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Enquanto a chaleira chia, a batata assa...

25 de maio de 2012 0

Corações de Giuseppe e Anita

O Amor, os corações vermelhos e o Chapolin Colorado!

Diante de um cenário sombrio de pichações, sujeira e inúmeras patologias, nossas obras de arte das ruas e avenidas, os monumentos artísticos, acordaram, nos últimos dias, com novidades boas nesta área... Pelo menos uma!

Um grupo de pessoas resolveu decorar os monumentos públicos com corações vermelhos pelo Brasil a fora. Segundo os decoradores urbanos amorosos anônimos, com o propósito de arrancarem sorrisos e reflexões dos transeuntes sobre o amor.

Não sei o que me comove mais: se essa inusitada versão do Profeta Gentileza sem grafites, mas com corações vermelhos, ou o próprio sentimento que move essas pessoas. De qualquer forma é uma ação pública agradavelmente surpreendente. Sim, para mim, surpreendente.

Todos os dias olho o Monumento a Giuseppe e Anita Garibaldi agonizando na Praça Garibaldi no bairro Cidade Baixa. Vejo sempre um aspecto sombrio, cada dia com mais degradações e pichações. Todos os dias, então, desanimo. Desanimo como cidadã e como restauradora. Para dizer a verdade desanimo até como pessoa, pois em dezembro de 2012 doei a restauração desta peça à prefeitura de Porto Alegre e minha doação não foi aceita. Para dizer a verdade ninguém me disse até hoje por que. Apenas que não foi aceita. Tempo depois o departamento de memória da prefeitura deu uma declaração ao jornal Zero Hora informando – ou justificando – que os monumentos estariam assim, agonizando em sua maioria, por que não havia restaurador e que as ações independentes que foram feitas nessas peças foram por motivos eleitorais.

Como? Certamente penso que estaria se referindo também ao meu Projeto SOS Monumento que doou, doou!, mais de 30 pequenas restaurações, revitalização e higienização nos monumentos da cidade e que recebeu, por ironia, da própria prefeitura, a Medalha da Cidade de Porto Alegre, Destaque Ambiental da SMAM e dois Méritos Sociais da Assembleia Legislativa do Estado, além de reconhecimento internacional. O projeto iniciou-se em 2006 e durou até 2011 e para que o leitor entenda, foi uma das únicas iniciativas concretas de conservação das obras realizada na cidade. Por isto penso que o recado foi para mim.

Isto foi mais ou menos como culpar a janela pela existência de uma desagradável paisagem de caos que encerra em si mesma a aparente inação da gestão pública na área de conservação e segurança pública. Depois é simples: fecha-se a janela e pronto!

Todos que conhecem meu trabalho sabem que nunca me candidatei e, se não mudar de ideia e concluir que o soldado do passo certo, aquele que marcha diferente de todo o batalhão, vai fazer diferença e não se tornar um excluído do contexto, não vou concorrer. Não usarei o termo peremptoriamente por que dá azar.

Os corações vermelhos dependurados nos monumentos me encheram de alegria, muito embora em alguns casos, possam degradar um pouco a peça. Mas e aí? Vide pichações!!! Pelo menos algo que todo mundo concorda que é do bem e decora, neste momento, os monumentos. Talvez como um sopro de vida a um moribundo em seu leito de morte.

Parabéns pela iniciativa que sobrepõe o amor ao descaso e à insegurança pública, condimentados sempre com a forte sensação constante de que estamos tendo prejuízos nas poucas coisas públicas que nos são legitimamente gratuitas ou que nos custam pouco, os monumentos de nossa cidade.

Foi bom olhar e ser surpreendida com uma declaração de amor. Tenho certeza de que a população vai procurar os corações e, ao encontrá-los, vai perceber que aquele local que os exibe necessita de um pouco mais de amor, de iluminação, contrapondo bons sentimentos ao corporativismo engessante do setor público... Peço aos organizadores da campanha que a estendam para as urnas das sessões eleitorais nas próximas eleições.

Conheço todos os monumentos de Porto Alegre e contei esta história em livro (“SOS Monumento: causas e soluções, Ed. Imprensa Livre). Vou me limitar a esperar o triste término da campanha dos corações e tentar me acostumar de novo com a sombria paisagem: pichações, sujeira e patologias em obras de Antonio Caringi, Xico Stockinger e tantos outros artistas maravilhosos de nossa terra que, por ironia, estão em nossa memória histórica e em nossos corações... Vermelhos!!!

Já ouvi rumores de que existirão, para a Copa ou para as eleições municipais – qualquer um dos intentos espetaculares – verbas para praças e parques e sei também que neste momento essas mesmas verbas formarão, rapidamente, profissionais bem habilitados para os trabalhos de restauro! Que seja assim... Mas que seja!

Sem os corações vermelhos para olhar e em total desespero pela orfandade, quem sabe eu não desista de tentar ajudar a conservar nossos monumentos. E, em homenagem a quem deveria tratá-los,  não o faz e ainda impede quem o faça gratuitamente e com excelência profissional, talvez eu inicie uma outra campanha: “que rufem os tambores em homenagem ao estado dos monumentos de Porto Alegre: vou colocar nos monumentos as anteninhas do Chapolin Colorado!”.

Alice Prati

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