Cuidemos de nosso filho
Em nossas palestras nas escolas públicas em Porto Alegre fiquei atônita e surpresa com o que vi. Crianças de 8 a 14 anos sabiam interpretar os rabiscos das pichações e achavam legal. Deixavam claro, porém, que admiravam não os símbolos produzidos pelos pichadores, mas sim a ousadia e o fato de fugirem e safarem-se dos flagrantes policiais. Algumas, para nossa total surpresa, também sabiam interpretar a Lei 65 que trata dos danos ao patrimônio histórico e público.
Vamos por partes: conseguimos observar que o professor está sobrecarregado, não bastasse o salário não condizente com a função. Em uma das escolas, no centro da cidade, ouvimos da própria diretora que, na chegada de alguns alunos, ela já os esperava com a toalha para dar-lhes banho! Sim. Banho! Os piolhos e o mau cheiro impediam o contato com os outros nas salas de aula.
Notamos ainda que o professor é responsabilizado, agora, pelo cuidado, amparo e acolhimento ao nosso filho em suas necessidades mais básicas. Cuidado, amparo e acolhimento, para mim, não se encontra em nenhum lugar do mundo e a escola não tem, de forma alguma, que desempenhá-los e, talvez, nem o consiga fazê-lo. Penso que neste momento em que a diretora banha o seu aluno, entra em ação o seu senso materno, o que, de verdade, não é apropriado para a escola que é um local para educar e formar sem maiores confusões de papéis. Essa responsabilidade natural de cuidar, amparar e acolher é nossa, dos pais.
Hoje o aluno vai para a escola em um dos turnos e no outro, às vezes, tem atividade extraclasse ou frequenta algum curso, mas no geral fica todo esse tempo vivendo fora de casa, quando tem uma. É uma exposição direta ao mundo. A esse mundo ultrarrápido, repleto de informações que vem e vão à velocidade atômica e que, definitivamente, não reserva tempo nenhum para cuidar, amparar e acolher ao nosso filho como muitas vezes queremos ou precisamos.
Como consequência, nesse mundo dual, quase cruel e implacável de todas as formas, o jovem adaptou-se e mostra que sabe interpretar e armazenar o que vê e que, diga-se de passagem, é de um volume quase infinito. É o ser do nosso século sendo, talvez, preparado para o que virá. Alguém que recebe o auxílio natural de tablets, notes e cels para acumular mais e mais informações, mas que não mais consegue ver o amor incondicional de mãe e de pai sempre tão ocupados. Esse amor que não se enxerga a olho nu, mas com as lentes do cuidado, do amparo e do acolhimento. Não existe amor calado, inativo ou resumido. Falta de tempo apenas, dizem alguns. Penso que falte oportunidade de conhecer de verdade o nosso filho e desenvolver com ele laços de afeto e de cumplicidade, o que se resume em afinidade... Que é mais do que tudo em uma relação seja de que natureza for.
O que os jovens estão fazendo e vão fazer com o turbilhão de informações que recebem, nós, pais, é que temos que saber. Certo é que as devorarão com a mesma velocidade e na mesma quantidade com que chegam a eles.
Como dizia Millôr Fernandes, nascemos originais e morremos cópia. Volto ao turbilhão de informações e pergunto: serão cópia de que? Ou serão originais? Originais de que?
É importante cuidarmos e reconhecermos novamente o nosso filho, mesmo que não saibamos por onde começar. Que nem mesmo consigamos responder a questões que ele, ainda em tenra idade, já sabe perguntar e nos surpreende. Pode ser que essas perguntas sejam muito mais profundas e amplas do que o poder esclarecedor de nossas pífias respostas desatualizadas, mas o que importa é estar ali para respondê-las. Pesquisemos se for o caso. Exemplo? Uma criança de três anos sabe muito sobre computação e, se formos pelo geral, sabe mais do que nós! É uma tendência natural do homem: adaptar-se! Mesmo que sofra e beire, às vezes, a extinção. Que viva, como agora, no limite de todas as coisas para o bem e para o mal.
Para dar outro exemplo, minha priminha Ali não tem medo do escuro ou de qualquer bicho daqueles que nossos pais mandariam nos pegar se não tomássemos banho, respondêssemos mal, se não estudássemos ou se não nos alimentássemos (itens que já estão totalmente fora do cardápio do bicho papão moderno, apesar de continuarem a fazer parte do desenvolvimento humano básico). Os eficazes e nada pedagógicos bichos papões dos quais modernizamos o DNA, adaptamos os códigos de ética e de conduta e demos uma mexidinha em seu cardápio para utilizarmos, também, a favor dos métodos disciplinares herdados de nossos pais. Como uma herança maldita! O bicho de Ali é mais onipresente, oniciente, onipotente e, muito mais perigoso. Ela tem muito, mas muito medo do Dr. Google!
