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	<title>Sua Língua</title>
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	<description>Gramática, língua portuguesa, regras de ortografia, novo acordo ortográfico</description>
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		<title>caquistocracia</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Apr 2013 13:18:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudio Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Etimologia e curiosidades]]></category>
		<category><![CDATA[Origem das palavras]]></category>
		<category><![CDATA[criatividade lexical]]></category>
		<category><![CDATA[etimologia]]></category>
		<category><![CDATA[neologismos]]></category>
		<category><![CDATA[palavras novas]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando um regime privilegia um pequeno grupo de poderosos, quando as massas, conduzidas por líderes populistas, tentam se sobrepor às leis e às instituições, caímos na CAQUISTOCRACIA — o governo dos piores. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"> </p>
<p style="padding-left: 120px;text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif">Quando um regime privilegia um pequeno grupo de poderosos, quando as massas, conduzidas por líderes populistas, tentam se sobrepor às leis e às instituições, caímos na CAQUISTOCRACIA — o governo dos piores. </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: helvetica"><span style="font-size: medium">Às vezes meus amigos me convocam para servir de árbitro em alguma questão de linguagem. Desta feita, a discussão foi sobre a paternidade de <strong>caquistocracia</strong>, este desajeitado vocábulo que serve de título à coluna de hoje (e que já vou, sem demora, dissecar para meus leitores). Um dos lados alega que é um neologismo criado pelo professor Michelangelo Bovero, de Turim, que esteve em Porto Alegre numa das edições do <strong><em>Fronteiras do Pensamento</em></strong>; o outro atribui a criação do termo a um pensador argentino, Jorge Garcia Venturini, num artigo publicado na década de 70, anterior aos trabalhos de Bovero. Como já faz tempo que deixei de trabalhar de graça, fixei um preço para essa arbitragem; agora que ambos os contendores já pagaram o combinado (dois quilos de uma erva-mate muito especial e outras tantas voltas de <strong><span style="color: #228b22">lingüiça </span></strong>caseira), publico aqui o resultado de minha pesquisa.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: helvetica"><span style="font-size: medium">O interessante da questão é que tanto Bovero quanto Venturini (ambos são cientistas políticos) alegam ser o pai legítimo de <strong>caquistocracia</strong>, palavrona criada para designar "o governo dos piores", em oposição à <strong>aristocracia</strong>, que seria "o governo dos melhores" — mas nenhum dos dois tem razão. Eles são autores da segunda metade do século 20, e o termo já vinha sendo usado há mais de um século antes de nascer Venturini, que é o mais velho. Uma rápida passada pelo <strong><em>OED</em></strong> (o grande dicionário da Oxford — o maior monumento lexicográfico que conhecemos) mostra que o termo <strong>caquistocracia</strong> (em Inglês, <em>kakistocracy</em>) era usado desde 1826, enquanto o adjetivo da mesma família, <strong>caquistocrático</strong> (<em>kakistocratical</em>), já aparece em 1641. O fato de ambos se declararem, formalmente, inventores de uma palavra que já existia não depõe contra sua honestidade intelectual; são incontáveis os artistas e pesquisadores de renome que foram vítimas de <strong>criptomnésia</strong>, esta ilusão de ser o primeiro a formular uma determinada <strong><span style="color: #228b22">idéia </span></strong>ou a empregar determinado vocábulo quando, na verdade, estão apenas recuperando, na memória, um conteúdo que foi colhido na obra de outrem.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: helvetica"><span style="font-size: medium">Para entender melhor a motivação que fez esta palavra nascer (seja lá quem tenha sido o seu criador), é necessário voltar, na Grécia antiga, à obra de Políbio, que morreu no ano de 125 A.C. Assim como todas as coisas estão sujeitas à degeneração, dizia ele,  assim também degeneram as formas de governo que podemos adotar. Assim como a ferrugem, para o ferro, ou o caruncho, para a madeira, são enfermidades internas que podem destruir esses materiais, cada um dos regimes políticos conhecidos traz consigo o risco de uma enfermidade que pode disvirtuá-lo: a <strong>monarquia</strong>, com o rei bom, pode degenerar em <strong>tirania</strong> (ou despotismo).  A <strong>aristocracia</strong>, em que mandam os mais sábios (de <em>aristós</em>, "o melhor" + <em>cracia</em>, "poder"), pode degenerar em <strong>oligarquia</strong> (de <em>olígos</em>, "pouco" + <em>arquia</em>, "autoridade"), o governo de poucos, ávidos predadores da sociedade. Finalmente, a <strong>democracia</strong> (de <em>demos</em>, "povo") pode descambar para a <strong>oclocracia</strong> (de <em>óclos</em>, "multidão"), o governo da ralé que, controlada por demagogos, usa a força bruta para se sobrepor à lei e às instituições.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: helvetica"><span style="font-size: medium">O bom Políbio preconizava, como preferível, um sistema político que misturasse as virtudes das três formas benignas (monarquia, aristocracia e democracia) para estabelecer um regime misto em que os melhores mandassem em nome do povo, mas nunca chegou a pensar, como fez Bovero, na possibilidade oposta — um regime em que viessem a se combinar as características das três formas degeneradas (tirania, oligarquia e oclocracia). Afinal, Bovero, que é nosso contemporâneo, acompanhou a dissolução política que caracterizou a Itália de Berlusconi e viu nascer esse sistema — hoje tão próximo do Brasil e de seus vizinhos —  que mistura a cega violência da massa, a oligarquia dos ricos e o autoritarismo quase ditatorial dos líderes demagógicos. Pois foi justamente para nomear esta sinistra combinação dos vícios e defeitos de todos os sistemas que lhe ocorreu (como já tinha ocorrido a outros, antes dele) juntar a <em>cracia</em> o elemento <em>kakistos</em>, "pior" (superlativo de <em>kakos</em>, "mau, ruim" — o mesmo que usamos em <strong>cacófato</strong> e em <strong>cacofonia</strong>). É claro que nem ele, nem Venturini, nem ninguém antes deles pode ser considerado o "pai" desta palavra. <strong>Caquistocracia</strong> nada mais era do que um vocábulo que já existia virtualmente no nosso estoque de palavras possíveis, à espera, apenas, de que a vida real produzisse as condições necessárias para que alguém a empregasse. É assim que a língua funciona.</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><strong><span style="color: #228b22">Depois do Acordo:</span></strong><br />
 <span style="color: #228b22">lingüiça&gt;<strong>linguiça</strong></span><br />
 <span style="color: #228b22">idéia&gt;<strong>ideia</strong></span></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Gentílicos</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Mar 2013 22:26:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudio Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Formação de palavras]]></category>
		<category><![CDATA[adjetivos gentílicos]]></category>
		<category><![CDATA[salvadorenho]]></category>
		<category><![CDATA[salvadorense]]></category>
		<category><![CDATA[soteropolitano]]></category>

