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Restauração

Quando acordei para a vida e comecei a ficar velha,...

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Foto: trabalho de restauração

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Restauração

18 de maio de 2013 0

Quando acordei para a vida e comecei a ficar velha, lá pelos idos, muito idos de meus seis anos de idade, desenvolvi de forma maior que tudo a vontade de restaurar e reconstituir. Simplesmente assim, sem objeto, apenas a vontade, a disponibilidade. Enquanto para a maioria das crianças as brincadeiras e os brinquedos eram coloridos e alegres sonhos, eu já atuava “profissionalmente”: andava com uma mala de madeira onde se lia INCAP, sigla que queria dizer: Instituto Nacional de Ciências Alice Prati. Dentro dela, muito bem acomodadas, pedras de formas e tamanhos diversos e líquidos de todas as cores, odores e propriedades, principalmente os produtos de limpeza de minha mãe. Mas não adentrava assim à toa, de brincadeira, pelos caminhos da ciência. Depois de refletir, deduzir e induzir, meus pensamentos “atuavam” por um único objetivo: derreter pedras quimicamente! O INCAP, eu nem sabia o que era um instituto como sei hoje, tinha excelência em pesquisas nesse intento.

Lembro, como boa cientista, que não possuía nenhuma opinião sobre o proveito que resultaria da matéria de pedra derretida, apenas que queria conseguir. Era uma vontade inquebrantável e ardente, noite e dia. Se existir mesmo vida após a morte e antes do nascimento, acho que essa minha vontade e determinação eram de outras vidas. Tentei o feito até matar minha perseverança de exaustão e concluir, forçada pelo cansaço, que todos os  experimentos que fiz haviam esgotado toda e qualquer possibilidade humana de derretimento químico de pedras. Convenci-me que não dava! Um alquimista do século XXVI teria inveja do quanto tentei! Mas cada um, como diz o Caetano Veloso, “sabe a dor e a delícia” da busca de sua própria pedra filosofal, pois o mais importante é a busca e não os resultados!

Monumento ao Expedicionário Brasileiro - Porto Alegre/RS

Hoje me autodefino como uma “obreira”. Estou sempre pronta a ajudar em uma restauração seja ela qual for, onde for e como for. Meu ser desenvolveu-se assim, com essa mania de querer tratar as mazelas do tempo em tudo, com uma capacidade imensa de trabalhar. Devo dizer com orgulho que higienizei sozinha, sem assistentes, o Monumento ao Expedicionário Brasileiro no Parque Farroupilha em Porto Alegre, no ano de 2004.  Deve ser por isso que hoje me percebo um ser com tantas cicatrizes no corpo e na alma.

Sou curiosa de todos os objetos e materiais que podem ser restaurados. Nesse encontro com as memórias tangíveis deixei histórias e currículos por onde passei. Restaurei peças para a família, amigos, desconhecidos, clientes e para grandes instituições. Como disse, sou interessada em restaurar e às vezes me ocupo em tentar restaurar o mundo... A família... Os amigos... Sempre tentei restaurá-los também, mas um dia, assim como derreter pedras, achei impossível e desisti! Hoje ainda, vez ou outra, me pego indicando um creminho, um chazinho ou um palpite sobre relações pessoais e seus feitos como se eu tivesse algo a ver com isto. Não, não tenho! Sou apenas uma incansável praticante da tentativa de transmutação e conheço bem o exercício do transformar e suas consequências. Para dizer bem a verdade e reconhecer que sou mesmo um pouco metida, ainda não aprendi a ser feliz, mas, dar palpites sim! Mas um dia vou aprender a utilizar toda a minha capacidade “restauratória” para mim e mesmo que viva um século, vai ser pouco o meu tempo!

Mas definitivamente meu universo expandiu-se mesmo foi com o contato e a consciência sobre as memórias intangíveis, imateriais que orbitam as peças antigas. Para explicar melhor ao leitor, esclareço que toda a vez que um bom restaurador entra em ação deve pesquisar tudo sobre a peça a qual vai tratar. As pesquisas necessárias são históricas, antropológicas, físico-químicas, químicas, biológicas e tudo o que diz respeito ao seu contexto de tempo e espaço.  Foi aí que me enriqueci cultural e espiritualmente. É impressionante estudar as razões humanas. É sempre uma surpresa. Cheguei à conclusão que restaurar peças materiais é importante, mas é vital restaurar as memórias imateriais. É nelas que estão as chaves de todos os segredos e mistérios da raça humana.

Como profissional do restauro desde tenra idade sei o que de fato significa restaurar. Posso dizer ao leitor que de forma alguma significa refazer, renovar, recriar. Nenhuma dessas palavras em seu mais amplo significado pode traduzir a ação restaurar. Por quê? Por que ninguém restaura nada se não começar por si mesmo. Ninguém trata nada se não começar por si mesmo. Restaurar é, no mais universal e nobre dos significados e das atitudes, restaurar-se... Reviver-se... Recriar-se com saúde e vida em abundância para que produzamos vivências e histórias saudáveis e verdadeiras. Memórias imateriais que nos façam merecedores de realizarmos o maior de todos os objetivos humanos: evoluir e aprender a amar ao outro e a natureza. Isso é produzir história naturalmente. O resto é teoria... É tentativa de derreter pedra!

Alice Prati

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Raíssa, as dores das memórias falsas...

04 de maio de 2013 0

Sempre defendo a produção e a salvaguarda de memórias. Conheço o quão multifacetadas e determinantes são para o desenvolvimento, a segurança e a busca da felicidade para o ser humano  em harmonia com seu meio. Mas como toda a moeda tem dois lados, falarei hoje e até extensamente, me perdoem, sobre as memórias criadas e implantadas na mente ingênua de uma criança por um familiar ou responsável com a finalidade torpe de vingar-se de outra pessoa...

Na novela global Salve Jorge, de Gloria Perez, as personagens Celso (Caco Ciocler), Antonia (Letícia Spiller) e Raíssa (Kiria Malheiros) vivem uma história complicadíssima mostrada de forma muito contundente pela autora e pelos atores. O pai, Celso, sentindo-se rejeitado e traído, “faz a cabeça” da filha, Raíssa, implantando memórias e observações falsas sobre Antonia, sua mãe. O objetivo é denegrir a imagem da figura materna e conseguir separar a filha da mãe da pior forma possível e, em seus delírios, definitivamente. A finalidade de sua ação incansável é punir a esposa em razão de ela ter pedido o divórcio para viver outro amor.

Celso sempre apresentou comportamento truculento e machista quando investia violentamente com atos e palavras sobre sua esposa por ela ter conseguido um emprego e ganhar um salário maior do que o dele, notório desocupado. Com a separação do casal, criou-se uma situação onde a menina, ainda em tenra idade, passou a ser um mero instrumento de vingança do pai contra a mãe! Pena que na trama, o personagem Celso tenha ficado com um pouquinho de razão, pois o que Antonia não sabia é que seu trabalho, a princípio razão de tantas discussões, nada mais era do que uma das ramificações do tráfico internacional de pessoas. É uma lástima que Celso tenha esse pouco de razão, o que, para mim, pode mascarar seu verdadeiro temperamento e suas intenções, para um telespectador mais desavisado. Mesmo assim, é repugnante ver o que faz com a própria filha, manipulando-a para atingir Antonia, em um projeto insano e egoísta chamado tecnicamente de Alienação Parental!