Não é mais possível que o professor ou o mundo tenham que cuidar amparar, educar e acolher o nosso filho em consequência de nossas ausências. Vamos ter que rever isto. Nosso filho precisa mais de amor do que de status social ou de quinquilharias eletrônicas. O professor, por mais dedicado que seja, não pode vê-lo por dentro como nós podemos. Não consegue ampará-lo tanto e tão profundamente e de forma alguma trabalhará com a incondicionalidade e a frequência, características das ações amorosas, para vê-lo feliz.
Na verdade o que observamos é um professor obrigado a cuidar, educar e amparar em nosso lugar que está quase vago na vida de nosso filho. O detalhe cruel é que colocamos no mestre a responsabilidade de recriar e formar um filho novo para nós, mas não pode, de jeito algum, ser um pouco mais ríspido, objetivo ou direto como nós, pais, seríamos se estivéssemos lá naquele lugar quase vago. O que acontece então? Lá vem o processo na escola ou no judiciário contra o professor por dano moral! Pensamos erroneamente que processando o professor estamos protegendo ou assegurando cidadania ao nosso filho, mas não é verdade e não é a melhor atitude. Estamos dando a ele um poderoso e perigoso certificado do “posso tudo” “contra todos”. Essa liberdade toda para quem, como dizia minha avó, não pode nem com o peso das calças ainda!
A responsabilidade com a primeira parte da felicidade do filho é dos pais que o geraram. Essa felicidade é indissociavelmente composta pelo desenvolvimento humano em todas as suas nuances físicas, mentais e espirituais. É o amor útil! É prepará-lo para a vida. É colocá-lo alinhado com um futuro de felicidade. Quem consegue atuar com tanta responsabilidade em uma usina nuclear chamada jovem moderno? Pai e mãe ou familiares, não o professor e muito menos a sociedade, de preferência recebendo “auxílios e atrapalhos” do vovô e da vovó, de vez em quando! Estes não possuem, no “manual de funcionamento de avós”, a responsabilidade de educar tão profundamente e preparar o neto para a vida implacável que vai ter que enfrentar para ser alguém, mas certamente darão a ele belas transfusões da melhor energia do mundo, o amor!
O amor de nossos pais por nossos filhos possui uma força hercúlea, pois resistindo aos ataques de dor, de preocupações ou mesmo de ausências vividos por eles quando nos criaram, retorna duplicado quando olham para o neto na maternidade. Amor a primeira vista, mas já bem antigo! Pode? Restaurado, purificado, puro e, pasmem muito mais incondicional do que foi, recria-se agora para nosso filho. É muito bom contar com avós mesmo que isto nos aumente o trabalho de educar nosso filho. Tios, tias e primos também são excelentes e estão ali a despeito de todas as manias. Por mais que uma relação familiar seja difícil, sempre vai ter qualidade e, o futuro, sempre prova isto. Claro, existem casos de violência, mas a estes devemos tratar tecnicamente.
Então como se consegue educar uma criança? Sobretudo com amor, atenção e carinho. Uma ajudinha ou outra do Dr. Google em suas mil facetas, vovô e vovó, se possível, muita inspiração boa alimentação e sono de qualidade, uma pitadinha de velada desconfiança, nada de alienação parental, muito, mas muito sangue frio e diuturnamente e incansavelmente, responsabilidade. No mais, que venham tablets, celulares, pichadores, criminosos e todas as ameaças de um mundo veloz e em profundas modificações, nem sempre positivas. Ele vai estar imune! Por que vai olhar para o mundo e não pensar que é superior a tudo, que tudo é dele... Vai pensar que desde sempre e para sempre faz e fará parte de tudo... Para o bem e para o mal!
Cuidemos novamente de nosso filho. A vida não ficou mais fácil com a renovação e modernização das gerações, dos mundos e das realidades genuínas ou inventadas. Pelo contrário, ficou muito mais difícil e perigosamente mais rápida. O Dr. Google está aí mesmo e a relação entre pais e filhos, suas responsabilidades e suas afinidades devem ser restauradas.
Alice Prati
