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Posts de junho 2010

Pelo mar

30 de junho de 2010 0

O maior urbanista espanhol, Josep Anton Acebillo, o arquiteto que reinventou Barcelona, diagnosticou, recentemente, em Floripa: o metrô ainda é um luxo, pois não há densidade de demanda (25 mil pessoas/hora) que justifique o seu custo. Um pequeno trecho de metrô, passando pela ponte, custaria quase US$ 400 milhões. O urbanista sugere o desenvolvimento do transporte marítimo para a Ilha como o mais eficiente e adequado na relação custo/benefício.

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Cruz na Praça

30 de junho de 2010 0

O poeta Cruz e Sousa sentou-se no banco sob a figueira — que lhe é 45 anos mais moça, só foi plantada em 1906, e o poeta é de 1861. Mas, nos dias de hoje, tanto o poeta quanto a figueira transcendem o tempo e os simbolismos.

Um facho do sol matutino tingiu-lhe as carapinhas de um raio fúlgido, dourando a face do poeta e revelando à Praça XV à volta do filho ilustre, ainda que para uma fugaz visitinha.

Sentei-me, tímido e reverente, diante do príncipe do Simbolismo e saudei o poeta com uma de suas aliterações e jogos vocálicos mais impressionantes:

Que vozes veladas, veludadas vozes te saúdem, ó sinfônico poeta!

Lamentei que o "velho vento vagabundo" não estivesse presente para levar ao longe o nosso lamento, diante das injustiças deste mundo.

— Nossos magistrados superiores, caro poeta, continuam prendendo Jesus e soltando Barrabás...

O simbolista não se surpreendeu, nada mudou no Brasil dos privilégios, desde que o departamento de "Recursos Humanos" da Central de Brasil quis demitir o seu escriturário negro — só porque ele faltou alguns dias ao trabalho. Não porque quisesse, mas porque estava muito doente, expelindo hemoptises pré-mortais.

Agora mesmo, um desavergonhado projeto de lei concede aumentos de luxo aos habitantes do "País-Brás", aqueles eternos apaniguados do Senado ou da Câmara Federal. E o contribuinte que vomite a sua impotência e a sua frustração.

Nada mais surpreende o poeta, que a tudo observa lá de sua cadeira do etéreo espaço. Ele sabe que a vida aqui embaixo continua obscura, como naquele seu poema de dor:

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres,
Embriagado, tonto de prazeres,
O mundo  para ti foi negro e duro...

Mas lá, onde hoje mora, no Nirvana dos Justos, o poeta já não sente a mesquinhez dos que não lhe reconheciam o talento, a usura dos que não lhe perdoavam as dívidas, a inclemência dos que lhe cortavam "o ponto", o racismo dos que o segregavam pela cor da pele. O poeta levita, hoje, sobre todas as misérias humanas — e sua fortaleza moral pode nos servir de consolo.

O bigode e o conhecido perfil iluminados pelo sol da manhã emprestaram às primeiras palavras do poeta um tom ao mesmo tempo "natural" e solene:

— Desterro está mudada. Superpovoada. Mas vejo que a pobreza está descendo dos morros, mudando-se para as periferias da vida. Ah, meu amigo, o homem continua sendo aquele animal carnívoro, que se alimenta da carne dos mais fracos...

Testemunhando a "imunidade" que os tribunais concediam aos poderosos, o poeta recitou alguns de seus versos mais simbólicos e consentâneos com a ocasião:

Mendigos que o sol
Apenas torna nababos felizes,
Torna mais serenas as convulsas cicatrizes...

— É o teu poema Mendigos, não é mesmo?

— São versos meus, meu filho. Ainda valem para os dias de hoje...

Cruz e Sousa sabe de tudo, da iniquidade da Justiça, da voracidade dos cobradores de impostos, da impunidade geral. Sabe que o povão vai mal e que "aqueles que fazem as leis para si" vão muito bem a bordo de suas sinecuras. Mas há alguma curiosidade pairando em suas sobrancelhas:

— E os pobres da Ilha, como vão?

— Respondo com outra estrofe do teu poema:

Mendigos d' estranho aspecto
E sempiterna vigília,
Filhos nômades, sem teto,
De milenária família...

Chocado com a leniência dos altos tribunais, Cruz e Sousa recitou , por emblemáticos, aqueles seus versos da segunda estrofe do soneto Quando Será?:

Quando será que as límpidas frescuras,
Dos claros rios de ondas estreladas
Dos céus do Bem , hão de deixar clareadas
Almas vis, almas vãs, almas escuras?...

Na manhã sob a figueira, o poeta cerrou os olhos numa reflexão — e deixou a pergunta no ar, antes de sumir entre os ramos da verde amiga:

— Quando, no Brasil, as almas claras vão superar as escuras?