Em interpretação magistral os três atores, com suporte de grandes mestres como Stênio Garcia e Nívea Maria, mostram o que deve ser mostrado e repetido tantas vezes quanto possível: a alienação parental que segrega, maltrata e destrói a vida de 16 milhões de crianças no Brasil e de mais um tanto considerável de pessoas envolvidas diretamente como alienadores e alienados e indiretamente como familiares e amigos. É muita gente sofrendo de um mal que é, em essência, um dos grandes sinais de que o ser humano é capaz de atitudes inacreditáveis tanto para o bem, que não é o caso aqui, quanto para o mal. É terrível saber que um pai ou uma mãe podem utilizar um filho dessa forma tão cruel e egoísta. É apavorante, mas é mais comum do que se imagina.

Silencioso, esse mal cresce no recôndito de alguns (muitos) lares sem que revele, muitas vezes, nenhum comportamento característico dos envolvidos ou ainda que se perceba em tempo de evitar grandes traumas e aborrecimentos. Quando se dá a perceber já estão todos os envolvidos adoecidos, com suas vidas prejudicadas e demandando nos tribunais judiciários. Nada mais sofrível que famílias brigando em tribunais.

Esse assunto sobrecarrega e estressa o poder judiciário, acostumado a julgar as ações de homens e mulheres e, no que se refere a alienação parental, precisa julgar filhos, mães, pais e avós por suas atitudes dentro da família. É muito complicado julgar relações familiares adoecidas e laços sentimentais. Não é próprio para o poder judiciário a menos que se prepare muito bem para isto.  E o número dessas ações judiciais delicadas sobre o assunto é muito maior do que poderia ser nesse nosso caótico e quase inoperante sistema judiciário. A impossibilidade de solucionar essa chaga familiar pelos próprios envolvidos leva a todos, infelizmente, a longas, desgastantes e sofridas batalhas nos tribunais. Os poderes legislativo e executivo, de tão demandados pela sociedade, assumiram e legislaram para “nortear” os horizontes legais desse assunto. Em 2010, o presidente Lula sancionou a lei que, mesmo correndo o risco de ter um texto muito extenso e cansar o leitor, transcrevo na íntegra como forma de colaborar:

Art. 1 Esta Lei dispõe sobre a alienação parental.

Art. 2 Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este.

Parágrafo único. São formas exemplificativas de alienação parental, além dos atos assim declarados pelo juiz ou constatados por perícia, praticados diretamente ou com auxílio de terceiros:

I - realizar campanha de desqualificação da conduta do genitor no exercício da paternidade ou maternidade;

II - dificultar o exercício da autoridade parental;

III - dificultar contato de criança ou adolescente com genitor;

IV - dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar;

V - omitir deliberadamente ao genitor informações pessoais relevantes sobre a criança ou adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço;

VI - apresentar falsa denúncia contra genitor, contra familiares deste ou contra avós, para obstar ou dificultar a convivência deles com a criança ou adolescente;

VII - mudar o domicílio para local distante, sem justificativa, visando a dificultar a convivência da criança ou adolescente com o outro genitor, com familiares deste ou com avós.

Art. 3 A prática de ato de alienação parental fere direito fundamental da criança ou do adolescente de convivência familiar saudável, prejudica a realização de afeto nas relações com genitor e com o grupo familiar, constitui abuso moral contra a criança ou o adolescente e descumprimento dos deveres inerentes à autoridade parental ou decorrentes de tutela ou guarda.

Art. 4 Declarado indício de ato de alienação parental, a requerimento ou de ofício, em qualquer momento processual, em ação autônoma ou incidentalmente, o processo terá tramitação prioritária, e o juiz determinará, com urgência, ouvido o Ministério Público, as medidas provisórias necessárias para preservação da integridade psicológica da criança ou do adolescente, inclusive para assegurar sua convivência com genitor ou viabilizar a efetiva reaproximação entre ambos, se for o caso.

Parágrafo único. Assegurar-se-á à criança ou adolescente e ao genitor garantia mínima de visitação assistida, ressalvados os casos em que há iminente risco de prejuízo à integridade física ou psicológica da criança ou do adolescente, atestado por profissional eventualmente designado pelo juiz para acompanhamento das visitas.

Art. 5 Havendo indício da prática de ato de alienação parental, em ação autônoma ou incidental, o juiz, se necessário, determinará perícia psicológica ou biopsicossocial.

§ 1 O laudo pericial terá base em ampla avaliação psicológica ou biopsicossocial, conforme o caso, compreendendo, inclusive, entrevista pessoal com as partes, exame de documentos dos autos, histórico do relacionamento do casal e da separação, cronologia de incidentes, avaliação da personalidade dos envolvidos e exame da forma como a criança ou adolescente se manifesta acerca de eventual acusação contra genitor.

§ 2 A perícia será realizada por profissional ou equipe multidisciplinar habilitados, exigido, em qualquer caso, aptidão comprovada por histórico profissional ou acadêmico para diagnosticar atos de alienação parental.

§ 3 O perito ou equipe multidisciplinar designada para verificar a ocorrência de alienação parental terá prazo de 90 (noventa) dias para apresentação do laudo, prorrogável exclusivamente por autorização judicial baseada em justificativa circunstanciada.

Art. 6 Caracterizados atos típicos de alienação parental ou qualquer conduta que dificulte a convivência de criança ou adolescente com genitor, em ação autônoma ou incidental, o juiz poderá, cumulativamente ou não, sem prejuízo da decorrente responsabilidade civil ou criminal e da ampla utilização de instrumentos processuais aptos a inibir ou atenuar seus efeitos, segundo a gravidade do caso:

I - declarar a ocorrência de alienação parental e advertir o alienador;

II - ampliar o regime de convivência familiar em favor do genitor alienado;

III - estipular multa ao alienador;

IV - determinar acompanhamento psicológico e/ou biopsicossocial;

V - determinar a alteração da guarda para guarda compartilhada ou sua inversão;

VI - determinar a fixação cautelar do domicílio da criança ou adolescente;

VII - declarar a suspensão da autoridade parental.

Parágrafo único. Caracterizado mudança abusiva de endereço, inviabilização ou obstrução à convivência familiar, o juiz também poderá inverter a obrigação de levar para ou retirar a criança ou adolescente da residência do genitor, por ocasião das alternâncias dos períodos de convivência familiar.

Art. 7 A atribuição ou alteração da guarda dar-se-á por preferência ao genitor que viabiliza a efetiva convivência da criança ou adolescente com o outro genitor nas hipóteses em que seja inviável a guarda compartilhada.

Art. 8 A alteração de domicílio da criança ou adolescente é irrelevante para a determinação da competência relacionada às ações fundadas em direito de convivência familiar, salvo se decorrente de consenso entre os genitores ou de decisão judicial.

Art. 9 ( VETADO)

Art. 10. (VETADO)

Art. 11. Esta Lei entra em vigor Na data de sua publicação.

Questiono-me intimamente sobre que licença tem um pai, uma mãe, avós ou mesmo responsáveis para jogar sujo com um filho ou neto, dessa forma tão egoísta e desagregadora? Que poderes julga ter esse deus às avessas para desconsiderar pessoas, manipular e destruir a vida de crianças, modificar destinos, escolher seus amores?  Quem são esses Celsos que até que tudo ficasse mal, conviviam, diziam que amavam e formaram famílias? Como podem conceber um ser humano e usá-lo, em sua tenra idade, dessa forma tão sórdida e covarde, valendo-se de sua falta de vivência, ingenuidade e fragilidade? Tudo para somente atingirem as Antonias, cuja pior doença e maior mal feito foram deixar de amá-los e, por isso para eles, passaram a ser seres execráveis, não merecedoras de viverem com seus amores. Aliás, não merecedoras de felicidade, pois quando alguém passa por esse problema, até a perspectiva de uma felicidade longínqua fica desfocada, imperceptível.

