Por mais grave que possa ser, fazer estragos e bagunçar a vida da gente, essa crise “made in USA” não é nenhum bicho papão. Nem vai acabar com todo mundo e tampouco durar para sempre como andam apregoando por aí. Mas ela é perigosa sim e quem bobear pode dançar. É uma crise de alto risco. É subprime.
Devido à turbulência das bolsas de centros financeiros nem tão distantes assim, como Londres, Frankfurt, Paris, Tóquio, Xangai, Hong Kong, Chicago, Nova York e São Paulo, quem vacilar em qualquer rincão do planeta corre risco de ficar mais pobre ou menos rico através da perda de valor de bens patrimoniais, como títulos, moedas, máquinas, peças de arte e imóveis adquiridos com anos de trabalho e planejamento.
Wall Street é mais ali, fica no extremo sul de Manhattan. A Main Street, é claro, é mais para cá, na Quinta Avenida, em Nova York, ou na Avenida Michigan, em Chicago, ornamentadas ano inteiro com centenas de estandartes norte-americanos, mas também é na Rua dos Andradas, em Alegrete, na Rua da Praia, em Porto Alegre, na Avenida Paulista, em São Paulo, ou na Avenida Brasil, em Passo Fundo, onde poucas bandeiras brasileiras (com raras exceções) só tremulam nos desfiles da Independência. Mas é na rua do comércio que realmente acontecem as coisas, a crise brota e bota medo.
Morador desde os 24 anos na periferia de Chicago, terceira cidade em população nos EUA, mais importante do que Los Angeles e Nova York (bem provável também do mundo) em várias áreas das ciências, artes e esportes, terra da máfia e da lei seca, o candidato favorito dos ianques nas eleições presidenciais, o havaiano e advogado Barack Hussein Obama, afirma: “nós não podemos apenas ter um plano para Wall Street, é preciso socorrer Main Street”.
Wall Street é o grande mercado dos negócios financeiros, quase todos virtuais, pois só grandes ofertas são à viva-voz. O pregão é mais cenário para televisão do que ambiente de negociação. Main Street é a rua principal onde rola a economia real, o varejo, a negociação direta, o olho no olho para decidir o preço, o sorriso do comprador e a alegria contida do vendedor. É como feira livre. E isso nos EUA, no Brasil e qualquer outro país do mundo.
Vários leitores têm manifestado preocupação com o aprofundamento da instabilidade financeira dos EUA. Alguns revelam não só temores frente ao contágio, mas verdadeiro pavor ante prováveis perdas, principalmente quem possui ativos de renda variável. Calma gente! Paciência é palavra-chave mais do nunca. Vou repetir alguns argumentos constantemente repetidos nas últimas semanas.
Quem ingressou na bolsa num nível muito elevado não deve tomar decisão que piore a situação. Antes de qualquer atitude, é importante falar com o gerente do banco ou operador da corretora para avaliar em conjunto a melhor alternativa. A taxa de administração, lembre, é paga mesmo no saldo negativo e, portanto, é preciso fazer valer o direito de orientação. Em finanças não há espaço para rusgas pessoais ou dúvidas sem fundamento.
Mas, de antemão, sacar os recursos de conta com saldo negativo é aceitar o prejuízo. Mesmo que retorne quando a turbulência passar, o investidor corre risco de retornar num preço mais elevado. Ou seja, não na menor pontuação do índice (o fundo do poço), que representaria o melhor preço e, portanto, maior margem de ganho na recuperação.
Manter a aplicação é interessante em princípio, mas pode complicar caso as cotações caírem ainda mais. Quer dizer, a melhor solução também é danosa. Mas os ativos de risco são assim mesmo. Por isso, são de risco. É preciso segurar os nervos. Pensar e agir com inteligência para tomar uma decisão que devolva a tranqüilidade não importa se resgatando menos do que aplicou ou esperando sei lá quanto tempo para ter o valor depositado de volta.
O dinheiro é necessário. Faz parte das pessoas. Ninguém vive sem ele, jamais gosta de perder. E para não perder é essencial a serenidade ao permanecer sem fazer nada ou tomar decisão de mudar para outra opção. Ter paciência e agir com moderação, porém, não quer dizer aceitar passivamente a turbulência. Não confunda as coisas. Afinal, de um momento para momento, em questão de horas, minutos, segundos, naquele justo instante, os ativos podem estar valendo menos e menos, caindo e caindo.
Não dá para abandonar a aplicação ao léu, deixando de acompanhar, analisar e rever posições. Milhares de brasileiros vivem este desconforto. Isso faz parte do negócio.
Também não dá para ficar imaginando coisas, quebradeira de bancos e mudança de regras pelo governo. Se há desconfiança concreta em relação aos profissionais (gerentes ou operadores) ou instituições (bancos ou corretoras) aí sim é razoável tomar-se uma decisão radical. Mas bem pensada. Quer dizer, que tenha a ver com a possibilidade de maior retorno noutro lugar. Não adianta sair, por sair.
Mudar os recursos do mercado acionário (ações, fundos e clubes) para outra aplicação é fatalmente ir para modalidades de renda fixa, como CDBs e caderneta de poupança e implicaria em muitos anos, décadas, para recuperar a quantia inicialmente aplicada. Com ou sem crise, os poupadores devem ter noção de que as regras do mercado não mudam. E quem tem consciência do que é um ativo de risco jamais deve colocar na bolsa dinheiro com previsão de uso do dinheiro.
Agora o jeito é esperar, mas ninguém sabe por quanto tempo. Mas a decisão, como é relevante reiterar, deve ser tomada por cada um, pois cada qual sabe o quanto pesa para si suas economias. E, acima de tudo estar ciente de que, se não agiu no tempo certo para evitar a tragédia, mudar o percurso agora pode ser ainda pior. O principal é tomar a decisão e ficar tranqüilo nem que tenha de aguentar anos de espera.
Mas há esperança de mudança, para melhor, é claro, conforme palavras de um espetacular (espetacular, por favor, não confunda com especulador, pois o cara entrou na alta e é meu amigo) leitor: “vou aguardar, não farei resgate, pois creio que o mundo não vai parar. Vai demorar um pouco, mas tudo deve voltar ao normal. O mundo gira em torno da economia, não é? Acho que tenho reserva para tocar adiante por mais tempo”.
Postado por Marçal Alves Leite
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