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O estaleiro

30 de junho de 2010 0

A OSX, empresa do investidor Eike Batista, projetou para a costa de Biguaçu, na entrada da barra da Baía Norte, o mais moderno estaleiro naval do mundo, 1,3 milhão de metros quadrados, para ali instalar, sob o menor impacto ambiental possível, a fábrica de navios-sonda e plataformas off shore, investimento inicial de R$ 2,5 bilhões. Se for implantado, será o maior investimento privado da história de Santa Catarina, gerando 5 mil empregos diretos e 12 mil indiretos, num aquecido mercado cuja demanda previsível — incluindo a petrolífera do próprio grupo, a OGK, e a Petrobras — chega a inenarráveis R$ 110 bilhões para os próximos 10 anos.

Embraer do mar

Esta é a melhor visão prospectiva de futuro para um pequeno município que pouco havia evoluído de uma atividade primária para uma incipiente e precária industrialização. Qual o futuro de Biguaçu e região sem a transformadora instalação dessa companhia naval? A esse polo a empresa projeta agregar o Instituto Tecnológico Naval, braço tecnológico do investimento, absorvendo expertise coreana para a construção de módulos de refino, de geração de energia e de plataformas marítimas para a exploração em águas profundas. O ITN fará da OSX, prevê o empresário, uma espécie de "Embraer dos mares". "Não haverá petroleiros navegando na área", garante. Os barcos encomendados deixarão o estaleiro para operação no circuito do pré-sal. Bem longe de Biguaçu.

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Ora, a lei

29 de junho de 2010 2

Partidos políticos começam a aceitar o registro de nomes condenados por juízos colegiados, num flagrante desafio à Lei da Ficha Limpa, valendo-se do dispositivo que admite recurso contra a inelegibilidade. O papel dos partidos não deveria ser de "primeiro filtro" contra os sujismundos? O que esperar de partidos que preferem pagar multas e transgredir a Lei Eleitoral, meros R$ 5 mil por "campanha antecipada"? Lula, Dilma, Serra e Aécio já pagaram a "gorjeta".

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Prepare o tímpano

29 de junho de 2010 2

A maior fabricante de vuvuzelas do mundo — acreditem — fica no Brasil e em São Paulo. Chama-se Brasilflex e trabalha 24 horas por dia para atender a demanda. Nos últimos seis meses, a empresa abriu um terceiro turno para mais 50 trabalhadores. A África do Sul, que também fabrica o cornetão, acaba de importar três contêineres da empresa brasileira — que não dá conta de atender a todos os pedidos. Já reajustou o preço do produto em mais de 100% — de R$ 1,20, chega ao consumo por R$ 3. As vendas cresceram 80% em relação às da Copa de 2006. E a de 2014 promete: a empresa espera ver a vuvuzela tomar conta dos estádios brasileiros já a partir do recomeço do Campeonato Brasileiro, no dia 14 de julho. Como o Brasil imita tudo que é ruim — quem não acredita?

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Fifa-Tec

29 de junho de 2010 0

Os erros de arbitragem começam a ficar caricatos na Copa do Mundo. Em cada jogo, correm duas "versões". As que os telões reproduzem e aquelas que os árbitros enxergam. Ou a Fifa admite a tecnologia que ela mesma instalou nos estádios, "unificando" as versões, ou corre o risco de ter que reprimir multidões inconformadas com a manipulação de resultados. Se o tênis e o basquete já adotam a tecnologia, por que não o futebol? O quarto árbitro, com um monitor à beira do gramado, interviria em "aberrações" como o gol inglês que só o olho humano não viu.

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Do freguês aos laranjas

29 de junho de 2010 0

No começo, foi sofrido. Se fosse um jogo pra mostrar quem ganhou mais vezes o Prêmio Nobel, já começaríamos perdendo de 2 a 0, gols de Gabriela Mistral (1945) e Pablo Neruda (1971).

Como era um jogo de futebol, nossa vantagem era imensa. O Brasil já ganhou o Nobel do futebol cinco vezes — e nutre uma bem nutrida esperança de vencer a sexta.

Nos últimos cinco jogos, o Brasil fizera 20 gols contra apenas 3 dos "Mapuches". Agora, são 23 a 3. E na história do Chile não há nenhuma glória futebolística. Ao contrário. Na história das Copas, a campanha chilena é de uma franciscana pobreza. Esse retrospecto não apaziguara o técnico Dunga, que adotara o velho discurso de valorizar o adversário: "É um time muito rápido e competitivo, que incorporou a mentalidade do seu técnico".

Antes do jogo, nosso técnico se queixou da vida — e falou, em italiano:

— No Brasil, técnico de futebol é um saco de pancadas. Só temos o direito de vencer. E não pode ser uma vitória qualquer. Tem que ser "dando espetáculo", com gols bonitos. E não basta ser um  show. É preciso que seja com muitos gols. Uma goleada de sete ou oito. E se vencemos com muitos gols, dando espetáculo, a imprensa sentencia: o adversário era muito fraco...