Que pensamentos e sentimentos acometem e movem essas criaturas alienadoras para que ousem pensar que sua vingança é mais importante do que vidas inocentes, do que sentimentos e laços entre pessoas que se amam, que se dependem? Nem vou entrar no mérito, não me compete, se é totalmente patológico ou não. Falo desse assunto com a radicalidade que merece e o que minha radicalidade aponta é que não é, dentre toda a lista de bons e maus princípios dos seres humanos, sequer justificável, mesmo que por doença. Nesse caso não relativizar é dever, pois envolve crianças! Perceber ou prevenir pode salvar a integridade de vidas inocentes.

Além do objetivo de, com a energia do ódio, denegrir a imagem de Antonia no maior grau e extensão possíveis, destruindo sua vida e ficando com a guarda definitiva da criança, o longo tempo em que durar essa batalha judicial vai mantê-lo sempre perto da ex-mulher, assinando prazerosamente sua dor e monopolizando sua atenção. O injustificável é saber que o instrumento para obtenção de seu sórdido objetivo não é um estranho, amigo, inimigo ou um contemporâneo, apenas. É o seu próprio filho!

Chefes de família sobre quem não pesa nenhum “senão”, transformam-se em hábeis mestres do disfarce e da sugestão e especializam-se em transformar sua criança em barganha, em instrumento de sofrimento, deliberadamente. Subtraem suas raízes socioculturais, desconstroem suas verdades, mudam seu endereço, tirma seu chão. Tudo para vingar-se de alguém que o desprezou ou contrariou algum dia. Estraçalha e usa os fragmentos dos sentimentos de seu próprio filho impelindo-o a dilacerar também seus amores, deturpando, às vezes gravemente, toda a trajetória de vidas inocentes por logos períodos. Como Chronos, Deus do tempo na mitologia grega, surgiu no início dos tempos, formado por si mesmo... Devorou seus filhos por que o tempo a todos devora!

...Surgiu no início dos tempos... Formado por si mesmo... Devorou seus filhos... Há que se refletir sobre isso! Imagino, em minha visão leiga, que parte das razões que movem um alienador está orbitando por aí!

O que será da criança, sendo obrigada por um alienador a atuar para desconstruir parentescos e afetos dos quais é dependente natural como se isso não significasse nenhum sofrimento para ela? É a percepção induzida em uma criança que a faz perder a infância a serviço das falsas memórias implantadas e que passa a ver um inimigo no aliado e o aliado no inimigo!

Quem sofre alienação parental deve procurar ajuda com psicólogos, psiquiatras e com a própria justiça. Trata-se de uma equação que jamais deve chegar aos piores resultados onde todos perdem tudo ou quase tudo, principalmente a criança que também terá sua vez de ser adulto e que vai dar conta de tudo o que sofreu.

A alienação parental é, resumindo, um projeto de alguém que, rigorosamente, “morreu-se” em todas as suas verdades e sentimentos e precisa estender sua aridez e sua revolta indistintamente pelo planeta a começar por seu filho ou dependente, por seu próximo muito próximo! Trava-se então uma sofrida batalha de verdades e mentiras nos tribunais da vida. No final não existem vencedores e nem vencidos... E todos, absolutamente todos, terão no futuro, diante de si, um banquete de razões vãs onde o prato principal obrigatório é o sofrimento de todos os envolvidos. Nada mais!

Não falta amor... Falta amar! Não sei quem disse, mas para mim é uma das novas leis naturais do homem contemporâneo.

Alice Prati

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Restaurar, filosofia de vida!

26 de abril de 2013 0

Todo mundo pensa que o restaurador é aquele profissional que atua em patrimônios históricos ou no tratamento de peças raras. Não. O restaurador é um profissional que, em razão de seus conhecimentos, pode atuar também com elementos novos, sadios ou patológicos. O ideal para os materiais das coisas do mundo é que recebam esse olhar preventivo, como o ser humano que, quando mais cedo consultar um geriatra mais qualidade de vida vai ter na melhor idade. Infelizmente, no Brasil, ainda não descobrimos a importância de desenvolvermos a cultura da prevenção. Acho que a prevenção de tudo e por tudo é irmã da dignidade.

O restaurador vive às voltas com os materiais compósitos de todas as coisas. Pesquisa, pesquisa e pesquisa e, em suas horas vagas, pesquisa também! Precisa saber da história, da composição físico-química, das reações ao meio, das vulnerabilidades e das patologias. Foi assim, pesquisando, que abri portais e frequentei vários mundos, muito diferentes do meu. Experiências enriquecedoras e outras muito sofridas. Mas, “se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”, como diz Roberto Carlos.

Às vezes, quando vejo, minhas pesquisas me levam a universos estranhos ao restauro e até, por ironia, a mundos contrários à conservação de coisas importantes para as pessoas. Explico: pesquisando a degradação e o vandalismo, encontrei o mundo estranho e controverso da pichação. Sobre ela reuni um banco de dados e meu trabalho notabilizou-se por isso. Meus conhecimentos sobre o assunto são fontes de pesquisa para os setores da segurança pública, da educação, da cultura e para a imprensa. Assim é a vida de um restaurador. Sempre estudando por que precisa encontrar solução para o que não tem solução: o passar do tempo. Poderia dizer que é uma filosofia de vida ou uma profissão quase como a alquimia. Buscamos a pedra filosofal! Se vou desistir? Não sei! Por enquanto ainda tenho esperanças de encontrar, pois ainda não sei o que todo mundo já sabe: que não existe!

No ano 2006 fui solicitada a formatar e ministrar um curso de três meses em um setor do poder judiciário para funcionários das varas e das promotorias. O propósito era ensinar a tratar e a conservar os processos. As estantes guardavam 500 mil pastas com muitas folhas cada e nada poderia ser descartado ou perdido. Eram documentos importantes. Existe um prazo muito grande para que um processo possa ser extinto totalmente e ainda assim, dependendo do conteúdo, pode virar acervo, fonte para pesquisas. Como diariamente centenas de processos são abertos, passou a existir, entre os funcionários, o famoso estresse da guarda que vem a ser, indo direto ao assunto, o peso da responsabilidade de cuidar. Certa aula me pareceu, por instantes, uma terapia de grupo. Fiquei calada e, como mera testemunha, assisti a discussões acaloradas sobre o trabalho com os processos e suas dificuldades. Chegou um momento que precisei intervir e lembrá-los que estávamos ali para encontrar soluções.

A identificação do estresse da guarda de objetos importantes apareceu em minhas pesquisas como fator preponderante para diminuição considerável na qualidade de vida dos funcionários de instituições e na degradação desse mesmo acervo. Medo e ansiedade podem gerar danos irreversíveis, principalmente aos materiais orgânicos. Sempre digo aos meus alunos que não tenham medo de manusear papéis. As fibras “sentem” quando estamos temerosos e reagem apresentando formas diferentes durante o trabalho de restauro. Digo sempre aos meus alunos que quando for para pegar o papel que peguem de verdade. É preciso, brinco, ter pegada! Ainda no estresse da guarda, aparece o sentimento de propriedade. Já vi muitos profissionais da área de patrimônio histórico se referir ao acervo como “meu acervo”, “meu museu”. É preciso ficar atento. É tratar.

