
Por AMANDA MUNHOZ - amanda.munhoz@diariogaucho.com.br
Com apenas três meses, Maria Isabelly Gebert da Silva já foi apresentada à burocracia e ao descaso da saúde de seu município. Atestada com o pé direito torto ainda no útero da mãe, a manicure Kayulane Francine Lopes Gebert, 20 anos, sabia da necessidade que sua filha tinha de sair do Hospital Dom João Becker, onde a menina nasceu, com gesso. Dia 11 de abril deste ano, a linda garotinha de olhos azuis nasceu.
A alegria de ter um casal de filhos - ela também é mãe de Kauê, dois anos -, logo transformou-se em preocupação. Mandaram mãe e filha para casa, sem a botinha indicada.
- Levei a ultrassonografia morfológica comigo no dia em que dei à luz. Eles sabiam que ela precisava colocar gesso - explica a moradora do Bairro Boa Vista, em Gravataí, com um olhar que revela a sua angústia.
"Às vezes, penso em desistir"
O desespero da mãe é pela estrutura que a família não tem para encarar uma situação dessas.
Nem por um instante, faltam forças para Kayulane brigar pelos direitos da filha. O problema é outro:
- A médica me disse que o pezinho poderia ir para o lugar nos primeiros três meses. Depois, é possível que precisará ser feita uma cirurgia, mas não sei se o coraçãozinho dela aguenta- lamenta a mãe, explicando que Maria Isabelly tem o arco aórtico à direita, um problema congênito raro no coração, tratado na Santa Casa de Porto Alegre.
Seguindo a orientação do hospital, Kayulane fez o encaminhamento de atendimento para a filha no posto de saúde do seu bairro logo que deu alta.
E a resposta, de lá para cá, é sempre a mesma: que não há esse especialista em Gravataí, e que a solicitação foi encaminhada à Central de Marcação de Consultas, em Porto Alegre.
- Às vezes, penso em desistir. Mas os meus filhos são tudo para mim. Sei que preciso seguir em frente - desabafa.
Ao invés de saúde, confusão e burocracia
A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Gravataí afirma que no dia 16 de maio a menina teria consulta com o ortopedista-geral do município, na Central de Especialidades Casa Amarela. Como estava hospitalizada, a consulta foi remarcada. Ocorreu no dia 6 de junho, quando Kayulane entregou os documentos solicitados. Eram necessários para o encaminhamento à uma consulta de ortopedia pediátrica em Porto Alegre. A SMS dizia, em um primeiro momento, que a mãe não havia entregue. Ontem ainda, no final da tarde, os documentos foram encontrados e encaminhados.
Kayulane garantia, o tempo todo, que havia levado os documentos solicitados. Tem em seu poder um recibo que dá conta do que afirma.
Consulta pode ser realizada logo
A Secretaria Estadual da Saúde informa que o atendimento à menina depende apenas da iniciativa da prefeitura de Gravataí. Cidades do Interior se classificam de duas formas nesta fila por marcação de consultas. Municípios pequenos são enquadrados em uma reserva técnica, que, atualmente, tem 39 crianças esperando. Gravataí, entretanto, é um município grande. Entra em outra classificação, que tem três consultas garantidas por mês. Isabelly pode ser atendida logo. Basta ser solicitado.
Opinião de médicos especialistas
Consultados pelo Diário, os médicos Carla Cabrera e Rogério Vargas, pediatra e ortopedista, respectivamente, afirmam que a menina, provavelmente, tem uma síndrome genética. Dizem que nem sempre, nesses casos, as crianças saem engessadas do hospital. No entanto, Isabelly deveria ter sido encaminhada para um ortopedista para que o planejamento do tratamento fosse feito.
- Com três meses, ainda há o que fazer sem intervenção cirúrgica. Depois dos seis meses, só a cirurgia mesmo - afirma Carla.
O hospital diz que orientou
O Hospital Dom João Becker entende que fez sua parte. Orientou a família a buscar a rede pública de saúde.