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		<description><![CDATA[Dois leitores trazem suas dúvidas sobre adjetivos gentílicos: quem nasce na cidade de Salvador, na Bahia, não poderia também ser chamado de "salvadorenho"? E quem tem uma esposa natural da Indonésia pode dizer que casou com uma "indonesiana" — ou é mesmo com uma "indonésia"?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;padding-left: 210px"><span style="font-family: tahoma,arial,helvetica,sans-serif"><span style="font-size: medium">Dois leitores trazem suas dúvidas sobre adjetivos gentílicos: quem nasce na cidade de Salvador, na Bahia, não poderia também ser chamado de "salvadorenho"? E quem tem uma esposa natural da Indonésia pode dizer que casou com uma "indonesiana" — ou é mesmo com uma "indonésia"?</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: tahoma,arial,helvetica,sans-serif"><span style="font-size: medium"> </span></span><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Mais de um pai (ou mãe) já me escreveu para conferir questões de Português que seus filhos trouxeram da escola. Desta vez, um paulista de São Carlos ficou em dúvida quanto ao gentílico correspondente à cidade de Salvador: "Numa prova do colégio perguntaram como se chama o brasileiro que nasce na capital da Bahia. Minha filha respondeu <strong>salvadorenho</strong>, mas a professora marcou errado, dizendo que é <strong>soteropolitano</strong>. Eu nunca ouvi falar nisso, e acho que a menina está certa, mas não tenho instrução suficiente para discutir com a professora. O senhor concorda comigo?".</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Pois fica sabendo, aflito leitor, que a professora fez bem em recusar o <strong>salvadorenho</strong>, mas exagerou um pouco ao indicar a resposta apenas como <strong>soteropolitano</strong> (é esquisitíssimo, eu sei, mas existe). Primeiro, é necessário lembrar que alguns países ou cidades têm dois gentílicos diferentes — o usual, formado pelos processos naturais de nosso idioma, e outro mais erudito, formado  artificialmente com radicais do grego ou do latim ou derivados de antigas denominações nacionais. É por isso que temos <strong>húngaro</strong> e <strong>magiar</strong> para a Hugria, <strong>suíço</strong> e <strong>helvécio </strong>para a Suíça, <strong>português</strong> e <strong>lusitano </strong>para Portugal, <strong>francês</strong> e <strong>gaulês</strong> para a França, <strong>alemão</strong> e <strong>germânico</strong> para a Alemanha, <strong>japonês</strong> e <strong>nipônico</strong> para o Japão, <strong>buenairense</strong> e <strong>portenho</strong> para Buenos Aires.</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Embora raros, há casos semelhantes no Brasil. Por exemplo, para a cidade de São Luís, no Maranhão, temos <strong>são-luisense</strong> e <strong>ludovicense</strong> (de <em>Ludovicus</em>, nome do Latim tardio que deu origem ao nosso <strong>Luís</strong>); para Salvador, na Bahia, temos <strong>salvadorense</strong> e <strong>soteropolitano </strong>(do grego <em>soteros</em>, "salvador", mais <em>polis</em>, "cidade"; "Soterópolis", portanto, seria <strong>Salvador</strong> com anel de doutor e diploma na parede). Em alguns casos, até, só temos a forma erudita: para o estado do Rio de Janeiro, usamos <strong>fluminense</strong> (do latim <em>flumen</em>,  "rio", pois inicialmente se pensava que a Baía da Guanabara fosse um grande rio); para Três Corações, em Minas Gerais, usamos <strong>tricordiano</strong> (do latim <em>tri</em>, "três", mais <em>cordis</em>, "coração").</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Como podes ver, a menina errou a resposta — ou melhor, errou de Salvador: <strong>salvadorenho </strong>é quem nasce na república de El Salvador, não na capital da Bahia. Aliás, a maioria dos vocábulos que usam o sufixo –<strong>enho</strong> são gentílicos de origem espanhola: <strong>caraquenho</strong> (Caracas), <strong>caribenho</strong> (Caribe), <strong>cusquenho</strong> (Cusco), <strong>limenho</strong> (Lima), <strong>hondurenho</strong> (Honduras), <strong>panamenho</strong> (Panamá), etc. Agora, como a correção de uma prova é um momento privilegiado de aprendizagem, a professora, ao meu ver, deveria ter indicado também a variante <strong>salvadorense</strong>, a mais usada das duas.</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Outra consulta sobre o mesmo tema veio do outro lado do mundo: "Moro no Japão há muitos anos e casei com uma mulher nascida na Indonésia. A nacionalidade dela é <strong>indonésia</strong> ou <strong>indonesiana</strong>? Não acho tão estranho chamar um homem de <strong>indonésio</strong>, mas chamar minha mulher de <strong>indonésia </strong>soa mal, pois coincide com o nome do país — e o pior é que o termo <strong>indonesiana</strong> me parece incorreto. Acho que sou o único brasileiro do mundo a ter essas dúvidas...".</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Eu não diria isso, caro leitor. Muitos experimentam um mal-estar muito semelhante ao teu quando, referindo-se a pessoas, têm de usar femininos que coincidem, por exemplo, com o nome de atividades ou profissões: "Não aguento aquela <strong>química</strong>", "Casei com uma <strong>matemática</strong>", "Ele me apresentou a uma <strong>música</strong> fascinante". Às vezes, confesso, o efeito é tão desagradável que nos faz hesitar; não faz muito, recebi um cartão de visita que estampava "Clínica Geral" numa linha e "Mariazinha dos Anzóis" na linha seguinte. Era o nome de uma clínica ou a apresentação de uma profissional?</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">O gentílico <strong>indonésio</strong> simplesmente vai se juntar a vários outros cujo feminino se confunde com o nome do país, como é o caso de  <strong>argentina</strong>, <strong>armênia</strong> ou <strong>sérvia</strong>. Se não te agrada chamar tua esposa de <strong>indonésia</strong> (que é uma forma correta), podes muito bem empregar <strong>indonesiana</strong>, já que o termo é bastante usado fora do Brasil, produto de uma derivação sufixal muito frequente na formação dos adjetivos gentílico de nosso idioma. Lembro-te que o Brasil chama de <strong>canadense</strong> o que Portugal chama de <strong>canadiano</strong>; temos tanto <strong>argelino</strong> quanto <strong>argeliano</strong>, <strong>alasquense</strong> ou <strong>alasquiano</strong>, <strong>baiense</strong> e <strong>baiano</strong>, <strong>bósnio</strong> e <strong>bosniano</strong>, <strong>salvadorenho</strong> e <strong>salvatoriano</strong>.</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">NOTA: aproveito para informar aos amigos que inicio, no dia 18 de março, novas turmas do meu curso de Português na Casa de Ideias, no Shopping Total. Mais detalhes no telefone 30187740 ou pelo e-mail <a href="mailto:contato@casadeideias.com">contato@casadeideias.com</a>.</span></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A Reforma adiada: e agora?</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Feb 2013 11:45:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudio Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Acordo ortográfico]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Questões do momento]]></category>
		<category><![CDATA[adiamento da Reforma]]></category>
		<category><![CDATA[Reforma]]></category>

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		<description><![CDATA[A Reforma foi adiada — isso é fato. Mas e nós, como ficamos? O que vai resultar desse adiamento? Olhe, prezado leitor, há muitos desfechos possíveis. O adiamento, a meu ver, elimina desde já a hipótese de ficar assim como está; haverá alterações de rumo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;padding-left: 150px"><span style="font-family: tahoma,arial,helvetica,sans-serif"><span style="font-size: medium">Agora que a Reforma foi adiada, como é que  nós como ficamos? O que vai resultar desse adiamento? Olhe, prezado leitor, há muitos desfechos possíveis. O adiamento, a meu ver, elimina desde já a hipótese de ficar assim como está; haverá alterações de rumo.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Como vimos nas colunas anteriores, a presidente Dilma tinha toda a razão em sustar esta Reforma, adiando a sua definitiva entrada em vigor. Para que o futuro não repita esse erro (não é para isso que serve a História?), tratamos de apontar, pela ordem, os responsáveis, a fim de que o País saiba a quem culpar por este equívoco descomunal: a Comissão Elaboradora, que deu à luz a Reforma, mesmo consciente de que ela não faria o que prometia; o governo Lula, que tratou levianamente uma decisão desse porte em nome de um discutível ganho político; a comissão chapa-branca do MEC, que dissem amém ao projeto, apesar de estar ciente de seus defeitos; a Universidade, que se calou covardemente, traindo a confiança que nela deposita a sociedade que a sustenta; a ABL, que veio jogar gasolina na fogueira, ao lançar unilateralmente o seu Vocabulário Ortográfico e — o que é pior! — introduzir, por conta própria, algumas interpretações desastradas que fogem ao texto original.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Como em qualquer grande desastre, dói muito ficar sabendo — depois que ocorreu — que  houve várias oportunidades de evitá-lo. Bastaria que uma dessas instituições tivesse acenado com uma lanterna vermelha ou acionado os freios da locomotiva, e todos desceriam do comboio para avaliar o tamanho do abismo. No entanto, levados pelos mais diferentes interesses, todos acabaram se omitindo, num silêncio cúmplice que dava a todos nós, os passageiros, a impressão de que tudo corria muito bem sobre os trilhos.