
Por Amanda Munhoz - amanda.munhoz@diariogaucho.com.br
O pedido de Sílvia Maria da Silva Mendonça, 47 anos, para a extração de quatro dentes do filho Guilherme Renato Mendonça Cardoso, 23 anos, deveria ser de fácil resolução. Mas não é. O caso é só mais um capítulo da longa espera que a saúde de Cachoeirinha e do Estado obrigam a família do Bairro Parque da Matriz a enfrentar.
Em apenas um mês, a dor que atormenta os dias do menino autista é tão desesperadora que, sem conseguir se comunicar, a solução que Guilherme encontra é morder a própria mão. Na tentativa de nutrir o filho, Sílvia tira toda a casca de um pão e o alimenta apenas com o miolo. O balanço desses 30 dias no corpo de Guilherme é a perda de 8kg.
Comportamento preocupante
– Estou desesperada, não sei mais a quem recorrer. Até quando teremos esse descaso todo? – questiona a dona de casa, que garante não estar recebendo do município as fraldas que Guilherme precisa.
Especialistas atestaram que o menino precisa de uma internação para a extração dos dentes. E, deste procedimento, o município não dispõe. O caso foi encaminhado ao Estado, para a Central de Regulação, e aguarda a chamada.
O Diário Gaúcho, em 2004, relatou o drama da família que, desde então, batalha por uma internação do menino em uma instituição especializada em autismo. O desespero de Sílvia, à época, era para que a medicação do filho fosse revista, já que ele começara com o hábito de bater com a cabeça no chão.
Amiga resolveu ajudar a família
– De lá para cá, as coisas não mudaram e ele seguiu se agredindo. Hoje, há uma protuberância na cabeça dele e os médicos me dizem que não tem mais solução – revolta-se a mãe, que naquele ano esteve no Conselho Tutelar. A conselheira encaminhou o caso à Promotoria da Justiça.
Ao ver a situação desumana em que o filho da amiga encontra-se, Fátima Oliveira de Castro, 46 anos, decidiu intervir em busca dos direitos de Guilherme.
– Ele precisa de atendimento multidisciplinar. Se tivesse tratado, os pés não atrofiariam, e ele não perderia a mobilidade, como está acontecendo – desabafa a dona de casa, afirmando que depois que viu a situação do autista não conseguiu mais dormir.
Visita misteriosa gerou apreensão
Sílvia, hoje, está com a casa trancada. Para falar com ela, é preciso contatar primeiro a amiga. Tudo porque a família garante que recebeu uma visita de dois homens. Eles teriam entrado e perguntado qual era a situação de Guilherme.
– Depois que falei tudo, eles se apresentaram como os secretários de Habitação e do prefeito. Me perguntaram se eu queria mais uma peça na minha casa e foram embora. Ah, um deles viu o pé de alecrim que tenho no pátio e ainda pediu uma muda. Disse que a esposa gosta – denuncia Sílvia.
O secretário de Habitação, André Lima de Moraes, negou a visita à família e disse desconhecer a situação. A pessoa que o acompanhava, segundo Silvia, não retornou as ligações e não se manifestou.
Boa notícia
O secretário de Saúde de Cachoeirinha, Gerson Cutruneo, afirma que há um mandado dirigido ao município e ao Estado, confirmando a responsabilidade de ambas as partes.
Em função da burocracia, Gerson decidiu que o município vai arcar com todo o tratamento de Guilherme, que soma um total de R$ 3 mil ao mês, e depois pedir o ressarcimento do Estado. A instituição será o Inamex (Instituto de Amparo ao Excepcional), indicada pela própria Justiça.
A promessa de Gerson é que o menino passe a ter atendimento na Inamex até a sexta-feira da semana que vem.
A Secretaria Estadual da Saúde, no entanto, não respondeu à solicitação enviada pela reportagem.