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O tempo da bernunça

15 de janeiro de 2010 2

Ilustração de Felipe Parucci

Entre o Dia de Reis e o Carnaval, era o tempo de “vadiá de boi”, segunda metade de janeiro, como agora, embora não se veja mais o auto popular do “boi” neste verão de 2010.

Operação complicada, que começava com a máscara do boi, feita de barro e cozida em fornos, com a ancestral técnica dos artífices oleiros. Se reunisse os predicados de “parecença”, resistência e beleza, a máscara valia alto preço no mercado do bumba-meu-boi.

A “cabeça” era, então, apresentada à turma, como um troféu. Obtida a peça principal, as outras não careciam de tanto capricho. A cabrinha, coitada, contentava-se com uma cabeça mínima — uma pelota espetada naquela carroceria “dançante”.

Dançar — e bem — a arenga do boi-de-mamão era coisa séria, requeria treino e preparo físico. Era preciso o coral improvisado pelas próprias “figuras”, mais a percussão, os chocalhos, pandeiros e reco-recos. E talvez uma cornetinha galhofeira, para o “ato” do urubu.

A armação da bicharada exigia engenho, arte e algum atrevimento dos guris, que surrupiavam “materiais” nos armários das próprias famílias. Um casaco de pele velho dava o urso. Lençóis sobrepostos e tingidos de negro forneciam o “couro” do boi. E houve até uma cabrinha chic, que apareceu num fino linho S-20, condenando o doador — ingênuo e inadvertido garoto — a medonha surra do pai, inconformado com o “corte” usado naquela farra.

Roteiro e elenco variavam de bairro para bairro, até de esquina para esquina. Era incerto o número de “figurantes” — cada grupo se esmerando em produzir novidades. Um “boi” de linha continha, obrigatoriamente, o boi — malhado, como convinha — o vaqueiro Mateus, o urubu, o feiticeiro ou o doutor, a cabrinha, o cavalinho e a bernunça. Alguns bois novidadeiros acrescentavam o urso-pardo e alguns “monstros”, como o “cururu” e a “jaruva”. Em São José, havia também uma girafa e um sultão — numa incrível mistura de culturas.

Alevanta boi dourado
alevanta devagá,
vem cá meu boi, iá-iá…

Os versinhos, óbvios, com as cantigas-temas de cada bicho, forneciam a “cortina musical” para o auto folclórico e mandavam um recado ao dono da casa, preparando-o para o bordejo final:

O meu cavalinho,
ele já chegou,
e ao dono da casa
já cumprimentou…

Era o sinal para o dono da casa, diante da qual se desatava o “teatro”. Ele deveria ir lá dentro buscar uns bons cobres para satisfazer a rapaziada, entre eles — muito provavelmente — o filho e os sobrinhos do patrocinador.

Quando o coral atacasse uma das músicas do cavalinho, ou da bernunça — geralmente deixada para a “apoteose”, o dinheiro da dança já deveria estar nos bolsos dos tesoureiros. Do contrário, a bernunça chiaria:

A bernunça é bicho brabo,
engoliu Mané João,
come tudo, come tudo,
come tudo o que lhe dão,
um “dinheirim” aí, dotô,
não vai dá indigestão…

Minha avó não me perdoou o “boi” vestido por sua colcha de crochê, mal tingida de preto, os artísticos alto-relevos expostos na lombada do bicho — no que há de ter sido o primeiro e único “boi-gay” da história do festivo auto de verão.

Se o “boi” da colcha tricotada acabou merecendo a anistia de minha avó, nossa última bernunça por pouco não lhe provocou uma síncope: as duas bocarras da grande cobra devoradora de gente — duas grandes tampas de madeira, que produziam som cavo e característico — foram identificadas como as portas de um velho guarda-comida que a generosidade de dona Ester reservara a uma pessoa pobre.

Nunca houve bernunça igual. Sua boca era, literalmente, o armário do “guarda-comida”. Duas portinhas travadas por uma tramela, agora “adaptadas” para o papel de “boca” do bicho-dançarino.

Não fiquei sem jantar naquele dia porque vó perdoa tudo.

Postado por Sérgio da Costa Ramos

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Comentários (2)

  • Jóe José Dias diz: 15 de janeiro de 2010

    As crônicas de Sérgio da Costa Ramos, muitas vezes, desnudam um certo saudosismo e bucolismo, ambos descritos à moda dos melhores cronistas. E esta não é diferente.

  • Mascotes » Blog Archive » Contra a farra, mamão diz: 21 de março de 2010

    [...] SC, obrigado, pessoal! – recomendo o post O Tempo da Bernunça, do escritor Sérgio da Costa Ramos. Clique aqui e boa [...]

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