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">A imprensa também teve lá a sua parcela de culpa, ao aderir cegamente, desde o primeiro minuto, ao novo sistema. Tomando-o como um fato consumado, passou a preocupar-se apenas em explicar o "como usar"; foram publicadas dezenas de matérias que enumeravam "o que muda", mas nenhuma discutia a conveniência ou a <span style="color: #339966"><strong>exeqüibilidade </strong></span>da mudança. Foi como se a imprensa, ao ver tantas cabeças coroadas do mundo acadêmico endossarem o Acordo, tivesse considerado desnecessário examinar criticamente o projeto, não concedendo a ele nem um décimo da energia e do entusiasmo investigativo que os jornalistas costumam dedicar, por exemplo, ao corte de árvores em nossas ruas ou aos engarrafamentos de verão na BR-101.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Para piorar, outro fator veio contribuir para anestesiar a opinião pública: o belíssimo papel para presente em que a Reforma veio embrulhada. Afinal, quem não gostaria de unificar a grafia entre os países lusófonos e fortalecer o Português como língua internacional? Diante disso, falar contra a Reforma parecia, <em>ipso facto</em>, opor-se a essas coisas boas e desejáveis, em nome das quais a sociedade assinou ingenuamente esse contrato de compra em que o vendedor, de antemão, sabia que não poderia entregar o produto combinado. O inacreditável é que agora, mesmo depois de tudo o que se sabe, a ABL, em nota recente, continua a usar essas promessas vãs como argumento para lamentar o adiamento decretado pela presidente!</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Mas e nós, como ficamos? O que vai resultar desse adiamento? Olhe, prezado leitor, há muitos desfechos possíveis. O adiamento, a meu ver, elimina desde já a hipótese de ficar assim como está; haverá alterações de rumo. Poderíamos (1) simplesmente anular tudo e voltar ao sistema anterior — isso já foi feito em 1945, quando o Brasil desconsiderou o acordo assinado com Portugal e preferiu ficar com o modelo de 1943; (2) revisar e corrigir o texto atual, aproveitando o que vale a pena e descartando os absurdos; (3) eliminar todos os acentos gráficos do idioma — medida que aproximaria extraordinariamente a grafia dos dois países; uma ou duas gerações sofreriam as dores do parto, mas as outras cresceriam risonhas e saudáveis...</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Deve haver muitas outras saídas, mas, seja qual for a adotada, fomos empurrados para um brete do qual certamente não sairemos sem grandes prejuízos. O mal está feito; o problema agora é minimizar as <span style="color: #339966"><strong>conseqüências</strong></span>. Até 2016, vamos viver num limbo ortográfico, com os dois sistemas — o novo e o antigo — convivendo lado a lado, mas ambos inexoravelmente prejudicados: o novo, porque não nos convenceu; o antigo, porque adquiriu um inegável ar de provisório. Espero, ao menos, que todo esse sacrifício nos torne muito mais atentos e vigilantes a qualquer iniciativa "brilhante" que venha propor a troca do modelo ortográfico ou a adoção de novo modelo de tomada elétrica.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">NOTA: aproveito para informar aos amigos que inicio, em março, novas turmas do meu curso de Português na Casa de Ideias, no Shopping Total. Mais detalhes no telefone [51]30187740 ou pelo e-mail <a href="mailto:contato@casadeideias.com">contato@casadeideias.com</a>.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><strong><span style="color: #339966"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Depois do Acordo:</span></span></span></strong></p>
<p><span style="color: #339966"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">exeqüibilidade&gt;<strong>exequibilidade</strong></span></span><br />
 </span><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"><span style="color: #339966">conseqüências&gt;<strong>consequências</strong></span><br />
 </span></span></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>A Reforma adiada (3)</title>
		<link>http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2013/02/20/a-reforma-adiada-parte-3/</link>
		<comments>http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2013/02/20/a-reforma-adiada-parte-3/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 20 Feb 2013 16:55:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudio Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Acordo ortográfico]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Questões do momento]]></category>
		<category><![CDATA[adiamento da Reforma]]></category>
		<category><![CDATA[Reforma]]></category>

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		<description><![CDATA[A Reforma foi um desastre que resultou de uma trágica sequência de erros e omissões; veja aqui a parcela de responsabilidade que coube à Academia Brasileira de Letras e às editoras brasileiras.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="padding-left: 180px;text-align: justify"><strong><span style="font-size: medium"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif">A Reforma foi um desastre que resultou de uma trágica sequência de erros e omissões; veja aqui a parcela de responsabilidade que coube à Academia Brasileira de Letras e às editoras brasileiras.</span></span></strong></p>
<p style="text-align: justify"> </p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Diante do bem-vindo adiamento da entrada em vigor da Reforma Ortográfica, esta é a terceira coluna que dedico a nomear, para que todos guardem, os responsáveis por termos embarcado nesse inconcebível festival de leviandades que tanto prejuízo trouxe e que tanto mais ainda há de trazer ao sofrido povo brasileiro. Na galeria dos culpados, como vimos, o primeiro lugar cabe à <strong>Comissão</strong> que redigiu o Acordo, que deveria ter encerrado os trabalhos no momento em que se deu conta de que a unificação ortográfica, razão de ser da reforma, era impossível. Em segundo lugar vem o <strong>governo Lula</strong>, que, obcecado por interesses geopolíticos e diplomáticos discutíveis, jogou o país de ponta-cabeça numa aventura cujas <span style="color: #339966"><strong>conseqüências </strong></span>tinha a obrigação de prever, mas não previu. Em terceiro lugar vêm o <strong>MEC</strong> e a <strong>Universidade</strong>, que calaram por conivência, ou conveniência, deixando de esclarecer, como era o seu dever, o que precisava ser esclarecido. A esses devemos acrescentar, como veremos, a <strong>Academia Brasileira de Letras</strong>, as <strong>editoras</strong> e a própria <strong>imprensa</strong> brasileira.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"><strong>A Academia</strong> — A ABL também não pode se orgulhar da participação que teve neste episódio, pois terminou agravando os danos que o Acordo, por si só, traria ao Brasil. Seus defensores alegam que esta entidade, cuja ação é limitada a nosso país, não tem competência legal para se opor a um tratado assinado por vários Estados soberanos — o que é verdade —, mas, pelo mesmo raciocínio, ela também não tem competência para mudar o que tinha sido decidido, coisa que ela fez sem remorso ou hesitação, para espanto e escândalo de nossos parceiros portugueses. Seu maior erro foi editar o seu próprio <strong><em>Vocabulário Ortográfico</em></strong>, fazendo de conta que não tinha lido, no texto do Acordo, a disposição expressa de que os países signatários deveriam trabalhar na elaboração de um "vocabulário ortográfico comum". O pior é que, ao ser questionada por essa evidente traição ao espírito que presidiu a Reforma, a respeitável ABL saiu-se com uma resposta de "malandro eshhhhhperto", algo como "ué, nós já fizemos o nosso; eles que façam lá o seu" — o que soou, aos ouvidos de nossos parceiros, como uma sentença de morte à tão decantada "unificação". Pronto: com essa atitude de "Mateus, primeiro os meus", lá se ia água abaixo a concórdia aparente que tinha unido, até ali, os membros da comunidade lusófona, que agora ameaçam seriamente deitar às urtigas tudo o que foi combinado.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"><strong>As editoras</strong> — Desde o início, os editores brasileiros acolheram a ideia de uma nova ortografia como um maná caído do céu, pois julgavam que ela lhes traria uma grande expansão do mercado livreiro (tanto interna quanto externamente), além de facilitar o preparo e o aproveitamento de seus originais. Tinham toda a razão quanto ao mercado interno, pois imediatamente foi necessário fazer vultosas tiragens para suprir as bibliotecas escolares de todo o país, que tiveram de adaptar seu acervo ao novo sistema ortográfico, disputando as impressionantes verbas do Programa Nacional do Livro Didático, talvez o maior do mundo, no seu gênero. Quem apostou nesta ficha se deu bem.