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Nova busca - outros

demais e de mais

Prezado Doutor: nunca tenho certeza quando devo usar demais (uma só palavra) ou de mais (duas). Não ficou claro nas gramáticas que consultei. Acho que os exemplos se contradizem e quanto mais estudo, mais confusa eu fico. O senhor tem uma boa regra para isso?

Juçara D. — Londrina (PR)

Minha prezada Juçara: em linguagem, como na vida, certas coisas são como são. Se um geólogo estuda um lençol de areia movediça e o faz assinalar em todos os mapas, ganham os viajantes, que passarão por ali com todo o cuidado — mas essa areia não vai ficar menos móvel só por causa disso. O mesmo ocorre, em Português, nessa nebulosa região em que se misturam vocábulos e locuções. Ali a luz é escassa e a sombra é espessa; ali formas como debaixo, demais, detrás convivem com locuções como de baixo, de mais e de trás. Meu mapa diz que o terreno é movediço, e o máximo que eu posso fazer por ti é mostrar-te algumas coisas básicas que aprendi nos tantos anos em que vivi neste território.

1 — Usamos o vocábulo demais em duas situações básicas (vamos deixar de fora expressões como de mais a mais, etc.). Primeiro, como advérbio de intensidade (irmão de muito, pouco, bastante, etc.), com o sentido de “excessivamente, além da conta” ou de “muitíssimo”. Deves te lembrar que esses são os advérbios que podem modificar um verbo, um adjetivo ou mesmo outro advérbio (os demais só modificam verbos): 

Eu falei demais. Vocês comem demais.

O relógio é caro demais. É tarde demais!

Isso é bom demais! Ela canta bem demais!

Em segundo lugar, pode ser um pronome indefinido, significando “os outros, os restantes”. Como é um pronome adjetivo, sempre vai acompanhar um substantivo (expresso ou elíptico):

Convidaram Laura e os demais colegas. 

Contrate este candidato e dispense os demais

2 — A locução de mais, formada pela preposição de e o advérbio mais, significa “de sobra”, “a mais”, e opõe-se simetricamente à locução de menos:

Cuide para não colocar sal de mais no churrasco. 

Uns têm coisas de mais, outros de menos.

O Aurélio registra, também, o sentido “capaz de causar estranheza; anormal”: 

Não vejo nada de mais em sua resposta.

Essas distinções vão ajudar-te a navegar com serenidade no mar de nosso idioma. Afinal, os simples viajantes não precisam saber que, lá das profundezas, espreitam perigos que preferimos nem conhecer. Um espírito de porco poderia contrapor “ela falou demais” (“excessivamente”) com “ela estudou de mais” (por oposição a “ela estudou de menos“), mas seria o caso de jogá-lo por cima da borda e continuar a viagem. Abraço. Prof. Moreno