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O que não deve morrer...

06 de junho de 2012 0

Profeta Gentileza

Gentileza gera gentileza que gera amorrr!

Para agradecer à Marisa Monte por ceder a música Gentileza, de sua autoria, para minhas palestras educativas nas escolas em 2006 e ainda para homenagear sua estadia em Porto Alegre até domingo, resolvi escrever sobre o Profeta Gentileza e colocar um pedacinho do vídeo da cantora aqui no blog.

Sobre Marisa Monte não preciso falar, todos sabem, mas não posso deixar de dar um pitaquinho amigo. Entusiasma-me ver que uma artista do quilate de Da Vinci ou Michelangelo na arte de compor e interpretar uma obra ímpar que nos toca a alma, falando inclusive de memórias, já vendeu milhões de discos. Por que não comparar? Grandes artistas são todos iguais e bebem na mesma fonte de sentimentos, sensibilidade e, indissociavelmente, técnica. Alegra-me que milhões de fãs gostem dela, é sinal que há esperança de um futuro menos sombrio do que o que nos sugerem os “quero tchus ou quero tchás” do Brasil!

Sobre o Profeta Gentileza, é dele o maior mural de caráter espontâneo na arte do grafite, produzido nas ruas do Rio de Janeiro.  José Datrino (1917-1996), o Profeta Gentileza, durante anos escreveu em muros, paredes e pilastras de viadutos e agora, uma parte mínima que restou de sua obra urbana, está eternizada e protegida em 55 pilastras do viaduto do Gasômetro, no Caju.

A recuperação dos painéis e a edição de um livro (Projeto Rio Gentileza) foram coordenadas por Leonardo Guelman e realizadas pela Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal Fluminense, com apoio da Rodoviária Novo Rio, no ano de 2000.

José Datrino, natural de Mirandópolis, era um empresário bem sucedido do ramo dos transportes no interior de São Paulo. O sobrenome Datrino significa, em italiano, “enviado pelo Divino”. Alguns estudiosos apontam que ele incorporou os elementos religiosos de seu nome em sua arte. Nos grafites, as frases possuem palavras grafadas com repetição de três letras, o que seria uma alusão à Santíssima Trindade, como em AMORRR (um R do Pai, um do Filho e outro do Espírito Santo).

O “profeta” de José Datrino, propriamente dito, nasceu em 1961, por ocasião do incêndio do Circo Americano, em Niterói/RJ, onde morreram mais de 500 pessoas. Uma catástrofe que chocou o país e que levou Datrino, então com 44 anos, até os escombros do incêndio depois de uma alegada visão espiritual que, segundo ele, revelou sua missão e o fez abandonar sua vida, sua família e seu trabalho. A bola de fogo em que se transformou o circo era para ele o sinal do fim do mundo. No lugar desolador, palco da tragédia, passou a viver. Plantou uma horta, criou um jardim, construiu um poço com água potável, distribuiu vinho e passou a consolar os familiares e amigos das vítimas.

Assim, passou a andar pelas ruas do Rio de Janeiro e pelo Brasil, disseminando sua arte e sua ética que pregavam um discurso onde a mensagem forte equilibrava-se com a forma em textos com palavras geralmente coloridas em verde e amarelo. Os escritos possuem uma grafia peculiar e desenhos esotéricos. Neles o profeta manifesta seus pensamentos e críticas e denuncia os males da sociedade, propondo atitudes mais sadias e positivas nas relações humanas.

A pergunta dos estudiosos: era louco, sábio ou profeta? Acho que podia ser louco ou profeta ou ainda ser louco e profeta! De qualquer forma, a resposta que não erra é que era um sábio, independentemente da sanidade ou da santidade. Isto deve nos bastar agora! Não devemos perder tempo pensando no mérito da aparição do profeta. É preciso somente olhar para sua obra e ver que carrega em si uma mensagem suprema e absoluta: temos que entender que o preconceito com as diferenças muitas vezes acaba impedindo que desfrutemos de belas pessoas... De belas obras... De belas memórias!

Barba e cabelos longos e grisalhos (ver foto), vestia uma bata cheia de apliques, carregando estandartes, bandeiras e cataventos os quais justificava com a seguinte frase: para arejar a mente da humanidade”.

Sua obra foi chamada de livro urbano e cada pilastra do viaduto é uma página deste livro, onde dizia que pregava a palavra de Deus e considerava-se representante da obra de São José na terra. Dono de uma marcada antipatia pelo capitalismo, o qual chamava de “Capetalismo”, escreveu:

“O capeta é o destruidor que vem do capital, é o vil metal. Faz o diabo demônio, marginal. Por esse motivo a humanidade vive mal. Mal de situação. Mau de maldade. Por que o capitalismo é falsidade.”

Viveu pelas ruas durante 35 anos pregando a gentileza entre as pessoas. Esteve no Acre, Rondônia, Ceará e chegou até a Bolívia afirmando enfaticamente que:

“Espírito Santo são todas as criaturas que respeitam os seus semelhantes.
Quem não respeita é espírito de porco.
O que devemos fazer é a limpeza do chiqueiro da porcada”.

Também recorria às parábolas para transmitir sua mensagem:

Lá no cemitério tinha uma caveira. Alguém foi lá e perguntou: Caveira, quem te matou, caveira? E ela respondeu: foi a língua ferina. Portanto, cuidado cabecinhas da humanidade, cuidado, lingüinhas...”

O profeta Gentileza levou as décadas de 70 e 80 para dar forma a seus pensamentos e sentimentos pelas ruas do Rio de Janeiro, mas a prefeitura apagou 48 delas durante limpezas urbanas, restando agora, restauradas pelo Projeto Rio Gentileza (www.riogentileza.com.br), apenas 55 grafismos. Desse episódio fala a música Gentileza, composta por Marisa Monte, que pinçou um triste momento de perda de memória da vida do profeta e, como sabe fazer e sentir, o eternizou na canção:

“Apagaram tudo, pintaram tudo de cinza. Só ficou no muro tristeza e tinta fresca...”

Mais adiante fala ainda:

“Por isso eu pergunto a você no mundo:
É mais inteligente o livro ou a sabedoria?
O mundo é uma escola,
A vida é o circo.
Amor palavra que liberta,
Já dizia o Profeta.”

O profeta Gentileza pedia apenas que as pessoas dissessem “por gentileza” e obrigada e assim viveu e deixou escrita, sentenciada oficialmente em verde amarelo a mensagem de que gentileza gera amor que gera gentileza, o que resultou em seu apelido.

Obrigada Marisa Monte, por não deixar morrer totalmente o “Gentileza” e, é exatamente por gentileza, que agradeço pela música que a tantas crianças instigou em nossa palestras nas escolas contra as perdas das memórias urbanas, o patrimônio histórico público de Porto Alegre pelo qual lutamos tanto.

A saber, escrevo este artigo para que não digam que sou implacável com pichadores. Gentileza era, tecnicamente, um pichador e não um grafiteiro. Considerando que produzia sua obra em muros, paredes e pilastras sem autorização a não ser de Deus, de sua sabedoria ou de seu surto, pichava e não grafitava! Mas que pichadorrr!!

Alice Prati

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