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">A perspectiva de ampliar o mercado externo, contudo, murchou como balão furado assim que ficou claro que a Reforma tinha muito pouco de unificadora, sepultando para sempre a ideia fantástica (e ingênua), alimentada no início, de que a ortografia unificada viria permitir que um original, com o mesmo trabalho de editoração, fosse consumível em qualquer um dos países signatários do Acordo. Na medida em que estaria livre de marcas ortográficas locais, o mesmo texto poderia circular por todo o mundo lusófono com a mesma facilidade que uma chave mestra abre todas as portas do hotel; um livro composto e impresso no Brasil poderia, desta forma, ser exportado sem a necessidade de ser reeditado com as adaptações necessárias para adequá-lo ao mercado lusitano, e vice-versa.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">O irônico é que essa avaliação errônea foi compartilhada  pelos editores daqui e de além-mar, mas com sentimentos opostos: os nossos a se felicitarem pela perspectiva de abocanhar uma nova fatia do mercado (os 40 milhões de leitores que seguem a norma portuguesa); os deles (falo de Portugal), a lamentarem o golpe dado pelo Brasil, que, com seu parque industrial mais moderno e pujante, passaria a ameaçar diretamente a indústria lusitana do livro e sua participação no mercado africano. Ora, como se viu, nada disso aconteceu, pelo simples fato da Reforma — volto a reiterar — não ter unificado coisíssima nenhuma. Parece que nossas editoras não consultaram especialistas (ou não quiseram acreditar nos especialistas que consultaram, o que dá na mesma); se o tivessem feito, teriam se dado conta, desde o início, de que o Acordo era um tigre de papel e de que a Reforma precisava ser implantada com mais estudo e cautela.</span></span></p>
<p><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">(continua)</span></span></p>
<p><span style="color: #339966"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"><strong>Depois do Acordo: conseqüências&gt;consequências</strong></span></span></span></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A Reforma adiada (2)</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Jan 2013 11:25:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudio Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Acordo ortográfico]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Questões do momento]]></category>
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		<description><![CDATA[Um dia alguém vai ter de explicar por que os linguistas e professores que integraram a Comissão de Língua Portuguesa do MEC não denunciaram as incongruências do Acordo, que saltam aos olhos a quem lê o texto com o mínimo de atenção.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="padding-left: 120px;text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-size: large"><span style="font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif">Um dia alguém vai ter de explicar por que os linguistas e professores que integraram a Comissão de Língua Portuguesa do MEC não denunciaram as incongruências do Acordo, que saltam aos olhos a quem lê o texto com o mínimo de atenção.</span></span></span></p>
<p style="text-align: justify"> </p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana, geneva;font-size: medium;line-height: 19px">Na coluna anterior, que comemorou o adiamento da obrigatoriedade das novas regras para 2016, começamos a apontar ─ para que meus leitores saibam e não esqueçam ─ os responsáveis, tanto externos quanto internos, por este imbróglio em que agora nos vemos metidos. Acho importante nomeá-los porque, acuados pelo decreto da presidente Dilma, esses mesmos responsáveis começam a se defender acusando os críticos da Reforma de "mal-intencionados ou desinformados". Eu, que não sou nem um nem outro, resolvi então expô-los à luz do sol, esperando, como na história do Drácula, que os humanos sobrevivam e os vampiros virem pó.</span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana, geneva"><strong>A Comissão</strong><span style="font-family: verdana, geneva"> ─ Como responsáveis externos, vão para o quadro da infâmia, como vimos, os membros da Comissão que redigiu e aprovou o Acordo, por sua espantosa desonestidade intelectual: ao aceitarem, como fizeram, centenas de grafias divergentes, eles deveriam, se tivessem o mínimo espírito cívico, declarado o encerramento dos trabalhos, admitindo publicamente que o projeto era </span><strong><span style="color: #339966"><span style="font-family: verdana, geneva">inexeqüível</span></span></strong><span style="font-family: verdana, geneva">. Contudo, por vaidade, por interesse político ou por ambos, preferiram prosseguir mesmo assim em direção ao abismo, condenando todos os países lusófonos a esta Reforma tão singular que, como não unifica o que propunha unificar, não diz a que veio ao mundo.</span></span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana, geneva"><strong>O Governo ─ </strong>Os responsáveis internos são muitos. O primeiro ─ e, por isso, o maior de todos ─  foi o governo Lula, pela pressa e pela forma irresponsável com que sancionou o projeto e passou às etapas seguintes de sua implementação. Por que o Brasil não seguiu Portugal, Angola e Moçambique (para citar nossos parceiros mais importantes nesta empreitada), que decidiram esperar até 2016 para concretizar a Reforma? Suspeito que por trás desse açodamento estivesse a intenção de pôr mais uma moeda no cofrinho do "protagonismo político-diplomático brasileiro";  o Itamarati (sem o ípsilon, revisor; chega dessa frescura! Queremos o mesmo tratamento que têm <strong>Itaqui</strong>, <strong>Ivoti</strong> e <strong>Panambi</strong>, para citar apenas alguns) ─ o Itamarati, repito, deve ter recomendado ao presidente que não esperasse o tiro de partida e desembestasse pista afora, assumindo, "na manha", a liderança entre os países lusófonos... É por isso que o adiamento decretado pela presidente Dilma está incomodando tanta gente: além de ser uma vitória do bom senso, vem derrubar mais um falso brilhante da coroa com que seu antecessor se pavoneava.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana, geneva"><strong>O MEC e a Universidade</strong><span style="font-family: verdana, geneva"> ─  É absolutamente inadmissível que os sonhos pessoais de um político sejam postos acima das sérias </span><strong><span style="color: #339966"><span style="font-family: verdana, geneva">conseqüências </span></span></strong><span style="font-family: verdana, geneva">culturais e pedagógicas da implantação de uma Reforma desse tipo, mas os defensores do ex-presidente agora alegam que ele foi mal aconselhado pelo MEC ─ o que é inegável. Não sei o que Lula teria feito se o grupo designado para examinar o impacto da Reforma ─ a Comissão de Língua Portuguesa, a tal COLIP ─ tivesse recomendado menos pressa com o andor, mas o fato é que ela não o fez. Inexplicavelmente, os </span><strong><span style="color: #339966"><span style="font-family: verdana, geneva">lingüistas </span></span></strong><span style="font-family: verdana, geneva">e professores de língua portuguesa que integravam a comissão não denunciaram (com raras e corajosas exceções) as incongruências do Acordo, que saltam aos olhos a quem lê o texto com o mínimo de atenção, nem sugeriram cautela na implantação de uma Reforma que, como já se via, servia apenas para introduzir algumas mudanças quase cosméticas no sistema vigente.</span></span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana, geneva"><span style="font-family: verdana, geneva">A não ser por alinhamento ideológico com o governo que terminou, fica difícil entender o silêncio conivente desses e da quase totalidade dos demais doutores de nossas universidades, os quais, por sua formação e por sua capacitação intelectual, devem ter enxergado, muito antes que os simples habitantes da planície, o esvaziamento do princípio justificador da Reforma e não deram o sinal de alerta. Afinal, a norma ortográfica já estava há muito consolidada; o dispêndio colossal de recursos para implantar um novo modelo (pobre Angola! ... pobre Moçambique!) só seria justificado se houvesse um ganho significativo com a mudança ─ o que, todos estamos vendo, simplesmente não vai ocorrer. Os problemas do Acordo e do VOLP, tão evidentes, contrastavam de tal maneira com o silêncio dos acadêmicos que recordei várias vezes, nesta coluna, a trágica figura de Cassandra, a filha de Príamo, o último rei de </span><strong><span style="color: #339966"><span style="font-family: verdana, geneva">Tróia</span></span></strong><span style="font-family: verdana, geneva">, condenada a viver uma situação absurda, mas semelhante à nossa: ela via claramente o que estava prestes a acontecer, mas ninguém parecia ouvir os seus avisos (confira </span><strong><a href="http://wp.me/pyJNc-k6">AQUI</a> </strong><span style="font-family: verdana, geneva">as honestas advertências que esta coluna vem fazendo desde 2007).</span></span></span></p>
