Ah, seria bom se o tempo voltasse a ser previsível. Seria ótimo se no Verão houvesse sempre sol, calor e céu imaculado – não somente chuvas e trovoadas.
Seria bom se o trânsito voltasse a ser o mesmo dos anos 1960, quando ainda era possível atravessar a rua lendo um jornal comprado na banca do Beck.
Seria bom se Coqueiros voltasse ao bucolismo de outrora, as roseiras subindo pelas paredes das casinhas brancas, tranqüilas e rústicas, a cuja sombra repousava um barco, descansava uma enxada ou jazia no coradouro uma tarrafa recém-lançada.
Seria muito bom se, no frescor da manhã azul, um anzol fisgasse o passado e o trouxesse para a superfície, estrebuchante como um peixe vivo, ainda elétrico no puçá.
Seria um paru? Uma cocoroca? Um bagre ou um “biacú”?
Coqueiros exibiria palmeiras dobradas pelo vento sul, a proa de alguma canoa açoriana abrindo o mar envidraçado - que começava a se encrespar, a medida em que o vento aumentava a sua própria “respiração”.
“Homens e Algas”, de mestre Othon Gama D’Eça, mais do que um livro de contos e memórias, é um documento daquela vida à beira-mar na Coqueiros dos anos 1950-1960.
Palavras e paisagens se misturavam, texto e “aquarela” cheiravam a tinta à óleo.
Personagens se exprimiam na língua nativa dos manés-pescadores - e o escritor combinava harmoniosamente o coloquial açoriano com a luxuosa tapeçaria de seus painéis descritivos:
- Coqueiros, todos os verdes ao fundo. O verde áspero dos butiazeiros, o verde esguio dos canaviais, o verde reluzente das pitangueiras, o verde franjado dos cedros, o verde sombrio das laranjeiras e o verde crespo das goiabeiras, sob o vôo inquieto dos sanhaços.
Isso no tempo em que Coqueiros tinha butiás, canas, canoas, pitangas, goiabas e passarinhos. Hoje tem um trânsito pesado e uma crônica policial que já é digna de contos nada bucólicos, mais para Alfred Hitchcock do que para Othon D’Eça.
Seria bom se a vida voltasse a ser doce (por que éramos jovens?) , apesar da amargura de James Dean – o Karl de “Vidas Amargas”, de Elia Kazan, impecável adaptação do “East of Eden”, de John Steinbeck.
Dean era o herói de nossa rebeldia precoce, que não passava de um grande topete e do pente atravessado no calção, como se fosse uma faca. Os jovens da Ilha pegavam o ônibus ali no Largo da Alfândega - e iam tomar banho de mar no Continente. Não se falava em “balneabilidade”, nem em “poluição”. Será que o banho era próprio? Bem, nunca peguei uma doença de pele ou vi algum cocô boiando, em mais de “trocentos” mergulhos do trampolim do Praia Clube.
Queria muito pegar o “Gostosão” (ônibus) – frente embutida, motor recuado, “pra dentro”, entre o motorista e os passageiros da janelinha – e nele subir outra vez a Felipe Schmidt, a rapaziada em pé no corredor, recendendo ao óleo dos bronzeadores, resposta ao Verão em curso. O trajeto incluía passagem sobre o assoalho de tábuas da ponte - e, depois, sob a sua estrutura, na estrada de terra que serpeava até o aclive da igrejinha, ponto em que o ônibus “esvaziava”, bem em frente ao Praia Clube.
No caminho, as casas dos pescadores mostravam, como na prosa de Othon D’Eça, “janelas besuntadas de azul, com uma data no alto - e ranchos esguios, baixos, cobertos de folhas salitradas e canoas que cheiravam a algas e tintas frescas”...
Seria bom se o tempo voltasse. Seria.