Continuando: fiz uma análise das pastas de cartolina dos processos daquela instituição e quase a totalidade estava rasgada no mesmo lugar. Cheguei à conclusão que eram fissuras de esforço e, a partir daí, comecei uma pesquisa para saber o que mais as degradava daquela forma. Em primeiro lugar havia uma lombada menor que o volume de folhas que guardava! Bingo! O conteúdo das pastas crescia mais do que a capacidade. Como diz o versinho, “fibra rompida, fibra perdida”. Os funcionários com seus cafezinhos e seus sanduiches, engordurando capas e folhas, apareciam também como vilões da conservação. Aquela velha e boa lambidinha nas pontas dos dedos para virar a página, altamente degradadora e contaminadora, foi muito lembrada pelos alunos e muitas marcas, manchas e orelhas deixou nos processos.

Participa ainda com presença bem marcante da “festa da pasta degradada” o momento em que o processo é retirado pelos advogados e juízes. Alguns profissionais, sem muito tempo disponível, alimentam-se ou bebem aquele cafezinho da madrugada para ficarem acordados sobre as pastas, sem saber que nas varas superlotadas de papéis, os processos eram guardados até no banheiro, em cima do vaso sanitário. Funcionários me relataram que processos voltavam com cabelo, manchas de gordura e até batom. Açúcar e gordura são excelentes banquetes para insetos além de danificarem as fibras. O resultado desastroso de tudo isso se notava na sala cheia de estantes abarrotadas por onde desfilavam insetos e o cheiro de ácido (aquele odor característico de livros velhos amarelados) era quase que insuportável. Esse cheiro é da acidez do papel, reação físico-química irreversível a um meio ambiente inadequado e fora dos padrões de conservação.

Os materiais orgânicos precisam de pH neutro para uma longa vida. A infestação (insetos e pequenos roedores) e a infecção (microrganismos) estavam sem controle naquela instituição. Havia ainda um ar condicionado que funcionava sem manutenção. Sobre isto tenho que dizer que os ares condicionados precisam de manutenção de seus componentes e de limpeza de seus dutos. Não há nada mais contaminador do que dutos sem manutenção. No final das contas doenças respiratórias (rinites, sinusites e pneumonia) alérgicas ou por infecção são recorrentes. Em mulheres causam até doenças ginecológicas recorrentes. Sem saber das razões, corremos atrás do prejuízo com médicos e remédios, tratando os sintomas, sem solução das verdadeiras causas. Devo dizer ainda que ar condicionado é contraindicado para conservação de orgânicos (papel, tecido, couro, plumária). Nessa instituição havia uma bibliotecária que solicitou um umidificador e um desumidificador para corrigir o meio ambiente, o que desaconselhei. Aquela profissional não possuía condição técnica para diagnosticar se um papel estava ou não desidratado e se o meio ambiente precisava de umidade.

Tal diagnóstico se faz através de aparelhos modernos e existem dois tipos: um para monitoramento frequente dos índices de umidade relativa, temperatura e incidência de luz no ambiente e outro para correção, se esse ambiente estiver fora dos padrões para conservação daquele material que está guardado nele. Incidência exagerada de luz natural e ou artificial direta é nociva. As fibras queimam e a fotodegradação é cumulativa e irreversível. A temperatura precisa estar dentro dos índices adequados para aquele material e a umidade relativa controlada. Muito seco é ruim e muito saturado é pior ainda. É extremamente perigoso indicar e realizar um só tratamento para cinco mil peças.

Com certeza não haverá duas peças com patologias iguais. Cada peça, de uma maneira geral, não somente as orgânicas, tem o seu status de conservação, sinergia e de patologias tão próprios como uma impressão digital. Um restaurador pode restaurar de quatro a cinco livros por ano, em média. Não existem terapias milagrosas como aspergir água no ambiente para tratar desidratação de papéis. Pelo contrário. Pode piorar o estado da peça consideravelmente, pois a partir de um determinado índice elevado de umidade, aparecem microrganismos e depois insetos, precedidos por pequenos roedores... Ventiladores também são totalmente contraindicados para museus e bibliotecas, pois um livro de 100 anos não pode sofrer uma ventania por razões óbvias. Existe um aparelho que mede a velocidade do vento dentro de uma sala.

Fiquei nessa instituição por três meses e fiz com meus alunos uma espécie de treinamento para manuseio e conservação das pastas dos processos, bem como os ensinei a realizar higienizações profundas e constantes e pequenos restauros. Consegui fazer com que compreendessem que aquelas pastas eram muito mais do que montes de papel sujo e rasgado, objeto de seu estresse.  Entenderam que eram a vida e a esperança de muitas pessoas e que, em sendo assim, mereciam cuidados e respeito. Perceberam enfim, como era importante o trabalho que faziam.

Assim, um restaurador ciente de suas obrigações e diversificando suas atividades tem muito a contribuir com o mundo contemporâneo.

Alice Prati

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Humanitudes...

20 de abril de 2013 0

Sinceramente, não gosto da humanização dos animais de estimação, mas andei refletindo sobre isso por que convivo com seres humanos, seus cachorros e seus gatos. Não há como não prestar atenção no que está acontecendo. Eu mesma tenho um bebê... Ups! Um cachorro! O grande problema reside aí. Seres humanos e seus cães e gatos! O cachorro (Canis Lúpus Familiaris) apareceu no continente asiático – lobo cinzento – há 100 mil anos e o gato (Felis Silvestris Catus) há 45 milhões de anos, sendo apenas (apenas!!!) há 9.500 anos sua associação com os humanos. Acho que é por isso que o gato é mais arredio e o cachorro mais dadinho: são mais anos de convívio!

É incrível como as pessoas que possuem animais domésticos como cães e gatos estão humanizando essas criaturas e colocando-as para viverem personagens e sentimentos que lhes fazem falta. Já vi cachorros e gatos no papel de filho e de melhor amigo. Posso dizer até que é bem comum. Chamar o cachorro de meu filho – é mais propenso a intimidades – e o gato de amigo é normal. Dedicar a eles tratamentos às vezes melhores do que para crianças é também comum. As “pets” aparecem como grandes faturamentos e produtos e serviços estão altamente sofisticados. Nossos animais já estão fazendo tomografias computadorizadas e ecografias e os tratamentos vão desde homeopatias, acupuntura a banhos de ofurô. Já contam com babás e creches e andam de sapato e roupinhas estilosas. Podem frequentar, com seus donos, alguns restaurantes e, nos parques e praças, aparecem aos milhares. Dormir na cama do dono e ganhar beijos está incorporado ao convívio. Muitas pessoas optam por cachorros ao invés de filhos. É um absurdo o que estou dizendo com tanta calma, mas é exatamente isto o que está acontecendo.

Pensei, pensei, pensei e pensei! Olhando para o meu cachorro tentei ler nele as razões disso e cheguei à conclusão que em primeiro lugar o canis e o felis estavam conosco quando, de uma hora para outra, o mundo começou a correr. Correr atrás de soluções, comodidade, status e celebrizações insanas, consequências da vida moderna. Olhando para nossa casa e para nosso coração, sentimo-nos sós e desprotegidos, pois nossos amores, em razão da correria, ficaram vãos e perderam a disponibilidade, a lealdade e a fidelidade, seus melhores componentes. O mundo virou uma grande barganha por que tudo nele é para vender. Não há mais o que dar ou receber. Quando esses nossos amores descobriram que o mundo vive de barganha e esta, sem dó nem piedade, extinguiu a incondicionalidade, deixando-nos em maus lençóis ou no mato só com cachorro, perderam a noção de que amar é adequado e vital ao ser humano. Que é uma de suas maiores necessidades. Que alimenta a alma e que um ser humano sem alma, já morreu!