<p><a href="http://wp.me/pyJNc-kE"><strong><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana, geneva">(continua aqui)</span></span></strong></a></p>
<p><span style="color: #339966;font-family: verdana, geneva;font-size: medium;font-weight: bold;line-height: 19px">Depois do Acordo:</span></p>
<ul>
<li><span style="font-family: verdana, geneva;color: #339966;font-size: medium;line-height: 19px">inexeqüível </span><strong><span style="font-family: verdana, geneva">&gt; inexequível</span></strong></li>
<li><span style="font-family: verdana, geneva;color: #339966;font-size: medium;line-height: 19px">conseqüências </span><span style="font-family: verdana, geneva"><strong>&gt; </strong><strong>consequências</strong></span></li>
<li><span style="font-family: verdana, geneva;color: #339966;font-size: medium;line-height: 19px">lingüistas </span><strong><span style="font-family: verdana, geneva">&gt; linguistas</span></strong></li>
<li><span style="font-family: verdana, geneva;color: #339966;font-size: medium;line-height: 19px">Tróia </span><strong><span style="font-family: verdana, geneva">&gt; Troia</span></strong></li>
</ul>
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		<title>ARTIGOS SOBRE REFORMA ORTOGRÁFICA</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Jan 2013 22:26:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudio Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Acordo ortográfico]]></category>
		<category><![CDATA[Destaquinho]]></category>
		<category><![CDATA[Generalidades]]></category>
		<category><![CDATA[Reforma]]></category>

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		<description><![CDATA[São muitos os artigos do Sua Língua que falam do Acordo Ortográfico. O adiamento da obrigatoriedade das novas regras para 2016 abre uma clara perspectiva de revisão da Reforma, o que torna extremamente oportuna a revisão da matéria. Abaixo, em ordem de publicação, os dez textos em que analiso mais de perto as causas, as consequências e os prejuízos desta periclitante Reforma.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><span style="font-size: large"><span style="font-family: verdana, geneva">São muitos os artigos do Sua Língua que falam do Acordo Ortográfico. Reúno, abaixo, em ordem de publicação, os dez textos em que analiso mais de perto as causas, as consequências e os prejuízos desta periclitante Reforma:</span></span></p>
<p style="text-align: justify"> </p>
<p><span style="font-size: large"><span style="font-family: verdana, geneva">01 ─ <a href="http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/06/02/deixem-a-nossa-ortografia-em-paz/">Deixem a nossa ortografia em paz</a>!</span></span></p>
<p><span style="font-size: large"><span style="font-family: verdana, geneva">02 ─ <a href="http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/06/02/esquecam-essa-reforma-2%C2%B0-de-10/">Esqueçam essa reforma</a>!</span></span></p>
<p><span style="font-size: large"><span style="font-family: verdana, geneva">03 ─ <a href="http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/06/02/o-pesadelo-de-cassandra3%C2%B0-de-10/">O pesadelo de Cassandra</a></span></span></p>
<p><span style="font-size: large"><span style="font-family: verdana, geneva">04 ─ <a href="http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/06/02/o-pesadelo-de-cassandra-continua-4%C2%B0-de-10/">O pesadelo de Cassandra continua</a></span></span></p>
<p><span style="font-size: large"><span style="font-family: verdana, geneva">05 ─ <a href="http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/06/02/o-que-muda-na-ortografia-5%C2%B0-de-10/">O que muda na ortografia?</a></span></span></p>
<p><span style="font-size: large"><span style="font-family: verdana, geneva">06 ─ <a href="http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/06/02/mudancas-na-ortografia-6%C2%B0-de-10/">Mudanças na ortografia</a></span></span></p>
<p><span style="font-size: large"><span style="font-family: verdana, geneva">07 ─ <a href="http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/06/02/nao-compre-o-novo-volp-8%C2%B0-de-10/">Não compre o novo VOLP! (1)</a></span></span></p>
<p><span style="font-size: large"><span style="font-family: verdana, geneva">08 ─ <a href="http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/06/02/nao-compre-o-novo-volp-2%C2%AA-parte-9%C2%B0-de-10/">Não compre o novo VOLP! (2)</a></span></span></p>
<p><span style="font-size: large"><span style="font-family: verdana, geneva">09 ─ <a href="http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/06/26/nao-compre-o-novo-volp-3%C2%AA-parte-10%C2%BA-de-10/">Não compre o novo VOLP! (3)</a></span></span></p>
<p><span style="font-size: large"><span style="font-family: verdana, geneva">10 ─ <a href="http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/07/11/nao-compre-o-novo-volp-final/">Não compre o novo VOLP (4)</a></span></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A Reforma adiada (1) -  a vitória do bom senso</title>
		<link>http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2013/01/14/a-reforma-adiada-a-vitoria-do-bom-senso/</link>
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		<pubDate>Mon, 14 Jan 2013 12:54:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudio Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Acordo ortográfico]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Questões do momento]]></category>
		<category><![CDATA[Acordo]]></category>

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		<description><![CDATA[Ao aceitar um grande número de grafias diferentes entre os vários países lusófonos, os membros da Comissão que elaborou o novo Acordo Ortográfico deveriam ter voltado para suas casas, admitindo a impossibilidade dessa uotpia unificadora. Infelizmente, numa constrangedora demonstração de falta de espírito cívico, terminaram por aprovar uma Reforma que trai o seu objetivo principal.  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;padding-left: 90px"><strong><span style="font-family: tahoma,arial,helvetica,sans-serif"><span style="font-size: medium">Ao aceitar um grande número de grafias diferentes entre os vários países lusófonos, os membros da Comissão que elaborou o novo Acordo Ortográfico deveriam ter voltado para suas casas, admitindo a impossibilidade dessa utopia unificadora. Infelizmente, numa constrangedora demonstração de falta de espírito cívico, terminaram por aprovar uma Reforma que trai o seu objetivo principal. </span></span></strong></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Um dos fatos mais importantes de 2012 para nós, brasileiros, praticamente passou em branco nas indefectíveis retrospectivas de final de ano: atendendo ao clamor de vários setores, a presidente Dilma determinou o adiamento do início da obrigatoriedade da "nova ortografia", que ocorreria na noite do Ano-Novo, no exato momento em que, concluída a contagem regressiva da Globo, os fogos de artifício da baía da Guanabara espocassem em todos os telões e telinhas desta pobre mas valorosa Pindorama. O decreto presidencial, publicado do Diário Oficial no dia 28 de dezembro, estipula que o uso das novas regras só passará a ser obrigatório em 2016 — o que significa, prezado leitor, que, até lá, você poderá escolher entre dois sistemas ortográficos diferentes mas igualmente válidos.</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Este providencial (e inesperado) ataque de bom senso foi, a meu ver, o melhor presente que o bom Pai Noel poderia nos trazer. O Brasil, que tinha se atirado de ponta-cabeça no abismo das novas regras (num açodamento, aliás, que surpreendeu e assustou os demais países lusófonos, bem mais prudentes do que nós), ganha assim tempo para amadurecer suas decisões, avaliar as tropelias que cometeu em todo esse processo e mudar o que for possível para minimizar os prejuízos que esta Reforma nos trouxe. O imbróglio em que estamos metidos é tão grande que acho indispensável lembrar quem foram os responsáveis — tanto os externos quanto os internos.