Não foi o caso do Chile, pelo menos nos primeiros 30 minutos. Depois dos 33 minutos de um jogo equilibrado, o zagueiro Juan subiu ao décimo andar e colocou ordem no edifício de Ellis Park.

Cabeceou com estilo — e devolveu ao Chile o seu papel de coadjuvante.  Então, nunca se viu um adversário mais "talhado" para perder este jogo pelas oitavas de final da Copa. Em 1998, foi 4 a 1. Na Copa América, 6 a 1. Nas eliminatórias, 3 a 0 em  Santiago e 4 a 2 no Brasil. Pronto. Outro 3 a 0. O Chile estava domado. Era "bater o ponto" e  começar a pensar no jogo contra a Holanda.

Faltava ao freguês cumprir toda a sua sina. Aos 36, 3 minutos depois, o Brasil jogou bonito como gosta a torcida. Robinho contra-atacou, deixou com Kaká, que, num toque sutil, colocou Luís Fabiano na chamada "cara do gol": 2 a 0.

O segundo tempo nasceu com o Chile no ataque, como sempre. E levando gol no contra-ataque, como sempre. Aos 13 minutos, em bela arrancada de Ramires, Robinho fez carinho na Jabulani e lhe aplicou o "tapinha que não dói": 3 a 0. Estávamos nas quartas de final, com muita eficiência e até alguma arte.

O "freguês" foi sumindo de campo, domado pelos guerreiros do capitão Lúcio. Não assustou, nem deu muito trabalho ao inexpugnável Júlio César. Mais do que o ingresso às quartas de final, contra a Holanda, o Brasil ganhou um definitivo alento: "achou" o seu time, encontrou o ponto de equilíbrio, com um meio campo muito mais criativo — com Ramires, Daniel Alves e Kaká.

Este é o time, desafiadora é a sua missão. Ganhar da "Orange" nesta sexta-feira de manhã para que as portas da glória se abram nos belos horizontes da África, embalados pela calorosa torcida dos Bafanas.

Ao Chile, restou o último Canto General do artilheiro Pablo Neruda:

Olho pela janela e vejo o longo corpo do Chile, num ocaso de angústia,
mas nosso sonho não morre...

O sonho da liberdade não feneceu, desde que o coração do poeta foi desligado pela opressão, mas ao Chile os deuses do futebol não deram a liberdade da glória autóctone. Como em 1962, à beira da cordilheira, restou-lhe torcer pelo vizinho, a quem o poeta sempre homenageou.

Se Neruda quiser seguir conosco, junto com Nelson Mandela, muito nos honrará a sua benção.

A benção, poeta! — e desculpe os 3 a 0...

A Laranja já nos espera, receosa como uma vergamota, prestes a perder os gomos, na festa da Trindade...

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Os indesejados

28 de junho de 2010 2

As autoridades só querem saber de campanha. Ninguém move uma palha para assegurar um investimento de R$ 2,5 bilhões. Mas aceitam, placidamente, o Estado se transformar em hotel de seis dos mais perigosos facínoras do narcotráfico mundial, quadrilha de sérvios cruéis, artífices do narcocomércio no cone sul. Por que a PF não os aloja nas penitenciárias de segurança máxima de Presidente Prudente e Campo Grande? Esses bandidos planetários estão mapeados para se hospedar em São Pedro de Alcântara.

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Economia verde

28 de junho de 2010 0

A solução está no uso sensato e manejado dos recursos naturais, posto que a pior tragédia a rondar terras e águas é o mal da ignorância, do atraso, da pobreza endêmica, da falta de empregos, do narcotráfico. Não a ciência, a tecnologia e a indústria, que, bem administradas, são instrumentos de superação da fome, das doenças e da miséria. Ninguém melhor do que o presidente da Fatma, Murilo Flores, definiu o processo de licenciamento ambiental nos dias de hoje: "É um embate entre o meio ambiente e os interesses econômicos. E os dois têm que sair ganhando".

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Aversão ao futuro

28 de junho de 2010 1

Num mundo de capital arisco e seletivo, de aversão ao risco, o município de Biguaçu, 60 mil almas, pouco mais de R$ 4 milhões de arrecadação mensal, o menos desenvolvido dos que constituem a Grande Florianópolis, assiste a um ato de insensatez explícita, com a repulsa a um mega-investimento de R$ 2,5 bilhões e 5 mil empregos diretos, 12 mil indiretos. Com zelo ambiental, o estaleiro da OSX será construído, aqui, ou no Rio de Janeiro. Quem se responsabiliza pela exclusão de Biguaçu? E quando os exércitos do narcotráfico substituírem o Estado e a iniciativa privada na oferta de empregos?

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