Quando o grupo humano, que corre demais, por comodidade ou circunstâncias, preferiu a comunicação virtual ao invés do contato direto e das vivências reais, o amigo, o melhor amigo, já não está tão boa companhia e já não tem tão bom papo. O filho não vem tanto em casa e os avós, os novos avós, foram excluídos e alienados por suas desesperadas tentativas de demonstrar amor, o que já não é tão importante ao homem contemporâneo. É uma chatice. Algo fora do contexto das barganhas. Apesar de todas as consequências inusitadas que a falta de amor nos traz, não conseguimos diagnosticar que os males de hoje são decorrência do abandono, da solidão e do desamor.

Mas... Como dizia minha avó, “Deus tira os dentes e alarga a goela”! Não ficamos totalmente sós. Enfim, eles estavam ali quando os sentimentos quentinhos e acolhedores para a alma perderam para o trabalho, o status, as relativizações, as alienações. Estavam ali quando as possibilidades de vivência desses amores passaram a ser curtas, condicionais e negociadas.  Quando os sentimentos começaram a perder a validade nas prateleiras de nossas intimidades, olhamos para baixo e vimos essas criaturas que, para mim, estavam no lugar errado na hora errada. O cachorro com aquele olhar pidão e a mania de ficar sempre junto conosco deu-nos a oportunidade de usá-lo para suprir nossas carências afetivas, nossa carência de família e de amigos. Mostrou-se hábil para nossas solidão. Esteve sempre ali. Mesmo que o tratemos mal ou que com descaso, um mero olhar já aciona rabinhos e sentimentos líquidos acompanhados de um gracioso rebolado que diz: te amarei incondicionalmente e sempre. Não vou embora e não te trairei! Te cuidarei até que a morte nos separe e melhor, não te pedirei nada em troca... Nem sentimentos ou mais presença, mais lealdade e mais fidelidade. Podes ser o que quiseres e até me maltratar. Esquecerei! Ao menor sorriso teu te saudarei como uma divindade e te amarei, pois nunca deixei de te amar! Estou sempre à disposição de tuas vontades e de teu humor! Simplesmente estou aqui... Em silêncio!

Os animais domésticos aparecem como grandes aproveitadores do amor que temos como uma lição de como “sentir e doar” sentimentos! De como, por amor, desculpar um ser humano e sua “humanitude”!

Eu não humanizo meu cachorro. Não permito que ele participe de todas as decisões da família, somente as mais importantes! Quem é capaz de amar um amor assim tão incondicional, leal e fiel, deve ser poupado de futilidades... E de humanidades!

Alice Prati

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Mas o que isto, raaapppaaazzzz???

17 de abril de 2013 0

Nos últimos dias uma importante polêmica tomou conta das ruas e ruelas desse porto não muito alegre, não muito limpo, não muito fluente... Não muito claro. Mas é uma polêmica forte mesmo que encerra dentro de si, como uma nave-mãe cheia de navezinhas, outras tantas micropolêmicas totalmente relevantes e apropriadas para o momento de caos que Porto Alegre vive.

Nossa cidade é farta em polêmicas, como milhares de naves-mães (grandes polêmicas) com milhões de navezinhas-filhas (micropolêmicas) dentro. Quando uma nave grande sobrevoa a cidade, as outras também se aproximam e abrem seus compartimentos, despejando suas milhares de micro. É um emaranhado de polêmicas!

Veja, leitor, como é relevante a polêmica que sobrevoa a cidade, nesse momento avistada pelo RBSCop do Mauro Saraiva Junior (entre parênteses colocarei as micropolêmicas que fazem parte dela).

O prefeito de Porto Alegre, José Fortunati (não é o senhor Sebastião Mello – micropolêmica), decidiu chamar o Kiko (Carlos Villagrán, do seriado Chaves – micropolêmica, pois quem vem é o Carlos e o prefeito vai se encontrar com o Kiko...). Ou será que quem vem é o Kiko, para os shows, e o prefeito vai se encontrar com o Carlos (micropolêmica)?

Bem, vamos adiante mesmo sem respostas (polêmica grande para muito tempo). No encontro o prefeito vai convidar o Kiko (?) para ser embaixador da Copa! A Copa vai ser mesmo no Brasil e em Porto Alegre (micropolêmica)? Se for, por que o Kiko?

Prefeito, que coisa mais triste ser representada pelo Kiko! Assim como não sou representada pelo Marco Feliciano (três polêmicas naves-mães!), não quero ser representada pelo Kiko, um personagem secundário de um seriado mexicano, com inteligência discutível (micropolêmica – tem gente que acha inteligente), com as bochechas cheias de algodão (polêmica grande, pois ele disse que só tem ar...). Um personagem vestido de marinheiro que passa o tempo inteiro fazendo judiarias, protegido pela mamãe severa (polêmica mãe).

O que é isso rapazzzz??? Quero ser representada por alguém mais inteligente, mais sensível, com “bom coração” e com verdadeira representatividade para ser embaixador da Copa. Com mais propriedade, eu diria, isento de polêmicas. Consenso!

O senhor errou feio na escolha (polêmica mãe), prefeito Fortunati. Para ajudar no raciocínio, vamos brincar de roda?... Desculpa: vamos brincar de batalha naval (polêmica grande já há muito tempo!) e fazer uma guerra de argumentos, composição de grandes polêmicas?

- O senhor tem o quê da cidade?

- O senhor tem o quê dos ônibus de Porto Alegre, para aumentar tanto as passagens?

- Como é o nome do conduto forçado que irritou a cidade durante meses e, depois de inaugurado, desabou?

Chaves, Chaves, Chaves!!! Eu quero é o Chaves!!! Ele sim é o cara... Não é personagem secundário, nos representa melhor diante da FIFA. Não tem algodões nas bochechas, não é somente curto de mente, é simplório também (polêmica grande com os fãs) e ainda por cima, como bônus, é o super-herói Chapolin Colorado. O senhor teria feito um melhor negócio empossando um e ganhando dois!!! Eu me sentiria melhor representada pelo Chaves (Roberto Bolainos). Combina melhor comigo! Tem o meu perfil!

Mas, dando direito a outra escolha, pois tenho certeza de que o senhor foi pressionado politicamente para empossar o Kiko e não o Chaves  (polêmica grande), lembro que poderia ter sido outra pessoa que o senhor conhece bem a sua melhor escolha... Vamos brincar de novo de amarelinha? Desculpa. De batalha naval? Vamos, vamos, vamos? Eba! Eba!Eba! Isso!Isso!Isso!

O senhor se lembra do período pré-eleitoral, quando o candidato Fortunati estava em todos os lugares da cidade com a população? Pois é! Fiquei sabendo que o senhor andava na Av. Érico Veríssimo correndo atrás de uma galinha que insistia em atravessar a avenida e colocar a vida em risco. Sabemos bem do seu amor pelos animais. Meritória sua cruzada!

Então (polêmica grande), o senhor não acha que, em homenagem a nossa presidenta (polêmica grande – dizem que o certo é presidente!) deveria ser uma mulher, uma embaixadora da Copa? Que tal uma justa homenagem à Galinha Pintadinha!

Gisele Bundchen, Daiane dos Santos, João Derli, Danrlei, Falcão, Marcelo Stürmer e, na categoria alegoria Terra do Nunca, Saci, Zé Gotinha e Mosqueteiro, agradecem pela falta de lembrança!

E na categoria “não me perguntes onde o fica o Alegrete, segue o rumo do teu próprio coração”, quem agradece é o Guri de Uruguaiana!

O que é isso, rapaaazzzz???

Alice Prati

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Dança em Bento!