</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Os responsáveis externos são os participantes da Comissão que elaborou o Acordo, que não tiveram a honestidade de abandonar este projeto digno de um Nabucodonosor enlouquecido. Explico melhor: esta Reforma passou a perder seu prestígio e respeitabilidade no momento em que os usuários se deram conta de que ela se baseia numa falsa promessa. Como uma comerciante desonesta, vende o que ela própria não se dispõe a entregar. Espantado, caro leitor? Mas então me diga: o principal fundamento apresentado para abandonar o modelo que tínhamos não era a adoção de um sistema unificado, em que todos os falantes do Português  grafariam as palavras de uma mesma e única forma? Não era este estado quase edênico, do lobo e do cordeiro vivendo juntos e usando os mesmos acentos e letras, a grande justificativa para o esforço e o custo exigidos para implantar esta nova sociedade de igualdade ortográfica? Pois deveria ser, leitor, mas não é — e não sou eu quem diz, e sim a própria Comissão que redigiu o Acordo, ao aceitar e oficializar uma série de diferenças entre o modo de escrever deste e do outro lado do Atlântico, que continuarão intocadas. Aponto alguns exemplos:</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">1) Os que falam aqui usam certas pronúncias distintas dos que falam no além-mar? Não há problema; a Comissão dá um jeito: o Acordo oficializa centenas de formas duplas como <strong>sinônimo</strong> e <strong>sinónimo</strong>, <strong>acadêmico</strong> e <strong>académico</strong>;  <strong>gênio</strong> e <strong>génio</strong>, <strong>pênis</strong> e <strong>pénis</strong>, <strong>fêmur </strong>e<strong> fémur; bebê</strong> e <strong>bebé</strong>, <strong>judo</strong> e <strong>judô</strong>.</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">2) Portugal distingue foneticamente a 1ª pessoa do plural do presente do indicativo da mesma pessoa do pretério perfeito? Não há problema; a Comissão "unificadora" ajeita, autorizando que esta última seja acentuada por todo aquele que quiser: "Ontem <strong>trabalhámos</strong> até tarde".</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">3) Há divergências na pronúncia de consoantes em fechamento de sílaba? O Acordo abraça ambas as formas de escrever: <strong>cetro</strong> e <strong>ceptro</strong>, <strong>corrupto</strong> e <strong>corruto</strong>, <strong>concepção</strong> e <strong>conceção</strong>. E por aí vai a valsa (ou o samba... ou o fado...).</span></span></p>
<p><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Ora, aqui está, a meu ver, a grande desonestidade das pessoas que elaboraram este Acordo: ao se ver compelida a institucionalizar tantas duplicidades ortográficas (justificadas, é óbvio, por diferenças reais na pronúncia), a Comissão elaboradora deveria ter admitido a inexequibilidade do projeto e enterrado definitivamente esta proposta de unificação no cemitério das utopias (o qual, aliás, anda muito concorrido, ultimamente...). Que tivesse a hombridade de se definir: se a unificação não é possível, então não se fale mais nisso... No entanto, por vaidade, onipotência ou simplesmente para não perder a viagem, como se diz, ela acabou fazendo aquilo que, no tempo dos sapateiros, era chamado de "meia-sola": alterou algumas coisas aqui e ali, "ao menos diminuindo um pouco mais a distância do sonho de uma grafia unificada", como declarou, sem a menor vergonha na cara, um destacado membro da Comissão — como se fosse coisa pouca mexer na ortografia de tantos países para obter resultado tão pífio.</span></span></p>
<p><span style="color: #993300"><span style="font-family: helvetica"><span style="font-size: medium"><strong><a href="http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2013/01/26/a-reforma-adiada-parte-2/">(continua)</a></strong></span></span></span></p>
<p><span style="font-family: tahoma,arial,helvetica,sans-serif"><span style="font-size: medium"><strong>Veja </strong><strong> <a href="http://wp.me/pyJNc-k6">AQUI</a> o que já publicamos sobre o Acordo</strong></span></span><span style="font-size: medium"><span style="color: #0000ff"><strong><a href="http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/category/acordo-ortografico/"></a></strong></span></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Se sim</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Dec 2012 14:45:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudio Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conceitos lingüísticos]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Questões de estilo]]></category>
		<category><![CDATA[estilo]]></category>
		<category><![CDATA[se não]]></category>
		<category><![CDATA[se sim]]></category>

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		<description><![CDATA["Você vai ao cinema hoje? SE SIM, deixe a chave com o vizinho" — Você estranha esta construção, caro leitor? Se sim, tem todo o direito de não empregá-la, embora ela esteja correta e, para o meu gosto, soe melhor do que muitos de seus possíveis substitutos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;padding-left: 120px"><span style="font-family: tahoma,arial,helvetica,sans-serif"><span style="font-size: medium">"Você vai ao cinema hoje? SE SIM, deixe a chave com o vizinho"</span></span><strong><span style="font-family: tahoma,arial,helvetica,sans-serif"><span style="font-size: medium"> — </span></span></strong><span style="font-family: tahoma,arial,helvetica,sans-serif"><span style="font-size: medium">Você estranha esta construção, caro leitor? SE SIM, tem todo o direito de não empregá-la, embora ela esteja correta e, para o meu gosto, soe melhor do que muitos de seus possíveis substitutos.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Um leitor que mantém na internet um serviço de relacionamento entre solteiros de vida alegre vem pedir que eu o ajude a polir uma frase que aparece bem na entrada de seu saite (os portugueses, mais elegantes, chamariam de <strong>sítio</strong>; outros preferem <em>site</em>, à inglesa): "Você faz parte deste grupo? <strong>Se sim</strong>, digite o seu número de inscrição; <strong>se</strong> <strong>não</strong>, preencha o formulário de registro". Ele próprio é o autor da frase, mas, como honestamente me informa, ela tem arranhado seu ouvido desde o dia em que a concebeu. "Professor, tem alguma coisa aí que não me cai muito bem. Usar as expressões <strong>se sim</strong> ou <strong>se não</strong> como resposta a uma pergunta não é considerado mau Português? Por exemplo: 'Você vai sair hoje? <strong>Se sim</strong>, não esqueça o guarda-chuva'. Não sei justificar, mas a expressão soa esquisito, e as alternativas que me ocorrem — "em caso afirmativo", "em caso negativo", etc. — parecem um pouco pernósticas para um saite descontraído como o meu".</span></span></p>
<p><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Ora, ora, quem diria! Um internauta preocupado com sutilezas da linguagem! É ave rara? Claro que não; conheço centenas deles. Aqueles profetas do apocalipse que vivem dizendo que a internet será o túmulo da boa linguagem esquecem que a rede — assim como o tinteiro, a pena de ganso ou a máquina de escrever — é apenas um meio de trocar e estocar informações, e que as pessoas articuladas vão sempre escrever melhor que as outras, mesmo que utilizem sinais de fumaça.</span></span></p>
<p><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Como podes ver, meu amigo, "mau Português" nunca poderá ser, já que Machado, Camilo, Miguel Torga e Saramago, entre outros, usaram e usam o <strong>se sim</strong> (o <strong>se não</strong> dispensa maiores cuidados, de tão corriqueiro que é). Dois excelentes exemplos nos vêm de Machado (em <strong><em>Dom Camurro</em></strong> e em <strong><em>Memorial de Aires</em></strong>, respectivamente): "Não sei se alguma vez tiveste dezessete anos. <strong>Se sim</strong>, deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino formam um só curioso"; "A idéia é saber se Fidélia terá voltado ao cemitério depois de casada. Possivelmente, sim; possivelmente não. Não a censurarei, <strong>se não</strong>: a alma de uma pessoa pode ser estreita para duas afeições grandes. <strong>Se sim</strong>, não lhe ficarei querendo mal, ao contrário".</span></span></p>
