponteio, Namoradinha de um Amigo Meu, Máscara Negra, Roda Viva, California Dreamin`, All You Need is Love...

Nara, Elis Regina, Jair Rodrigues, Gilberto Gil, Caetano, Edu Lobo, Roberto Carlos, The Mamas and the Papas, os Beatles.  A música, os compositores – e o lugar... Aquele lugar que, combinado com o som, haveria de compor uma sinfonia de eternidade.

Estivéssemos nos anos 40, o lugar poderia ser a Tabacaria da gorducha de úberes fartos, “iniciadora” de Federico Fellini na Rimini de Amarcord, ao som da magnífica trilha sonora de Nino Rota.

Vivêssemos em Casablanca, Marrocos, em  plena Guerra, ano de 1942, ouviríamos Sam tocar As Time Goes By, outra vez, contra as ordens de Rick Blaine, o dono do Café Américaine.

Mas estávamos aqui, em Floripa, a bordo dos nossos bólidos de época,  trocando beijos com a namoradinha e ouvindo a bela e nova safra de compositores de um tempo florescente para o Mundo — e inquietante para o Brasil.

Na mesma época em que Mary Quant elevava as saias 20 centímetros acima dos joelhos, a Inglaterra ganhava a VIII Copa do Mundo, os Beatles compunham Lucy in the Sky with Diamonds, o Congresso, servil, elegia Arthur da Costa e Silva presidente do Brasil, a CIA assassinava “Che” Guevara nas selvas da Bolívia e — numa centelha do iluminismo científico — o cirurgião sul-africano Christian Barnard realizava o primeiro transplante de coração humano.

Entre Penny Lane (Beatles) e Eu sou Terrível (Roberto e Erasmo), o rapaz do Karman-Guia ordenara ao balcão:

Dá um Chic-Chic aí!

O casal do Fusca apeou, queria uma “novidade” que só se experimentava no Rio. Bananas fatiadas ao comprido. Sobre elas, três bolas de sorvete: baunilha, chocolate e morango. Tudo regado a xarope de chocolate, marshmallow e cerejas ao maraschino.

O Chic-Chic era a versão mané — e nem por isso menos saborosa — do Esquibon. E a “Banana Split” acabava de ser apresentada, senão à Floripa, pelo menos à Praia de Fora. Ao balcão, “seu” Didi, o zeloso filho da “dona”, que sempre avisava aos “habitués” quando havia sorvete de butiá.

Em rápidas aparições, como “supervisora”, surgia ao palco do estabelecimento a  inovadora proprietária, papel garantido no Amarcord local. Seu apelido era o “emblema” que emprestava caráter e identidade ao lugar: A sorveteria da Dona Cocota...

Ali, entre um “Chic-Chic”e uma “Banana Split”, namorou e resplandeceu a sociedade florianopolitana, ao som de todos os bons sucessos.

Entre eles, Satisfaction, que um jovem de 22 anos extraía de sua guitarra, fazendo concorrência aos Beatles.

Mick Jagger e Keith Richards também frequentaram a Cocota.

Era o tempo em que a Beira-Mar não existia, o Ponto Chic pontificava — fornecendo a rubiácea para o “Senadinho” — e os Carnavais aconteciam em torno da Praça XV.   

Postado por Sérgio da Costa Ramos

Bookmark and Share