13 de abril de 2013 2

Não vou perder a Dança da Galera no Domingão do Faustão, agora no domingo. Quero ver meus queridos bentogonçalvenses dançando e compartilhando a história da imigração e da colonização italiana no Rio Grande do Sul, expondo a importância que teve e tem para o povo brasileiro. Se quisermos ver como se conservam e se transformam memórias históricas em dignidade, com respeito aos ancestrais e com geração de emprego e renda para toda a população, é só assistirmos o programa domingo. Provavelmente apareçam as rotas turísticas, tão genuínas e ativas turisticamente, a produção de uvas e vinhos e o melhor que tem na cidade: o povo! Imperdível!

A produção do programa é um primor e foge da simples exibição de uma dança típica de centena de pessoas. Durante os preparativos para o momento da apresentação musical, quando competirá Corumbá/MS e Bento Gonçalves/RS, o roteiro mostra a cultura, a economia e as particularidades da cidade e de sua comunidade. O vencedor ganha um prêmio em dinheiro para uma de suas instituições filantrópicas.

Há algum tempo não via um programa de televisão com tamanha qualidade em termos de conteúdo cultural e de exposição de memórias históricas. A cultura e as memórias agradecem muito pelo compartilhamento com o Brasil inteiro. Fico mais feliz do que pinto no lixo quando vejo uma produção televisiva séria, confiável, útil e profunda na contramão da superficialidade recorrente e das cansativas exposições das celebridades instantâneas e seus “grandes feitos”. Um programa que funcionará como uma terapia contra a amnésia cultural e educacional que assola nosso país. Ficaremos enriquecidos de cultura e do exemplo de trabalho e dedicação nos saberes e fazeres que caracterizam a imigração italiana que tanto fez e faz pelo Brasil. Essa é a tônica do programa e de fato é um oásis dentre as produções que infestam nossos melancólicos domingos da televisão brasileira aberta. Expor as memórias dessa forma é, tecnicamente falando, a melhor forma de conservar. Disseminar uma cultura é garantir que ela não vai sucumbir diante da globalização e da banalização cultural recorrente por aqui. Quanto mais se usa, mais se tem! Quanto mais se tem, mais educação, cultura dignidade e referência, personalidade. É assim que se conservam as memórias para que elas sejam disponibilizadas para qualquer fim. Fim este que Bento Gonçalves soube produzir e tirar maravilhoso proveito.

Tenho trabalho e muitos amigos em Bento Gonçalves. Fico feliz em ver que o tanto que trabalham e o que fazem verdadeiramente com as memórias dos imigrantes italianos sejam contados e que sirva de exemplo de que patrimônio histórico não é só velharia mal exposta e mal guardada que cheira a mofo, vigiada por grandes egos. É sim forma de desenvolvimento social e econômico sério. Ser compartilhado nacionalmente é um prêmio por merecimento por que, se quisermos aprender como se trabalha de sol a sol e como se constrói uma cidade e se recebe bem os turistas é só não perder a “Dança da Galera” no próximo domingo, no Domingão do Faustão.

Parabéns Fausto Silva, obrigada!

E salientando que Bento e Corumbá já são vitoriosos, desejo boa sorte aos meus amigos oriundi, por quem estarei torcendo.

Grande abraço e boa sorte Bento Gonçalves.

Alice Prati

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JOSÉ

05 de abril de 2013 1

JOSÉ

Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
E agora, você?

E agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
E agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

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Monte Belo do Sul

23 de março de 2013 1

A convite de nossa querida amiga bento-gonçalvense, Neiva Poletto, estivemos visitando no dia de ontem o município de Monte Belo do Sul, maior produtor per capita de uvas da América Latina.

Tivemos um dia agradabilíssimo oferecido pelo vereador Álvaro Manzoni. Visitamos a colônia genuína e fomos recebidos pela família Cavalleri, que nos convidou para sua casa, seu sítio e sua família. Na entrada, deparamo-nos com uma casa de pedra construída há 142 anos pelos imigrantes italianos.

Ganhamos um vinho puríssimo do seu José Cavalleri e almoçamos na Cantina da Nona Metilde.

Memória pura.

Na foto diante da casa de pedra,  José e Mercedes Cavalleri, Alice Prati, Neiva Poletto, Elisane Quintana e Álvaro Manzoni.

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E aí, Chicão? Firmeza véi?

16 de março de 2013 0

O Vaticano é o menor país do mundo em área e população, com 44 hectares de área e pouco mais de 800 habitantes. O regime de governo é a monarquia eletiva e não sucessória administrado pelo Bispo de Roma (o Papa), sendo por isto uma autocracia, pois concentra todo o poder da Sé Episcopal e do país Vaticano. A área do Palácio de Latrão foi doada pelo Imperador Constantino em 313 ao Papa Milcíades, mas o país foi fundado em 1929 pelo Tratado de Latrão, assinado pelo Papa Pio XI e pelo ditador Benito Mussolini. É um estado soberano, neutro e inviolável.  Sede da Sé Episcopal que data do século III, cujos idiomas são o italiano e o latim. A palavra Vaticano vem do latim “Mons Vaticanus” (Monte Vaticano) e significa vidente, adivinho. Mas segundo alguns historiadores a origem verdadeira é etrusca: Vagitanus, um Deus que tinha por atribuição abrir a boca dos recém-nascidos para que pudessem dar o primeiro grito ou o primeiro choro, que teve seu templo construído nesse local.

Existem evidências de que o apóstolo Pedro foi torturado e morto crucificado de cabeça para baixo para proclamar seu amor a Jesus Cristo no monte Vaticanus.

O PIB (Produto Interno Bruto) do país é de US$ 333 milhões (179º), o patrimônio financeiro mensurável é de quase 700 milhões de dólares e a economia é a captação de donativos vindos das comunidades eclesiásticas (igrejas) e o turismo. O Vaticano é considerado um dos locais de maior importância artística e cultural do mundo em razão de seu acervo: Museu Vaticano, Arquivo Secreto do Vaticano, Biblioteca Apostólica, acervo arquitetônico (Basílica de São Pedro, Arquibasílica de São João Latrão, Capela Sistina e Praça de São Pedro) e acervo artístico, patrimônio financeiro e cultural imensurável (pinturas, esculturas e o acervo do museu). Depois de tudo isso vem o mais importante: o país Vaticano é uma potencial rota de peregrinação de mais de um bilhão e duzentos milhões de fiéis da Igreja Católica Apostólica Romana.

O Estado do Vaticano tem seus próprios embaixadores ou representantes, um jornal oficial (Acta Apostolicae Sedis) , uma estação de rádio, uma força militar denominada "Guarda Suíça", e uma força policial militar, denominada "Corpo da Gendarmaria do Estado da Cidade do Vaticano". Emite autonomamente moeda (desde 2002, o euro), selos e passaportes.

Nesse minúsculo país existe o Palácio do Papa onde reside o sumo pontífice, chefe da Igreja Católica, bispo de Roma: o Papa! Vejam que mega: possui cinco mil quartos, 200 salas de espera, 300 casas de banho, 100 gabinetes de leitura e dezenas de dependências destinadas às recepções diplomáticas. A gastronomia preferida de alguns dos 266 moradores ilustres que lá habitaram, cada um a seu tempo e de forma vitalícia até 2013, é Ovos Beneditinos, Lagosta com Trufa Branca, Musse de Faisão ao Molho de Chaudfroid e Maçapão de Água de Rosas.

O primeiro morador foi um antipapa (ver rodapé) chamado Hipólito de Roma em 235 e o mais recente, empossado dia 13 de março de 2013 se chama, além de Jorge Mario Bergoglio, 76 anos, agora Francisco, jesuíta da congregação Companhia de Jesus! Pasmem... Argentino!