<p><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Não se costuma condenar uma construção aprovada por autores da primeira água. Agora, usá-la, isso quem vai decidir és tu, porque ninguém é obrigado a seguir o gosto deste ou daquele escritor. Sempre existem outras formas também corretas de dizer a mesma coisa — basta queimar um pouquinho as pestanas. No exemplo apresentado — "Você faz parte deste grupo? <strong>Se sim</strong>, digite o seu número de inscrição" —, aquele "se sim", que te soa tão mal (mas que a mim não desagrada), pode ser trocado por "se fizer, digite...", "caso faça, digite...", "se a resposta for <strong>sim</strong>, digite...", "em caso afirmativo, digite...", e mais outras, certamente, que não me ocorrem no momento. Não te esqueças: o idioma nos oferece centenas de recursos possíveis, e entre eles vamos escolhendo aqueles que mais nos agradam. A soma de nossas escolhas é, no fundo, aquilo que chamamos de "estilo".</span></span></p>
<p><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">E já que estamos falando de escolhas, aproveito para dar uma satisfação aos leitores que estranharam uma construção que utilizei numa coluna da série <strong><em>Homens e Mulheres</em></strong>, publicada no Segundo Caderno há pouco mais de um mês. Falando das Musas, escrevi que "as roupas diáfanas e esvoaçantes que usavam mal e mal ocultavam <strong>o seu corpo escultural</strong>"; três leitores, o que não é pouco, escreveram no dia seguinte para sugerir, cada um à sua maneira, que deveria teria havido aqui um erro de revisão do jornal (forma diplomática de perguntar se eu não tinha cometido um erro de concordância): se tudo está no plural — as Musas e todo o resto —, a forma correta não deveria ser "as roupas diáfanas e esvoaçantes que usavam mal e mal ocultavam <strong>os seus corpos esculturais</strong>"?</span></span></p>
<p><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Não, meus amigos, não deveria — <strong>poderia</strong>, mas não <strong>deveria</strong>. Em casos como este, embora também esteja correto o plural, o mais elegante, para mim, é usar o singular, como fazem dezenas de escritores que respeito e admiro. Em outras palavras, apesar de me referir a um conjunto de pessoas, posso deixar no singular esses vocábulos que se trazem implícita a ideia de "cada um com o seu": "Os professores torceram <strong>o nariz</strong> diante da proposta" (os narizes?); "Ali eles perderam <strong>a vida</strong>" (as vidas?); "Dê <strong>o nome</strong> dos rios navegáveis da Amazônia" (os nomes?); "Aqui vai a lista com <strong>o endereço</strong> dos participantes" (os endereços?); "Os alunos escreviam com <strong>a cabeça baixa</strong>" (as cabeças baixas?). Repito: o plural, aqui, embora correto, parece-me desajeitado e desnecessário, o que me levou a falar no "corpo escultural das Musas". Eu estava apenas exercendo o direito de escolher, entre duas formas corretas, aquela que mais me agrada — o mesmo direito, aliás, exercido pelos três leitores que preferiram o plural.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">_____________________________________<br />
 </span></span></p>
<p><strong><span style="color: #0000ff"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">NOTA:  aproveito para informar aos amigos que inicio, neste janeiro, um curso  de verão de Português, na Casa de Ideias, no Shopping Total. Mais  detalhes no telefone 30187740 ou em <strong><a href="http://www.casadeideias.com/">www.casadeideias.com</a>.</strong></span></span></span></strong></p>
<p><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"> </span></span></p>
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		<title>Bom dia!</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Dec 2012 19:41:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudio Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Acordo ortográfico]]></category>
		<category><![CDATA[Como se escreve]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Questões do momento]]></category>
		<category><![CDATA[Acordo Ortográfio]]></category>
		<category><![CDATA[bom dia]]></category>
		<category><![CDATA[emprego do hífen]]></category>

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		<description><![CDATA["Bom dia!", "Boa tarde!", "Boas festas!", "Bom jogo!", "Bom almoço!", "Boa aula!" ou "Bom enterro!",  tudo isso se escreve SEM hífen. O "bom-dia" que está no dicionário é vinho de outra pipa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="padding-left: 150px;text-align: justify"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif"><span style="font-size: medium"> "Bom dia!", "Boa tarde!", "Boas festas!", "Bom jogo!", "Bom almoço!", "Boa aula!" ou "Bom enterro!",  tudo isso se escreve SEM hífen. O "bom-dia" que está no dicionário é vinho de outra pipa.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"> </p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Bom dia, amigos. Todo professor de Português sabe, por experiência, que aquilo que é dúvida para um geralmente é dúvida também para muitos. Pois ao longo deste ano, três diferentes leitores — Edmilson (de São Carlos), Lúcia (de Curitiba) e Deborah (de São Paulo) — trocaram correspondência comigo sobre a necessidade ou não de usar hífen em <strong>bom dia</strong> ou <strong>boa noite</strong>, problema que, acredito, já aflige muitos de meus leitores — ou vai terminar afligindo, porque, como se sabe, o hífen sempre vai ser a pulga da nossa camisola. Para pôr ordem na minha explicação, vou aproveitar a formulação das perguntas que recebi sem fazer a devida identificação de seu autor. Como veremos, ambas as formas — <strong>bom-dia</strong> ou <strong>bom dia</strong> — existem, mas correspondem a duas situações completamente diferentes.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">(1) "Professor, não entendi exatamente o que os dicionários e o Novo Acordo estabelecem quanto à hifenização de <strong>bom dia</strong>. Quando se trata de um substantivo, não tenho dúvida em usar o hífen (Ele deu um <strong>bom-dia</strong> e saiu). Mas, e quando estou simplesmente cumprimentando alguém? Acho que o hífen não é necessário (<strong>Bom</strong> <strong>dia</strong>, papai!), mas muita gente defende o contrário, com base no que aparece nos dicionários. O dicionário <strong><em>Houaiss</em></strong>, por exemplo, hifeniza".</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">(2) "Caro Professor, em uma mensagem eletrônica ou em uma carta, o cumprimento <strong>bom-dia</strong> deve ser hifenizado, não é? De acordo com o <strong><em>Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, </em></strong>esta habitual saudação é vocábulo grafado com hífen. O <strong><em>Houaiss </em></strong>ratifica tal ponto de vista. Afinal, ao iniciar o dia, o <strong>bom-dia</strong> é um cumprimento, pois não? Posso pensar assim?".</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">(3) "Professor, o <strong><em>Vocabulário Ortográfico</em></strong> registra o vocábulo <strong>bom-dia</strong> com hífen; achei estranho e escrevi para a Academia Brasileira de Letras, que agora mantém um serviço denominado <strong><em>ABL Responde</em></strong>, para perguntar se haveria alguma outra situação em que se pudesse usá-lo <strong>sem</strong> hífen. Sabe o que eles me responderam? Que <strong>bom-dia</strong> cumprimento sempre tem hífen, mas pode ficar separado em casos especiais — como passei um <strong>bom dia</strong> na casa de veraneio de meu irmão. Não é de amargar?".</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Em primeiro lugar, vamos deixar bem claro que a grafia deste vocábulo não sofre alteração alguma com o Novo Acordo, que não tocou neste assunto. Em segundo lugar, é fundamental que se leiam os dicionários tecnicamente, prestando-se atenção aos mínimos detalhes registrados no verbete. Tanto no <strong><em>Houaiss</em></strong> quanto no <strong><em>Vocabulário Ortográfico</em></strong> o <strong>bom-dia</strong> hifenizado vem seguido pela abreviatura "s.m.", que indica tratar-se de um <strong>substantivo</strong>: "Ele me deu um <strong>bom-dia</strong> seco e mal-humorado", ou "Deu um alegre <strong>bom-dia</strong> e foi sentar em seu lugar". Neste caso, como bom substantivo que é, pode vir acompanhado dos acessórios de sempre (artigos, possessivos e adjetivos): "Já estou farto desses teus <strong>bons-dias</strong> cheios de segundas intenções".</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">É evidente que isso nada tem a ver com o outro "Bom dia!", aquele segmento de frase que dizemos quando encontramos alguém ou dele nos despedimos; como num iceberg, só lhe vemos a pontinha,  porque o resto da frase está elíptico: [Desejo que você tenha um] "<strong>bom dia</strong>!" — o mesmo fenômeno que ocorre com fórmulas de agradecimento como <strong>grato</strong> ou <strong>obrigado</strong>, que nada mais são que o final de sequências subentendidas: [fico-lhe] <strong>obrigado</strong>, [fico-lhe] <strong>grato</strong>.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">Portanto, amigos, seja qual for a circunstância — carta, bilhete, e-mail, etc. — a saudação vai ser escrita <strong>sem</strong> <strong>hífen</strong>. É uma <strong>locução</strong>, ou seja, é uma sequência de vocábulos autônomos; ela pertence ao mundo da <strong>sintaxe</strong>, o que a  deixa fora da área de alcance do emprego do hífen, sinal que está restrito ao interior de um <strong>vocábulo composto</strong>. O "Bom dia!" com que abro a coluna de hoje é uma saudação da mesma tribo de "Boas festas!", "Bons ventos!", "Bom Carnaval!", "Boa viagem", "Bom almoço!", "Boa hora" (que se diz para as gestantes), e assim por diante.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium">A diferença entre as duas situações fica ainda mais evidente se compararmos a concordância de gênero que ocorre em "Tenha <strong>uma</strong> <strong>boa</strong> <strong>tarde</strong>" (é uma locução; poderíamos inverter para "Tenha <strong>uma tarde boa</strong>") com "Deixo aos ouvintes o <strong>meu</strong> <strong>boa-tarde</strong>" (neste caso, um substantivo composto masculino).</span></span></p>
<p><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"><span style="color: #0000ff">NOTA: aproveito para informar aos amigos que inicio, neste janeiro, um curso de verão de Português, na Casa de Ideias, no Shopping Total. Mais detalhes no telefone 30187740 ou em </span><strong><a href="http://www.casadeideias.com/">www.casadeideias.com</a>.</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: verdana,geneva"><span style="font-size: medium"><br class="spacer_" /></span></span></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Fantasias</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Nov 2012 13:08:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudio Moreno</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Etimologia e curiosidades]]></category>
		<category><![CDATA[Origem das palavras]]></category>
		<category><![CDATA[etimologia]]></category>
		<category><![CDATA[Português e Espanhol]]></category>

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		<description><![CDATA[Na fronteira do Brasil com os países do Prata, um baile de carnaval pode reunir, no mesmo salão, aqueles que pulam DISFARÇADOS com aqueles que pulam FANTASIADOS — e todos vão se divertir (ou aborrecer...) da mesma forma.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;padding-left: 150px"><strong><span style="font-size: medium">Na fronteira do Brasil com os países do Prata, um baile de carnaval pode reunir, no mesmo salão, aqueles que pulam DISFARÇADOS com aqueles que pulam FANTASIADOS — e todos vão se divertir (ou aborrecer...) da mesma forma.</span></strong></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Já contei aqui, faz muito tempo (para quem não lembra, a primeira coluna de <strong><em>O Prazer das Palavras</em></strong> foi publicada em janeiro de 2002), a surpresa que teve um velho amigo meu na frente de um cinema de Montevidéu que anunciava sessões vespertinas de <strong><em>Free Willy</em></strong>, o conhecidíssimo filme sobre a amizade de um menino com uma orca. Ele teve um verdadeiro choque ao ver o cartaz que trazia, em letras de palmo e meio, o título do filme em Espanhol — <strong><em>Liberten a Willy</em></strong>. "Pude sentir minhas orelhas crescendo: só faltavam as ferraduras para eu ser um burro completo", brinca ele, resignado. "Se não tivesse ido ao Uruguai, talvez nunca tivesse me dado conta de que o nome da baleia é só <strong><em>Willy</em></strong>, e <strong><em>free</em></strong> é o imperativo do verbo <strong>libertar</strong>, em Inglês. Também, só eu mesmo, para achar que orca pode ter nome e sobrenome!".</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Pois este, meu amigo, sempre foi um dos maiores benefícios de qualquer viagem — seja a outro país, a outra época (aí está a literatura...) ou a outra língua: lançar uma luz diferente sobre o mundo que nos cerca. O que é familiar fica praticamente invisível para nós, até que uma dessas súbitas mudanças de perspectiva nos faça enxergar, pela primeira vez, detalhes que sempre estiveram bem debaixo de nosso nariz. No caso de nossa língua, uma visita ao Espanhol, como vamos ver, costuma revelar facetas que não são percebidas pela maior parte dos nossos falantes. Não há, entre as várias filhas do Latim, irmãs mais parecidas que o Português e o Espanhol. Ambas nasceram na Península Ibérica e cresceram lado a lado, sem grandes barreiras geográficas a separá-las. Ambas se lançaram aos mares mais ou menos ao mesmo tempo, no Renascimento, e vieram alojar-se aqui nas Américas, onde também passaram a fazer fronteira uma com a outra, compartilhando suas semelhanças e — talvez mais importante — iluminando-se reciprocamente com suas diferenças.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">Estava eu posto em sossego, lendo um dos estupendos suplementos do jornal <strong><em>El País</em></strong>, quando senti que meus conhecimentos da língua espanhola não estavam dando para o gasto. "<em>No se como habeis podido aguantar los <strong>celos</strong> de la gata</em>", dizia a frase, transposta por mim, em vernáculo, para algo como "Não sei como tens aguentado os <strong>ciúmes</strong> da gata". Ciúmes? Como nada havia no contexto que sugerisse que o felino em questão fosse ciumento, fiz o que sempre deveria fazer, mas nem sempre tenho paciência: fui ao amansa (em Espanhol, por falar nisso, também é <strong><em>amanza burros</em></strong>), o grande dicionário da Real Academia Espanhola, para ver o que a doutíssima diz a respeito de <strong><em>celo</em></strong>. Outra surpresa: na língua de Cervantes, o vocábulo <strong><em>celo</em></strong> (do Lat. <em>zelus</em>) equivale a três vocábulos diferentes na língua de Camões. O primeiro significado — "cuidado, diligência, esmero" — é o que aqui chamamos de <strong>zelo</strong>; o segundo — "época em que os animais procuram o acasalamento" — é o que chamamos de <strong>cio</strong>; o terceiro, finalmente — "suspeita ou receio de que a pessoa amada esteja gostando de outra" — é o nosso velho <strong>ciúme</strong>. O autor do artigo de <strong><em>El País</em></strong> queixava-se, simplesmente, dos <strong>cios</strong> da gata, que "estavam ficando insuportáveis"... Embora, no Português, a aparência dos três vocábulos seja diferente, sua raiz é exatamente a mesma. E aí? Vale alguma coisa essa ligação originária entre entre <strong>cio</strong>, <strong>zelo</strong> e <strong>ciúme</strong>? Para um estudioso da alma humana, decerto que sim.</span></span></p>
<p style="text-align: justify"><span style="font-size: medium"><span style="font-family: verdana,geneva">A proximidade do Halloween (o Dia das Bruxas — festa estrangeira que, como o Natal, o Dia das Mães e o Coelhinho da Páscoa, foi importada do Hemisfério Norte) trouxe-me outra dessas revelações inesperadas. Minha filha caçula queria — está muito na moda! — uma fantasia de vampiro, com capa negra, gola alta e forro vermelho. Minha mulher adquiriu os tecidos e os aviamentos (palavrinha batuta, essa!) e pediu que eu descobrisse, nas vastas ondas da internet, um molde que ela pudesse utilizar para cortar a capinha. Procura daqui, procura dali, encontrei um excelente saite argentino, cheio de moldes e instruções para confeccionar os mais diversos <strong><em>disfraces</em></strong> (o singular é <strong><em>disfraz</em></strong>). <strong>Disfarces</strong>! Eu nunca tinha me dado conta disso! Enquanto nós usamos <strong>fantasias</strong>, eles usam <strong>disfarces</strong>! "Ele foi à festa <strong>disfarçado</strong> de pirata", para nós, é totalmente diferente de "Ele foi à festa <strong>fantasiado</strong> de pirata". Afinal, em Português <strong>disfarçar</strong> é esconder o que somos, <strong>fantasiar</strong> é imaginar aquilo que <strong>não</strong> somos. Não quero me intrometer em seara alheia (o Mário e a Diana Corso devem ter algo a dizer sobre isso), mas arrisco:  enquanto um argentino ou uruguaio usa o <strong>disfarce</strong> para ocultar quem ele é, o brasileiro usa a <strong>fantasia</strong> para se imaginar no papel de quem ele não é! Num baile na fronteira, em Livramento ou em Uruguaiana, pulam <strong>disfarçados</strong> ao lado de <strong>fantasiados — </strong>todos querendo experimentar a sensação de viver uma outra vida, mas cada qual à sua maneira.</span></span></p>
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