Muito bem! Depois de esclarecida a história e as memórias que a compõem, falo da incredulidade, minha e de todos os brasileiros, mais especificamente dos gaúchos, com a nacionalidade do Papa escolhido. Sim, temos Pelé e eles aquele baixinho que mora na Argentina... Não me lembro do nome! Tudo começou aí. Hoje temos Neimar e eles, eles têm aquele... Aquele outro baixinho que mora na Espanha... Hummm! Não vou me lembrar...  Agora eles têm... O Papa?  E nós? Só nos sobra o fato de Deus ser brasileiro, mas Ele nunca confirmou isso, não há rigor histórico, portanto, não pode ser comprovado! Perdemos!

Não podia ter sido apenas um bispo ou um cardeal importante no Vaticano? Quem sabe um padre cantor que fizesse sucesso mundial?  Mas o Papa, Oh! Dor! Vamos ter que aguentar a farpa hermana! Chamar um hermano de Vossa Santidade? Tudo bem: nós temos que aguentar!   Ótimo para eles, mas difícil para o Francisco que conta com aquela richa histórica entre o país com o maior com número de católicos, o Brasil, e a Argentina, sua terra natal. Mas de todo modo, sem cultivar a richa, penso que se o Papa cometer algum erro e, como humano, passível de, será argentino, certamente! Mas se acertar será latino-americano, mais precisamente, nosso vizinho... Um conhecido, um amigo para quem, como bons brasileiros malemolentes e confiados, nos dirijamos assim: “aí, Chicão? Firmeza véi?” Quem sabe, né?  Mas aviso, os gaúchos terão que esquecer um pouco a richa em favor do bom convívio com as coisas dos céus! Por favor! Por aqui já temos muita tragédia, muito escândalo e muita corrupção. O que menos precisamos é de uma richa com Deus. Não vou dizer que quando o Boca vier jogar na Arena ou no Beira Rio tenhamos que deixá-lo ganhar ou que  devamos abrir as fronteiras para o comércio argentino sem restrições... Ou ainda trocar o samba pelo tango. Nada disso, mas é bom ficar de olho e não carregar na piada!

O bom é que o Chicão sempre estará em contato direto com sua Argentina, com o Brasil, com o Uruguai, esses países de suas raízes. Mas não o invejo por que logo no início de seu papado vai ter que receber La Kirchner com, fiquei sabendo hoje, gigantesca comitiva e logo em seguida ser siceroneado pelo Cabralzinho no Rio de Janeiro, na Jornada Mundial da Juventude. Será que ele vai aproveitar e ir à Argentina? Tomara que não, pois se não habemus Papam, pelo menos que sejamos os primeiros a sermos visitados... Que coisa, heim? Não vai dar tempo nem de ir a sua terra natal... Ou será que esqueceu qual é? De fim do mundo já chamou! Ehehehehe.

Mas, brincadeiras à parte, penso que um papa latino-americano, que gosta de futebol, bailarino de milonga, que foi para carreira religiosa por desgosto amoroso e muito simpático, exibe um sorriso fácil, pode arrumar as coisas lá pelo Vaticano, para a tranquilidade de um bilhão e mais de duzentos milhões de fiéis. Tem sangue quente – ítalo-portenho! Vai dar um jeito de, na companhia de Jesus, separar o joio do trigo que tem infestando a Igreja Católica. Se usar seus poderes latinos para o bem e tudo indica que sim, estará fazendo grande obra, pois líder de mais de um sexto da população do planeta, precisa dar exemplo de simplicidade, espiritualidade, bondade e compreensão... Tudo o que se espera de um líder religioso... Tudo bem, argentino, mas que já deu sinais de ser um grande líder que ao chegar dispensou o ouro e a limusine!

Ah! Grande coisa se nosso Francisco tem só dois filhos e o Francisco deles tem mais de um bilhão...  Se eles têm o Jorge Mario, O Francisco, nós temos o Mario Jorge... O Zagallo!

***Um antipapa é uma pessoa que reclama o título de "Papa", em oposição a um Papa legitimamente eleito,ou durante algum período no qual o título estava vago. Não é necessariamente sinal de doutrina contrária à "Fé" ensinada pela "Igreja Católica". No passado, antipapas eram geralmente apoiados por uma facção significativa de cardeais e reinos.

Alice Prati

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Dorme, Mael!

04 de março de 2013 0

A justiça, a pedido do Ministério Público do RS, condenou o pichador Ismael a ficar em casa à noite, das 24 às 06 horas, para não pichar a cidade.  Em se tratando de Ismael ou Mael, como assina nos prédios altos de cima abaixo, é muito bom para a cidade, para os jovens de uma maneira geral e para o próprio Mael, que agora vai ter que nanar à noite e parar de sujar, de dar péssimo exemplo e, como dizia minha avó, “de inhapa”, salvar sua própria vida das quedas dos altos prédios. Sendo otimista, quem sabe não se dedica a estudar ou produzir algo positivo para ele e para a sociedade, já que vai ter todas as noites livres da pichação?! Digo seu nome e mostro sua obra pelas ruas da cidade por que foi condenado. Antes eu não mostrava suas garatujas e não dizia seu nome por que notoriedade é tudo o que os pichadores de carteirinha querem. Essa é a regra. Agora posso mostrar, pois é um pichador condenado que vai ter que... Nanar à noite!

Na linguagem dos bondes – grupos formados por pichadores – Mael é um dos mais “furiosos” e corajosos. Com isso e para isso sujou, suja e degrada a cidade maciçamente todos os dias (com outros nomezinhos que podemos ver por aí), causando danos imensos ao patrimônio público que só no ano passado, alcançaram as cifras de um milhão de reais no reparo do vandalismo. Danos ao patrimônio privado, casas e prédios, não foram computados pelos gestores públicos, mas estão na casa de, com certo otimismo, dez prédios privados para cada um, público. Para quê dar importância ao patrimônio do contribuinte, né? O patrimônio histórico monumental da cidade, que agoniza nas ruas e praças, padece do mesmo mal. Novamente pergunto: para quê dar bola para a educação e para a cultura, né?

Deixo uma sugestão: por que a indústria de tintas, que tem lucro considerável vendendo os sprays não é chamada a apoiar, talvez de livre e espontânea “pancada” – por que até agora só se fez de morta – projetos que visem dar luzes a esse descarado sistema marginal da pichação? Não me venham com oficinas de grafite! Isso é bom para o Orçamento Participativo, como cachoeira de votos nas eleições municipais e até estaduais! Falo em projetos sérios que beneficiem a segurança pública (uma câmera de segurança para cada flagrante, quem sabe?) e educação patrimonial nas escolas... Por que não? Pergunto ainda por que não punir severamente como a um crime qualquer o pichador reincidente? É normal pichador ter 20 flagrantes! É mais uma face da impunidade... Onde está a inspiração do projeto americano “vidraças quebradas”, de comprovada e ovacionada eficácia? Parece que a justiça e os gestores não ligam para nada... Dos pichadores aos alvarás, dos criminosos aos infratores, dos bêbados do trânsito aos traficantes de drogas, dos moradores de rua aos presídios, filiais do inferno... O que será que é sagrado para eles? Onde colocam o compromisso que assumiram com os votos ou com seus contratos de trabalho?

Mas o que não entendo mesmo é por que os pichadores maiores de idade ou os pais dos menores, não são penalizados financeiramente como nós, cidadãos? Por que não precisam pagar como nós pagamos pela degradação dos patrimônios público e privado? Nós contribuintes pagamos duplamente, mas os criminosos não e ainda ficam livres para reincidirem! Qual é? Que permissividade é essa da justiça e da gestão pública? Descaso, conivência ou comprometimento? Sei que todo o movimento que reúne muita gente é respeitado, mas devo avisar que nós contribuintes, coitados, também somos muita gente... Pena é que ainda não sabemos disto. Quem sabe agora que as vísceras do poder público ficaram à mostra com a tragédia da Boate Kiss, não tomamos um choque de gestão e aprendemos a escolher melhor nossos administradores? Quem sabe não compreendemos que eleições não são carnaval, futebol ou MMA. É coisa séria pessoal! Não escolher bem está matando a gente e a gente da gente... Não dá mais! O Brasil cresceu e envelheceu! Os erros do passado, se não forem sanados, assumirão proporções imensas...

Não tenho dúvida de que Mael é um dos líderes da pichação na cidade. Algo como o macho alfa da sujeira ou “porcalhão-mor”!!! Como no tráfico de drogas: toda a vez que uma liderança é presa a quadrilha toda se desarticula. Organiza-se depois novamente, mas leva um bom tempo dando um refresco para nós, pobres cidadãos mortais que temos que correr atrás de nossa felicidade,  encarando a cidade fora dos palácios e das regalias das castas brasileiras e de seus feudos: sem  motoristas particulares, sem guarda-costas, sem porteiros, sem condomínios fechados, sem palácios, sem  seguranças.

A incumbência que eu não queria de forma alguma seria vigiar esse pichador condenado, o que foi delegado à Brigada Militar. Certamente que Mael vai burlar a vigilância e vai para as ruas pichar a tudo e a todos, especialmente a permissividade e o paternalismo dos órgãos de justiça com os meninos pichadores! Digo isto por que transgredir é seu hobby, sua paixão e, como eles mesmos dizem, sua adrenalina. Pichar é somente a ordem do dia que pode ser também traficar, matar, roubar e furtar, além de aliciamento de outros jovens. Quanto vai custar para ele mais uma transgressão? Foi mandado para o seu quarto à noite, mas, particularmente, acho agora que, de pijama, vai ser muito mais “irado” subir nos altos prédios. Vai dar muito mais adrenalina! Espero que a Brigada Militar consiga cumprir sua missão e não se submeta a ser mais um brinquedinho do Mael!

O primeiro pichador porto-alegrense, o policial aposentado José Toniolo, que pichava somente no patrimônio público na década de 80, desafiava a polícia que sempre o perseguia e, às vezes, o prendia. Tinha um código de ética muito particular, diferente dos pichadores atuais envolvidos em roubo, furto, tráfico de drogas, homicídios e que picham tudo que veem pela frente. O modus operandi dele, um exibicionista de mão cheia, era avisar onde e quando iria pichar, a exemplo do que fez no palácio do governo do estado. Avisou que atacaria e no dia marcado, o efetivo policial estava em massa para cuidá-lo e impedi-lo.

Bons tempos aqueles da década 80 quando o efetivo policial podia se dedicar aos pichadores! Dizem que entrou escondido na Catedral Metropolitana e esperou por um tempo, vestido de padre. Quando saiu, pichou as paredes sem que ninguém o tivesse visto, restando apenas a sua assinatura no local marcado. De outra feita avisou que picharia o Palácio do Planalto em Brasília em tal dia e tal hora. Tomou um ônibus aqui e iniciou sua longa viagem até o Distrito Federal. Próximo da região central houve uma batida policial e sua condução foi interceptada. Foi preso! A polícia o venceu! No tal dia e na tal hora estava trancafiado. Não pichou nada, sim? Não! No tal dia e na tal hora sua assinatura – era só o que pichava – estava lá! Hoje está sob custódia em uma clínica para tratamento psiquiátrico... Por que os outros, os pichadores atuais, não estão em clínicas, reformatórios ou em liberdade condicional também? Ficar em casa à noite é uma ótima medida, mas é como tratar amigdalite com analgésicos!

Mael é especializado e especializa seus comparsas, se é que se pode chamar de especialização o que ele faz. Picha em altos prédios, principalmente aqueles que recém foram pintados. Utiliza técnicas de rapel e de Le Parkour. Suas perigosas investidas valem muito dinheiro nas apostas entre bondes, mais respeito como macho alfa dominante do bando e produzem mais adrenalina, como todo o pichador que se preza responde quando perguntado por que corre tantos riscos para sujar uma cidade. Chega a ficar escondido por mais de seis horas nos telhados dos prédios, muitas vezes subornando zeladores e vigilantes. Depois de 21 flagrantes, de cair de um prédio de 20 andares no Bairro Bom fim e ter graves fraturas, foi pego há alguns dias, novamente pichando. A probabilística nos diz que se foi flagrado 21 vezes pichando, deve ter pichado 50 vezes mais do que isso. É só olhar para a cidade e ver a quantidade de prédios com seu autógrafo.

Existem bondes de pichação especializados também em invadir a área administrativa do Trensurb e pichar os vagões estacionados, assim como campeonatos foram realizados e o prêmio seria dado a quem chegasse primeiro e pichasse os vagões dos trens da ALL em Santa Maria/RS. A largada foi dada pela internet, em Porto Alegre, aliás, esta uma ferramenta indispensável aos bondes de pichação. Existem muitos especialistas dentro da pichação, mas a maior especialização de todas, eu diria um MBA, um mestrado ou um doutorado, é que todos conseguem, talvez por serem jovens, provocar paternalismos e maternalismos em quem deveria vigiar, coibir, punir e tratar a pichação como crime. Assim, conseguem ficar em liberdade e o máximo da pena é... Ir para a casa nanar ou realizar trabalhos comunitários! Depois disto voltam a sujar a casa dos titios e das titias sem dó nem piedade, também cometendo otras cositas más, aproveitando a viagem e a passagem grátis!

Hoje dois jovens foram flagrados de madrugada pichando prédios na Avenida Independência em Porto Alegre. Levados para a delegacia, um deles disse que continuaria pichando. Claro! Não dá nada! Sobre o outro, foi comentado pela imprensa que era suspeito de homicídio... Os dois picharam, opa, assinaram um termo circunstanciado e foram liberados! Bravo! Escaparam de ir para casa fazer companhia para o Mael... nanar!

Já em Santa Maria o assunto foi tratado por diligências que envolveram mais de cem policiais, 35 mandados de busca e apreensão e muita determinação da justiça, policia civil e Brigada Militar. Restaram mapeados 20 bondes, presas e apreendidas 35 pessoas diretamente ligadas à pichação, das quais onze aguardam condenação. Os mandados de segurança permitiram que a polícia entrasse nas casas dos suspeitos e fizesse buscas minuciosas, ou seja, em Santa Maria decidiu-se largar a postura de vítimas pagantes dos prejuízos do vandalismo e do aliciamento de jovens e partir-se para a qualificação, tipificação, tratamento e punição aos criminosos da pichação.

Nas casas os policiais encontraram croquis dos mesmos desenhos reproduzidos nos prédios da cidade, bem como tintas, revólveres e drogas! Essa é a pichação, uma espécie de gran bazar do crime que vai arregimentando jovens e os introduzindo no submundo e no risco de vida. A coordenação dessa cruzada foi do delegado Marcelo Arigony, o mesmo que conduz o inquérito sobre a tragédia da Boate Kiss. É isso: preocupação sem ação efetiva para reversão do grave quadro é conivência ou falsidade. Isso é se preocupar com os jovens de verdade quando matam e quando, infelizmente, morrem! Bravíssimo, delegado Arigony. Coragem não é para todos e não se compra no supermercado!

Quanto ao Mael, meu velho conhecido dos monumentos quando ainda fazia estágio de alpinismo, vai nanar em casa. Zzzzzzzzzzzz!!! Vamos ver quanto tempo vai durar esse sono! Zzzzzz!

Alice Prati

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